IV Canaã · Capítulo 4 de 12
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IV

IV

Na manhã seguinte, Milkau e Lentz muito cedo estavam admirando o lugar. No seu passeio aproximaram-se do Rio Doce, que, depois de se fatigar em curvas de réptil por entre os brandos contornos da terra maravilhosa do Espírito Santo, ali se desdobrava a perder de vista. As grandes chuvas dos dias anteriores tinham enchido fartamente o rio, sobre cujo dorso luzidio e dormente a brisa perpassava volátil, estremecendo num leve arrepio a úmida superfície. Era a única quebra da imobilidade. A onipotente amplidão das águas engolira as margens, devorara a vegetação das praias e o tronco das árvores cujos galhos outrora pendidos como chorões simulavam sorver a água, e agora quase submersos tingiam numa orla verde o cinzento-pérola do rio. A cheia domina toda a paisagem, avassalando com singular grandeza o perfil da mata, crivada de clareiras, e a tímida linha de montanhas ao longe.

Emanadas das águas, suspensas sob o céu, névoas densas apagam por instantes o sol, a sombra cobre a terra e faz a cor. Abre-se uma trégua para o eterno conflito da luz e dos tons, e o panorama que se apresenta não é o constante dia de sol pleno, inundando de um só colorido, fulvo-amarelo, o espaço e as coisas; não é a larga e quente paisagem monótona, indistinta, onde o crepúsculo é um sonho fugaz e a noite cai como uma cortina negra que fecha bruscamente o dia... Milkau e Lentz sentiram naquela cerração o delicioso momento da ressurreição das cores esplêndidas e nestas voluptuosamente repastavam o faminto apetite da vista.

– Não há nada – dizia Milkau enquanto andavam – como esta tranquilidade, para formar o quadro da vida... E hoje me sinto feliz como jamais pensei que o seria. É que a felicidade é o esquecimento e a esperança. Parece-me que atingimos uma região aonde não chegam os gemidos humanos; aqui não há um sinal de sofrimento, tudo é vida fácil, risonha e amável... No fundo a natureza humana é feita para o gozo, por isso mesmo o prazer lhe é mais inerente e imperceptível, e a dor, sensação estranha e rude, o espalha como um tufão... Quantos elementos, porém, não estão em nós para afastar a dor; com que facilidade não a esquecemos, e como um só minuto de descanso não nos dá a ilusão da eterna calma!

– É que nós somos vítimas dos divertimentos da natureza, que por esses pérfidos e doces venenos cujos segredos ela possui nos acorrenta à vida, para martirizar-nos ao seu sabor.

– Mas a vida é mais natural do que a morte, o prazer mais do que o sofrimento... E tu emprestas à natureza uma consciência que ela não tem. Ela não existe como entidade, distinguindo-se pela vontade. A nossa superioridade sobre ela, tu sabes, está exatamente nessa consciência que é nossa, que percebe as suas leis, as suas fatalidades e nos obriga a tomar o caminho mais seguro para a harmonia geral. E hoje, aqui situados neste mundo, que começa ainda virgem de sacrifícios, temos de tirar o verdadeiro sentido da nossa excepcional situação. Adormeçamos as tristezas do nosso passado, já que não podemos apagá-las de todo, e a vida nova se abra para nós como um sonho realizado.

– E eu também vejo aqui a terra imaculada com as suas grandes energias de felicidade, e nela viverei para ver reconstruída a cidade antiga, forte, dominadora, que, saltando pelos séculos de humilhação, venha renascer neste grande cenário...

– A esperança disse Milkau a sorrir apodera-se de nós e arrebata-nos para o futuro... Não é verdade que somos felizes?

Pela linha da praia que a enchente, comendo o mato, tornava apenas uma vereda continuavam eles o passeio. Muitas vezes tinham de abandonar o caminho e cortar pelas picadas dentro da vegetação; outras passavam aos pulos, de pedra em pedra. E riam com essa ginástica, abandonados à sensação agradável da fresca manhã e à volúpia das ilusões. Por longo espaço o panorama era imutável; mas o que havia de monótono não fatigava, porque a vastidão das águas, a sua opulência, eliminava o enfado, como que alargando o espírito num conforto amplo e benfazejo.

– Hoje – disse Milkau quando chegaram a um trecho desembaraçado da praia – devemos escolher o local para a nossa casa.

– Oh! não haverá dificuldade, neste deserto, de talhar o nosso pequeno lote... – desdenhou Lentz.

