II
II
– Não vejo nada claro – disse Lentz. E, fechando os olhos feridos pela luz grandiosa do dia, sentia dentro das pálpebras, na câmara rubra das pupilas, fuzilar relâmpagos de sol.
– Quem me dera – murmurava então Milkau – que o sol se não apagasse... A pátria do homem devia limitar-se a um canto da terra onde não houvesse sombra.
E os dois caminhavam afastando-se do Porto do Cachoeiro na direção de Santa Teresa. A princípio a estrada cortava por cima de pequenos morros descobertos, onde, numa paisagem acidentada e limpa, passeavam errantes as sombras das nuvens; daí a momentos ela morria na boca da mata. Milkau e Lentz, ao penetrarem na escuridão repentina e fria, sentiram pelos olhos o véu de uma ligeira vertigem. Pouco a pouco eles se recompuseram, e então admiraram.
A floresta tropical é o esplendor da força na desordem. Árvores de todos os tamanhos e de todas as feições; árvores que se alteiam, umas eretas, procurando emparelhar-se com as iguais e desenhar a linha de uma ordem ideal, quando outras lhes saem ao encontro, interrompendo a simetria, entre elas se curvam e derreiam até ao chão a farta e sombria coma. Árvores, umas largas, traçando um raio de sombra para acampar um esquadrão, estas de tronco pejado que cinco homens unidos não abarcariam, aquelas tão leves e esguias erguendo-se para espiar o céu, e metendo a cabeça por cima do imenso chão verde e trêmulo, que é a copa de todas as outras. Há seiva para tudo, força para a expansão da maior beleza de cada uma. Toda aquela vasta flora traduz a antiguidade e a vida. Não se sente nela sombra de um sacrifício que seria o triunfo e o prêmio da morte. Dentro, as parasitas se enroscam pelos velhos troncos, com a graça de um adorno e de uma carícia. Há mesmo árvores que são mães de árvores e suportam com fácil e poderosa galhardia a filha, que lhe sai do regaço, e mais esplendorosa, às vezes, que a rija e bela progenitora. Uma infinita variedade de arbustos cresce às plantas dos gigantes verdes; é uma florazinha miúda, compacta e atrevida, dentro do bojo de outra mais ampla e opulenta. E tudo se ergue, e tudo se expande sobre a terra, compondo um conjunto brutal, enorme, feito de membros aspérrimos, entretecido no alto pela cabeleira basta e densa das árvores e embaixo pela rede intérmina das fortes e indomáveis raízes; todo ele se entrelaça, enroscando-se pelos braços gigantescos, prendendo-se como por tenazes numa grande solidariedade orgânica e viva... Pelas frestas das árvores, pela transparência das folhas, desce uma claridade discreta, e nessa suave iluminação se desenrola dentro do mato o cenário pomposo das cores. Elas são em si vivas e quentes, mas a gradação da sombra, que ora avança, ora se afasta, comunica-lhes da negrura do verde ao desmaio do branco a matização completa, triunfal. E lá em cada boca da estrada, as portas da mata formam um círculo longínquo, azulado, como portas feitas só de luz, e de uma luz zodiacal e docemente infinita... De todo o corpo colossal, das folhas novas e das folhas mortas, dos troncos verdes e dos troncos carunchosos, das parasitas, das orquídeas, das flores selvagens, da resina que se derrama vagarosa ao longo das árvores, dos pássaros, dos insetos, dos animais ocultos no segredo da selva, se desprende um cheiro misterioso e singular, que se volatiliza e se difunde no imenso todo, e, tal como o aroma das catedrais, acalma, embriaga e adormece as coisas. Na volúpia harmoniosa desse perfume, que é acre e tonteante, com a claridade que é branda, está a fonte do repouso da mata... O silêncio que mora na floresta é tão profundo, tão sereno que parece eterno. Feito das vozes baixas, dos murmúrios, dos movimentos rítmicos dos vegetais, é completo e absoluto na sua perfeita harmonia. Se por entre as folhas secas amontoadas no solo se escapa um réptil, então o ligeiro farfalhar delas corta a doce combinação do silêncio; há no ar uma deslocação fugaz como um relâmpago, pelos nervos de todo o mato perpassa um arrepio, e os viajantes que caminham, cheios da solidão augusta, voltam-se inquietos, sentindo no corpo o frio elétrico e instantâneo do pavor...
– Extraordinário – disse Lentz, saindo do seu espanto.
Milkau replicou:
– A sensação que aqui recebemos é muito diferente da que nos deixa a paisagem europeia.
