O Resort Fechado A Maré de Vidro · Capítulo 3 de 12
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O Resort Fechado

O resort Sardenha ficava no lado sul da ilha, onde a estrada acabava em portão enferrujado e palmeiras crescidas cobriam placas de boas-vindas. Marina lembrava do lugar funcionando na infância, cheio de hóspedes bronzeados, música ruim e barcos privados que seus tios chamavam de enfeite de milionário. Agora havia piscina vazia, janelas quebradas e espreguiçadeiras amontoadas no salão principal. Raul destrancou a recepção com chave herdada e vergonha mal escondida. A família dele tinha deixado luxo apodrecer até virar cenário de cobrança judicial.

Eles usariam o antigo píer do resort como base para o mergulho. Marina examinou a madeira, testou os postes e marcou áreas proibidas com fita. Raul levou caixas de equipamento para um quarto térreo, enquanto ela vistoriava a casa de máquinas. Ali encontrou sinais recentes, pegadas úmidas, lata de sardinha aberta e ponta de cigarro apagada no chão. Alguém estivera no resort naquela semana. Raul disse que o caseiro abandonara o emprego havia meses. Marina mostrou a bituca e perguntou se fantasmas também fumavam barato.

No escritório do avô de Raul, os armários permaneciam trancados. Marina abriu uma gaveta emperrada com a faca pequena que usava para cortar rede presa em hélice. Encontrou recibos, cartas e uma foto antiga do Santa Ágata no porto, antes do último carregamento. Ernesto Duarte aparecia no canto, carregando cilindros ao lado do pai de Raul. O avô Sardenha assinara autorização para uma busca particular dois dias depois do naufrágio, embora o relatório oficial dissesse que o mar ficara fechado por uma semana.

Raul leu os papéis em silêncio, sentado no chão do escritório, a camisa marcada por poeira. A cada documento, parecia perder um pedaço da versão elegante que recebera em família. Marina conhecia aquele rosto. Era o rosto de quem descobre que os mortos mentiram menos que os vivos. Ela sentou perto dele, distante o suficiente para manter defesa, perto o suficiente para dividir a lanterna. Raul perguntou se ela odiava todos os Sardenha. Marina respondeu que ainda estava avaliando a geração atual. Ele aceitou a sentença com um aceno cansado.

À noite, o gerador falhou antes do jantar improvisado. O resort mergulhou em escuro, e alguém bateu três vezes na porta de vidro da recepção. Marina pegou o arpão de treino que usava para afastar curiosos bêbados. Raul ficou atrás dela com a lanterna. Do lado de fora, havia apenas o vento sacudindo a lona da piscina. No vidro empoeirado, porém, alguém escrevera com dedo molhado o nome Santa Ágata. Abaixo, um risco apontava para a enseada. A maré baixa começaria em menos de seis horas.

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