O Cofre no Casco
Eles desceram a trilha correndo sob chuva grossa, com Álvaro disparando acima das pedras para forçar caminho. Marina conhecia atalhos de cabra, Raul conhecia onde o terreno caía em barranco, e os dois sobreviveram por uma soma de teimosia e sorte. Chegaram ao píer do resort encharcados, cobertos de barro e quase sem fôlego. A fita cassete estava intacta dentro da bolsa seca. O mapa, porém, rasgara durante a fuga. A parte perdida era justamente a que marcava a posição do compartimento onde a caixa de vidro deveria ter sido retirada.
Raul queria acionar a polícia naquele minuto. Marina apontou a lancha de Álvaro se aproximando pelo lado norte. Se esperassem, perderiam o resort, a fita e talvez a chance de pegar a caixa antes que ele destruísse tudo. A maré ainda permitia mergulho na enseada, embora a chuva deixasse o retorno perigoso. Marina decidiu voltar ao Santa Ágata. Raul não discutiu. Entrou na lancha, prendeu os cilindros e entregou a ela a faca de mergulho do pai, encontrada no escritório do avô. Era o primeiro objeto Sardenha que Marina aceitou sem vontade de jogar longe.
O mar na enseada estava turvo, sacudido por chuva e vento. Marina desceu com Raul preso por cabo curto ao colete dela. A visibilidade caiu para poucos metros, e o casco do Santa Ágata apareceu aos pedaços, fantasma de madeira e ferro. Eles seguiram a marca AG até o compartimento lateral aberto no primeiro mergulho. Sem o mapa inteiro, Marina procurou por lógica de mergulhador. Se Ernesto tirara a caixa antes da busca oficial, teria deixado outra coisa para desviar quem viesse depois.
Atrás de um painel solto, Raul encontrou um cofre pequeno preso ao casco por parafusos corroídos. Não era de vidro. Era ferro comum, pesado o bastante para exigir boia de içamento. Marina prendeu o cabo, encheu a bolsa de ar aos poucos e guiou a subida do objeto. A lancha de Álvaro passava acima, motor violento, procurando a boia principal. Marina soltou a bolsa em direção oposta, usando a corrente para levar o cofre até uma pedra rasa. Raul percebeu a manobra e segurou o cabo com as duas mãos, mesmo quando a corrente o puxou contra o coral.
Ao subirem perto das pedras, Raul estava com o antebraço cortado. Marina arrancou a luva, pressionou o ferimento e praguejou com raiva sincera. Ele sorriu, pálido, dizendo que era bom saber que ela se importava em volume alto. Marina mandou que ele calasse a boca antes que perdesse sangue e charme no mesmo minuto. O cofre ficou preso entre pedras, fora do alcance imediato de Álvaro. Quando a lancha inimiga se aproximou, Marina beijou Raul de repente, puxando-o para trás de uma rocha, usando o corpo dele para esconder a bolsa seca. A desculpa era péssima. O beijo, pior ainda para a paz dela.