E, mirando para o alto e para a frente, continuou:
– Aqui o espírito é esmagado pela estupenda majestade da natureza... Nós nos dissolvemos na contemplação. E, afinal, aquele que se perde na adoração é o escravo de uma hipnose: a personalidade se escapa para se difundir na alma do Todo... A floresta no Brasil é sombria e trágica. Ela tem em si o tédio das coisas eternas. A floresta europeia é mais diáfana e passageira, transforma-se infinitamente pelos toques da morte e da ressurreição, que nela se revezam como os dias e as noites.
– Mas este espetáculo de uma grande mata brasileira é assombroso, não é? – interrogou Lentz.
– É. A verdade, porém, é que, ao tocarmos a região do assombro, tal espetáculo nos priva da liberdade de ser, e afinal nos constrange. É o que sucede com esta força, esta luz, esta abundância. Nós passamos por aqui em êxtase, não compreendemos o mistério...
E mudos continuavam a caminhar pela estrada coberta, os olhos de ambos a desmancharem-se de admiração.
Passado algum tempo, Lentz exprimiu alto o que ia pensando:
– Não é possível haver civilização neste país... A terra só por si, com esta violência, esta exuberância, é um embaraço imenso...
– Ora – interrompeu Milkau – tu sabes bem como se tem vencido aqui a natureza, como o homem vai triunfando...
– Mas o que se tem feito é quase nada, e ainda assim é o esforço do europeu. O homem brasileiro não é um fator do progresso: é um híbrido. E a civilização não se fará jamais nas raças inferiores. Vê, a História...
MILKAU
– Um dos erros dos intérpretes da História está no preconceito aristocrático com que concebem a ideia de raça. Ninguém, porém, até hoje soube definir a raça e ainda menos como se distinguem umas das outras; fazem-se sobre isso jogos de palavras, mas que são como esses desenhos de nuvens que ali vemos no alto, aparições fantásticas do nada... E, depois, qual é a raça privilegiada para que só ela seja o teatro e o agente da civilização? Houve um tempo na História em que o semita brilhava em Babilônia e no Egito, o hindu nas margens sagradas do Ganges, e eles eram a civilização toda; o resto do mundo era a nebulosa de que se não cogitava. E, no entanto, é junto ao Sena e ao Tâmisa que a cultura se esgota hoje numa volúpia farta e alquebrada. O que eu vejo neste vasto panorama da História, para que me volto ansioso e interrogante, é a civilização deslocando-se sem interrupção, indo de grupo a grupo através de todas as raças, numa fatal apresentação gradual de grandes trechos da terra, à sua luz e calor...
Uns se vão iluminando, enquanto outros descem às trevas...
LENTZ
– Até agora não vejo probabilidade da raça negra atingir a civilização dos brancos. Jamais a África...
MILKAU
– O tempo da África chegará. As raças civilizam-se pela fusão; é no encontro das raças adiantadas com as raças virgens, selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização. O papel dos povos superiores é o instintivo impulso do desdobramento da cultura, transfundindo de corpo a corpo o produto dessa fusão que, passada a treva da gestação, leva mais longe o capital acumulado nas infinitas gerações. Foi assim que a Gália se tornou França e a Germânia, Alemanha.
LENTZ
– Não acredito que da fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas. Enquanto não se eliminar a raça que é o produto de tal fusão, a civilização será sempre um misterioso artifício, todos os minutos rotos pelo sensualismo, pela bestialidade e pelo servilismo inato do negro. O problema social para o progresso de uma região como o Brasil está na substituição de uma raça híbrida, como a dos mulatos, por europeus. A imigração não é simplesmente para o futuro da região do País um caso de simples estética, é antes de tudo uma questão complexa, que interessa o futuro humano.
MILKAU
– A substituição de uma raça não é remédio ao mal de qualquer civilização. Eu tenho para mim que o progresso se fará numa evolução constante e indefinida. Nesta grande massa da humanidade há nações que chegam ao maior adiantamento, depois definham e morrem, outras que apenas esboçam um princípio de cultura para desaparecerem imediatamente; mas o conjunto humano, formado dos povos, das raças, das nações, não para em sua marcha, caminha progredindo sempre, e os seus eclipses, os seus desmaios não são mais que períodos de transformações para épocas fecundas e melhores. É a fatalidade do Universo que se cumpre nesse Todo que é uma parte dele... Quando não há um trabalho à flor das coisas, luminoso e doce, há uma elaboração subterrânea, tenebrosa e forte. Às vezes, é num ponto isolado da superfície que se dá a opacidade das trevas, e pela fusão um povo aí se forma recapitulando a civilização desde o seu ponto inicial e preparando-se para levar o progresso mais longe que os povos geradores...
LENTZ
– Como? Então o contato dos povos da arte com os selvagens determina um precipitado que excede aqueles na capacidade estética?