– Quanto a mim – replicou Milkau –, uma ligeira inquietação de vago terror se mistura ao prazer extraordinário de recomeçar a vida pela fundação do domicílio, e pelas minhas próprias mãos... O que é lamentável nesta solenidade primitiva é a intervenção inútil do Estado...

– O Estado, que no nosso caso é o agrimensor Felicíssimo...

– Não seria muito mais perfeito que a terra e as suas coisas fossem propriedade de todos, sem venda, sem posse?

– O que eu vejo é o contrário disso. É antes a venalidade de tudo, a ambição, que chama a ambição e espraia o instinto da posse. O que está hoje fora do domínio amanhã será a presa do homem. Não acreditas que o próprio ar que escapa à nossa posse será vendido, mais tarde, nas cidades suspensas, como é hoje a terra? Não será uma nova forma da expansão da conquista e da propriedade?

– Ou melhor, não vês a propriedade tornar-se cada dia mais coletiva, numa grande ânsia de aquisição popular, que se vai alastrando e que um dia, depois de se apossar dos jardins, dos palácios, dos museus, das estradas, se estenderá a tudo?... O sentimento da posse morrerá com a desnecessidade, com a supressão da ideia da defesa pessoal, que nele tinha o seu repouso...

– Pois eu – ponderou Lentz –, se me fixar na ideia de converter-me em colono, desejarei ir alargando o meu terreno, chamar a mim outros trabalhadores e fundar um novo núcleo, que signifique fortuna e domínio... Porque só pela riqueza ou pela força nos emanciparemos da servidão.

– O meu quinhão de terra – explicou Milkau – será o mesmo que hoje receber; não o ampliarei, não me abandonarei à ambição, ficarei sempre alegremente reduzido à situação de um homem humilde entre gente simples. Desde que chegamos, sinto um perfeito encantamento: não é só a natureza que me seduz aqui, que me festeja, é também a suave contemplação do homem. Todos mostram a sua doçura íntima estampada na calma das linhas do rosto; há como um longínquo afastamento da cólera e do ódio. Há em todos uma resignação amorosa... Os naturais da terra são expansivos e alvissareiros da felicidade de que nos parecem os portadores... Os que vieram de longe esqueceram as suas amarguras, estão tranquilos e amáveis; não há grandes separações, o próprio chefe troca no lar o seu prestígio pela espontaneidade niveladora, que é o feliz gênio da sua raça. Vendo-os, eu adivinho o que é todo este País – um recanto de bondade, de olvido e de paz. Há de haver uma grande união entre todos, não haverá conflitos de orgulho e ambição, a justiça será perfeita; não se imolarão vítimas aos rancores abandonados na estrada do exílio. Todos se purificarão e nós também nos devemos esquecer de nós mesmos e dos nossos preconceitos, para só pensarmos nos outros e não perturbarmos a serenidade desta vida...

No encalço deles uma voz clamava, tirando-os da divagação:

– Mas então que fugida foi essa? Para onde se botam?

Voltaram-se, como se despertassem, e viram a cara triangular e interrogativa do agrimensor, que vinha quase a correr.

– Bom dia – disse Milkau, agarrando com entusiasmo as duas mãos de Felicíssimo, que se atirava a ele num gesto festivo e bondoso.

– Pregaram-me uma peça... Acordo, visto-me num pulo, vou procurá-los para um dedo de prosa, e os meus amigos já tinham azulado...

– Tivemos pena de acordá-lo, pois havia um grande silêncio na casa quando saímos. E, distraídos, viemos até aqui.

– Pois eu – insistiu o agrimensor – pus-me à caça de vocês, farejei aqui e acolá, e fui bem feliz em ter virado para esta banda... E nem tomaram café, nem nada...

– Não acha – disse Lentz – melhor desistirmos disso e aproveitarmos o tempo para um passeio mais longo?

– Seja. Voltaremos ao barracão à hora do almoço... Por que não aproveitamos para ver o lote de que ontem lhes falei?

– De que lado fica? – perguntou Milkau.

– Aqui mesmo nesta direção.

E Felicíssimo, olhando rapidamente para os lados, concluía orientado:

– Aqui devemos estar no lote vinte, mais ao menos; andemos um pouco, um quilômetro, e eu lhes mostrarei o número dez.

