VIII
VIII
A passagem da miséria na nova vida de Milkau deixara o seu vestígio perturbador. No espírito dele uma melancolia teimosa se espraiava infinita, vaga, entorpecedora, e agora o pensamento rolava vertiginoso para o desânimo... Não podia esquecer a desgraça de Maria. Não há sofrimento, cismava ele, tão insignificante que não clame aos que passam piedade e reparação com o alarido de cem mil bocas. Não há desgraça pequena. Toda a dor é imensa.
E para afugentar a persistente Tristeza, que o cercava e lhe estendia os braços amorosos, Milkau consagrava-se ainda mais ao trabalho. Já por esses tempos a colônia tinha um belo e florescente aspecto. Todo o “prazo” estava cultivado, e os pés de café, que brotavam num indomável viço, cobriam como um manto a antiga hediondez do roçado. Desaparecera a coivara, o terreno semelhava um verdejante parque cercado das árvores imensas da floresta, apenas interrompida, e a humilde casinha dos dois emigrados estava coberta de trepadeiras, que se abriam em flores, dando àquele jardim ali nos trópicos um perpétuo ar festivo à vivenda.
Milkau era agricultor por instinto, e todas as suas faculdades de atenção, de imaginação, as empregava com desvelo e ardor no trabalho com as próprias mãos, que enobrecia o seu destino humano. Lentz era o caçador. Restringido a um círculo de limitada atividade, o seu espírito, sempre retrógrado, buscava expandir-se nessa forma inicial e selvagem da civilização. Caçava, lutava com os animais, devastava as matas, e aliado a outros colonos de igual inclinação, em poucos meses para ele já não havia segredos na floresta brasileira. No mesmo teto esses dois homens exprimiam duas culturas diferentes. Um oferecia ao mundo façanhas, matanças, sacrifícios de sangue, e o outro, simples lavrador, frutos da terra, flores do seu jardim... Mas, longe do ódio, da luta fratricida, entre esses dois intérpretes sucessivos da vida, formara-se uma atração, uma solda inquebrantável e que ainda significava a imagem dessa impulsiva liga entre todos no mundo, que cada dia será crescente, até se tornar universal e indestrutível.
Milkau trabalhava sempre. E quando, curvado sobre a enxada, a fronte suada, os nervos cansados, um repouso suave, um esquecimento devia adormecer-lhe os pensamentos, lá vinha ainda nesses instantes o tormento da piedade, o contínuo testemunhar da desgraça alheia, com o uma mancha na sua visão radiante.
“Não é no trabalho que está a salvação da miséria, nem o estímulo para o desalento. Que importa que nos fatiguemos, que ensopemos a terra com o nosso suor, que cubramos o mundo de flores saídas das nossas mãos infatigáveis, se ali adiante, ao nosso lado, vive a Dor; se todo esse sangue, essas flores, esses frutos não são bálsamos para aquela ferida estranha!... Que bem fariam a cor, o perfume e o sabor das coisas ao padecer de Maria? Como remediar, sarar a morte do sonho, a decepção, enfim? Também ela não mourejava dia e noite no trabalho, como um forçado? E a consolação lhe vinha? Oh! não, é preciso haver outra coisa no mundo. Outra coisa mais santa, mais poderosa, mais doce, mais divina, mais sutil, mais benfazeja, mais vasta e mais misteriosa... O Amor!...” Assim pensava Milkau, enquanto a enxada, manejada pelos braços inconscientes, cavava a terra.
Várias vezes fora à “colônia”, onde Maria se empregara, para levar-lhe algum conforto. Ela se retraía cada dia mais e nem mesmo a ele confiava os passos do seu martírio. Milkau respeitava esse pejo, e sem insistir em desnudar-lhe o coração recomendava à gente da casa a maior caridade para a desgraçada, pedindo que velassem por ela e a não desamparassem na próxima crise. Os colonos prometiam-lhe tudo, mas na verdade o sentimento deles era outro: tratavam a miserável com desdém, mesmo com rancor, como uma intrusa que lhes ia roubar a tranquilidade, dar-lhes trabalho e aumentar-lhes o custeio da casa. Maria não se queixava. Aos antigos tormentos juntava o desprezo e o ódio dos novos patrões. E ainda assim se agarrava a essas raras migalhas de uma desdenhosa condescendência humana, atormentada pelo medo do doloroso momento, que se aproximava.
