A Maré de Vidro
Seis meses depois, a placa do antigo resort foi retirada por dois funcionários, uma escada torta e muitas opiniões do povo da ilha. No lugar, entrou uma placa simples com o nome Instituto Lúcia Sardenha e Ernesto Duarte. Marina fingiu incômodo com a ordem dos nomes até Raul mostrar o projeto interno, onde a sala de mergulho levava o nome do pai dela e a biblioteca ficava dedicada à mãe dele. Dona Célia chorou na inauguração sem tentar esconder. Raul chorou pouco, escondendo mal, e Marina apertou sua mão por baixo da mesa.
A investigação continuava no continente, lenta e barulhenta. Alguns nomes compraram advogados caros, outros descobriram que microfilme antigo ainda podia arruinar almoço de família. Marina não acompanhava cada notícia. Preferia medir cilindros, treinar jovens da ilha e reformar a lancha com dinheiro limpo. Raul aprendeu a lidar com fornecedor, pescador desconfiado e criança curiosa querendo saber se naufrágio tinha tesouro. Respondia que o tesouro era documento. As crianças vaiavam. Marina ria, porque ele ainda precisava melhorar a parte de encantamento popular.
Na primeira turma de mergulho do instituto, Marina levou quatro adolescentes até a enseada transparente em dia de mar calmo. Raul ficou na lancha, fazendo anotações e distribuindo água, função que aceitava com solenidade excessiva. O fundo de vidro natural brilhava claro, sem ameaça, apenas bonito. Marina mostrou aos alunos a marca de Ernesto na pedra e ensinou que mergulhador bom volta com história e prova, nunca com peça arrancada por vaidade. Ao subir, encontrou Raul olhando para ela do jeito que ainda mexia com seu pulso.
Depois da aula, eles ficaram sozinhos no píer. Raul tirou do bolso a medalha partida de Lúcia, agora presa a uma corrente nova, e entregou a Marina a metade que encontraram na caixa de vidro. Disse que não era pedido grandioso, contrato ou promessa de propaganda. Era só uma forma de lembrar que duas famílias quebradas podiam escolher outro final. Marina pegou a medalha, colocou no pescoço e respondeu que ele ainda falava demais quando ficava nervoso. Raul riu, aliviado, e ela puxou a gola da camisa dele para beijá-lo.
A maré desceu enquanto o beijo terminava. Entre o píer e a enseada, as placas claras do fundo apareceram sob a água rasa, lisas e brilhantes, caminho visível apenas por poucos minutos. Marina olhou para aquilo e pensou no pai, em Lúcia, nos mortos que enfim tinham nome inteiro. Raul passou o braço por sua cintura, sem pressa de puxá-la para lugar nenhum. Pela primeira vez em muitos anos, Marina deixou o mar guardar silêncio sem suspeitar dele. A maré de vidro vinha e ia. Ela, agora, podia ficar.