MILKAU
– A arte, Lentz, pode diminuir ou aumentar em alguma das suas expressões, segundo várias solicitações do meio e da época, mas pelo fato de não florescer certa forma de Arte o progresso artístico não deixa de ser maior. Se a verdade estivesse na conclusão contrária, então a humanidade teria retrocedido depois do período do grego, e da Renascença, porque até agora a História não conta épocas tão felizes para a Escultura e para a Pintura.
LENTZ
– Mas toda a questão está na compreensão do progresso moral.
MILKAU
– Quando a humanidade partiu do silêncio das florestas para o tumulto das cidades, veio descrevendo uma longa parábola da maior escravidão à maior liberdade. Todo o alvo humano é o aumento da solidariedade, é a ligação do homem ao homem, diminuídas as causas de separação. No princípio era a força, no fim será o amor.
LENTZ
– Não, Milkau, a força é eterna e não desaparecerá; cada dia ela subjugará o escravo. Essa civilização, que é o sonho da democracia, da fraternidade, é uma triste negação de toda a arte, de toda a liberdade e da própria vida. O homem deve ser forte e querer viver, e aquele que um dia atinge a consciência de sua personalidade, que se entrega a uma livre expansão dos seus desejos, aquele que na opulência de uma poesia mágica cria para si um mundo e o goza, aquele que faz tremer o solo, e que é ele próprio uma floração da força e da beleza, esse é homem e senhor. O fim de toda a sua vida não é a ligação vulgar e mesquinha entre os homens; o que ele busca no mundo é realizar as expressões, as inspirações da Arte, as nobres, indomáveis energias, os sonhos e as visões do poeta, para conduzir como chefe, como pastor, o rebanho. Que importam a solidariedade e o amor? Viver a vida na igualdade é apodrecer num charco...
MILKAU
– Toda a marcha humana é uma aspiração da liberdade; esta é o verdadeiro apoio, o estímulo, a razão de ser de uma sociedade. A ordem não é um princípio moral; é apenas um fator preexistente e indispensável ao conceito social; não pode haver sociedade sem ordem, como cálculo sem números; a harmonia existirá por momentos, mesmo num regímen de escravos e de senhores, mas será instável, e sem a liberdade não há ordem possível; a busca e a realização da liberdade como fundamento da solidariedade são o fim de toda a existência... Mas para aí chegar, que caminho não percorreu o homem!... A liberdade é como a própria vida, nasce e cresce na dor...
LENTZ
– Oh! mas essa dor deita gotas de amargura sobre a vitória. Não, o verdadeiro homem é o que se libertou de todo o sofrimento, aquele cujos nervos não se contraem nas agonias, o que é sereno e não sofre, o que é soberano, o que é onipotente, o que tem sua integridade completa e fulgurante; o que não ama, porque o amor é um desdobramento doloroso da personalidade.
MILKAU
– O que nos une solidariamente na humanidade é o sofrimento. Ele é a fonte do amor, da religião e da arte, e não se pode substituir a sua consciência fecunda pelo império de uma insensibilidade feroz.
LENTZ
– Quanto a mim, penso que devemos voltar atrás, apagar até aos últimos traços as manchas desta civilização de humildes, de sofredores, de doentes, purificar-nos do seu veneno, que nos mata depois de nos entristecer.
MILKAU
– Eu vejo na exaltação das tuas palavras que há em nós uma tristeza diversa diante do quadro da vida dos homens... mas sempre tristeza e desespero. O mal é universal, ninguém está satisfeito por estes tempos; todos se lamentam, e nem senhores, nem escravos, nem ricos, nem pobres, nem cultivados, nem simples têm o seu quinhão de alegria, de satisfação, como queriam. E quando numa sociedade o indivíduo sofre, essa gota de agonia é bastante para condenar todo o fundamento da comunhão. Há uma crise em tudo, o próprio solo é vacilante e trêmulo, o mundo está abalado, a atmosfera é irrespirável. No meio de confusas aspirações, neste contato estranho de sentimentos tão vários, pode-se acaso fundar a harmonia sossegada e doce da vida? A religião foi-se; ela é do tempo, e, como próprio tempo, uma vez perdida, não volta mais... Uma civilização de guerreiros persiste no meio do surto da alma pacífica do homem. Tudo se confunde, se mistura e se repele num torvelinho de desespero... A sombra do passado penetra demasiado na morada do homem moderno e enche-lhe a casa de espectros e visões, que o detêm e o perturbam. E o futuro, mensageiro do gesto consolador, vem avançando a medo como um ladrão noturno... Mas eu não esperei o seu passo vacilante e tardo: despi a minha roupagem pesada, e lépido então fui buscar o perfume e os alimentos que, vagaroso e divino, ele vem trazendo aos homens. E como dentro em mim é doce a salvação!
LENTZ
– E para aí chegares?... Deixaste pátria, família, sociedade, uma civilização superior?
MILKAU
– Deixei o que era vão.