Por aquele tempo a vida de Milkau continuava a ser minada pela tristeza. E também para o companheiro, fora a caça, nada havia na colônia capaz de encher-lhe a imaginação. Durante o dia trabalhavam, mudos e abismados nas suas cismas, e era com um passo moroso e incerto que vagavam às tardes pelas habitações vizinhas. Num desses passeios foram até uma colônia, que ainda não tinham visto. À porta estava um ancião, que os convidou a repousar um pouco, e, enquanto a família se entretinha nos arranjos domésticos e no trato dos animais, os dois amigos ficaram a conversar com o velho. Falaram da Alemanha, e o ancião narrou-lhes sem demora traços da sua vida. Era um veterano do exército prussiano cuja memória estava cheia de lembranças da última grande guerra. Lentz se interessava pelos pormenores dessas histórias, e o velho falava satisfeito e vaidoso de entreter os jovens. Na sua narrativa imaginosa passavam cidades estranhas, desfilavam exércitos, estrondeava o tumulto das batalhas, desabavam cargas de cavalaria, a chuva oblíqua da metralha mudava em lama sanguinolenta a miserável e inquieta poeira humana, varrida em turbilhões heroicos pelo tufão da Conquista. O velho soldado terminou por contar que uma vez, num reconhecimento, caíra do cavalo e por cima do peito lhe passara num galope o animal de um camarada, e como, abandonado, a vomitar sangue, fora por um acaso colhido na estrada. Desde então dera baixa e emigrara para o Brasil, onde o clima quente lhe mantinha a vida... A essas lembranças misturava outros episódios da invasão, quadros da cultura estrangeira apenas entrevista e que recolhera à retina com essa sensação de deslumbramento maravilhoso, como a que ficava do minuto de um Bárbaro no seio da civilização... Ainda o apavorava o terror da disciplina. Escapara de ser fuzilado, porque uma noite de dezembro, em França, fazendo parte de uma guarnição, exigira dos moradores da casa onde se acampara uns cobertores. E essa extorsão, além do que era permitido reclamar, ele ia pagando com a vida. Lentz aplaudiu então a Força imortal, que comandava e era temida... E sorria como havia muito tempo não lhe era dado. Entusiasmado, o veterano ergueu-se, e caminhando trôpego levou os vizinhos para dentro da casa para mostrar-lhes velhos retratos de reis, vistas da Prússia, estampas da guerra. Tudo era antigo, mobílias, quadros e lembranças. Tudo ali era uma volta ao Passado.
Em caminho para a colônia, disse Lentz:
– Que consolo senti indo à casa desse velho! Parecia ter penetrado um instante no passado intacto da Prússia.
– Mas é preciso não amares demais esse passado – observou Milkau.
– E por que não me retemperarei nas fontes da minha raça? – perguntou Lentz, com um tom enfático de superioridade.
– Por quê? Porque – respondeu Milkau – o que estimas nesse passado é exatamente o que ele tem de humilhante e vergonhoso. Amas o seu espírito de destruição, o demônio que o agitava, a alma senhoril, a servidão, a guerra, o sangue, tudo o que separa e destrói... Dia a dia será reduzido o campo da veneração pelas instituições da Antiguidade. Amemos o sacrifício feito pelo amor humano, a ciência, a arte... Mas aquele amor inconsiderado por tudo o que é passado, tudo o que foi, é um dos sopros mais poderosos para a desordem universal. E eu tenho que o estudo das coisas antigas, o prestígio das próprias letras mortas são outros tantos venenos que acobardam a alma do homem de hoje e dão um encanto crescente ao mistério da Autoridade... Os que se colocam no passado, aqueles cujas almas se fazem artificialmente antigas, esses são os verdadeiros inimigos do gênero humano, são os pregadores da desordem, os profetas do tédio e da morte.
– Tu sabes bem – interrompeu Lentz –, não é tudo do passado que eu amo, mas regozijo-me quando testemunho nele a ostentação das fortes qualidades humanas da nossa Pátria.
– E que benefício resulta dessa força, dessa grandeza da Pátria?
– Oh! Exatamente o que nela venero é a tendência imperial, a fibra belicosa, a expansão universal, a tenacidade, o gênio militar, a disciplina...
– Mas que é a Pátria?
– A Pátria... ora, Milkau, tu não sabes? É a raça, uma civilização particular que nos fala no sangue, o nosso eu, a nossa própria projeção no mundo, a soma de nós mesmos multiplicados ao infinito. Não há ninguém que fuja da sua atmosfera... Imortal!