Felicíssimo tomou a frente, seguido pelos outros, caminhando um a um na estreita beirada. A conversa ia-se fazendo em vozes altas, seguia imprevista, sem sequência, aos saltos e trambolhões. E o sol que se desprendia das nuvens, transformava com violência o repousado quadro da manhã nevoenta. Inundado subitamente de amarelo, o rio chamejava em ouro, como se fosse toda a grande e incandescente massa do sol derretida, correndo sobre a Terra.

– Estão cansados? – gritou Felicíssimo.

– Que juízo faz de nós? – perguntou Lentz.

– É por causa do caminho, porque realmente tomamos pelo pior, se tivéssemos vindo por cima, tudo ia bem... Oh! diabo!

O agrimensor num falso movimento meteu o pé n’água, saltando ligeiro para diante. Lentz, que o seguia, recomendou-lhe cautela. Algumas vezes tinham de se abaixar para se desviarem dos galhos e dos arbustos, outras era preciso aguentá-los com a mão. O agrimensor divertia-se em gritar para trás, de instante em instante: Galho à direita! Aguenta! Com a mão segurava o ramo, e quando via este sustido pelo companheiro largava-o. Às vezes era precipitado, e uma lambada forte e farfalhante batia no rosto ou no corpo do vizinho. Cuidado!, implorava o outro a sorrir. E assim foram até que, em frente a um atalho, Felicíssimo enveredou por este, à direita, e virou-se para os imigrantes, tomando um largo fôlego.

– Arre! Que brincadeira! Nunca pensei que o rio estivesse tão cheio. Agora cortemos por aqui, que vamos cair mesmo dentro do lote.

Passando para a ligeira sombra do mato e caminhando pela picada, que não era muito batida nem destocada, iam vagarosamente, evitando os tropeços e as poças d’água.

Lentz, calado, suspirava bocejando. “Tudo aqui será uma grande dificuldade”, pensava ele; “não há estradas, não há a menor sombra de conforto, tudo é agreste e selvagem. Não é melhor que eu desista de fazer esta vida de colono, e me enterre aí num armazém de comércio, onde o caminho já esteja aberto e tudo aparelhado pelos outros? Realmente, que loucura atirar-me nesta campanha contra a natureza inculta! Não é preferível toda e qualquer outra vida a esta?...” E os seus olhos descansaram em Milkau, que lhe sorria como um bem-aventurado.

– Que delicioso deserto! – dizia-lhe este, ao penetrarem mais e mais no mato espesso.

– É pena que a estrada não seja melhor para gozarmos desembaraçados este passeio – respondeu o outro quase tímido, receoso de deixar transparecer o seu desalento.

– Oh! descansa, que havemos de abrir caminhos por tudo isto; limparemos as estradas, prepararemos o terreno, e matando a solidão levantaremos uma habitação risonha, que nos recompense... Não é verdade?

– Aqui não falta em que trabalhar – cortou o agrimensor. – Em geral, os colonos não querem fazer nada, limitam-se à sua casa, ao seu terreno, e esperam que o Governo se mexa, que lhes dê estradas, pontes e tudo mais... E que não se faça! Lá vai uma queixa por intermédio do Roberto ou de qualquer outro figurão ao Governador, e, sabe?, a política se mete no meio, e nós estamos a levar carões todos os dias.

– Imagino que o senhor deve ter muitos aborrecimentos – disse complacente Milkau.

– Não faltam amofinações. Agora mesmo tenho um ofício do inspetor, mandando o engenheiro informar a respeito de uma representação dos colonos sobre uma ponte que está com o madeiramento estragado. Creio mesmo que já caíram uns paus; nós pedimos verba, e, como de costume, o inspetor não se importou com o que disse o pessoal; os colonos, porém, que são matreiros, foram à fonte limpa, e Roberto arranjou com eles um “abaixo-assinado”, que mandou para a Vitória; o Governador se assanhou logo, com medo das eleições, mandou o papel ao inspetor, que por sua vez o mandou para cá, ao engenheiro, a fim de fazer o orçamento das obras... Isso leva ainda um ror de tempo... E a minha vingança é que, quando vier o dinheiro, será muito pouco, porque o tempo não descansa, o pau vai apodrecendo dia a dia, e é preciso fazer a ponte de novo. Lá vem outra vez segundo barulho...

– E neste tempo que recurso têm os moradores, se a ponte cair? – perguntou inquieto Milkau.

– Ora, muito simples. Botam uma pinguela de lado a lado e vão vivendo. Sou um seu criado, e estou me ninando para o Governo, inspetor e toda essa récua...