LENTZ
– E à Europa, e à Alemanha nada mais te prende?
MILKAU
– Somente o que elas têm de grande no passado. Mas isto é o incorpóreo, é o invisível, e eu não preciso de me sentar sobre as ruínas para amá-lo. É a obra da imaginação e da memória. O meu culto ao que é humano é ativo, reside na dupla consciência da continuidade e da indefinidade do progresso. O que a Europa nos mostra, como forma da vida, é apenas um prolongamento desarmônico das forças de ontem e das solicitações do presente.
LENTZ
– Não compreendo como por um ato de vontade se possa trocar Berlim pelo Cachoeiro... De que cidade da Alemanha és tu?
MILKAU
– Sou de Heidelberg, e de lá guardo as minhas mais longínquas recordações. Vejo-me ao lado de meu pai, dia e noite ligados, como o corpo e a sombra... Ele era um professor de colégio, um desses universitários muito instruídos, mas, como a maior parte deles, indeciso em sua vasta cultura escolar. Meu pai, Lentz, era a própria doçura, e as imagens que dele conservo no fundo da minha pupila são de um homem feito de sorrisos suaves e inextinguíveis; tinha uma inteligência sutil e aérea, mas o pudor da audácia o entorpecia, e por isso todo o seu grande capital de bondade e de amor ficou sepultado no fundo do seu coração, e o mundo o ignorou. Ele continha e refreava a imaginação. Oh! como ele mesmo criava barreiras ao seu espírito! Os preconceitos chegavam-lhe ao apelo da sua timidez, e ele os acariciava como se fossem numes protetores. Mas em tudo isso havia uma infelicidade funda, que lhe devia ser o amargor da vida. As suas expressões nunca transpiraram o sangue de todo o seu amor humano. Foi o perfume que guardou no interior da alma sem o transfundir além, e desse excesso de concentração veio-lhe a morte...
LENTZ
– E nesse tempo que idade tinhas?
MILKAU
– Eu saía da universidade e entrava no mundo quando meu pai morria. Minha mãe com lágrimas molhava noite e dia as saudades plantadas no seu coração. Ela foi mesquinha de dor, e eu amei-a até à sua morte como uma filha tamanhinha e mofina...
LENTZ
– E então?
MILKAU
– Depois de três anos dessa existência, entre a recordação e a piedade, parti de Heidelberg com a alma cheia de um grande silêncio. Comecei ouvir os acentos da minha própria voz.
LENTZ
– E não te veio ao encontro uma voz de mulher?
MILKAU
– Não.
LENTZ
– E nunca amaste a mulher?
MILKAU
– Aos dez anos o amor começou em mim, mas, como tudo que nasce prematuro, essa paixão de infância foi meio doença, meio êxtase místico. O que há em mim de sentimento religioso se desenvolveu então na adoração daquilo que eu buscava; bens e males da minha vida eu atribuía só a esta influência poderosa e mortificadora. E no entanto ela fugia de mim... Longos tempos se passaram nessa enganadora caça; todos os meus estudos, os meus brincos, os meus sonhos de criança tiveram a forma dos pequenos e intensos martírios; eles vertiam lágrimas e suavam sangue. Como estremeço ao lembrar-me de tanta vida, de tanto amor consumido por uma sombra... Em vão? Não sei... Quando volto ao meu passado, é ainda esse trecho do caminho da vida que mais me deleita: sinto quanto ele é embalsamado pelo amor que aí passou, como esse perfume que foi a minha purificação da adolescência vem até a mim... E a grande ventura (quem sabe?) foi que sobre essa montanha de fogo formada em minha alma jamais desceu o sorriso, a brandura, a carícia que resfria e que funde... e então eu ascendi, ascendi... Aos vinte anos estava tudo acabado. A morte dela veio habitar a minha existência, e não me consolei longo tempo, até que outro amor, e esse o grande, o único, me viesse possuir para sempre...
E Milkau foi interrompido pelo repique de campainhas que descia pela estrada, redobrando a amplidão das vozes sonoras no silêncio da mata. Pouco a pouco esses sons perdiam a doçura melancólica e se confundiam com gritos humanos e tropel de animais. Não tardou que os dois amigos vissem uma tropa, que vinha das terras altas em direção ao Porto do Cachoeiro. A mula da frente marchava enfeitada de fitas de cor, que lhe embaraçavam os meneios da cabeça. Milkau e o companheiro encostaram-se para a beira da estrada, apoiando-se nas árvores, e ainda assim os animais, procurando o trilho habitual, roçavam-lhes ao corpo as bruacas de café e os olhavam com os seus olhos de besta, imensos, tristes e insondáveis. Os tropeiros em sua maioria eram mais brancos que mulatos; porém os gritos, as ordens, as pragas de uns e outros eram ditos espontaneamente na língua de cada um. A tropa passou caminho abaixo, levando consigo o seu violento barulho que quebrava além o sono das coisas. Atrás dela ficara um odor acre de café verde, de poeira levantada e de lama revolvida, a qual ali na sombra e umidade das árvores não se extingue nunca. Os dois amigos caminharam algum tempo calados, mas uma ânsia de confissão e de abandono os estimulava naquele mundo estranho; e eles, ladeados de árvores sem fim, tornavam com frenesi, com excitação, ao diálogo perpétuo dos temas eternos.
