III
III
Milkau, sentado à porta da pequena estalagem de Santa Teresa, onde dormira, estava contemplando a vida que se despertava em torno quando Lentz, saindo por sua vez do quarto, veio encontrá-lo com uma expressão repousada e jovial, levemente excitado pela frescura e sutileza do ar. Milkau alegrou-se vendo o seu companheiro de destino e saudou-o com um sorriso de ternura. Pouco depois, iam juntos pela pequena povoação agora acordada e radiante na sua ingênua simplicidade. As pequenas casas, todas brancas e toscas abriam-se, cheias de luz, como olhos que acordassem. Assim escancaradas e iguais, se enfileiravam em ordem. O seu conjunto uniforme era o de um pombal suspenso na altura silenciosa da montanha. Em roda, circunscrevendo a povoação, um parque verde assinalado de árvores salteadas, e por onde passavam cantantes fios de água corrente, que eram a alma da paisagem.
Os dois imigrantes sentiam-se transformados por uma paz íntima, por uma consoladora esperança, diante do quadro que lhes mostrava a população. Viam todo o povo trabalhando às portas e no interior das casas com tranquilidade, e todas as artes ali renascer na singeleza do seu espontâneo e feliz início. Era um pequeno núcleo industrial da colônia. Enquanto por toda a parte, na mata espessa, outros se batiam com a terra, aquela pouca gente se entretinha nos seus humildes ofícios.
Milkau e Lentz percorriam o lugarejo, notando a música vivaz e alegre formada pelos vários ruídos do trabalho. Na sua oficina, um velho sapateiro de longa barba e mãos muito brancas e esguias batia sola. Lentz achou-o venerável como um santo. Um alfaiate passava a ferro um pano grosso; mulheres fiavam nos seus quartos, cantarolando; outras amassavam o trigo e preparavam o pão, outras, em harmônicos movimentos, peneiravam o milho para o fubá; sempre o pequeno trabalho manual, humilde e doce, sem o grito do vapor e apenas, como única máquina, um pequeno engenho para mover os grandes foles de uma forja de ferreiro, que a água de uma represa fazia rodar com estrépito sonoro. E todo esse ruído era vivo e abençoado, todo ele se entretecia sem violência, e mesmo o malhar do ferro não destoava do metálico clangor de uma clarineta, em que o mestre da banda de música de Santa Teresa dava a lição matinal aos seus discípulos. Havia uma felicidade naquele conjunto de vida primitiva, naquele rápido retrocesso aos começos do mundo. Ao espírito desmedido e repentista de Lentz esse inesperado encontro com o Passado parecia a revelação de um mistério.
– Isto é uma glória – disse ele, interrompendo o silêncio em que iam – estes pobres que trabalham mediocremente com as próprias mãos estes homens que se não mancham nos fumos do carvão, que se não embrutecem no barulho das máquinas, que conservam toda a frescura da alma, que se bastam a si mesmos, que fazem cantando o pão, as vestes... são os criadores simples e naturais, e a criação é neles uma feliz satisfação do inconsciente.
Milkau também admirava, orgulhoso de ser homem naquele alto de montanha, onde o trabalho tinha o seu cenário tranquilo; mas, como enxergasse no louvor de Lentz o espírito negativo deste, observou:
– Realmente, é um belo quadro esse que vemos, e o espetáculo de um trabalho livre e individual nos embriaga de prazer. Mas no fundo assistimos a um começo de civilização; é o homem que ainda não venceu grande parte das forças da natureza e está ao lado dela numa postura humilde e servil.
– Mas quem pode negar que o homem, servo da máquina, se vai afundando num embrutecimento pior que o do selvagem? – replicou Lentz.
– Para mim há uma ilusão nesse sentimento romântico.
Sim, a máquina, especializando e eliminando os homens, tirou-lhes a percepção integral da indústria; hoje, porém, que o homem a transformou em um instrumento de movimentos próprios, ele se libertou, readquiriu a sua inteligência, dirigindo o maquinismo engrandecido quase à altura de um operário. Nós não podemos fazer que a massa da civilização retroceda a esse antigo período da indústria. A poesia que há nele é o perfume misterioso do passado, para o qual nos voltamos atemorizados; mas há também uma poesia mais forte e mais sedutora na vida industrial de hoje, e é preciso considerá-la pelo seu prisma luminoso como uma aurora...
– Pois eu – repetia Lentz inabalável, enquanto passeava ao lado de Milkau, – tenho como sagrada toda essa gente; merecem mais o meu amor que essa infinidade de proletários, cheios de ambições, famintos e pavorosos, procurando governar o mundo. Ao menos estes aqui, puros de todo o pecado de orgulho, são bons e ingênuos e suportam o seu jugo com um sorriso.
Passearam ainda algum tempo, sentindo uma entranhada dificuldade em abandonar aquele lugar. Dirigiram os passos para os caminhos que abeiravam Santa Teresa. Procuravam as pequenas elevações, giravam abaixo e acima pelo parque, paravam à porta das casas, miravam atentos o serviço que nelas se fazia, sorriam às crianças, e, perseguindo com olhos de admiração as saudáveis raparigas, enrubesciam-nas. E em tudo isso se recreavam mansamente, deixando-se ir na inconsciência desses atos espontâneos, que os retinham alguns minutos no povoado. Mas afinal tiveram de se arrancar ao descuidado repouso. Uma filha da hoteleira levou-os até à boca do caminho do Timbuí. Com mil perguntas a prenderam uns instantes, agradados do seu rosto delicado, da sua forte e fulva cabeleira. Lentz via na rapariga uma divindade estranha naquela floresta verde, mas uma divindade meiga como eram os habitantes de Santa Teresa. A jovem estendeu o braço longo indicando-lhes o caminho. Eles admiraram-lhe o gesto, o ar, a graça, e partiram como num sonho.
A princípio iam meio apreensivos e calados, como quem parte para o desconhecido. A estrada por cima dos morros descampados ora descia, ora subia. O panorama largo, ousado, fecundo, variava de aspectos, cheio de montes, vales, florestas, ribeiros e cascatas. Era um trecho de uma região poderosa e opulenta da terra brasileira. Dentro dela se abrigava a multidão de bárbaros e de estranhos ali recebidos com brandura e carinho. Milkau e Lentz passaram pelas casas de colonos agricultores, as quais viam pela primeira vez, e, sem nelas penetrarem, punham-se a mirar de fora esses retiros encantados de verdura, de tranquilidade e abundância. E as casinhas sucediam-se por todo o vale, abrigadas umas no fundo seio dos morros, outras dependuradas na encosta destes, todas com disposição e graça uniformes.