– Não, meu querido Lentz, a Pátria é uma abstração transitória e que vai morrer... Sobre ela nada se fundou. Nem arte, nem religião, nem ciência. Nada, absolutamente nada tem uma forma elevada, sendo patriótico. O gênio humano é universal... A Pátria é o aspecto secundário das coisas, uma expressão da política, a desordem, a guerra. A Pátria é pequenina, mesquinha, uma limitação para o amor dos homens, uma restrição que é preciso quebrar.
Entraram em casa e durante a noite largo tempo debateram essas ideias. No dia seguinte, quando Milkau trabalhava solitário, rolava-lhe na cabeça a discussão da véspera; e sentia um mal-estar lembrando-se da viva contrariedade que opusera aos sentimentos do amigo.
“Não há dúvida”, pensava ele, penitenciando-se, “é assim por natureza. Quando dois homens se colocam frente a frente, uma instintiva animalidade surge entre eles, perturbando a simpatia. É o querer inato de subjugar, ou pela força, ou pela superioridade da inteligência, ou pela consciência da própria perfeição. Assim também sou eu; procuro reduzir Lentz a mim, dominá-lo até ao fundo das suas ideias, do seu próprio ser. Oh! orgulho daninho! Quando a própria humildade deixará de ter no seu mais íntimo recesso a desfiguração, o amargor da vaidade, da soberba, do domínio?”.
Milkau reconheceu-se inferior às suas ideias, humilhado por uma força inconsciente. Depois tornava aos mesmos pensamentos. Compreendia que no seu companheiro essa exageração do amor da pátria era talvez um sintoma de nostalgia, uma ânsia pela terra das origens. E não é isso uma consequência doentia da educação patriótica? Mas, naquele instante de angústia, quando por sua vez se examinava mais de perto, revelava-se a si mesmo... Fitou o céu imenso, desvelado, de uma serenidade, de um brilho e de uma firmeza de cristal, e sentiu-se estranho a ele. Admirou ao longe o corte das montanhas, a negrura da mata, a fronde das árvores... Debaixo dos seus pés a terra vermelha, como embebida de sangue, e das plantas tenebrosas o cheiro que tonteia e excita... O morno sossego do Universo... E tudo lhe era estranho. Ele e o Mundo, ele e tudo mais, a dualidade, a distinção irremediável. “Eu não estou em ti, tu não estás em mim... Ainda assim eu te amo, mas tu não és eu.”
Numa dor funda, Milkau, devorado de mágoa, combalido, sentiu-se também expatriado... Não havia entre ele e todas as coisas em volta de si a sutil intimidade que nos prende eternamente a elas, o imperceptível e misterioso fluido de comunicação que faz de tudo o mesmo ser... E percebia, num grande desalento, que o conjunto tropical do país do sol o deixava extático, errante e incompreensível, e que a sua alma emigrava dali, incapaz de uma comunhão perfeita, de uma infiltração definitiva com a terra...
– Que sou eu então? Que verme, que átomo miserável, que se não governa, que não pode amar o que quer, que se não pode identificar com todas as moléculas do mundo? Que sou eu, onde leis imperiosas, perversas, me dominam, me vencem o novo sangue?
Outros vizinhos vieram algum tempo depois se estabelecer no Rio Doce, na campina que saindo da mata morre sobre as águas. Era uma pequena família magiar, composta do pai viúvo, duas filhas e um filho, a que se juntaram outro rapaz da mesma raça, que era noivo de uma das raparigas, e um cigano. Viviam unidos em uma só comunhão de desânimo e de espanto, na casinha feita de madeira tosca, com teto de telhas de pau, incendiada pelo sol nos dias quentes, varada pelo vento, invadida pela chuva nos dias de tormenta. Aí cumpriam o ritual dos costumes pátrios. Sob a pressão cobarde do isolamento, apegavam-se, como a um refúgio, às intactas tradições, transportadas de sangue a sangue e mantidas pelo temor religioso desde os antepassados. O cigano partira também, arrastado pelo instinto vagabundo. Na longa travessia, o eterno caminhante da planície imaginava-se prisioneiro no vapor, que lhe parecia uma jaula movediça e endemoninhada. O oceano contemplado da terra atraía-o pela irresistível sedução da imensidade. Sobre o mar ele não sentia mais liberdade moral. O infinito é uma miragem atormentadora, em que se perde a essência humana... No meio das águas ilimitadas, sitiado pelo perigo, assaltado pelo terror, o espírito, dissolvendo as suas forças vitais numa desagregação contínua, transforma aquela atração impulsiva e ilusória em uma persistente impressão de assombro e de pavor, e a orla de terra que se lhe escapou ao longe, e para onde se volta incessante, recebe os queixumes da saudade. O homem só é senhor da sua individualidade na porção de espaço cujo horizonte pode medir com os olhos, naquilo que é finito e limitado...