LENTZ
– Na verdade, há muito pouco tempo eu não poderia imaginar-me aqui nesta floresta... Nós somos governados na vida pelo imprevisto... A história é muito simples (disse Lentz, como respondendo a uma interrogação escrita nos olhos de Milkau). Questão de amor, ou antes questão de consciência... Amei uma mulher, que pensei ser a criatura sublime, que fraca ama o forte, que humilde ama o soberbo. E nós fomos assim pelo caminho suntuoso da minha fantasia, arrastando-a eu após mim, já pela solidão das montanhas de neve, já pelos lagos verdes que refrescam as terras, já pela cidades traficantes e vis. Minha amada conheceu as vibrações infinitas da volúpia, minha amada amou no sangue, na carne, e depois disso eu a julgava recompensada e feliz; mas um dia revoltou-se, e a alma da mulher do ocidente, que a longa cobardia dos homens já fez eterna, nela se despertou para exigir de mim a minha escravidão. Encontrou apoio nos preconceitos cristãos de meu pai, nos escrúpulos e temores de minha mãe que me procurava dissolver ao bafo de sua ternura mórbida. Resisti. O pai de minha amada era um velho general companheiro de armas do meu, e ele pedia à minha família uma reparação por aquilo que tinha sido o ato da independência da minha extrema sensibilidade. E o que é pior, no meu grupo social formou-se em torno de mim uma atmosfera de reprovação: todos se julgavam limpos de consciência para se afastarem de mim com desdém. E confesso (oh! vergonha!) não pude suportar essa pressão coletiva dos meus camaradas, dos indivíduos da minha classe!... O homem levará ainda muito tempo, Milkau, a libertar-se do grupo a que pertence, a emancipar-se dessa tirania poderosa que lhe anula a individualidade e lhe traça na fisionomia as linhas de uma máscara comum e sem distinção própria, ou seja a família, ou seja a classe, ou seja a raça. A minha arrogância entibiou-se, o que há em mim de cobarde, de escravo, entorpeceu a energia de minha altitude; o que há em mim de aquisição intelectual, conjunto de ideias árdegas e aceleradas, foi morto pelo antigo e implacável sentimento... Então fugi, deixando os meus estudos de universidade, a minha posição, a minha família, a minha fortuna. O que eu buscava em troca de tudo que deixei era um mundo maior, ainda virgem e intemerato do contato lascivo e deprimente dessa moral cristã; era um verdadeiro domínio para o homem novo, para quem, saltando por cima dos séculos da humildade, quer dar a mão aos antigos e com eles e sob o influxo deles renovar a civilização e produzir um mundo que seja o reino da força radiante e da beleza triunfal. E parti então para a virgindade destas selvas, com o ímpeto de viver nelas solitário, na exaltação do meu ideal, ou de um dia as transformar em um império branco, que é o desejo e a razão do meu sangue. Viajei longamente até agora. O mar foi para mim a primeira grande sensação da liberdade; sobre ele sonhei, e vivi intensamente o gozo do pensamento puro... mas não vivi o mar, porque não atuei sobre ele, e a vida é a ação...
