A Maré Baixa
A prisão de Álvaro aconteceu ao amanhecer, perto da casa do faroleiro. Ele tentou fugir por uma trilha secundária carregando parte dos documentos roubados, uma pistola e dinheiro velho dentro de saco plástico. Negou tudo até ouvir a fita de Lúcia tocando no rádio do delegado. Depois ficou quieto, olhos presos em Raul com ódio murcho. Marina observou de longe, sem prazer. Gente pequena pode fazer estrago grande quando serve pessoa poderosa por tempo demais. Álvaro era uma peça, perigosa, armada e culpada, porém ainda peça.
O nome de Américo Sardenha voltou aos jornais antes do meio-dia. Mesmo morto, puxou gente viva para dentro da investigação, ex-sócios, policiais aposentados, funcionários do porto e dois empresários que ainda frequentavam festas no continente. O resort virou prova cercada por fita policial. Raul viu tudo calado, com a medalha partida da mãe no bolso. Marina levou Dona Célia até o antigo píer para reconhecer a foto de Ernesto entre os arquivos. A mãe passou os dedos sobre a imagem e falou com o marido ausente em voz baixa, sem pedir licença a ninguém.
Na maré baixa, Marina voltou à enseada com a equipe de perícia. Dessa vez, o mergulho tinha registro oficial, barco da polícia, câmera profissional e gente anotando o que Ernesto tentara provar sozinho. Raul pediu para ir junto. Marina avaliou o braço ferido, o cansaço no rosto dele e a vontade que tinha de protegê-lo sem admitir. Autorizou apenas que ficasse na superfície, controlando cabo. Ele aceitou. A obediência dele já não parecia charme. Parecia respeito construído na marra, do tipo que talvez durasse fora da aventura.
No fundo, Marina encontrou outra marca de Ernesto perto do casco. Três riscos paralelos e, abaixo, uma letra M feita com faca. Talvez fosse de Marina, talvez fosse de mar, talvez de memória. Ela fotografou, tocou a pedra com a luva e sentiu a raiva antiga ceder lugar a uma saudade menos cortante. Ao subir, viu Raul esperando na borda da lancha, molhado de respingo, sério e vivo. Ele ajudou a puxá-la para bordo. O olhar dos dois ficou preso tempo demais para ser confundido com gratidão operacional.
À noite, no resort interditado, Raul disse que não venderia a ilha para incorporadora nenhuma. Queria transformar o lugar em base de pesquisa, escola de mergulho e memorial de Lúcia, Ernesto e outros afetados pelo esquema do avô. Marina desconfiou por hábito. Pediu estatuto, conselho independente, contrato público e salário decente para quem trabalhasse ali. Raul anotou tudo no verso de um papel oficial. Depois perguntou se ela também exigiria distância. Marina olhou para a enseada escura e respondeu que distância, naquele caso, parecia desperdício.