Passaram entorpecidamente os primeiros tempos, esmagados pela perspectiva do desconhecido, com a alma em suspensão. Até então não se trabalhara; os homens corriam as vizinhanças, caçavam, vagavam pelos montes e iam aos povoados; as mulheres viviam no lar. Quando caía a sombra, o cigano deitava-se sobre a relva, à beira do rio, e pregava os olhos preguiçosos no poente, vendo morrer o sol. Aos domingos a família se reunia na varanda; o velho a um canto, boné enterrado até os olhos, cachimbo na boca, quilotava repousadamente as longas barbas amarelas e as rugas da cara; as raparigas e os dois rapazes, como legítimos magiares, ornavam-se com as belas roupas do seu país e vinham faustosos e garridos entregar-se ao grande prazer da sua raça, a dança.
Às vezes, Milkau e Lentz nos seus passeios pela margem do rio ficavam-se debaixo de alguma árvore, assistindo àquelas festas no silêncio da grande solidão. O músico era o cigano com o inseparável violino, sentado ao lado do velho. Dado o sinal, os pares punham-se em ordem, e iniciavam as marchas polacas. A música tangia a festa.
Os seus compassos a princípio langorosos iam ganhando movimento e a largos impulsos do som arrastavam os figurantes. Faziam rápidas voltas, meias-luas harmônicas, enroscavam os braços uns nos outros e balouçavam-se cadenciados, como suspensos sobre as notas, formando em sua graça artística grupos de estatuária clássica. Ao findar a contradança, respiravam satisfação, espalhando-se-lhes no semblante o orgulho da sua mestria. Mas o cigano os não deixava sossegar, vibrava o violino, e logo todos sentiam o despertar nervoso da paixão.
Com a rabeca presa sob o queixo e empunhada por uma mão convulsa, enquanto a outra manejava o arco, o músico arrancava do instrumento uns longos e cantantes gritos. Os homens, trazendo chapéu de feltro com lindas plumas, paletó e calça de veludo e à cinta uma larga faixa de seda carmesim, enlaçavam as raparigas, cujo corpinho meio aberto ao colo vestia o busto esbelto, e cujas saias ornadas de veludo e seda lhes envolviam as formas poderosas. Naquele espaço estreito, na varanda quase debruçada sobre o grande rio selvagem, e estranho àquelas melodias, reuniam-se, na fraternidade do destino e da arte, as duas raças, a que tem o sentimento inato da música e a que tem a espontaneidade da dança. Continuava a valsa. Os artistas da dança acompanhavam a loucura da rabeca num voo quase imperceptível e para diante, para diante, por sua vez no sublime surto dos sentidos, improvisavam novas figuras. Quando estavam no auge do prazer, a mais moça das raparigas, amparada nos braços do irmão, deslizava alegre, feliz, com o rosto iluminado, embevecida, a fitar o músico amado, com aveludados e longos olhos, que sorriam primeiro que a boca... E quando a música ia morrendo, a outra rapariga, transportada, em êxtase, a cabeça loura reclinada sobre o ombro do noivo, numa vertigem aérea, respirava a pequenos haustos com a boca entreaberta, sua boca vermelha como o sangue, úmida como o orvalho.
A turma de Felicíssimo voltara para novas medições. O agrimensor depois do trabalho ia todas as tardes conversar na colônia de Milkau, e com a sua vivacidade e alegria entretinha os dois emigrados, contando episódios da sua vida aventureira, cenas do Norte, desse Ceará trágico em cujas areias sedentas e implacáveis se vazam, se fundem na resignação, na dor, na energia e na esperança, a alma dos homens... Quando não havia serviço urgente, Joca juntava-se a Lentz e os dois se embrenhavam no mato, a caçar. Na convivência com esses sertanejos Milkau apaziguava as ânsias em que se vinha batendo seu espírito. A espontaneidade de raça, a coragem e a bondade deles eram novos arrimos para a ilusão...