A zanga do agrimensor era dessas que passam à medida que é espraiada num desabafo de linguagem. Imediatamente depois, ele tinha esquecido tudo e voltava à sua jovialidade. Andaram mais um pouco pela picada e saíram, perpendicularmente, em um caminho mais largo e mais limpo.

– Está aqui o lote que lhes recomendo – disse Felicíssimo, andando mais uns passos pela nova estrada.

Os outros olharam um matagal cinzento, com as árvores crescidas e todo tapado pela vegetação, que era forte e traduzia a fertilidade do solo. Não viam nada de lado a lado: a vereda fora aberta em plena mata e tudo era encerrado numa sombra infinita e cálida.

Ficaram mudos e como ligeiramente apavorados pelo recolhimento das coisas e como se uma sensação de isolamento, de separação do mundo os mortificasse por instantes. Felicíssimo, em cujo espírito trêfego e intempestivo o silêncio não tinha abrigo, impacientou-se por uma resposta, acrescentando:

– Este lote é muito bom; vejam que terra... cada pau de respeito... É preciso um pouco de trabalho, não nego. Depois do roçado, o que não é nada, a dificuldade está na limpa... Vocês, porém, fazem um arranjo com a turma, e eles acabam isto num abrir e fechar de olhos... Oh! Há de ser um gosto!

– Aqui estamos bem – concordou Milkau, a quem uma onda de ilusão sacudia o torpor da instantânea cobardia.

– Estou por tudo – disse Lentz arrastado, e dissimulando a divagação de outros pensamentos. E apoiou-se negligentemente a uma sucupira.

O agrimensor olhou a árvore.

– Faz pena – disse compassivo – botar tudo isso abaixo.

– Eu, por mim – acudiu Milkau, levado pelo mesmo sentimento –, preferiria um lote onde não fosse preciso esse sacrifício.

– Não há nenhum – respondeu Felicíssimo.

– O homem – notou Lentz a sorrir com ar de triunfo – há de sempre destruir a vida para criar a vida. E depois, que alma tem esta árvore? E que tivesse... Nós a eliminaríamos para nos expandirmos.

E Milkau disse com a calma da resignação:

– Compreendo bem que é ainda a nossa contingência essa necessidade de ferir a Terra, de arrancar do seu seio pela força e pela violência a nossa alimentação; mas virá o dia em que o homem, adaptando-se ao meio cósmico por uma extraordinária longevidade da espécie, receberá a força orgânica da sua própria e pacífica harmonia com o ambiente, como sucede com os vegetais; e então dispensará para subsistir o sacrifício dos animais e das plantas. Por ora nos conformaremos com este momento de transição... Sinto dolorosamente que, atacando a terra, ofendo a fonte da nossa própria vida, e firo menos o que há de material nela do que o seu prestígio religioso e imortal na alma humana...

Enquanto os outros assim discursavam, Felicíssimo, no seu amor ingênuo à natureza, mirava as velhas árvores, e com a mão meiga festejava-lhe os troncos, como os últimos afagos dados às vítimas no momento do sacrifício. Dentro da mata penetrava o vento da manhã e nas folhas passava brandamente, levantando um murmúrio baixo, humilde, que se escapava de todas as árvores, como as queixas surdas dos moribundos.

– Então, que decidem? – perguntou aos outros o agrimensor.

Os imigrantes concordaram de bom grado em se estabelecer no terreno indicado.

– Fazem muito bem, porque esta situação é admirável para o café, e, além disso, é muita cômoda aqui, à beira da estrada.

– E vê-se bem o rio? – indagou Lentz.

– Sem dúvida: é só desbastar o mato, aí está à vista o estirão d’água.

– Será uma delícia uma casinha neste belo ponto – comentou Milkau numa irradiação de íntimo bem-estar.

– Hão de ver... E agora toquemos para o barracão; são horas do almoço. E hoje mesmo voltaremos com os homens para a medição.

Puseram-se a caminho, alvoroçados com os vários sentimentos que os trabalhavam. Na estrada falavam alto, espantando os pássaros dormentes e sacudindo do voluptuoso letargo os calangos, que se escapuliam pelas folhas secas, numa música de chocalho.