Havia fumo em todas as chaminés, mulheres em suas ocupações domésticas, animais e crianças debaixo das árvores, homens metidos na sombra fresca dos cafezais que rodeavam as habitações. E os dois imigrantes, no silêncio dos caminhos, unidos enfim numa mesma comunhão de esperança e admiração, puseram-se a louvar a Terra de Canaã.
Eles disseram que ela era formosa com os seus trajes magníficos, vestida de sol, coberta com o manto do voluptuoso e infinito azul; que era animada pelas coisas; sobre o seu colo águas dos rios fazem voltas e outras enlaçam-lhe a cintura desejada; as estrelas, numa vertigem de admiração, se precipitam sobre ela como lágrimas de uma alegria divina; as flores a perfumam com aroma estranho, os pássaros a celebram; ventos suaves lhe penteiam e frisam os cabelos verdes; o mar, o longo mar, com a espuma dos seus beijos afaga-lhe eternamente o corpo...
Eles disseram que ela era opulenta, porque no seu bojo fantástico guarda a riqueza inumerável, o ouro puro e a pedra iluminada; porque os seus rebanhos fartam as suas nações e o fruto das suas árvores consola o amargor da existência; porque um só grão das suas areias fecundas fertilizaria o mundo inteiro e apagaria para sempre a miséria e a fome entre os homens. Oh! poderosa!...
Eles disseram que ela, amorosa, enfraquece o sol com as suas sombras; para o orvalho da noite fria tem o calor da pele aquecida, e os homens encontram nela, tão meiga e consoladora, o esquecimento instantâneo da agonia eterna...
Eles disseram que ela era feliz entre as outras, porque era a mãe abastada, a casa de ouro, a providência dos filhos despreocupados, que a não enjeitam por outra, não deixam as suas vestes protetoras e a recompensam com o gesto perpetuamente infantil e carinhoso, e cantam-lhe hinos saídos de um peito alegre...
Eles disseram que ela era generosa, porque distribui os seus dons preciosos aos que deles têm desejo; a sua porta não se fecha, as suas riquezas não têm dono; não é perturbada pela ambição e pelo orgulho; os seus olhos suaves e divinos não distinguem as separações miseráveis; o seu seio maternal se abre a todos como um farto e tépido agasalho... Oh! esperança nossa!
Eles disseram esses e outros louvores e caminharam dentro da luz...
Já traziam cinco horas de Santa Teresa quando chegaram à margem do Rio Doce. Mal tiveram tempo de dar uma vista d’olhos pela redondeza, porque, saindo de um barracão verde ali situado, o agrimensor Felicíssimo se lhes dirigiu com o triângulo moreno do seu rosto escancarado num grande riso de vida e bondade.
– Então – gritou de longe, – isso são horas de chegar?
E sem esperar resposta foi ao encontro dos dois alemães, com as mãos estendidas... Milkau pensou que era o gênio da raça originária e senhora daquela terra que se lhes deparava, numa alegria estrepitosa e confortante.
– Ah! meu caro – disse Lentz, – por um pouco ficávamos por esses caminhos, ajoelhados, adorando esta sua bela terra.
– Não há dúvida, isto é mesmo um paraíso – concordou com entusiasmo o agrimensor.
E os outros começaram a contar-lhe com exaltação as suas primeiras impressões. Felicíssimo, porém, interrompeu-os, preocupado pelo instinto da hospitalidade.
– Onde almoçaram? Posso arranjar aqui alguma coisa para entreterem o estômago...
– Obrigado – disse Milkau. – Ao sairmos de Santa Teresa, comemos alguma coisa que trazíamos e depois no caminho nos fartamos de laranjas no pomar de uma velha colona. Ainda lhe trazemos algumas aqui. Veja que beleza de fruta!
– Ainda não viram nada – respondeu o agrimensor, recebendo as laranjas. – Não estraguem a admiração, porque têm muito de que ficar de boca aberta. Olhem, não há Brasil como este, e em tudo!
Encaminharam-se para uma meia-água coberta de zinco, onde o agrimensor tinha o escritório, cujo arranjo não podia ser mais simples: alguns instrumentos de campo, ao canto, sobre uma mesa dois ou três grandes livros que eram o registro dos prazos arrendados aos colonos, e na parede um grande mapa dos lotes de terra da região. Nem um livro de leitura, nem o quadro mais humilde, nem uma fotografia; apenas um maço de jornais para desabafo da curiosidade do cearense. Felicíssimo fazia também desse barracão o seu quarto de dormir, de uma singeleza nômada. Ao lado havia outro puxado maior, que era o alojamento destinado aos imigrantes, enquanto esperassem levantar nos lotes as suas casas. Era espaçoso e arrumado como um dormitório de hospital, tendo ao fundo uma pequena cozinha. Felicíssimo, porém, abrira gostoso uma exceção para os dois estrangeiros, agasalhando-os no barracão do escritório. Os hóspedes agradeceram ao brasileiro amável e, abancados todos no quarto de dormir, travaram conversas nas quais os imigrantes se foram informando de muitas coisas do lugar, até que o agrimensor, sentindo que o sol baixava, lhes disse:
– Ande daí, gente! vamos escolher os lotes.
Passaram para o escritório, e diante da planta dependurada acrescentou:
– Para mim, o que mais lhes conviria seria o número dez. Aí a terra deve ser esplêndida. O diabo é que está enterrado em plena mata e vão ter muito trabalho para fazer a limpa... Mas olhem que na verdade vale o esforço.
E Felicíssimo, de varinha em punho para apontar no mapa, todo assanhado, interrogava os outros. Milkau, sem se preocupar muito com a escolha e querendo ceder por delicadeza à opinião do agrimensor, aceitou o lote proposto. Ele se rejubilava naquele dia glorioso com a miragem de um grande e santo labor.
Preparavam-se para sair. Chegando à porta, Felicíssimo farejou o tempo, com ares de entendido, refletiu e ponderou aos companheiros:
– Daqui ao lote dez é um pedaço; não teríamos tempo de ir e voltar com o dia. Mas se fazem questão...
– De forma alguma – respondeu Lentz. – É melhor ficar para amanhã.
Uma doce fadiga entorpecia os viajantes, e eles, deitados sobre a relva junto à casa, em companhia do cearense, ouviam-lhe as histórias, cismavam em coisas vagas e miravam o rio passar preguiçoso...
Um grupo de homens armados de ferramentas de campo apareceu a distância. Vinham vagarosamente, arrastando-se pela estrada descampada junto à praia do rio. Percebendo de longe que havia gente nova, caminhavam silenciosos, com o impulso sinistro e reservado que é o primeiro movimento do homem para o homem... Chegados que foram, saudaram surdamente e calados entraram no interior do armazém para guardar as ferramentas. Felicíssimo, vendo-os passar tão estranhos, ficou surpreendido e gritou-lhes:
– Então, camaradas! o rumo está acabado?
