A Casa do Faroleiro
A corrente da pedra da viúva levava a uma cavidade rasa, grande o suficiente para esconder uma caixa pequena e arranhar os ombros de qualquer mergulhador apressado. Marina entrou primeiro, iluminando as paredes. Encontrou marcas de faca na pedra, três riscos paralelos, sinal antigo de Ernesto quando queria indicar perigo. A caixa de vidro não estava ali. No fundo, presa sob uma pedra lisa, havia uma chave de latão com etiqueta plástica. Casa do faroleiro. Raul reconheceu o lugar antes de subirem. Era a construção abandonada no alto da ilha, usada pelo avô dele para reuniões longe do resort.
O caminho até o farol subia por trilha fechada, mato alto e pedras soltas. Marina conhecia parte do percurso, Raul conhecia a planta antiga da propriedade, e os dois discordaram o bastante para encontrar a estrada certa. O vento aumentava, trazendo cheiro de chuva. No meio da subida, Raul parou para retirar um galho preso no cabelo dela. Marina deveria ter reclamado. Não reclamou. A mão dele ficou perto demais de sua boca, e o silêncio entre os dois ganhou uma clareza irritante. Ela seguiu andando antes que o corpo decidisse por conta própria.
A casa do faroleiro tinha telhado quebrado, paredes manchadas e vista para a enseada transparente. A chave abriu a porta com dificuldade. Dentro havia móveis cobertos por lona, garrafas vazias e um rádio antigo sobre a mesa. Marina encontrou marcas recentes no chão, iguais às do resort. Alguém usava a casa ainda. Raul abriu um armário e achou uniformes de funcionário do antigo hotel, crachás, talões de combustível e fotografias de barcos. Uma delas mostrava o homem que rondara a marina na semana anterior, Álvaro, antigo gerente de operações dos Sardenha.
Álvaro deveria estar morto, segundo Raul. Havia sido dado como desaparecido depois da morte de Lúcia. Marina guardou a foto e seguiu para o quarto dos fundos. Atrás de uma tábua solta, encontrou uma fita cassete embalada em plástico. No rótulo, Ernesto escrevera Lúcia, noite do farol. Raul segurou a fita com cuidado quase religioso. Não havia aparelho ali capaz de tocar. Marina conhecia um colecionador no centro que consertava rádio velho, porém a tempestade bloqueava qualquer volta segura naquela hora.
O primeiro tiro atingiu a parede da cozinha e espalhou cal sobre a mesa. Marina puxou Raul para o chão. Outro disparo estourou a janela. Álvaro apareceu do lado de fora, capa de chuva escura, arma na mão e rosto envelhecido por anos de fuga ruim. Gritou que queria o mapa e a fita. Raul respondeu que tudo iria para a polícia. Álvaro riu, sem pressa, e disse que polícia na ilha sempre chegou depois que Sardenha mandava. Marina abriu a porta dos fundos com o pé e empurrou Raul para a chuva.