Chegados ao barracão, foram logo para o escritório, e aí, em frente ao grande mapa dos terrenos, o agrimensor mostrou-lhes a posição do prazo escolhido, continuando nos calorosos elogios, e, ao mesmo tempo, molhando uma pena em tinta encarnada, marcou o lote com uma cruz, à semelhança dos outros que já tinham sido concedidos. As folhas dos requerimentos eram fórmulas impressas, e em uma delas Milkau teve de encher com as indicações especiais de identidade os pontos em claro. Isso feito, os dois companheiros entregaram a petição assinada, pagaram as custas da medição e da planta, e foi essa a única formalidade para a entrega do prazo, pois, graças à condescendência do chefe, Felicíssimo punha e dispunha das terras a distribuir. E eis como, pensava Milkau, toda a complicada engrenagem do Estado, com as suas repartições custosas, os seus inúmeros funcionários, afinal se concentra nas mãos reduzidas de um humilde agrimensor, que de fato é o senhor absoluto desses bens públicos.

– Vamos à boia, que já vai ficando tarde e vocês devem estar dando horas, pois ainda não puseram nada no alforje – disse Felicíssimo passando a mão espreguiçada no ombro de Lentz.

Este furtou instintivamente o corpo como para não ser esmagado pelo gesto da intimidade.

Os trabalhadores já rodeavam a mesa preparada pobremente para o almoço quando os outros entraram na sala. A refeição a princípio correu ruidosa: todos estavam expansivos pela fome e pelo começo da familiaridade.

Para o fim, Felicíssimo passou a entristecer; uma súbita preocupação se apossou dele, e, por mais que lutasse para disfarçar, não pôde resistir e caiu numa cisma profunda. Isso espalhava na mesa uma leve melancolia, que refreava a expansão. Mal acabou o almoço, os homens da turma, habituados a essa aflição íntima do agrimensor, e que era o prenúncio das medições dos lotes, retiraram-se do barracão, donde o semblante do chefe carregado de sombras os expelia mais depressa. No terreiro cercaram um barril d’água, em que mergulharam as mãos, esfregando depois as caras com estrépito, bufando. O bocal do barril era pequeno para tanta gente, e os homens rindo disputavam entre si a precedência. Uma alegre algazarra se formou; cada qual esmurrava o companheiro, arrastava-o no meio de amáveis insultos, rindo sem saber de quê, mas alvar e gostosamente.

– Vamos! aviem-se – gritou Felicíssimo. E à voz de comando a alma obediente dos homens serenou e todos em ordem terminaram a ablução. Depois armaram-se com os instrumentos e ferramentas e puseram-se em marcha na frente. Felicíssimo com os novos colonos ia atrás. Por vezes, no caminho, Milkau cortesmente procurou conversar com o agrimensor, que, soturno, se metia consigo, mal respondendo às perguntas. Então seguiam em silêncio, ruminando os seus pensamentos, abrasados pelo calor do sol, que mesmo no mato coberto era abafadiço. Houve um momento, depois de andarem bastante, em que Felicíssimo deu voz de alto.

Todos pararam mecanicamente.

– É aqui que temos de abrir o rumo.

Os trabalhadores começaram a desatrelar os instrumentos e os seus apetrechos acessórios. O agrimensor acompanhava-os com uma compenetração religiosa, e foi com certa sofreguidão que viu abrir-se uma caixa e dela se retirar um instrumento, que recebeu em suas mãos com febril ansiedade. Pediu a tripeça, que um homem lhe apresentou rápido, e sobre aquela passou o agrimensor a atarraxar o instrumento. Havia uma calma grave em todos, e o moço cearense entregava-se à sua tarefa com extrema atenção. Depois de algum tempo, tomou posição com o seu aparelho, e ordenou a três trabalhadores que seguissem pela frente da estrada com as balizas pintadas em zonas brancas e encarnadas. E virando-se para Milkau e Lentz, disse com solenidade:

– Não sei se os senhores conhecem. Isto é o teodolito. Estupenda invenção! Dispensa grande trabalho para levantar as plantas. Hoje fazemos medições enquanto o diabo esfrega um olho, porque, como sabem, é a combinação do nível e da altura: toma-se um ângulo horizontal e um ângulo vertical ao mesmo tempo... Grande invento! Sem ele não sei como me arranjaria!

