O Nome da Mãe A Maré de Vidro · Capítulo 10 de 12
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O Nome da Mãe

A gravação de Lúcia tinha um trecho que Raul repetiu quatro vezes, voltando a fita com cuidado para não arrebentar. Ela dizia que o filho deveria saber a verdade quando fosse grande o bastante para escolher o próprio nome sem medo do avô. Raul ouviu a frase com as mãos fechadas, o braço enfaixado e a camisa ainda úmida. Marina ficou perto, sem tocar. Havia dores que não pediam abraço imediato. Pediam testemunha. Quando a fita terminou, Raul levantou e escreveu o nome de Lúcia em um bloco do hotel, grande, firme, ocupando a página inteira.

Eles fotografaram os microfilmes contra a luz, copiaram a agenda e enviaram tudo para o advogado de Raul, para um delegado fora da ilha e para uma jornalista que Marina conhecia de reportagens ambientais. A conexão falhava, o gerador tossia, e cada arquivo enviado parecia uma vitória pequena contra décadas de silêncio comprado. Marina insistiu em mandar também para a própria mãe. Dona Célia respondeu com uma mensagem curta, seu pai descansaria hoje. Marina leu a frase no banheiro, sozinha, e chorou sem se olhar no espelho.

Raul a encontrou na varanda dos fundos, onde a chuva diminuíra e a noite entrava cheirando a mato molhado. Ele não perguntou se ela estava bem. Chegou com duas canecas de café ruim, entregou uma e ficou ao lado. Marina contou que passou anos achando que Ernesto morrera porque insistia em lenda inútil. Agora descobria que ele morreu por prova real e por confiar em uma mulher que tentou salvar o próprio filho. Raul respondeu que Lúcia escolhera Ernesto porque ele sabia fazer a coisa certa mesmo quando custava caro.

Marina beijou Raul dessa vez sem desculpa de esconderijo, sem lancha inimiga, sem rocha por perto. O beijo começou lento, molhado de chuva e café, depois ganhou pressa quando ele pousou a mão em sua cintura e ela puxou a camiseta dele pelos dedos. Pararam antes de transformar a varanda em imprudência completa. A vontade continuou ali, presa no modo como Marina demorou a soltar a camiseta dele. A sirene distante, chegando pela estrada do resort, fez os dois se afastarem. A polícia enfim aparecia, e com ela viriam perguntas, câmeras, sobrenomes e um tipo de realidade que não aceitava beijo como prova.

O delegado chegou com dois agentes e cara de quem preferia qualquer plantão a entrar em resort abandonado durante temporal. Raul entregou o cofre, a fita, a caixa de vidro e as cópias digitais. Marina entregou o mapa rasgado e exigiu registro formal da participação de Ernesto Duarte na denúncia original. O delegado prometeu apurar. Ela respondeu que promessa sem protocolo vira fofoca. Raul quase sorriu. Antes de sair com os agentes para mostrar a casa do faroleiro, ele apertou os dedos de Marina escondido atrás da mesa.

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