Mergulho às Três
A mãe de Marina morava em uma casa baixa perto da igreja, com rede na varanda e vasos de manjericão na janela. Dona Célia recebeu Raul com educação desconfiada e Marina com bronca imediata por chegar molhada, nervosa e sem avisar direito. A ameaça transformou a sala simples em posto de guerra doméstica. O primo pescador ficou no portão, a vizinha fechou os fundos, e Raul ligou para um advogado antes que Marina o fuzilasse com os olhos. Dona Célia ouviu tudo sem se espantar quando o nome de Lúcia Sardenha apareceu.
Ela contou que Ernesto e Lúcia tentaram denunciar Américo Sardenha semanas antes do naufrágio. O resort servia para guardar mercadoria ilegal antes de seguir em barcos menores, e a caixa de vidro trazia documentos de conta, nomes e pagamentos. Lúcia queria entregar tudo, Ernesto ajudaria a retirar a prova do navio. Depois veio o acidente, a busca falsa, a morte de Ernesto anos mais tarde. Dona Célia nunca contou porque Marina era criança e porque homem poderoso compra silêncio de muitas formas.
Raul ficou de pé no meio da sala, tomado por uma culpa que não sabia onde colocar. Marina não teve paciência para consolar. Perguntou à mãe onde Ernesto esconderia uma caixa depois de trair gente perigosa. Dona Célia respondeu sem hesitar. No canal norte, perto da pedra da viúva, onde a água vira lisa às três da tarde e devolve imagem do fundo. Era o lugar em que Ernesto ensinara Marina a mergulhar quando ela tinha doze anos. A lembrança veio com gosto de água salgada e medo antigo.
Às duas e vinte, Marina e Raul já estavam na lancha. O céu pesava em nuvens baixas, e a rádio falava em vento forte no fim do dia. Marina vestiu a roupa de mergulho sem olhar para Raul. Ele esperou até ela fechar o zíper e perguntou se a odiaria menos caso ele vendesse o resort e entregasse o dinheiro às famílias prejudicadas. Marina respondeu que caridade tardia não muda cadáver de lugar, porém podia pagar advogado bom. Ele aceitou a pancada. Minutos depois, quando ela tropeçou no convés molhado, Raul segurou sua cintura com firmeza.
O contato deixou os dois imóveis por um instante curto. Marina colocou a mão no peito dele para se afastar, e sentiu o coração de Raul batendo rápido. Não havia charme ensaiado ali. Havia medo, desejo, culpa e sal grudado na pele. Ela retirou a mão e mergulhou antes que dissesse algo imprudente. Raul veio atrás. A pedra da viúva apareceu abaixo deles, escura, alta, cercada por areia clara. No lado protegido, uma fenda estreita guardava uma corrente antiga presa a uma argola de bronze.