A Tempestade no Canal
O beijo terminou quando a lancha de Álvaro passou perto o bastante para jogar água sobre a rocha. Marina soltou Raul e não pediu desculpa. Ele também não pediu explicação. A tempestade fechava o canal, e qualquer plano elegante tinha acabado. Eles precisavam tirar o cofre dali, chegar ao resort e fazer a fita falar antes que Álvaro encontrasse outro jeito de cercar a ilha. Marina amarrou o cofre na lateral da lancha e prendeu o cabo duas vezes. Raul assumiu o leme por ordem dela, porque o corte no braço ainda sangrava e porque ela confiava pouco, porém confiava o suficiente.
O retorno virou uma disputa contra onda curta, motor falhando e vento lateral. Raul segurava o leme com o maxilar travado. Marina ficava no convés, controlando o cabo do cofre e tirando água com balde. A lancha subia e caía com pancadas duras. Em certo momento, uma onda arrancou a tampa de uma caixa de equipamento e levou uma lanterna. Raul gritou o nome dela quando Marina escorregou. Ela respondeu com um gesto feio e continuou trabalhando. Medo compartilhado não precisava virar declaração no meio do temporal.
Chegaram ao píer do resort perto do fim da tarde. O cofre bateu na madeira, amassado e coberto de limo. Marina cortou o cabo, Raul caiu sentado, e ambos riram por puro esgotamento. A risada durou pouco. O salão principal estava revirado. Álvaro entrara antes deles, quebrara gavetas e levara documentos do escritório. A fita cassete permanecia com Marina, presa dentro da roupa de mergulho. Raul olhou a destruição com uma calma nova. Disse que o avô morreu deixando muita coisa podre em nome da família, e que ele estava cansado de guardar brasão de gente covarde.
Abrir o cofre exigiu martelo, chave de fenda e paciência feroz. Dentro havia sacos plásticos, uma agenda de capa preta, fotografias e uma caixinha de vidro fosco do tamanho de uma mão. Não brilhava, não cantava, não parecia tesouro. Marina abriu com cuidado e encontrou microfilmes, recibos e uma medalha partida. Raul pegou a medalha e reconheceu o pingente da mãe. Lúcia não se afogara por crise nenhuma. Ela guardara prova contra o próprio pai e tentara fugir com Ernesto pelo canal.
A fita cassete confirmou parte da história antes de engasgar no rádio consertado às pressas por Marina. A voz de Lúcia saiu baixa, cheia de chiado, contando nomes de compradores, rotas e pagamentos. Depois veio a voz de Ernesto, dizendo que levaria a caixa para lugar seguro se alguma coisa acontecesse. O último som era de discussão, porta batendo, motor ligando. Raul ficou imóvel, lágrimas presas por orgulho gasto. Marina sentou ao lado dele no chão molhado, encostou o ombro no dele e deixou que a fita rodasse até o fim.