A Enseada Transparente
Eles saíram antes do amanhecer, levando cilindros, cabos, câmera subaquática e uma caixa seca para documentos. A lancha de Marina cruzou a água ainda escura com motor irregular, tossindo em intervalos que Raul fingiu não ouvir. A enseada transparente ficava escondida por paredões baixos, acessível apenas quando a maré baixava o bastante para revelar uma faixa de pedras claras. O fundo ali parecia vidro rachado, placas lisas de quartzo ou coral morto, ninguém sabia ao certo. Pescador evitava passar perto porque âncora prendia e história crescia.
Marina ancorou longe das pedras e revisou o equipamento de Raul com atenção severa. Ele havia mergulhado em viagens caras, com instrutor paciente e água azul de propaganda. Aquilo era outra coisa. Corrente curta, fenda estreita, visibilidade traiçoeira e o fantasma de um navio que talvez fosse só desculpa para crime antigo. Marina apertou a fivela do colete dele e pediu que repetisse os sinais manuais. Raul errou um. Ela ergueu a sobrancelha. Ele repetiu certo. A confiança, ali, começava com obediência básica.
O mergulho mostrou primeiro cardumes pequenos, pedras lisas e restos de ferro cobertos por algas finas. Marina guiou Raul por uma abertura entre dois blocos e encontrou a primeira peça do Santa Ágata, uma argola de convés presa no coral. A câmera registrou tudo. Raul tocou a peça com cuidado, emocionado apesar de tentar parecer útil. Marina apontou para baixo. Sob uma placa de vidro natural, havia madeira escura encaixada na areia. O naufrágio estava ali, enterrado por anos, esperando a maré certa e a pessoa errada.
Quando chegaram ao casco partido, a lanterna de Raul iluminou uma marca pintada, duas letras ainda visíveis, AG. Marina sentiu a memória do pai sem frase bonita, apenas a imagem dele voltando de mergulho com a barba molhada e cheiro de diesel nas roupas. Ela afastou areia com movimentos curtos, encontrou uma dobradiça e chamou Raul. Os dois levantaram uma tampa pequena, presa a um compartimento lateral. Dentro, havia uma medalha de São Pedro, um canivete enferrujado e um envelope vedado por resina.
Antes que Marina pegasse o envelope, uma sombra passou acima deles. Não era peixe grande. Era casco de lancha. O som do motor chegou abafado, perto demais. Marina fez sinal para Raul permanecer junto ao fundo. A lancha desconhecida circulou a enseada, arrastando corrente com gancho. Procuravam o mesmo ponto. Um cabo desceu na água e bateu contra a madeira do Santa Ágata. Marina puxou Raul para uma fenda entre pedras. O ombro dele apertou contra o dela, respiração alta no regulador, enquanto o gancho raspava a poucos centímetros de suas pernas.