– Pronto! – disseram, passando sem parar, a um só grito, feito da voz de todos, e entreolhando-se espantados por terem respondido ao mesmo tempo, fazendo coro.
Milkau e Lentz admiravam a robustez daqueles homens com pulsos de ferro, torso hercúleo, barbas avermelhadas, olhos de um azul de abismo, muito parecidos como um grupo de irmãos. Somente havia um mulato, que entre eles se destacava. Tinha a cara mascarada pelas bexigas; era bronzeado, usava uma pequena barba anelada e falha e o cabelo curto em pé sobre a testa. Com os olhos rajados de sangue e os dentes pontiagudos de serra, tomava por vezes a aparência de um sátiro maligno; mas essa impressão não era frequente, e rapidamente a desmanchava um riso fácil e ingênuo. No meio da massa indistinta dos companheiros louros e pesados, o cabra brasileiro tinha um ar vitorioso, um ar espiritualizado. Não havia, na verdade, entre ele e a terra um remoto convívio, perpetuado no sangue e transmitido de geração em geração?...
Pouco a pouco os homens foram se aproximando dos recém-chegados, ouvindo-lhes silenciosos a conversa. Como o sol se punha e as águas do rio se faziam cor de sangue, Felicíssimo apontou para o céu, mostrando a Milkau e a Lentz os bandos de aves que passavam na iluminação do crepúsculo, em longas teorias harmônicas.
– Ah! Um bom tiro! – exclamou o mulato, saboreando com melancolia os efeitos criados em sua imaginação de caçador.
– Qual, Joca, ali tu não apanhavas nada, cabra... – disse-lhe a rir Felicíssimo, em alemão.
Os camaradas aplaudiram.
– Aposto, seu cadete – replicou o mulato com fanfarrice. – Se eu tivesse uma boa arma, não ficava um bicho daqueles voando. Era só pontaria no da frente... e se a arma fosse espalhadeira, havia de se ver...
As aves em bando continuavam serenas e soberbas no seu voo. Outras vinham ao longe... Joca olhava, seguindo-as pesarosamente.
Admirava-se Lentz do modo corrente por que o mulato falava alemão, apesar de rechear a frase de vocábulos brasileiros. E, dirigindo-se aos trabalhadores alemães, perguntou-lhes se falavam a língua do país. Responderam que não. E Felicíssimo observou a propósito:
– Olhe, não se admire desses homens que estão aqui há um ano ou pouco mais. Há gente na colônia, entrada há mais de trinta anos, que não fala uma palavra de brasileiro. É uma vergonha! O que acontece é que os nossos tropeiros e trabalhadores todos falam o alemão. Não sei, não há povo como o nosso para aprender as línguas alheias... Creia que é um dom natural...
Joca aprovou convicto e ajuntou que ele mesmo já falava mais alemão que a sua língua e arranhava um pouco o polaco e o italiano. No fundo do pensamento de Lentz houve um pequeno júbilo por essas confirmações da insuficiência do meio brasileiro para impor uma língua. Essa fraqueza não seria a brecha para os futuros destinos germânicos daquela magnífica terra? E pôs-se a cismar, com os olhos abertos e fulgurantes.
– Não estará longe o dia – considerou Milkau, – em que a língua dos brasileiros dominará no seu país. O caso das colônias é um acidente, devido em grande parte à segregação delas no meio da população nativa. Não digo que os idiomas estrangeiros não influam sobre o idioma nacional, mas desta mistura resultará ainda uma língua, cujo fundo, cuja índole serão os do português, trabalhado na alma da população por longos séculos, fixado na poesia e transportado para o futuro por uma literatura que quer viver... (E sorria, dirigindo-se a Lentz.) Nós seremos os vencidos.
Isso agradou a Felicíssimo. Joca, que de tudo só apanhou a frase final, olhou com superioridade a massa de seus companheiros alemães. A profecia dava-lhe desde já um orgulho de vencedor.
Enquanto a conversação se ia desenrolando mansamente, viram passar pelo caminho, à beira do rio, um velho muito alto e magro, armado de espingarda e carregando um animal morto a gotejar sangue pelas feridas, que Joca declarou ser uma paca. O caçador era seguido por um bando de cães que o rodeavam ou precediam, todos muito árdegos, de orelhas ora empinadas, ora baixas, exaustos da caçada, boca aberta e língua de fora, trêmulos, nervosos, a resfolegar, queimando o ar frio com ardente e inquieta respiração, numa combustão que os envolvia de ligeiro fumo. O caçador caminhava com passo rápido, os cães o acompanhavam ganindo e excitados pelo cheiro de sangue que escorria da caça.
– Ah! – murmurou Joca com pena, – se nós apanhássemos aquele bichinho para a panela.
O caçador passou sem os cumprimentar.
– É um selvagem – disse Felicíssimo.
– Mora por aqui? – interrogou Milkau.
– É o vizinho mais perto do barracão, mas nem por isso nos salva... passa pela gente como se fôssemos cachorros... – respondeu Joca.
– Há de ser algum solitário – supôs Lentz.
– Um arredio – explicou o agrimensor, – não fala com pessoa alguma que eu saiba, vive só com aqueles cachorros, que são valentes como feras.
E o velho sempre caminhava, indiferente ao grupo de homens que o observavam, até que se sumiu no mato.
Continuavam a tratar da vida singular que levava o caçador, quando um dos camaradas se achegou a Felicíssimo, prevenindo-o de que podiam ir cear. Ergueram-se da relva, uns espreguiçando os braços, outros bocejando, e tranquilos e morosos entraram todos em casa.
Os trabalhadores do barracão armaram a mesa das refeições no dormitório dos imigrantes e aí puseram-se a cear. A comida era simples e pobre, o peixe salgado e a carne seca, alimentação habitual dos homens do campo nos lugares do seu serviço; e todos se banqueteavam alegremente, alguns num prazer discreto e moroso, outros espertos e faladores como Felicíssimo e Joca. Lentz olhava agora as duas raças, ali reunidas à mesa; admirava o que havia de sólido e repousado nos gigantes alemães, enquanto a facúndia interminável e mole do cearense e do mulato lhe trazia a sensação do enjoo de mar.
No entanto, Milkau estava solícito com todos, alegrando-se naquela comunhão entre as raças distintas, vendo alargar-se o destino da sobrevivente mesa comum que caía dos tempos como uma relíquia do patriarcado.
