O Mapa Rasgado A Maré de Vidro · Capítulo 5 de 12
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O Mapa Rasgado

Marina esperou a lancha inimiga se afastar antes de subir. O envelope de resina ficou preso dentro do colete dela, junto ao peito, protegido da água e dos olhos de Raul até chegarem ao resort. A subida foi lenta, disciplinada, com Raul seguindo cada sinal sem orgulho ferido. Quando tiraram as máscaras no convés, ele xingou baixo e perguntou quem, além deles, sabia da busca. Marina respondeu que ameaça no para-brisa costuma indicar plateia. Ela ligou o motor e saiu da enseada por uma rota entre pedras que turista nenhum escolheria sóbrio.

No resort, abriram o envelope dentro do banheiro antigo, onde a pia ainda funcionava e a porta trancava. Havia um pedaço de mapa náutico, rasgado em três lados, com anotações de Ernesto Duarte. Marina reconheceu a letra do pai pelo jeito de cortar os números. O desenho marcava a enseada, o casco do Santa Ágata e uma segunda cruz perto do canal norte. Ao lado, uma frase curta dizia que a caixa de vidro saiu do navio antes da busca oficial. Marina leu sem piscar. O naufrágio guardava prova, não tesouro.

Raul encontrou no verso uma assinatura do avô, Américo Sardenha, junto a outra que ele demorou a reconhecer. Era de Lúcia Sardenha, mãe dele, morta quando Raul tinha nove anos. A família dizia que ela se afogara depois de entrar no mar durante uma crise. Marina viu a mão dele apertar o papel com força e segurou o pulso dele antes que rasgasse a única pista. O toque durou demais para uma contenção simples. Raul pediu desculpa, voz baixa. Marina soltou devagar, irritada por querer ficar.

Eles discutiram no salão principal. Raul queria ir ao canal norte no mesmo dia. Marina recusou, apontando o vento, a maré subindo e a lancha desconhecida. Ele acusou Marina de esconder o envelope dele. Ela respondeu que o documento estava ligado ao pai dela antes de pertencer à família Sardenha. A briga teria subido se uma pedra não quebrasse a janela da recepção. Junto dos cacos veio uma foto antiga, dobrada ao meio. Nela, Ernesto e Lúcia Sardenha estavam no píer do resort, muito próximos, olhando para algo fora da imagem.

Atrás da foto havia uma mensagem recente, escrita com a mesma letra do bilhete da picape. O texto mandava entregar o mapa até meia-noite ou a mãe de Marina receberia visita. Marina sentiu o medo virar coisa prática, lista de ação. Ligou para a vizinha, pediu que trancasse a casa, depois avisou um primo pescador. Raul ofereceu homens de segurança. Ela recusou. Gente armada de sobrenome rico chamaria atenção demais. Raul guardou a foto no bolso e disse que iria com ela ver a mãe. Marina respondeu que ele não mandava em seu caminho. Mesmo assim, entregou a ele a chave da caminhonete.

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