MILKAU
– O que cada um de nós procura é tão diverso... Também, como tu, deixei terra natal, sociedade, civilização, em troca de bens maiores, de bens eternos. A minha trajetória vem de época mais remota... Depois da morte de minha mãe, o meu primeiro desejo foi sair de Heidelberg e buscar a vida em outra parte. Berlim me atraía, e julguei aí encontrar uma solução à minha existência, então vaga e sem objetivo. O que mais me atormentava era a consciência de que começava a viver por viver, sem interesse na vida. Afastado de qualquer crença religiosa, sem uma ideia moral que fosse meu apoio, o infinito para mim não existia, a sociedade não me preocupava, e a consolação não me podia vir do nada. A minha existência era vagar com os companheiros fortuitos, sem saber onde os meus passos iriam findar. Vivia vacilante e fugitivo, buscando no exterior a calma para o espírito; eram passeios intermináveis, eternas caminhadas pelas ruas, pelos parques da cidade, pelos bosques calados... Mas as minhas cismas eram as mesmas, e eu sempre me prendia ao passado do meu coração, invocando as três imagens dos que amei e cujos retratos povoavam o meu quarto, e elas as minhas saudades. Nesta época a minha não conformação ao mundo era cada vez maior; sentia-me crescer dentro de mim mesmo, numa aspiração indefinível de amor, de calma, de sonho que sempre me fugiam: a minha tortura era infinita, a minha melancolia, acabrunhadora. Minha amada, minha mãe, meu pai... Custava-me já resistir a tanto; a minha doença moral parecia-me irremediável, a mim, torturado de um desejo de realidades, quando tudo me era indeciso e intangível... Nada havia que me prendesse à vida; o que eu amara tinha desaparecido, o que amo hoje não me tinha chegado. Vivia na desilusão; a minha dúvida tinha espaços tão ilimitados que meu espírito oscilava e se perdia no mundo das ideias e das emoções. E então tive aquela ânsia torturante de resolver de qualquer modo, de terminar as minhas vacilações, e, desalentado, procurei realizar a ação pela única forma que me parecia positiva na vida, isto é, pela morte... Mas a contemplação da miséria moral em torno de mim susteve aquilo, a que em minha insânia eu chamava o ato da vontade. Todos os sofrimentos estranhos se infiltravam em minha alma; as lentas agonias e os duros sacrifícios alheios eram pasto da minha piedade. No estado de espírito em que me achava, só tinha inclinação para os que se assemelhavam a mim. Eu sofria, e a Dor pela sua mão forte e santa me conduziu aos outros homens... Refleti: “se todos sofrem e se resignam, é porque a vida é mais desejável que a morte, e não é o suicídio uma salvação que deve ser coletiva. Não se trata de libertar um só dos mártires, é preciso que todos se salvem”... E o suicídio começou a morrer no meu pensamento, enquanto o clarão benfazejo da solidariedade aí apontava... Não me restava agora para combater o desespero senão procurar na mesma vida a razão que me curasse do mal da morte e fosse um desafogo aos meus novos sentimentos. Olhei todas as vias que se podiam abrir diante de mim... Compreendi logo que não podia continuar na posição que tinha de crítico literário em um jornal de Berlim: faltava-me agora o ânimo de falar de livros inspirados em uma arte vazia, sem ideal, e saturada de sensualidade. Convenci-me ainda mais da falsa situação em que estava, fazendo parte do grupo de ignorantes e dogmáticos que, envolvidos nos mistérios da imprensa, exploram os outros homens, cuja credulidade voluntária é ali como em toda parte a forma de sua cumplicidade na perpetuação do mal sobre a terra... E agora para onde ir?, perguntava eu humilhado. Que profissão será a minha neste quadro do mundo? A política? A diplomacia? A guerra?
LENTZ
– Sim, a guerra. Porque ela é forte, é digna. O mundo deve ser a morada deliciosa do guerreiro.
MILKAU
– Aquelas duas vidas, a do político e a do diplomata, eram vãs para quem não escutava a voz da comodidade ou da ambição, para quem não queria definhar na esterilidade e no egoísmo, para quem buscava o que é eterno... A guerra é uma volta ao passado, a um ideal morto para a civilização e de que o meu novo pensamento ainda mais se afastava... Não tinha aonde ir; e neste embaraço a minha crise prolongava-se, pois não era mais escolher entre a vida e a morte, e sim entre qualquer vida e uma vida. Essa uma vida que eu sonhava, que eu queria e por toda a parte procurava, não podia descobrir... Não podia ir às oficinas, ir à indústria, porque aí não encontrava ainda a atmosfera para a minha independência e o meu amor. Não se tratava só de trabalho, tratava-se também de uma livre expansão da individualidade, e a indústria nesta velha civilização é um desfiladeiro apertado de combate no meio da sociedade, que ela divide em senhores e escravos, ricos e pobres... A minha angústia continuava, e por entre esses tormentos a minha existência solitária se ia passando na contemplação reconfortante da Arte. A Beleza entrava no meu espírito como um doce sustento. Ou mirando a linha triunfal da estatuária, ou agitando-me ao vivo movimento do gesto, ou aquietando-me à serenidade da atitude