A sala era alumiada por um lampião de querosene e a luz turva e indecisa, mas suficiente para que os novos colonos pudessem distinguir a fisionomia de cada trabalhador europeu até então para eles confundidos numa só massa. Uns eram já homens maduros e experimentados por longos sofrimentos, outros novos e joviais, geralmente fortes, e mostrando uma calma indolente nos movimentos e nos olhos um longo descanso. Comiam mais ou menos igualmente com medo e devagar. Além do fundo uniforme da sua própria classe, uma longa intimidade lhes dera em muitos pontos uma só feição.
Entreteve-se Milkau, para conversar com os seus patrícios, em indagar dos lugares donde era cada um deles. Quase todos procediam da Prússia Oriental, da Pomerânia; havia, porém, alguns que vinham das bandas do Reno.
– De que lugar é? – perguntou Milkau ao trabalhador mais idoso.
– De Germershein.
– Então somos quase vizinhos, porque sou de Heidelberg.
O trabalhador sorriu, feliz por ter encontrado um conterrâneo; mas a sua alegria não passava de um gesto dolorosamente incompleto como o próprio espírito. Para Milkau um compatriota era o aparecimento súbito e inesperado de todo o seu passado. Uma incompreensível saudade dos seus primeiros anos o mortificou um instante; era como um arrependimento de não ter sido nos princípios da vida o homem de hoje. Um desejo de voltar atrás, de começar de novo, de pagar em amor toda a indiferença que tivera pelas coisas da sua terra, pelos homens da sua cidade, pelo quadro, enfim, onde passara a sua mocidade silenciosa.
– Ah! – exclamou ligeiramente pensativo. – Então é da terra de Soror
Marta! Conheceu o Rochedo da Monja...?
– Sim.
Lentz perguntou se isso se ligava a alguma lenda. E Milkau pediu ao trabalhador que narrasse essa tradição ignorada pelos que ali estavam. Todos se voltaram para o emigrado do Reno.
O homem interrogado ficou um segundo atônito e irresoluto em sair da obscuridade coletiva e anônima em que até então estivera na mesa. A princípio não disse uma palavra. Coçava embaraçado a cabeça.
Joca, a quem o silêncio de um instante perturbava e afligia, voltou-se para o companheiro alemão com os olhos esgazeados.
– Desembucha, homem de Deus! É segredo? – gritou o cabra.
O alemão afinal resolveu-se a falar, olhando para todos, muito espantado de se ver naquela situação saliente.
Na sua linguagem tosca contou que no tempo das Cruzadas um duque, apenas se casara, partira a pelejar pela Fé. Sua mulher ficara inconsolável com a separação e, temendo a morte do esposo, fez voto de que, se tornasse a vê-lo, o primeiro filho que tivessem seria consagrado ao serviço de Deus. Voltou o duque, e passado algum tempo nasceu-lhes uma filha, que se chamou Marta. A menina era de uma deslumbrante beleza, e com pesar os nobres vizinhos, que a queriam para esposa dos filhos, viram-na crescer morta para o mundo. Apenas Marta se tornou moça, entrou para o convento, onde a sua piedade encantava ainda mais a sua peregrina formosura. O duque morreu na outra cruzada, e a viúva, sem mais filhos, ficou isolada no castelo. Era-lhe único consolo ver a filha, que de tempos a tempos ia visitá-la, vestida de monja. Uma vez, quando esta atravessava o bosque para uma dessas visitas de consolação, aconteceu-lhe encontrar-se com um jovem caçador, filho de um conde palatino. Deslumbrado, o rapaz ficou louco de amor pela freira, e silencioso seguiu-a até ao castelo. Lutou consigo por esconder a paixão criminosa, mas foi impossível, e vencido, ansiado e ardente planejou raptar a monja. Uma tarde, disfarçado em aldeão, o jovem conde bateu à porta do mosteiro para dizer a Marta que a duquesa estava a morrer. A freira partiu logo para a casa de sua mãe. O conde acompanhou-a, e, quando chegaram ao lugar mais solitário, descobriu o seu ardil e propôs-lhe fugirem e ocultarem o seu amor em outras terras. Marta espavorida e virtuosa põe-se a correr. O moço, alucinado, persegue-a. Vão os dois pela floresta como loucos. A freira transviada toma um caminho que a afasta do castelo, e no desespero da fuga chega até ao rio, onde o conde a vai alcançando... Um rochedo se abre e recolhe no seio de pedra a jovem monja. Não acreditou o conde na proteção de Deus e teimou em esperar a saída de Marta. Ficou assim dias e dias ali vivendo, encostado ao penhasco. De dentro, em vez de maldições, vinha o eco das súplicas da freira pela salvação da alma de seu malfeitor. Passaram-se meses, anos, o conde envelhecia, a barba embranquecida alongou-se-lhe até aos pés, e afinal o coração, amolecido pelas orações da monja, ficou expurgado da tentação e ele, convertido, penitente, entoava os hinos que Marta lhe ensinava de dentro do rochedo inviolável. Jurou então consagrar-se ao serviço de Deus, e, no propósito de fundar uma ordem religiosa, despediu-se da freira por entre lágrimas de arrependimento. Partiu curvado, velho e cheio do espírito divino. Abre-se a rocha, Marta sai na mesma juventude com que entrara. Para ela, assistida e alimentada pelos anjos, o tempo não havia corrido, e restava-lhe a ilusão de ter apenas passado um dia encerrada na pedra. Confusa, medrosa, parte para o convento. Durante a sua ausência as freiras, ouvindo cantar na sua cela uma voz celestial, passaram todo o tempo ajoelhadas à porta, embevecidas, presas à melodia, rezando em êxtase. Quando Soror Marta saiu do rochedo, parou a voz na cela e as freiras desprenderam-se do encanto, voltando aos seus labores. Marta corria para o mosteiro, e no seu caminho o tempo, que era de inverno, ia-se mudando em primavera, abrindo-se em flores o campo mirrado... Entrou no convento, e tudo estava como deixara anos antes... Ali também o tempo não correra. Arrojou-se a monja aos pés da superiora, confessando os perigos da sua ausência. A pobre madre acreditou que era um instante de alucinação e disse-lhe que ela não se tinha afastado do quarto, onde cantara os mais belos louvores a Deus. Atônita, Marta recolheu-se ao seu aposento, de onde no mesmo momento viu sair um anjo, que a substituira na ausência, e que era a sua imagem.
A ceia ia-se acabando sob a apreensão vaga que no ânimo dos trabalhadores deixava a evocação das lendas natais. Pouco a pouco cada um se foi erguendo e deixando a sala. Não tardaram a se juntar fora no terreiro, à aragem fria da noite. Milkau e Lentz também se chegaram aos outros, e todos na solidão que era ali se reuniam mais e mais em íntima comunhão. Os homens deitaram-se na relva, voltados para o rio, que era uma faixa fosforescente e trêmula, de que parecia irradiar toda a luz que atenuava a escuridão da noite. A conversa era morna e trôpega, coxeando sobre assuntos incertos, pois mais forte que estes havia em cada espírito uma ideia íntima, longínqua e poderosa que teimava em se fixar. E um dos homens foi o intérprete de todos quando disse:
– Há muito encantamento neste mundo de Deus... Sempre se deve andar prevenido, pois ninguém sabe o que lhe está reservado sofrer e ver. Donde menos se espera surge um perigo...
