A Porta Entreaberta Antes de Ir pra Cama · Capítulo 11 de 12
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A Porta Entreaberta

A semana seguinte teve uma calma estranha, dessas que não resolvem nada e ainda cobram aluguel. Júlia reescreveu a campanha do colchão com uma equipe menor e cláusulas mais claras. O novo conceito falava de acordos cotidianos, quem apaga a luz, quem levanta para pegar água, quem admite primeiro que o lençol com elástico venceu. O cliente aprovou. A agência fingiu que sempre preferira aquele caminho. Júlia aceitou o elogio com a maturidade de quem sabia que o mercado chama sobrevivência de insight.

Com Bento, a conversa ficou cuidadosa. Eles se viam no elevador, no hall, às vezes na calçada quando Ulisses decidia cheirar a mesma árvore por vários minutos. Falavam de trabalho, previsão de chuva, ração renal, pequenas coisas que deixavam a porta entreaberta sem empurrar. Júlia sentia falta das tarefas noturnas. Sentia falta do humor dele chegando no celular. Sentia falta até da precisão incômoda. Ao mesmo tempo, gostava de descobrir que a vontade não precisava virar ação imediata para ser verdadeira.

Na quinta, Laura, a irmã de Bento, apareceu no prédio para visitar Ulisses e interceptou Júlia na portaria. Era parecida com Bento nos olhos e oposta no volume. "Você é menor do que imaginei. Pela newsletter achei que tivesse dois metros e uma espada." Júlia recebeu a sacola de pães que Laura quase derrubou. "Tenho um metro e sessenta e cinco e uma assinatura vencida de pilates." Laura riu. "Ele está impossível. Isso é bom sinal. Quando Bento fica todo razoável, está sofrendo feito idiota com diploma."

Laura contou, sem pedir autorização fraterna, que Bento tinha histórico de amar com freio de mão puxado. Depois da noiva antiga, virou especialista em saída elegante. Terminava conversas antes que virassem pedido, resolvia problemas antes que alguém pudesse cuidar dele, fazia piada quando precisava dizer medo. Júlia ouviu com o desconforto de reconhecer outro método de fuga. O dela era transformar tudo em texto. O dele era transformar tudo em procedimento.

Naquela noite, ela escreveu uma tarefa e não enviou. "Antes de dormir, deixe alguém cuidar de uma coisa pequena." Ficou olhando para a frase, depois pegou uma panela, fez canja e subiu até o 904. Bento abriu a porta com cara de surpresa e camiseta velha, a primeira roupa sem defesa que ela via nele. Ulisses latia rouco atrás. "Não é visita dramática", disse Júlia, levantando o pote. "É logística de caldo." Bento recebeu a comida com cuidado. "Você subiu oito andares para me entregar sopa?" "Usei elevador. Sou romântica, não atleta."

Ele riu e abriu espaço para ela entrar. O apartamento era arrumado demais, porém havia sinais de vida, uma manta torta no sofá, remédios de Ulisses na bancada, livros empilhados perto da poltrona. Comeram canja na cozinha, de pé, porque nenhum dos dois quis inaugurar solenidade. Bento contou que Ulisses faria exames na manhã seguinte e que estava com medo do resultado. Disse isso olhando para a colher. Júlia encostou o ombro no braço dele. "Eu posso ir junto." Ele demorou a responder. "Vai ser cedo." "Eu sei acordar cedo para tragédias e promoções de passagem." Bento pousou a colher, virou o rosto e beijou a testa dela. Foi um gesto pequeno. Júlia preferiu esse a qualquer discurso.

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