Nenhum incidente perturbava o calmo viver de imigrantes e trabalhadores, até que uma manhã o agrimensor e os seus ajudantes, sentados à porta do barracão, viram uma mancha preta passar velejando majestosa, serena, no céu claro.
– Urubu!... – disse Felicíssimo.
– Ah! temos carniça por aqui... – opinou Joca, indagando com os olhos atilados o voo do corvo.
A grande ave solitária descia vagarosa, boiando negligente num vasto círculo do espaço, como um barco de velas negras... Logo depois outra subia no horizonte, e não tardou muito que outras mais viessem sujar a limpidez do azul. E daí a pouco se ia baixando e restringindo a um ponto da mata o voo dos infectos urubus que os trabalhadores acompanhavam curiosos e divertidos em suas almas infantis.
– Mas... ali, naquele ponto, é a casa do “bruxo” – observou um dos homens, designando assim a morada do intratável e velho caçador que habitava aquelas margens do rio.
– Vai ver que é algum dos cachorros que morreu... Também, que o diabo os leve a todos... – praguejou o mulato.
– Que a peste os acabe... Malvados!... – ajuntou outro.
– E mais o dono...
– Quá, para mim não morreu bicho nenhum. Se fosse, o velho o teria enterrado, como a um filho – concluiu Felicíssimo.
– Sim... e não haveria carniça.
– Quem sabe se não é o velho que está morto? – conjecturou um trabalhador.
– Homem, é verdade... – acudiu um camarada. – Há dias que o não vejo...
– Quem sabe! também eu... – declararam outros do grupo.
– Vamos ver, seu cadete? – propôs Joca ao agrimensor.
E todos se levantaram e seguiram na direção da morada do caçador. Ao aproximarem-se, ouviram latidos e uivos de cães. Mais perto, quando descortinaram a casa, viram os cães ladrando, correndo como demônios doidos para os urubus que teimavam em baixar à terra. As aves negras rasteavam quase o chão, e, quando os cães se arremessavam sobre elas, erguiam voo e iam pousar logo adiante.
– Vocês não veem?... A carniça é o velho... – gritou numa gargalhada alvar um dos homens.
– Que fedor!... Este diabo está podre há muitos dias, berrou outro. Instintivamente todos pararam, como num conselho.
– Então, seu cadete, que se faz? – perguntou Joca ao agrimensor. – Ora!... vamos a enterrar o velho... Deus lhe perdoe a alma...
Nós lhe cuidaremos do corpo – disse decisivo o cearense.
Os homens não hesitaram mais, agora inspirados pelo impulso de piedade de Felicíssimo, e todos caminharam para dentro do cercado. Vendo-os aproximar-se, a matilha de cães abandonou os urubus e avançou como uma só massa, atroadora, furibunda, terrível, contra os homens. Aproveitando a diversão, os corvos caminhavam no terreiro, e numa dança macabra iam invadindo a casa, num riso infernal, espichando voluptuosos as cabeças petulantes de harpias descabeladas.
Diante do arranco dos cães os homens fugiram, e na porteira da cerca os defensores da casa pararam arreganhando os dentes, uivando, ladrando, as sanguíneas bocas escancaradas.
– Como podemos afrontar essa canalha? – perguntou um dos trabalhadores, quando já estavam fora do perigo.
– Joca, vá com outros buscar os ferros para darmos uma lição àquela cachorrada – ordenou Felicíssimo, saboreando uma vingança.
– Vamos daí – disse Joca, e partiu acompanhado de mais dois.
Os outros ficaram atirando pedras aos cães, que, estacados na cancela, não se arredavam, furiosos e tremendos. Os urubus, descendo em maior número dos ares, continuavam em cortejo a penetrar na casa. Um horrível e crescente fétido mesmo a distância tonteava os homens, dando-lhes ânsias de vomitar.
– Oh! que demora – resmungava impaciente Felicíssimo, esperando na estrada a volta de Joca. E ia gritando: – Pedra, rapaziada! mão certeira!
Os cães latiam, mostrando os dentes brancos e afiados... E os urubus continuavam a baixar do céu... Afinal, pela estrada vieram correndo esbaforidos Joca e os companheiros, carregados de enxadas, foices e paus. Cada um se armou, e Felicíssimo ordenou com entusiasmo:
– Agora, avança, meu povo!