Os outros, pensativos, concordaram num brando murmúrio, caindo outra vez em silêncio. Lentz quis levantar-lhes o espírito e pôs-se a negar bruxas, milagres e encantados. Falou longamente, mas sem força de abalar as convicções plantadas desde séculos às fontes daquelas almas. E quando ele acabava, dizendo: – As bruxas já morreram há muito tempo e elas sempre foram estas mesmas mulheres que vocês amam – um dos mais velhos não gostou do tom da negação e replicou:
– Não diga tal, moço, os homens devem tomar cautela nos seus amores. Quantas desgraças não lhes acontecem por se fiarem em vozes e cantigas de mulheres...
Cada um lembrou uma história da sua localidade originária. Ali, no serão da terra tropical, surgiram, chamados pelas evocações dos emigrados, os heróis, os semideuses saxões, as ninfas do Reno, os gigantes com o seu cortejo de anões fantásticos. Os dois brasileiros interessavam-se ardentemente por esses contos vindos de um mundo desconhecido e que lhes sugeriam a reminiscência de tantas outras histórias europeias a eles transmitidas e adulteradas pelos povos brancos, primeiros geradores da sua raça mestiça. Mas agora as lendas volviam às suas origens, vinham mais puras, mais límpidas, com o seu caráter imune de contatos estranhos; e com que sabor não escutaram as façanhas de Siegfried, filho de Sigisberto, as suas proezas no castelo do Nivelino, seu combate com o gigante, a derrota do anão Alberico, guarda dos tesouros fabulosos, e depois as suas lutas, as porfias com a bruxa Brunhilde, rainha da Islândia, em que ele combatia invisível pela força mágica do seu chapéu encantado, vencendo a mulher para entregá-la ao esposo, até que um dia morre o herói atravessado por uma lança, que o atinge no único ponto vulnerável do corpo... E com que paixão não ouviram eles tratar da bela Lorelei, ora benfazeja, protegendo os habitantes de sua vizinhança, ora vingativa, fazendo abrir as águas do Reno para engolirem os ousados que procuravam ver-lhe o semblante misterioso e que antes de morrer enlouqueciam ouvindo os seus cânticos... Vinha nessa história a paixão do conde palatino pela fada, seduzido pelas suas vozes mágicas, até que um dia, avistando Lorelei sobre o rochedo com a lira na mão, desmaiou e a fada o transportou para o seu palácio de cristal no fundo das águas azuis... E a tristeza no castelo, o velho pai louco a procurar o filho, até que, vendo a ninfa, lhe pede que o restitua, e ela, soberana, divina como um símbolo, responde ao som da harpa: “O meu risonho palácio de cristal é no seio da onda e para lá, longe do vosso mundo, levei o meu amante fiel e leal...”.
Quando essa história acabou, alguns passaram a comentá-la no círculo de suas nevoadas ideias. E Joca declarou que não tinha medo de mães-d’água. Como os outros escarnecessem dele, instou fanfarrão:
– Não se arreceia de mulheres, mesmo diabas ou feiticeiras, quem já teve trabalho com curupira.
Milkau achou esse termo estranho de um belo e raro acento de linguagem; considerou-o como uma dessas palavras ricas de som do idioma brasileiro enxertadas no velho tronco da língua; mas, como não soubesse a significação do nome, nem a lenda nativa que a ele se prende, disse num tom familiar ao mulato:
– Conte-nos isso, Joca!
– Ah! – respondeu este, preparando-se para narrar; – não foi por estas bandas, foi no Maranhão, porque eu sou de lá... Meu tio Manoel Pereira, na Fazenda do Pindobal, me dizia sempre: “Rapaz, sossega com essas viagens noite e dia no mato por causa de rapariga, que uma vez currupira te pega... Toma tento contigo!” Moleque que era eu, desempenado e de topete, ria das palavras do velho. “Eh! meu tio! deixe de abusão para amedrontar gente pavorosa... Qual! currupira é fantasmagoria!” E tio Manoel Pereira passava a me contar rodelas e sempre arrematava: “Rapaz! toma tento!” Um dia, nós tínhamos acabado de recolher o gado ao curral. Meu cavalo estava esfalfado de cercar um garrote arisco, que, depois de muito pelejar, eu trouxe da restinga na ponta do laço... Chegados que fomos, peei o Ventania que, coitado, lá se foi para o campo, frouxo e meio descadeirado... Meu tio gritou para pôr a janta... O sol já estava esfriando, quando nos pusemos à mesa, meu tio, que era o vaqueiro da fazenda, e nós, seus quatro ajudantes... Os cabras traziam uma fome canina, que espantava minha tia. “Eh! gente”, dizia a velha nos servindo, “parece uma fome de Satanás. Tesconjuro!” O que é certo é que as curimatás voaram para dentro, as bananas não ficaram atrás e nós rematamos a boia com um trago da branca. Depois nos assentamos na soleira da porta em frente ao curral. Àquela hora as vacas choravam de cortar coração, lambendo a bezerrada que do outro lado se roçava na cerca. Eu estava derreado como um bode lasso... Os outros estavam na mesma conformidade. Mas vai o Manoel Formoso e me diz: “Tu não sabes do baile da Maria Benedita?” Oh! cabeça que era minha, não me lembrava mais desse ajuntamento marcado para aquela noite... No sábado passado tinha tratado com a Chiquinha Rosa nos encontrarmos na ramada onde era a festa. Eu andava de namoro com a cabocla, moça espigada como palmeira, com sua cabeça delicada como de sururina. Uma vontade de ver a Chiquinha me assanhou o corpo e me fez espertar.
– Pois sim. Vamos daí, Manoelzinho.
“E o Formoso se desculpou disfarçando; só ouvir o cabra, se via logo que tinha algum negócio estipulado para outra banda... Os outros camaradas eram já maduros e casados, não formavam para a patuscada. Fiquei um tempinho meio desalentado, mas a ideia da rapariga me levantou o corpo cansado... Ah! meu sangue, fica quieto! ‘Bem, então já que ninguém me acompanha, vou só, porque filho de meu pai não enjeita divertimento’, disse, meio arrevesado aos cabras moles”.