Os novos colonos conheceram pasmos um novo Felicíssimo, e não sorriram. O agrimensor calou-se ainda mais solene e entregou-se todo ao instrumento; mirava na objetiva, abaixava-se, erguia-se para espiar por cima, voltava a retificar as lentes, torcendo-as ora de mais, ora de menos, sempre com insucesso. Já o tomava a angústia de não acertar, mas ora teimava em seus movimentos, ora abandonava o aparelho e ia mirá-lo de longe. Voltava ao instrumento, tornava a ajeitá-lo, espiava outra vez e sempre o mesmo resultado negativo. Em roda faziam um tímido silêncio os trabalhadores, que conheciam esse momento terrível do teodolito. E só neles Felicíssimo se transformava, a ponto de insultar e espancar os seus homens. Cada um o temia e instintivamente se ia afastando do aparelho perturbador, com medo de algum desabafo. E a aflição do agrimensor naquele dia redobrava à vista de Milkau e Lentz, para quem ele preparava a cena da sabedoria. O sol esquentava; no chão os pés queimavam; um suor frio e extenuante alagava o agrimensor. O tempo ia correndo, sem resolver-se a medição, e para Felicíssimo, atado em sua angústia, parecia interminável.

– Ah! – disse aos hóspedes. – Ele tem hoje o diabo no corpo: não consigo ver nada. Com certeza foi quebrado por algum desses miseráveis.

E olhava raivoso o grupo dos trabalhadores, que agradeciam com os olhos a presença dos novos, evitando maiores consequências da cólera do chefe.

Neste tempo os homens das balizas estavam fatigados e começavam negligentes a oscilar os marcos.

Felicíssimo arremessou-se ao primeiro:

– Oh! seu ordinário, eu logo vi que era você que não me deixava pôr em ordem o teodolito, afastando o pau da linha.

O homem desculpou-se, dizendo que arriara o marco quando o chefe já não estava no aparelho. Felicíssimo ficou colérico, mas a ânsia e a vergonha do insucesso não davam forças à sua ira. Ao contrário, enfraqueciam-no, tornavam-no gago, murcho. Voltou ao instrumento, e agora definhava no desespero de conseguir qualquer observação. Uma grande tristeza apoderou-se dele; Milkau, com pena, disse-lhe:

– É melhor deixarmos isso para amanhã. Hoje está muito quente... Almoçamos bem, tínhamos andado antes, o senhor está fatigado. Deixe para amanhã com a fresca. E, depois, quem sabe? O teodolito pode estar quebrado, e em casa mais à vontade o desarma para ver.

– Sim, é melhor. Com certeza há alguma coisa aí dentro... Mas para não perdermos tempo, se fizéssemos a medição com a fita?... É um sistema atrasado e de que não gosto, mas enfim, se o aparelho está quebrado, não há remédio.

– Com certeza.

– Guarde isto – ordenou Felicíssimo a um homem, apontando desdenhoso para o instrumento.

Os trabalhadores miravam-se todos com ar inteligente. Cumpria-se a velha e costumada comédia do teodolito. Eles sabiam bem que o agrimensor, em mais de duzentas medições, não conseguira trabalhar com o maldito instrumento, que sobre ele exercia uma influência satânica, lhe alterava o caráter, o punha fora de si e era causa desse terror cujos prenúncios lhe sombreavam o espírito desde o fim do almoço. À medida que o teodolito ia desaparecendo na caixa, a alma de Felicíssimo ia-se libertando da angústia, e o seu jovial humor o retomava francamente, apagando os traços da agonia científica.

– Estes mulatos... – dizia em aparte Lentz a Milkau.

E como o agrimensor se aproximasse deles, desinteressado do teodolito, o alemão parou, disfarçou, alteando a voz, um pouco sarcástico:

– Vamos à fita!

A medição fez-se como sempre. As medidas foram tomadas na fachada da frente do terreno e nos fundos dentro da mata; postes fincados nos quatro ângulos assinalavam o lote adquirido pelos dois imigrantes. Faltava, porém, abrir o rumo que separasse de lado a lado este quinhão de terra dos outros. Milkau dirigiu-se a Felicíssimo e perguntou-lhe se podia contratar com os homens esse serviço para aquela hora mesma. O cearense objetou que a planta não estava tirada.

– Não seja essa a dúvida – disse Milkau –, os marcos estão colocados e o rumo irá sendo aberto com as balizas e medidas rigorosas. Nós tomamos a responsabilidade de abrir novo rumo, se este não sair de acordo com a planta.