repousada eternamente no mármore, ou embebendo-me na poesia infinita da cor, no enigma insondável da figura humana, o meu espírito descansava e apoiava-se para a existência... E então pus-me a viajar longos dias pelas antigas paragens, onde a arte busca ainda a sua fonte de mistério e rejuvenescimento... Foi pela arte que comecei a amar a natureza, pois até então a minha atenção ao mundo exterior era vaga e incerta: eu só tinha os olhos voltados para o meu caso pessoal, para as minhas cismas longas e indefinidas. No momento em que tratei a arte, em que me possuí da beleza, a minha vista se alongou pelo mundo afora, e eu vi o esplendor por toda a parte. Os panoramas do céu passaram a interessar-me profundamente; dias inteiros a admirar a limpidez da atmosfera, outros a perder os olhos no cristalino do ar, outros a sonhar na imensidade das cúpulas azuis límpidas e infinitas que são o espaço. Vi o mar, o pequeno mar do sul da Europa untuoso e doce, que estreita a terra cheia de anfractuosidades, as quais são abrigos para os homens, mar que não espanta, mar amigo, que é um traço de união entre as gentes; e de outras praias brancas, imensas, espiei o outro mar, o mar tenebroso que apavora, que domina e que é em si mesmo, como a própria liberdade, inacessível, tentador e indomável... O meu deslumbramento pela natureza afastava-me de tudo o que não fosse contemplação. Carregando por toda a parte a minha admiração, sucedia-me passar longos tempos solitário nas florestas, nos lagos e nos campos, num êxtase de louco, a extrair das coisas a suma da beleza. Vivia mais das impressões da luz sobre o quadro onde se desenrola a vida que dos alimentos da terra... No outono o sol abrasa as árvores amarelas, e sobre elas a Morte é uma glória de ouro... No inverno os esqueletos das árvores cobrem-se de branco, como uma paisagem fantástica e morta, e desce sobre a terra uma neve abundante, vadia pelos ares, leve como arminho, farfalhante como areia... No tempo dessa única preocupação reinava em meu espírito um esquecimento das desgraças do passado ou dos cuidados do futuro, e esse olvido me parecia a felicidade pela hipnose com que adormecia a minha consciência. Assim vivi longo tempo, e tão engolfado no meu culto que atravessava estranho e silencioso o mundo. Viajava dentro do meu êxtase, que era como um carro de ouro levado pelos cavalos árdegos da imaginação e transportado pelos caminhos deslumbrantes das regiões plácidas e misteriosas da beleza imortal... Ao estado de desvario artístico sucedia em mim um desejo de mortificação e sofrimento. Ressuscitar, em pleno domínio do sensualismo, a vida solitária dos monges, evaporar a minha animalidade e dissolvê-la na combustão de um sentimento ativo e fecundo, tal foi a nova via por que caminhei. Concentrado num lugarejo encravado no coração dos Alpes da Baviera, absorvi-me no estudo e na cisma...
LENTZ
– E a consolação? Não te veio?
MILKAU
– A princípio iludi-me, pensando que não havia outra existência, tão forte, tão nobre... mas os velhos monges tinham como sustento o consolo da adoração... O meu isolamento era apenas intelectual, uma forma de desdém de mundo, uma expressão mesquinha de quem foge do seu lugar na vida. Depois dos primeiros momentos de prazer e tranquilidade, a minha covardia me atormentava infinitamente, e a solidão passou a ser um estado aflitivo. Hoje, Lentz, quando penso no isolamento a que um homem se consagra, penso sempre no deleite desse refúgio, penso que é um sacrifício, mas também que é uma manifestação de estéril orgulho. O ascetismo é como uma ilha solitária que arde no meio do mar, os seus fogos deslumbrantes têm um fantástico poder de iluminação sobre o mundo, mas as suas labaredas afastam dela os homens... E eu não podia consumir-me nessas chamas, pois já trazia dentro de mim a porção de humanidade que me conduzia à vida. Então, uma manhã desci das alturas... Aqui nos meus olhos ainda tenho guardado até hoje o último espetáculo das montanhas glaciais. Nunca mais tornarei à geleira fumegante, nem sobre os blocos de gelos das brancas e frias pedras verei mais descansar a luz rósea do sol. Paisagem solitária e morta, como se fosse um fundo de mar seco, e sobre ela os fragmentos da vida passando carregados ao sopro do vento gelado... Adeus, montanhas de silêncio, de consolo e de imolação! Quando cheguei abaixo era outro homem. O amor dentro de mim sorria, amparava-me, e um bem-estar infinito nunca mais me deixou. O que eu amava era fazer amar, gerar o amor, ligar-me aos espíritos, dissolver-me no espaço universal e deixar que toda a essência de minha vida se espalhasse por toda a parte, penetrasse nas mínimas moléculas, como uma força de bondade...
LENTZ
– Não, não! A vida é a luta, é o crime. Todo o gozo humano tem o sabor do sangue, tudo representa a vitória e a expansão do guerreiro. Tu eras grande quando a tua sombra sinistra de solitário passeava nos Alpes e amedrontava os ursos. Mas quando o amor penetrou em ti, começaste a minguar; a tua figura de homem vai se apagando, e eu verei o teu semblante um dia sem luz, sem vida, sem força, mirrado pasto da tristeza.