“Levantei-me em direção à fonte, e tio Pereira, que me circundava num tudo, entrou a ralhar: ‘Rapaz, tu estás maluco. Larga de banho a esta hora que tu apanhas maleitas. Depois, é só trabalho para os outros’”.
“Não me importei com a fala do velho e parti para a fonte. Ainda era bem de dia. Atirei-me à água, que me deu um frio nos ossos. Dei um mergulho e umas parapernadas, com intenção de espantar algum jacaré que andasse na vadiação. Passei depressa para meu rancho para mudar de roupa; preparei-me com camisa e calça alva, enrolei no pescoço o lenço encarnado que tinha comprado a um barqueiro no porto. Bati na porta de tia Benta, pedi um pouco da sua pomada de cheiro e com poucas estava na ordem. O meu lenço branco estava desde a semana passada com a Chiquinha, para guardar no seio e perfumar com o seu cheiro. Ela havia de me dar no baile. Tio Pereira, me vendo de viagem, disse: ‘Volta cedo que de manhãzinha, logo ao entrar da lua, nós vamos fazer matalotagem na fazenda da Marambaia.’ ‘Sim, meu tio. Vosmecê pode ficar sossegado que estou de volta a tempo e bato no seu quarto às horas’”.
“Não quis mais conversa com o velho. E me pus no olho do mundo com passo de ema escabreada. Do Pindobal à ramada da Maria Benedita eram bem umas duas horas de marcha. Atravessei todo o campo da nossa fazenda com vista a alcançar a ponta do Guariba, e, me lembro como se fosse hoje, tudo estava bem seco, o pouco gado magro que havia estava parado com os olhos tristes de peixe morto, virados para o lado do sol que se sumia; só se ouvia um barulho de porcos que focinhavam a terra à cata de minhoca. Quando cheguei para furar a ponta, esbarrei primeiro no negócio de seu Zé Marinheiro. ‘Então, Joca, aonde se bota tão paramentado?’ perguntou-me o português. ‘Brincar um pouco, patrão, na ramada da Maria Benedita.’ ‘Olha que tem passado por aqui muita rapaziada. A brincadeira deve estar influída. Olha, pinga não falta, tudo lhe mandei eu... por ordem do Pedro Tupinambá... já se sabe’”.
“Não sei se foi a falação do Zé Marinheiro que me escaldou mais o sangue; eu senti como tudo a rodar, o coração a querer pular pela boca, e as pernas me fraqueando... Mas tomei sustância em mim e me aguentei valente, e ainda pude logo dizer ao patrão do negócio: ‘Eu vou correndo para lá. Mas a gente não se deve aproveitar dos outros, deve estar prevenido do seu. E vosmecê me encha aí um quarto de restilo e me corte duas toras de fumo de mascar’”.
“Dito e feito, atirei-me para o caminho. O sol já estava escondido e os vaga-lumes começavam a correr no ar parado, mas perdiam o seu serviço, porque a lua estava esclarecendo tudo. Principiei a cortar por uma picada, que encurtava a distância e saía no campinho, onde ficava do outro lado a casa da festa. A areia estava mais quente aí dentro que no meio do campo; um grande calor me tomava o corpo; andei, andei, os lagartos corriam estremecendo o mato, de vez em quando um pica-pau num tronco de madeira seca batia as horas da tarde. Não havia vivalma, e eu com a pressa de chegar comia poeira que era gosto. Só parecia que encontrava o terço acabado e a Chiquinha, me largando de esperar, com seu par fixo para toda a noite. Pernas para que te quero! A cabeça, porém, não estava muito boa; parecia me estalar dos lados, e do estômago me subia de vez em quando um enjoo”.
“Lá no fundo da mata havia uma aberta e me parecia que um vulto caminhava para mim. Não dei importância ao sujeito e disse comigo: ‘Há de ser o filho do Zé Marinheiro, que se recolhe, porque o pai não o deixa ir à festa.’ De repente, ouço um assobio fino que vinha de detrás. Pensei: ‘É algum camarada que se vai divertir e me chama. Voltei a cabeça e não vi ninguém. Assuntei de novo, nada. Continuei a andar... Outro assobio me passava, cortando os ouvidos, outro, outro; de toda a parte se apitava, do fundo do mato, da boca da estrada, por cima das árvores.’ ‘Que bandão de corujas por esta noite... Há de ser agouro.’ Tive assim um arrepio de frio, e para me sossegar quis me valer do encontro com filho do Zé Marinheiro. Mas olhei firme para a frente e não vi ninguém. ‘Onde se meteu o diabo do pequeno?’ Os assobios iam me rodeando sempre, eu já estava com a cabeça tonta, o coração me batia a galope. Outra vez vi o pequeno na minha frente; reparei bem, porque ele estava perto e vi que não era o filho do português. ‘A modo que não conheço este caboclinho.’ Nós estávamos assim a umas cem braças um do outro quando o pequeno se sumiu de novo. Os assobios de coruja não largavam. Eu resmunguei: ‘Que faz esse sujeitinho que desaparece de vez em quando? Isto não é coisa boa.’ E ele torna a repontar. Então gritei com voz de susto, bem alto para intimar o cabra: ‘Olá, amigo, que conversa é essa? Você anda me fazendo visagens?’ Não digo nada; boca, para que falaste? A mataria toda passou a assobiar como demônio, e eu comecei a ficar apavorado com a matinada. O caboclinho estava agora a umas dez varas de mim. O sangue me fervia, a cabeça me queimava. Não digo nada; o certo é que avancei para o pequeno com raiva de cego. ‘Ah! seu diabo, tu me pagas.’ Armei o pau para cima... Mas quando eu me vi, estava seguro pelos pulsos. ‘Larga!’ berrei. O caboclinho com olhos de sangue me encarava. ‘Larga!’ e eu sempre seguro. Fiquei como um garrote ferroado. Avancei para o cabra com mais zangado que quando me atraquei com o Antônio Pimenta, uma feita numa vaquejada. Lembrei-me de quanto boi valente deitei por terra, e agora ali zombado por um caturra! Nós lutamos para baixo, para cima; eu dava de cabeça na cara do bicho, metia-lhe os pés na canela, e ele sempre duro, o mal-encarado! Com cabo de poucos minutos, eu ouvi um berro de estrondo, um berro de onça; ah! pensei que o malvado me deixava. Mas foi pior, porque outros berros se repetiram, caititu vinha batendo queixo, gatos bravos miavam; ouvi cascavel tocar seu chocalho... Com poucas eu estava no chão com o caboclo em cima de mim. Toda a bicharia se agitava no mato e caminhava para nós; as árvores mesmo se curvavam me abafando, os gaviões desciam, os urubus cheiravam minha carniça... Eu senti um medo mole e abandonei as forças. Comecei a tremer de frio, o suor me alagava a roupa, e eu disse: ‘Vou morrer, meu São João.’ E os olhos se me fecharam como de morto... Levei um tempão desacordado, sentindo os bichos me rodeando, comandados pelo endiabrado... Depois tudo foi caindo no sossego; os meus pulsos estavam desembaraçados; um grande calor me fervia o corpo; abri os olhos devagarinho... tudo parado... tudo tinha desaparecido, a lua era clara como dia. Eu estava afadigado de tanta luta... a língua estava seca e dura que nem de papagaio. Abri bem os olhos, e não vi mais nada, nem o caboclo, nem os bichos brabos. Mas tive então um grande medo e tratei de abalar dali. Passei a mão em roda de mim, caçando minha garrafinha de restilo e as toras de fumo. Para espertar não há melhor que um gole de cana e uma masca... Mas não encontrei nada; cacei, cacei. Nada. Pus a excogitar que toda a pendenga que o caboclo me fez foi para me bater a garrafa. Velho tio Pereira me veio à cabeça com suas palavras: ‘Currupira te assombra. Para tu te veres livre, dá, logo que o avistes, cachaça e fumo.’ E eu vi que naquela noite tive trabalho com currupira. Levantei-me de um pulo. Quis correr para a ramada da Maria Benedita, o samba devia estar aceso àquela hora. Olhei para a frente e a estrada ia acabar longe, muito longe. Tive medo de novo encontro. Voltei para trás; vinha como preto bêbado, cai aqui, cai acolá; saí no campo esbarrando com o gado; os olhos me ardiam, todo o meu sangue batia para saltar de dentro, a boca estava grossa, eu trazia uma sede de jabuti... mas lá vim assim mesmo navegando até à porta do rancho”. Não tive conversa, atirei-me vestido na rede que com meu corpo sacudia como uma canoa no Boqueirão.