O agrimensor bondoso e serviçal aquiesceu, e Milkau entendeu-se com os homens. Momentos depois, os trabalhadores estavam a derrubar o mato; a princípio iam escolhendo para cortar os pequenos arbustos, ladeando quando se encontravam com uma árvore mais robusta, ainda receosos de acometer o trabalho. O rumo ia saindo acanhado e torto. Mas quando miraram o serviço feito, os homens como que despertaram da sua instintiva preguiça e estimulados à vista dos estranhos atiraram-se duramente à derrubada. O machado cantava com energia no âmago dos troncos, e derrubadores em grupo combatiam ao mesmo tempo uma pobre árvore. Havia uma raiva, uma fúria histérica de destruição, e em pouco tempo estavam completamente alheios a tudo e entregues à sua vertigem malvada. O ferro não descansava nos braços sempre em movimento, num compasso vagaroso. Ouvia-se cair o machado deslocando o ar e arrancando um ronco forte dos robustos peitos dos devastadores. Quando estes encontravam um pau mais duro, redobravam de ardor, o suor lhes escorria, o golpe era tirado bem do chão, e no impulso furibundo o ferro penetrava tanto que, para desprendê-lo, o homem tinha de fazer um esforço desesperado. Iam para adiante, agora harmônicos e regulares. A pequena fadiga fazia bem aos seus membros hercúleos, e a alegria se lhes espraiava nos rostos congestos. Não mais roncavam com a ânsia dos primeiros movimentos; agora, habituados ao exercício, serenavam, distraíam-se, e das suas bocas rudes deixavam sair os velhos cantos amados. Joca fora o primeiro a soltar a voz. Os alemães instintivamente o imitaram, e cada um em sua própria língua cantava versos bebidos na fonte natal. O mulato maranhense dizia as saudades do seu coração, tudo o que mais amava com as íntimas energias do seu ser humano. E cantava num tom que era um longo soluço:

Adeus, campo, e adeus, mato,

Adeus, casa onde morei!

Já que é forçoso partir,

Algum dia te verei.

Era o grande acontecimento, o drama da sua vida esse abandono da terra natal. E ele o cantava sem atender a ninguém, cravando mecanicamente o machado nas árvores. Em outros momentos abandonava esse queixume, e dos seus lábios inconscientes saíam versos de outro caráter.

Vi o teu rasto na areia

E pus-me a considerar:

Que encantos não tem teu corpo,

Se o teu rasto faz chorar!

Nesta imagem tão fina e tão superior de um sentimento animal, Joca expandia-se em gritos voluptuosos. Perpassava na cadência e no pensamento da estrofe o frêmito da luxúria meiga e doce de toda a sua raça.

A essa solitária voz brasileira juntavam-se os acentos fortes e musicais das vozes alemãs. Elas cantavam em coro, e os versos que diziam eram ecos das tabernas do país germânico; e por um momento ali mesmo, em plena selva tropical, os imigrantes sonhavam pela sugestão das cantigas, que se reuniam a beber, joviais e ruidosos: “Die alten Deutschen trinken noch ein, noch ein...” (os velhos alemães bebem mais um, mais um). A derrubada do rumo prosseguia mais ativa e mais alegre. Os ecos recolhiam as rimas singulares das duas raças, que se casavam no ar numa união estranha...

Teu rasto faz chorar...

Noch, noch ein...

Milkau, havia uns dias, no alojamento dos imigrantes, deixava embebido na contemplação correr o tempo e não se decidia a começar essa vida, arquitetada pelo seu coração em longo sonho.

Uma piedade indefinida diante do sacrifício da mata o entorpecera. Sentia que um pouco da beleza e do esplendor da terra ia morrer. E Milkau vibrava com a recordação de todo o sofrimento que o homem tem causado no mundo, passando indiferente sem ouvir o gemido do mar rasgado, a queixa da floresta ardente, o estremecimento do ar cortado, por toda a parte destruindo como um fatal portador da morte a integridade da forma. E em roda dele a vida em tudo: na terra geradora, na mulher que ele ama, no pó que pisa. Tudo vive, tudo tem uma voz, uma alma na harmonia eterna do Universo... Mas, ainda assim, Milkau perdoava ao homem. Compreendia a fatalidade do seu destino e resignava-se, numa subordinação indiscutível e indefinida, à necessidade.

Amanhecia, quando se chegou a Lentz, e disse resolutamente:

– Temos de queimar o mato.