Os homens resolutos e raivosos precipitaram-se sobre a cancela, que ao choque dos seus corpos unidos espatifou-se, dando-lhes passagem; os cães não retrocederam e lançaram-se sobre eles, mordendo-os desesperadamente. Os invasores berravam na dor:
– Mata! mata!
E a pau e foice arremeteram-se contra os animais. Num momento estavam os agressores todos rotos, e o sangue lhes corria das feridas. E da peleja, umas vezes saía um cão gritando, ganindo, quando uma paulada certeira e furibunda lhe quebrava as pernas, outras eram homens que, debandados, isolados, fugiam pelo terreiro, perseguidos... Estes trataram logo de se unir, traçando com os instrumentos um círculo de defesa:
– Não afrouxem! – ordenava Felicíssimo.
– Avança! Avança!
– Para dentro!... para dentro!...
Recuaram os cães ante a energia do ataque; e correndo sumiram-se como por encanto. Os homens, indo-lhes no encalço, penetraram na casa, brandindo as armas... Mas, entontecidos pelo cheiro sufocante, estacaram indecisos e apavorados diante de um quadro medonho. Dentro, os urubus comiam um cadáver humano que jazia por terra, o corpo do solitário e abandonado imigrante. Os olhos tinham sido devorados, e as cavidades imensas e rubras escancaravam-lhe a testa. Alucinados em seu gozo satânico, os corvos, sem dar fé da gente, continuavam a picar, a comer, avidamente, embebidos. Os cães, esquecidos deles, faziam frente aos invasores.
– Xô! Xô, canalha – atroou um grito de Joca, desesperado de nojo.
E num ímpeto de compaixão avançou para o cadáver para livrá-lo dos urubus. Agarrando-o pelas canelas e pelas roupas, os cães o detiveram... Os camaradas acudiram prontos em sua defesa. Diante do alarido da luta, os urubus esbordoados largaram a presa, e, abrindo as asas, espalhando com o voo ainda mais o fedor, incapazes de se afastarem daquela nauseabunda atmosfera, pousaram morosos, pesados, nas traves da casa, e aí se postaram fúnebres, medonhos, como testemunhas do combate dos homens e dos cães... Quando Joca conseguiu tocar o cadáver, recrudesceu o furor das feras. Não temiam mais os ferros e os cacetes e atacavam os inimigos, que se apossavam do amo... Foi um desvario: homens e animais se batiam corpo a corpo, se feriam, se despedaçavam, como num combate de doidos... Os homens estavam estraçalhados, e sobre as pernas nuas e brancas de muitos deles corria um sangue quente... Guinchando, os cães morriam, estorcendo-se como possessos e atirando-se sobre o cadáver do velho. Depois de muito tempo de luta, alguns trabalhadores puderam apossar-se do corpo e o foram carregando para fora, enquanto os companheiros os defendiam num esforçado arrojo. O resto dos cães ainda arremetiam contra eles, mas eram logo mortos... Os que ainda restavam não esmoreceram e mais alucinados investiam. Um deles cravou as presas na coxa de um homem com tal fúria que este, picando-o com o ferro e tentando arrancá-lo com as mãos, não conseguiu. O cão cada vez mais se enterrava pelas suas carnes adentro... Correu outro homem em seu socorro e com um certeiro e violento golpe de foice cortou o pescoço do animal; a cabeça ficou segura na carne da vítima e das artérias rotas jorrava o sangue...
Não havia mais cães a matar. O terreiro ficara alastrado de corpos decepados, mutilados, de membros esparsos. Os homens maltratados, doloridos, deitaram no chão o velho. Em revoada, os urubus vieram assanhados para o terreiro, avançando impávidos para o cadáver, que os trabalhadores extenuados já lhes queriam abandonar.
– Não! – gritou zangado Felicíssimo. – Não! Havemos de enterrar o pobre velho... Era só o que faltava, seus miseráveis!... Pega enxada!
E o cearense agarrou também numa delas e começou a cavar a cova. Muitos, murmurando, obedeceram. Alguns, porém, ficaram enxotando as aves.
– Mais funda! – ordenou ainda o agrimensor. – Assim, os urubus o desenterrariam... Faz dó ver uma pobre criatura de Deus desamparada, sem ninguém neste mundo, comido por estes sujos...