“Dei por mim quando ouvi falar alto na porta. Era a voz de meu tio com o Formoso. Eles abriram a tramela e um clarão da madrugada alumiou o quarto”.
– São horas, Joca. Levanta daí.
“Quis me erguer, mas as forças não acudiam”. O velho segurou no punho da rede que estava balançando, meu corpo tremia dentro como se houvesse uma dança de todos os meus ossos. Meu tio mandou o Formoso abrir a porta e a janela. Ficou como dia. Ele pôs a mão em cima de mim e eu abri os olhos cheios de fogo. E meu tio Pereira, sem mais aquela, resmungou zangado:
– Eu não te disse? Apanhaste a maldita. Quem te mandou tomar banho cansado àquela hora?
“Não respondi. Tive vergonha de relatar ao velho que era assombração de currupira.”
Depois da narração os colonos ficaram cismando vagamente. Cada qual remontou por instantes aos princípios da sua vida, e as recordações do passado encheram-lhes a alma de sombras e saudades.
Felicíssimo achou que era tarde e os convidou a se recolherem, sendo o primeiro a erguer-se do chão. Os outros levantaram-se bocejando – um princípio de sono chegava como uma carícia –, espreguiçaram-se satisfeitos, seduzidos pela ideia de um suave repouso. Do Rio Doce e da floresta vinham murmúrios brandos, e os colonos em silêncio interpretavam esses sons da noite, ou como vozes das mães-d’água, cobiçosas do amor humano, ou como ruídos das vagabundagens tenebrosas dos currupiras errantes.
Já no dormitório, os trabalhadores ressonavam sobre os colchões estendidos no chão, e Joca ainda se remexia inquieto, sem poder dormir. Era uma noite em claro que ele passava; tinha a garganta seca, sentia por vezes a pele a arder, e não achava agasalho na cama fofa e tranquila. A evocação da terra natal ali no meio da floresta do Rio Doce, estranha a seus olhos e sentimentos, fazia-o remontar aos quadros da sua vida passada no lugar do nascimento, nesses campos de Cajapió, vários e inconstantes, cuja mobilidade se transmitia à alma plástica dos homens aí formados. No Espírito Santo sentia-se Joca em terra alheia; os montes o apertavam, os desfiladeiros o sufocavam de terror, e então uma saudade o transportava para a longa planície onde vivera. Via no verão o pasto todo morto; o amor violento do sol trazia o vasto campo fendido e cortado em pedaços, sem um fio verde; por toda a parte a secura e com ela a morte. Nem uma gota d’água: o deserto árido e triste, e sobre ele, passava, arrastando-se longo, esguio, sinuoso, o caminho feito pelo pé do homem e pelo rasto do animal... Nos dias claros, sem nuvens, quando todos suplicam chuva, o horizonte se confunde com o céu. Outras vezes, nuvens descem quase a tocar a terra, o sol rubro as tinge, as miragens se formam estreitando o círculo visual, tudo se encerra num espaço limitado, e o viajante caminha para elas, que se afastam inatingíveis, fazendo evoluções como um exército em campo aberto. E assim a mobilidade do céu ameniza a esterilidade fixa da terra... Nem uma gota d’água para refrescar ao menos a vista. De espaço a espaço passa um boi faminto, esquelético, movendo os ossos num ruído desencontrado e surdo... Varas de porcos vão fossando a terra, comendo as cobras que se estendem lúbricas e felizes ao sol... Manadas de gado se apresentam no horizonte, como que surgindo súbitas do chão, galopando loucamente, farejando o ar, doidas, sedentas, passando num turbilhão como um ciclone, levantando o pó tranquilo que, perturbado no seu repouso, as segue, envolvendo-as, sufocando-as, implacável, veloz e rubro como uma coluna de fogo...
