Pedido Público de Desculpas
No sábado, Júlia publicou a edição mais lida e menos engraçada da newsletter. Assinou com o próprio nome. Contou que Antes de Ir pra Cama nascera de uma mistura de curiosidade, insônia e medo de admitir que queria amor sem virar refém de aplicativo. Explicou que trabalhava com campanhas e que uma ideia do boletim havia entrado em processo comercial sem a transparência devida. Assumiu a responsabilidade, retirou a frase da campanha e prometeu separar dali em diante vida privada, trabalho e coluna com menos malabarismo. Não citou Bento. Não citou o prédio. Não se fez de vítima. No fim, escreveu, "Às vezes o conselho que a gente dá aos outros chega em casa e pede documento".
As respostas vieram em ondas. Algumas leitoras agradeceram. Outras cobraram. Uma perguntou se Ulisses era real, o que provava que a internet fareja cachorro até sob sigilo. A agência entrou em modo incêndio, porém o cliente aceitou reposicionar a campanha com outra linha. O diretor criativo reclamou do prejuízo por vinte minutos e depois pediu a Júlia três alternativas até segunda. Ela entregou cinco. Nenhuma usava a vida de Bento. Todas eram melhores.
À tarde, Sônia apareceu sem avisar com sopa, pão e um olhar de mãe que fingia casualidade. Encontrou a filha de moletom, cabelo preso e notebook no colo. "Você está com cara de quem virou adulta à força." Júlia pegou a sacola. "Isso tem devolução?" "Só troca por boleto." Sentaram à mesa. Sônia leu a newsletter no celular, devagar, movendo os lábios. Ao terminar, segurou a mão da filha. "Pedir desculpa direito é feio. A gente fica sem maquiagem." Júlia riu com os olhos cheios. "Ótimo slogan para uma marca de lenço." "Viu? Ainda sobrou você aí dentro."
Bento só respondeu no domingo, com uma mensagem curta, "Li." Júlia olhou para a palavra até ela perder forma. Depois veio outra, "Ulisses está bravo por não ser citado com crédito". Ela soltou um ar que parecia guardado havia dois dias. Respondeu, "Diga a ele que preservo minhas fontes". A tela ficou parada. Então Bento escreveu, "Podemos conversar no terraço às vinte?" Júlia aceitou e passou as horas seguintes arrumando a casa, descascando esmalte, abrindo e fechando o armário sem escolher roupa. A possibilidade de perdão assustava tanto quanto a de perda.
O terraço do prédio tinha vasos grandes, duas cadeiras de plástico e uma vista honesta de antenas, janelas acesas e varais. Bento já estava lá, sem Ulisses, sem pasta, sem terno. Júlia chegou com uma garrafa de água e nenhuma frase pronta. Ele disse que a nota fora boa. Ela disse que boa não consertava tudo. Ele concordou. Conversaram por quase uma hora, com pausas difíceis e algumas risadas que escaparam apesar do assunto. Bento explicou que se sentira transformado em personagem antes de saber que estava numa história. Júlia disse que esse fora o erro exato.
"Eu gosto de você fora do texto", ela falou. A frase saiu simples, sem enfeite, e por isso ficou maior. Bento olhou para as mãos. "Eu também gosto de você fora da defesa." Ela sorriu pouco. "Isso foi romântico para um advogado." "Estou sem revisão." Eles não se beijaram. Desceram juntos no elevador, ombro perto, dedos quase se tocando. Na porta do oitavo, Júlia disse boa noite. Bento respondeu boa noite. Nenhum dos dois acrescentou tarefa. A noite já tinha trabalho suficiente.