Em breve a cova ficou pronta e nela enterraram o imigrante caçador. Felicíssimo ajoelhou-se e rezou: – Padre nosso, que estais no Céu... Dominados por uma compaixão súbita e estranha os homens rudes ajoelhavam-se e de chapéu na mão, tristes, acabrunhados em face da morte, que só agora se lhes revelava, rezaram. Depois, mudos, encheram a cova de terra. À medida que o cadáver ia sendo coberto, remontavam os urubus um a um às alturas secretas.
Naquela noite, quando os trabalhadores da turma de Felicíssimo se reuniram à porta do barracão, ouviram na mata um clamor, uma roncaria aterradora, quebrando o silêncio benfazejo. Era uma vara de queixadas que passava. E Joca explicou:
– Lá vão as almas dos cachorros, feitas caititus para desenterrar e ressuscitar o velho demônio...
Formava-se assim um novo mito no Rio Doce. Nas noites de tempestade ainda hoje, quando o caititu matraca no mato, todos se recolhem medrosos, melancólicos, pensando nos cães encantados...
Ao amanhecer de um dia de nevoeiro, a paisagem perdera o seu contorno exato e regular. As linhas definitivas dos objetos confundiam-se, as montanhas enterravam as cabeças nas nuvens, a cabeleira das árvores fumegava, o rio sem horizonte, sem limite, como uma grande pasta cinzenta, ligava-se ao céu baixo e denso. O desenho apagara-se, a bruma mascarava os perfis das coisas e o colorido surgia com a sombra numa sublime desforra. Por toda a parte manchas esplêndidas se ostentavam. E sobre a campina esverdeada, vaporosa, uma dessas manchas, ligeiramente azulada, movia-se, arqueava-se, abaixava-se, erguia-se e se ia lentamente dissipando. O sol não tardou a vir, e a natureza sacudiu-se, a névoa fugiu. O céu espanou-se e dilatou-se em maravilhosa limpidez. A mancha móvel sobre a planície definiu-se no perfil de um pobre cavalo que passeava na verdura os seus olhos de velhice e fadiga, tristes e longos. De passada, com os túmidos e negros beiços, afagava a erva, triturando-a com fastio e desânimo, enquanto a sua atenção de cavalo experimentado estava voltada para a cabana, a cuja porta os seus donos, os novos colonos magiares, o miravam com interesse. A neblina leve, veloz, vinha distraí-lo daquela postura de curiosidade humilde, e acariciava num frio elétrico o seu pelo ralo e falhado. Estremecia num gozo manso, e estendendo o focinho, arregaçando os beiços, sensual e grato, beijava o ar. Não mais encontrava a névoa, que fugira para os montes, levada pela brisa, como se fosse o imperceptível véu que envolvesse alguma deusa errante e retardada. Um raio de sol, porém, descera a brincar-lhe nos olhos e incendiava-lhe a pupila. Meiguices da natureza.
Um dos jovens magiares, levando uma corda, caminhou para o cavalo. O animal entregou-lhe a cabeça numa mistura de abandono e tédio. O rapaz passou-lhe o cabresto e o levou ao poste fronteiro à casa, onde o amarrou. Os colonos tinham resolvido principiar naquele dia a plantação do prazo, e o velho deu ordem de partir para a queimada. Os filhos armaram-se das ferramentas de lavoura, o cigano, saindo de sua modorra e apenas armado de um chicote, acompanhou os outros, que, desamarrando o cavalo, seguiram com ele para o roçado. As raparigas que ficavam em casa cheias de instintivo pavor viam o grupo afastar-se vagarosamente.
Chegaram ao aceiro que, aberto como uma larga ferida sobre o dorso da terra, era um sulco de alguns metros de largura, circundando a queimada. Da mata carbonizada ainda resistiam de pé alguns troncos despojados, enegrecidos. Milkau e Lentz, passeando àquela hora, passaram perto do roçado e viram chegar aí o grupo dos vizinhos.
– Ainda bem – disse Milkau –, eles vão trabalhar, fazia-me dó ver esta gente apática, irresoluta, entorpecida na preguiça.
– Mas para que trazem eles quase arrastado aquele cavalo? perguntou Lentz.
E os dois se afastaram um pouco e ficaram a distância, acompanhando os movimentos do grupo.
