O Ensaio do Casal Falso Antes de Ir pra Cama · Capítulo 4 de 12
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O Ensaio do Casal Falso

Na quarta-feira, a agência de Júlia recebeu a conta de uma marca de colchões que queria rejuvenescer a própria imagem sem admitir que a imagem parecia um encarte de loja de móveis de 1998. O diretor criativo entrou na reunião com uma caneca escrito "confie no processo" e saiu pedindo uma campanha sobre intimidade, humor e rituais noturnos. Júlia ouviu a palavra intimidade com a serenidade de quem dormia de moletom, respondia e-mail no travesseiro e havia comprado um babydoll para uma versão alternativa de si mesma que nunca chegava no prazo.

À noite, Bento mandou a tarefa do dia, "Jantar sem tela por vinte minutos." Júlia respondeu, "Crueldade medieval." Ele enviou foto de um prato simples, arroz, omelete e cenoura ralada, com Ulisses sentado ao fundo em pose fiscalizatória. Júlia mandou a foto do próprio jantar, biscoito de polvilho sobre um guardanapo e uma taça de vinho. Bento escreveu, "Isso é um pedido de socorro com carboidrato". Ela respondeu que adultos livres tinham direito à falência nutricional.

O problema real chegou no sábado, pelo telefone da mãe dela. Sônia Vidal anunciou que o almoço de família seria especial, porque o ex de Júlia apareceria para devolver livros e apresentar a nova namorada, uma dermatologista chamada Lavínia que sorria em fotos com a pele de quem nunca discutiu com impressora. Júlia disse que tinha trabalho. Sônia ouviu trabalho e entendeu "traga alguém para provar que você está ótima". Em cinco minutos, por orgulho, irritação e uma tendência herdada a piorar roteiros simples, Júlia afirmou que levaria o namorado.

Ela pensou em contratar um ator por aplicativo. Pensou em fingir febre. Pensou em casar com uma cadeira, opção com estabilidade superior à média. Quando Bento apareceu no hall com Ulisses, carregando uma sacola de ração, ela estava sentada no degrau da escada, encarando o celular. "Você parece alguém prestes a entrar num golpe financeiro", disse ele. "Pior. Almoço de família." Júlia contou a história com a dignidade de quem já perdeu a guerra. Bento ouviu em silêncio. Depois perguntou, "Qual é o papel?" "Homem funcional, ligeiramente apaixonado, tolerante com maionese de batata e comentários passivo-agressivos." "Tenho experiência com audiências familiares." "Isso foi um sim?" "Foi curiosidade profissional."

No domingo, antes de tocar o interfone da casa dos pais dela, eles ensaiaram no carro. Bento precisava saber onde se conheceram. Júlia sugeriu "biblioteca". Ele vetou, olhando para a unha dela pintada de azul elétrico. Ela sugeriu "briga de trânsito". Ele achou plausível demais. Fecharam em "elevador preso", versão tecnicamente verdadeira e romântica o bastante para enganar tias. "Se minha mãe perguntar o que você admira em mim, diga qualquer coisa que pareça sincera e não envolva minha capacidade de difamar vizinhos." Bento ajeitou o cinto. "Admiro que você peça desculpas mesmo depois de formular a ofensa perfeita." Júlia ficou quieta por dois segundos. "Isso serve. Reduza um pouco o charme, por segurança."

Sônia abriu a porta com um sorriso que já investigava. Lavínia estava impecável no sofá. O ex de Júlia, Marcelo, usava a camisa de linho de quem descobriu meditação depois de trair. Bento entrou segurando uma torta comprada no caminho e cumprimentou todo mundo pelo nome. À mesa, respondeu perguntas com uma mistura irritante de educação e humor seco. Quando Marcelo perguntou se eles estavam juntos havia muito tempo, Bento pegou a mão de Júlia sem hesitar. "O suficiente para ela saber que eu organizo meias por cor e para eu saber que ela acha isso um defeito moral." A família riu. Júlia olhou para os dedos dele entre os seus e sentiu a mentira se comportar com perigosa competência.

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