O Homem do Cais
Raul Sardenha queria contratar Marina por três dias, pagar adiantado e manter a busca longe da polícia marítima. Começou mal. Marina deixou que ele falasse até o fim, apoiada no poste do píer, com a carta do pai guardada dentro da blusa para impedir que o vento levasse prova e paciência. Raul explicou que a família possuía um antigo resort fechado na ilha e que a venda dependia de localizar documentos sumidos no naufrágio. Falava com cuidado, escolhendo palavras limpas para uma proposta suja demais.
Marina perguntou por que ele não chamava uma empresa de salvamento. Raul respondeu que já chamara duas, e as duas desistiram depois de receber ameaças. Uma lancha foi encontrada furada na marina, outra equipe perdeu equipamento durante a noite. O nome de Ernesto Duarte apareceu em um diário guardado pelo avô de Raul, e a carta na garrafa confirmava que Marina tinha ligação direta com o ponto de mergulho. Ela ouviu tudo sem oferecer simpatia. Herdeiro com medo ainda era herdeiro, e medo de rico costuma virar problema na mão dos outros.
Mesmo assim, a oferta resolvia o motor da lancha, o aluguel atrasado do galpão e a conta do hospital da mãe. Marina odiou cada número antes de aceitar. Impôs regras no papel, horário de saída, silêncio sobre o pai dela, nada de mergulho sem sua ordem e nenhum objeto retirado do fundo antes de fotografia, registro e marcação. Raul assinou no balcão de uma padaria, usando uma caneta emprestada pela atendente. O gesto tinha uma humildade prática que incomodou Marina, porque ela preferia quando gente bonita facilitava a rejeição.
Eles foram ao galpão revisar cilindros, lanternas, cabos e boias. Raul tirou a camisa social para ajudar a carregar caixas, ficando de camiseta escura, suor na nuca e braços menos inúteis do que Marina esperava. Ela corrigiu a forma dele prender uma cinta no equipamento, e ele obedeceu sem piada. A proximidade veio por acidente, ombro contra ombro diante da bancada, dedos tocando no mesmo mosquetão. Marina retirou a mão primeiro. Raul fingiu não notar, o que tornou tudo pior, porque homem educado em lugar apertado sempre causa mais estrago.
No fim da tarde, um bilhete apareceu preso ao limpador da picape de Marina. Papel comum, letra grande, nenhuma assinatura. A frase mandava que ela deixasse a maré quieta se quisesse continuar viva. Raul leu duas vezes e perdeu a cor. Marina guardou o bilhete dentro do mesmo saco plástico da carta. Disse que partiria às cinco da manhã, com ou sem ele. Raul perguntou se aquilo era coragem. Ela respondeu que era boleto. Quando ele riu, Marina quase sorriu de volta, e esse foi o primeiro risco real do contrato.