MILKAU
– O princípio do amor me sustenta e protege. Eu sou daqueles que foram por ele consolados... Ia terminar o drama íntimo do meu espírito e concluir-se a passagem dolorosa de um estado de moral hereditária para uma consciência pessoal. Refletindo sobre a condição humana, o meu pensamento se esclareceu, quando vi a marcha da humanidade partindo da escravidão inicial... No princípio era o caos; massas informes apresentavam-se como manchas de nebulosas cobrindo a terra; pouco a pouco desta confusão cósmica os homens se destacaram, e as personalidades surgiram, enquanto os outros ainda jazem informes na matéria geradora. Mas um dia chegará também para estes a hora da criação; o amor os reclamará à vida, pois criar homens é a sua obra. Um dia será a subordinação de tudo a todos para maior liberdade de cada um. É a parábola que descreve a vida, da grande escravidão para a maior individualidade...
LENTZ, Olhando a floresta.
– Vê como tudo te desmente. Esta mata que atravessamos é o fruto da luta, a vitória do forte. Cem combates travou cada árvore destas para chegar à sua esplêndida florescência; a sua história é a derrota de muitas espécies, a beleza de cada uma é o preço da morte de muitas coisas que desde o primeiro contato da semente poderosa foram destruídas... Como é magnífica aquela árvore amarela!
MILKAU
– O ipê, o sagrado pau-d’arco dos gentios desta terra...
LENTZ
– O ipê é uma glória de luz; é como uma umbela dourada no meio da nave verde da floresta; o sol queima-lhe as folhas e ele é o espelho do sol. Para chegar àquele esplendor de cor, de luz, de expansão carnal, quanto não matou o belo ipê... A beleza é assassina e por isso os homens a adoram mais... O processo é o mesmo por toda a parte; e o caminho da civilização é também pelo sangue e pelo crime. Para viver a vida é preciso ir até ao último grau de energia, é preciso não a contrariar. Aqueles que cruzam as armas são os mortos. Os grandes seres absorvem os pequenos. É a lei do mundo, a lei monárquica; o mais forte atrai o mais fraco; o senhor arrasta o escravo, o homem, a mulher. Tudo é subordinação e governo.
MILKAU, olhando a mata
– A natureza inteira, o conjunto de seres, de coisas e homens, as múltiplas e infinitas formas da matéria no cosmos, tudo eu vejo como um só, imenso todo, sustentado em suas íntimas moléculas por uma coesão de forças, uma recíproca e incessante permuta, num sistema de compensação, de liga eterna, que faz a trama e o princípio vital do mundo orgânico. E tudo concorre para tudo. Sol, astro, terra, inseto, planta, peixe, fera, pássaro, homem, formam a cooperação da vida sobre o planeta. O mundo é uma expressão da harmonia e do amor universal. (E apontando para a vegetação no alto de uma rocha.) Na verdade, a vida dos homens na terra é como a daquelas plantas sobre a pedra. O cume da montanha era uma laje estéril, e sobre ela não frutificavam as sementes de árvores e de grandes plantas trazidas pelos pássaros e pelos ventos. Um dia, enfim, trouxeram eles sementes de algas e vegetais primitivos, para os quais o mineral da terra é um alimento. Muito tempo passado, quando aquelas sementes primeiro rejeitadas foram de novo para ali carregadas, já encontraram a terra formada pelas algas e sobre ela medraram, espalhando pelo chão a sombra, protegendo os primitivos moradores da pedra, que então ousaram crescer, entrelaçando-se nos troncos das árvores, no corpo de suas filhas. Do muito amor, da solidariedade infinita e íntima, surgiu aquilo que nós admiramos: um jardim tropical expandindo-se em luz, em cor, em aromas, no alto da montanha nua, que ele engrinalda como uma coroa de triunfo... A vida humana deve ser também assim. Os seres são desiguais, mas, para chegarmos à unidade, cada um tem de contribuir com uma porção de amor. O mal está na força, é necessário renunciar a toda a autoridade, a todo o governo, a toda posse, a toda a violência. É preciso não perturbar a harmonia dos movimentos e da espontaneidade de todos os seres. Diante da obra da civilização o papel de cada um é igual ao do outro: a ação dos grandes e dos pequenos confunde-se no resultado. A história testemunha que a cultura não é somente a obra do crime e do sangue; ao lado da coação moral concorrem as alavancas da simpatia. A obra do passado é ainda venerável, porque é sobre ela que se fundará o futuro. Não amaldiçoemos a civilização que nos veio no sangue antigo, mas façamos que este sangue seja cada dia mais amoroso e menos carniceiro. Que os nossos mais entranhados instintos da animalidade se transformem no voo luminoso da piedade, da dedicação e do amor...
Era finda a viagem. Os dois homens fitavam o sol, que rubro rolava para debaixo das montanhas. Os dois homens fitavam a Morte, que se vinha apoderando docemente das coisas...