Ao recordar-se dessas emigrações de animais, Joca teve um arrepio e um ímpeto para se erguer do colchão, onde se revolvia agitadamente. E sempre a terra, a visão da planície o perseguia. Agora, era depois das primeiras chuvas sobre o campo. Uma manhã lá no Cajapió (Joca lembrava-se como se fora na véspera) acordara depois de uma grande tormenta no fim do verão. A madrugada estava orvalhada, mas serena, e ele se erguera de sua rede para ver o tempo. Um grande tapete de verdura fresca e úmida parecia ter descido do céu e coberto como um manto misterioso o campo ontem mirrado... Os olhos perdiam-se na campina alegre; o gado festejava o rebentar da vida na terra e comia a erva tenra; um bando de marrecas passava grasnando, pousava aqui, levantava o voo acolá, buscava ainda mais longe a região dos eternos lagos... Dias inteiros de chuvas; o pasto agora era farto, a água porfiava em vencê-lo, e quando mais tarde o dilúvio se interrompia viam-se na vasta savana verde pontos claros que eram o refrigério dos olhos. Eram os primeiros lagos. Em volta deles uma multidão de aves aquáticas brincavam descuidosas e ostentavam as penas de cores vivas e quentes. Vinham pássaros de toda a parte: pernaltas com o seu bico de colher, marrecas em algazarra, jaçanãs leves e tímidas; e à tarde, quando o céu se vestia de nuvens cinzentas, notava-se desfilar, ora o bando marcial e rubro dos guarás, ora a ala virgínea e branca das garças... No fundo dos lagos multidões de peixes borbulhavam por encanto. E em tudo o mesmo milagre de ressurreição, de rejuvenescimento, de expansão e de vida. Mas as chuvas continuam, a água sempre crescente vai engolindo o campo, o gado mostra-se inquieto e começa a outra emigração, a do inverno, para os tesos, ligeiras elevações da planície. Vão lentos e vagarosos, ou aproveitando a terra firme, ou metidos n’água, ou nadando, mas sem recuar, caminhando para os refúgios. Já no meio do inverno a água quase apagou o campo, um ou outro ponto aparece como ilha e nelas o gado se amontoa. Em um grande lago manso transformou-se aquilo que fora meses antes o deserto ardente e fero. Sobre ele repousam os grandes nenúfares, as múltiplas plantas aquáticas verdes, largas, vogando como pássaros. A vida mudara: descansava na cocheira o cavalo e Joca sonhava-se a empurrar a canoa, refletindo-se o seu vulto espigado à flor silenciosa das águas...
Milkau nesse tempo cismava, enquanto o sono o não arrebatava para o esquecimento. Tinha saboreado as lendas ouvidas aos tropeiros e parecia-lhe ter arregaçado o véu que cobria a alma daqueles homens, e desfrutado deliciosamente as paisagens distintas de cada espírito e os panoramas longínquos que foram os quadros da infância de cada povo gerador. Nas lendas alemãs Milkau via passar o Reno, como um grande rio sagrado, que foi o centro e o nervo do mundo germânico, todo cheio de encantamento, e cujas louras ninfas eram as espumas das próprias águas. Ele via os quadros recuados no tempo e os quadros novos da época medieval, bruxas, cavaleiros andantes e castelos. Todo o idealismo da raça estava ali, e o que nascera nas águas do rio, criando fantasias e mitos, mantinha-se inalterável; os novos deuses latinos, penetrando no seu espírito, transmudaram-se em divindades bárbaras, as suas santas eram aquelas mesmas fadas do Reno, e os santos, os velhos deuses sombrios e batalhadores... Na lenda do currupira outro mundo se descortinava, que era toda a alma do tropeiro maranhense. Ali estavam a mata tenebrosa, as forças eternas da natureza que assombram e cujo símbolo era essa divindade errante que anima as árvores, que sacode do torpor tropical as feras ou que protege a natureza, intimidando o homem, seu perpétuo inimigo. Ela espanta, vinga-se e beneficia, transveste-se em mil figuras, em criança maligna, que é a sua encarnação preferida, em animal ou vegetal, conforme a astúcia ou a força o exigem... Milkau sentia naquelas legendas o encontro dos vários aspectos dos feitiços e cada um traduzia os instintos, os desejos, os hábitos diferentes dos homens. Mundo encantado e misterioso, esse das almas dos povos! O verdadeiro filósofo, pensava Milkau, será aquele que conhecer as origens, não só da História ou da sociedade, mas de uma alma isolada, aquele que tiver o segredo de ponderar os espíritos, de desvendar nas células cerebrais as remotas sensações vitais dos povos e que possuir a intuição para distinguir na inteligência de um homem a dosagem perfeita do estranho precipitado da treva com a pureza, do ódio ingênito de uma raça com o amor orgânico de outra. E Milkau ia lentamente adormecendo, feliz e sossegado naquela benfazeja noite tropical, no meio de homens primitivos, no seio de uma nova terra suave e forte; e o que era cisma da vigília se ia pouco a pouco transformando no puro sonho em que ele entrevia num horizonte iluminado, surgindo docemente, uma nova raça, que seria a incógnita feliz do amor de todas as outras, que repovoaria o mundo e sobre a qual se fundaria a cidade aberta e universal, onde a luz se não apague, a escravidão se não conheça, onde a vida fácil, risonha, perfumada, seja um perpétuo deslumbramento de liberdade e de amor.
Lentz se esforçava por dormir e se debatia inutilmente para afastar os tumultuosos pensamentos que lhe galopavam na cabeça. As visões acumuladas nos últimos dias de travessia da mata persistiam em toda a sua força. Ora sentia-se esbraseado com o sol que inflamava as coisas e lhe queimava o sangue; ora sentia-se passar pela sombra úmida da floresta cuja exuberância e vida se filtravam deliciosamente até à sua alma; ora era o rio imenso, pujante que corria para ele, impelido por uma força desse poder misterioso que animava as moléculas mais íntimas de todo aquele mundo novo. E Lentz via por toda parte o homem branco apossando-se resolutamente da terra e expulsando definitivamente o homem moreno que ali se gerara. E Lentz sorria com orgulho na perspectiva da vitória e do domínio de sua raça. Um desdém pelo mulato, em que ele exprimia o seu desprezo pela languidez, pela fatuidade e fragilidade deste, turvou-lhe a visão radiosa que a natureza do país lhe imprimira no espírito. Tudo nele era agora um sonho de grandeza e triunfo... Aquelas terras seriam o lar dos batalhadores eternos, aquelas florestas seriam consagradas aos cultos temerosos das virgens ferozes e louras... Era tudo um recapitular da antiga Germânia. Ele percebia no seu cérebro exaltado que os alemães chegariam, não em pequenas invasões humildes de escravos e traficantes, não para lavrar a terra para recreio do mulato, não para mendigar a propriedade defendida pelos soldados negros. Eles viriam agora em grandes massas; galeras imensas e numerosas os desembarcariam em todo o país. Eles viriam numa ânsia de posse e de domínio, com sua áspera virgindade de bárbaros, em coortes infinitas, matando os homens lascivos e loucos que ali se formaram e macularam com suas torpezas a terra formosa; eles os eliminariam com o ferro e com o fogo; eles se espalhariam pelo continente; fundariam um novo império, se revigorariam eternamente na força da natureza que dominariam como uma vassala, e senhores, e ricos, e poderosos, e eternos repousariam para sempre na alegria da luz... Mas no sonho de Lentz, sobre as naus que velejavam, sobre os exércitos que caminhavam, uma massa imensa e preta marchava no céu qual uma nuvem condutora, e depois se transformava numa figura estranha e agigantada, cujos olhos penetrantes desciam do alto, envolvendo as terras e os homens com uma força invencível e magnética. Então Lentz viu pairar sobre a Terra do Brasil a águia negra da Germânia...