A ideia do fogo chamejou no espírito do companheiro. Pouco depois, os homens foram reunidos, e todos penetraram na floresta com um recolhimento sacerdotal, de quem vai cumprir os ritos de cultos infernais. Num dos ângulos da mata lançaram fogo à primeira moita, que lhes pareceu mais ressequida. Antes que a labareda apontasse para o alto as línguas ardentes, rubras, rápidas, uma fumaça grossa se desprendia do fundo da toiça, suspendia-se no ar leve da floresta, vagando na direção dos caminhos como pastosas nuvens. Começara a queima. O fogo erguera-se e lambia num anseio satânico os troncos das árvores. Estas estremeciam num delicioso espasmo de dor. Toda a ramagem da base foi ardendo, e as parasitas como rastilho de pólvora levavam as chamas à copa, e a fumaça aumentando entupia as veredas e arremessava para a frente o bafo quente do fogo, que lhe seguia no encalço. Muitas árvores estavam contaminadas, ardiam como tochas monstruosas, e estendendo os braços umas às outras espalhavam por toda a parte a voragem do incêndio. O vento penetrava pelos claros abertos e esfuziava, atiçando as chamas. Pesados galhos de árvores que caíam, troncos verdes que estalavam, resinas que se derretiam estrepitosas, faziam a música desesperada de uma imensa e aterradora fuzilaria. Os homens olhavam-se atônitos diante do clamor geral das vítimas. Línguas de fogo viperinas procuravam atingi-los. Recuavam, fugindo à perseguição das colunas que marchavam. Pelos cimos da mata se escapavam aves espantadas, remontando às alturas num voo desesperado, pairando sobre o fumo. Uma araponga feria o ar com um grito metálico e cruciante. Os ninhos dependurados arderam, e um piar choroso entrou no coro como nota suave e triste. Pelas abertas do mato corriam os animais destocados pelo furor das chamas. Alguns libertavam-se do perigo, outros caíam inertes na fornalha.

Num alvoroço de alegria, os homens viam amarelecer a folhagem verde que era a carne, e fender-se os troncos firmes, eretos, que eram a ossadura do monstro. Mas o fogo avançava sobre eles, interrompendo-lhes o prazer. Surpresos, atônitos, repararam que a devastação tétrica lhes ameaçava a vida e era invencível pelo mato adentro, quase pelas terras alheias. E feros e duros atiravam-se à enxada para cavar o aceiro. Do lado da praia o trabalho foi fácil; o terreno estava desbastado e limpo. Aí abriram rápido o sulco protetor. Do outro lado, no meio da floresta, nos limites da área do lote, a luta foi tremenda. A nevrose do pavor centuplicou-lhes as forças. Os pigmeus que se não mediam com as árvores, e que, não podendo vencê-las, tinham recorrido ao fogo, agora, sob o aguilhão da defesa própria, se arrojavam contra os paus com o denodo de gigantes. E afogueados, enegrecidos, cavaram a trincheira pelo rumo, e, se encontravam o embaraço de algum tronco, atacavam-no a machado, com raiva, com ânsia, com febre. O aceiro foi sendo aberto até que o fogo se aproximou; a coluna, como um ser animado, avançava solene, sôfrega por saciar o apetite. Sobre a terra queimada na superfície, aquecida até ao seio, continuava a queda dos galhos. O fogo não tardou a penetrar num pequeno taquaral. Ouviram-se sucessivas e medonhas descargas de um tiroteio, quando a taboca estalava nas chamas. O fumo crescia e subia ao ar rubro, incendiado; os estampidos redobravam, as labaredas esguichavam, enquanto a fogueira circundava num abraço a moita de bambus. A cem metros de separação, os colonos cavavam sempre. Farto de devorar a carne dura do bambual, o fogo desafogou-se, e célere, e lépido, foi veredeando, por um atalho, sorvendo os arbustos, que se erguiam à margem, até chegar ao aceiro. Já os homens num esforço imenso se tinham adiantado. As chamas abeiraram-se da vala e, diante do espaço aberto e intransitável, detiveram-se e espalharam-se para a direita e para a esquerda, continuando a sua obra.

Os colonos e trabalhadores semimortos voltavam à casa, logo que se reconheceram senhores do perigo, invencíveis sacrificadores da terra.

À noite, da varanda do barracão, quando as estrelas em ritmo moroso parecia caminharem no céu, Milkau chamava na sua imaginação a vinda dos tempos sem violência, e os outros miravam numa diabólica satisfação a mata esbraseada se estorcer nas agonias do incêndio.

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