O velho colono segurou o animal pelo cabresto e o colocou no meio da vala. Os filhos puseram-se de lado, num recolhimento religioso. O pai puxou o cavalo para a frente. De chicote em punho, o cigano seguia atrás, e a primeira vergastada, cortando o ar num sibilo, caiu em cheio sobre o animal. Este, como arrancando-se de si mesmo, pinoteou assustado. Novas lambadas foram arremessadas por mão vigorosa. Estirou o cavalo o pescoço para a frente, abaixou-se, alongou-se, encostando quase o ventre a terra, como para se libertar do flagelo que lhe vinha do alto. Os seus membros se estorciam, confrangidos sob a dor imensa. E desapiedadamente, puxavam-no para diante, levando-o ao furor do açoite. Naquele sacrifício cumpria-se uma missão sagrada: ligava-se à nova terra o nervo da tradição da terra antiga. Quando os antepassados tártaros desceram do planalto asiático, e no solo europeu renunciaram à vida errante dos pastores, para lavrar o campo e buscar na cultura a satisfação da vida, sacrificaram aos deuses o velho companheiro de peregrinação nas brancas estepes. E, assim, a imolação ficou sempre no espírito dos descendentes como um dever, cujas raízes se estendem até ao fundo da alma das raças.
Continuava o grupo a caminhar. O velho, como um sacerdote, conduzia a vítima, seguida do cigano, em cujo rosto se recompunha a antiga expressão infernal e terrível dos antepassados, num retrocesso harmônico e rápido, produzido pelo singular efeito da paixão sanguinária. Os outros assistiam mudos à cerimônia. O chicote vibrava incessante; as suas pontas de ferro cortavam o lombo do animal. O ar leve e frio, penetrando nos fios de carne viva, causava uma dor fina, aguda, acerba, e a vista e o cheiro do sangue excitavam ainda mais a energia do flagelador. Veio-lhe uma histérica insensibilidade, uma rudimentar anestesia, uma assassina obsessão. Estonteou-o uma vertigem, mas o açoite não parou. Os sulcos na carne abriam-se mais fundos; o sangue escorria frouxo. Mofino de dor, o cavalo prosseguia arrastado, regando a terra. Gotas vermelhas respingavam sobre a descoberta cabeça do velho magiar, de uma brancura de açucena. As suas narinas dilatavam-se em lânguido gozo. Cavos gemidos ressoavam no peito da besta. E no seu olhar infinito de moribundo traduziam-se os humildes protestos e os tímidos apelos de misericórdia.
E o relho soava, enquanto o mártir ia lento, de pescoço estirado, pernas trôpegas, esvaindo-se pelas veias abertas, como torneiras de sangue. O cigano mais terrível, mais feroz, transfigurava-se, e da sua garganta afinada irrompeu brusco, sonoro, o canto de guerra dos velhos tártaros. O chicote cruel e rápido marcava o compasso desse ritmo estranho. O contágio do furor apoderou-se dos outros, que, imobilizados, assistiam ao sacrifício. E embriagados pouco a pouco pelas frases da música, pela sugestão do rito, pelo odor de carne sangrenta, acompanhavam o canto, num coro infernal. O animal, exausto, caíra de lado, como um peso inerte. O açoite inexorável ainda o levantou uma vez, e no solo, como numa verônica, ficou estampada a imagem do seu corpo, impressa em sangue. Prosseguia sem interrupção, fogoso, lúgubre, o canto que feria asperamente o ar, e era o eco da melodia satânica da morte. O cavalo deu mais alguns passos, cambaleando como um alucinado, e afinal prostrou-se sobre a terra. Arquejante, resfolegando num espaçado estertor, morria vagarosamente. Nas suas pupilas de moribundo fotografaram-se num derradeiro clarão as fisionomias dos algozes. E essa imagem medonha, que se lhe guardara no interior dos olhos, era a infinita tortura que o acompanharia além da própria morte, presidindo à dolorosa decomposição da sua carne de mártir.
Cessaram as vozes. Os homens agruparam-se em torno do cadáver, rezando como fantasmas loucos. Poças e fios vermelhos manchavam o sulco. A camada de argila, lisa, escorregadia como uma couraça, tornava o seio da terra impenetrável ao sangue, que, sorvido pelo sol, se evaporava e dissolvia no ar. Era a rejeição do sacrifício, o repúdio da imolação, rompendo a cruenta tradição do passado. A nova Terra juntava a sua contribuição aos límpidos ideais dos novos homens...
– E para quê? – dizia Milkau comovido até às lágrimas, – e para que a tortura, a fecundação pelo sangue, se Ela, risonha e alegre, como uma rapariga bela e fresca, lhes daria os seus frutos, cedendo tão somente às brandas violências do amor?...