XII Canaã · Capítulo 12 de 12
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XII

XII

– Maria!

A desgraçada estremeceu; e com as mãos hirtas, estiradas, afastou de si o rosto que se inclinara sobre ela. Nas torturas do pesadelo, parecia-lhe que beiços roxos, sedentos e viscosos lhe buscavam os lábios...

– Maria, sou eu... – repetiu Milkau.

Ela abriu os olhos e ficou deslumbrada. A sua mão agora branda e lânguida tateava incerta para se certificar da súbita e estranha aparição do amigo. E gestos infantis e leves roçavam pela barba de Milkau numa inconsciente carícia...

– Vamos! Levanta-te... – disse-lhe ele, baixo e com firmeza, sacudindo o morno carinho, recolhendo e enfeixando com energia as suas forças mais intensas.

Obedecendo, Maria ergueu-se; e pela mão de Milkau foi seguindo pela casa meio escura. No corredor, a claridade da noite, que entrava pela porta da rua, aberta como de costume, deixava ver o corpo de um soldado negro dormindo numa postura brutal, como uma figura tosca e arcaica. A prisioneira alarmada quis recuar; Milkau tomou-lhe as mãos com império e passou com ela sereno e forte ao lado da sentinela, conduzindo-a para a noite e para a liberdade.

Fora, o ar sutil e frio que lhe penetrava nas carnes sonolentas e tépidas, o céu cristalino, a cintilação das estrelas, a largueza, a imensidade do espaço davam à fugitiva uma deliciosa vertigem, e, num esmorecido colapso, ela vacilou e veio se apoiar nos braços de Milkau, que a foi arrastando vagarosamente.

Enlaçados, caminhavam pela cidade calada e adormecida. Iam morosos; os passos dela eram vacilantes, e os pés, por tanto tempo entorpecidos, tropeçavam nas pedras soltas da rua. O silêncio inquietador enchia-lhe o espírito do antigo pavor que se não extingue nunca. Uma ou outra vez, cães sonolentos despertavam com o passar dos vultos, e ladrando se arremessavam em vão contra eles. E depois tudo voltava ao sossego ameaçador, que parecia ser a cada instante bruscamente interrompido pelas vozes da perseguição surgindo das casas acordadas... Mas só lhes chegava o chiar monótono e eterno da cachoeira. Dobraram de cautela, espiando com os olhos imensos e dilatados pela treva, as formas apagadas e sinistras do mundo. Era no ouvido delas assustadiça e trêmula, que Milkau ia falando:

– Fujamos para sempre de tudo o que te persegue; vamos além, aos outros homens, em outra parte, onde a bondade corra espontânea e abundante, como a água sobre a terra. Vem... Subamos àquelas montanhas de esperança. Repousemos depois na perpétua alegria... Vamos... corre...

Deixaram a cidade, e agora sem receio de despertá-la galgavam a montanha, lépidos e radiantes. A fria rigidez, criada pelo terror, se fora dos braços de Maria, que se prendiam aos de Milkau, tépidos e brandos.

Subindo, perdiam eles de instante a instante a vista do Cachoeiro, embaixo aos seus pés, coberto pelo manto cinzento e vaporoso da bruma, sobre que passava a luz exausta da noite úmida, levantando ali uma fosforescência vaga de nebulosa... E debaixo desse manto se desenhavam seres fantásticos, colossais, gigantescos, sem forma ainda imaginada... Um trecho do Santa Maria, lívido, morto, cortava como um gládio fumegante a várzea do Queimado, onde as colinas baixas semelhavam corpos deitados de heróis antigos e mutilados, corcundas e aleijões... Depois, nada mais viram; subiram ainda e entraram no bojo da mata. Os braços de Maria retesaram-se de novo e apertaram os de Milkau. Havia um rumor contínuo e aflitivo de vento mau nas folhas da grande massa. Iam inquietos, afundando os olhos na infindável negrura, donde vinha o clamor do mistério e do sofrimento das árvores castigadas. E o vento implacável ia passando, fazendo-as gemer rumorosamente... No vão das trevas, de espaço a espaço, pelas frestas descia a claridade, e do jorro de luz se formava dentro da floresta uma coluna alevantada do chão para o céu, atravessando o teto ondeante, e docemente iluminada pelos reflexos das árvores espectrais... Estreitados um ao outro, aspirando o aroma capitoso e perturbador que se desprendia das flores noturnas, caminhavam velozes. Milkau repetia no ouvido da companheira o seu apelo de sedução.

– É a felicidade que te prometo. Ela é da Terra, e havemos de achá-la... Quando vier a luz, encontraremos outros homens, outro mundo, e aí... É a felicidade... Vem, vem...

Assim espantava o terror, e Maria já se animava, recolhendo nessa voz acariciadora o canto mágico dos seus esponsais com a ventura. Subiram, voando, voando...

O caminho deixou a mata sombria e saiu pelas alturas descobertas. Era pedregoso, escasso, margeando o despenhadeiro. O passo da fuga moderou. Cautelosos e arquejantes, escalavam a subida. Milkau não mais falava, e os seus olhos mergulhavam no abismo e se perdiam fascinados na toalha branca e espumosa do rio... Maria quase não caminhava; fatigada e de pés maltratados, puxava com esforço o braço de Milkau, mais inclinada sobre ele, aquecendo-lhe o rosto com o seu hálito ofegante. Subiam lentos, arrastando-se unidos. A estrada tomava sempre pela beira de precipícios cada vez mais difíceis de vencer, e aos fugitivos, como uma zoada infernal, vinham os urros do Santa Maria, acorrentado no fundo do cavado e fragoso vale. E este se ia estreitando, e as ribas mais angustas pareciam se terminar, confundidas no horizonte, sobre rochedos escarpados e negros. Milkau desanimou, vendo-se perdido naquele recôncavo tenebroso, naquela solidão de pedra. Percorria-lhe os membros um suor gelado, e o corpo frio, alquebrado, abatia-se, escapava-se, desprendia-se para o abismo, para a morte... Maria, num assomo de pavor, recobrou uma estranha energia e tentou retê-lo, arrastando-o para a encosta da montanha. Ele olhou-a com os olhos desvairados, agarrou-a pela cintura, e com um sorriso diabólico, feroz e resoluto, gaguejou estrangulado:

– Não há mais nada... Mais nada... Só, só... A morte...

Maria resistia com fúria, debatendo-se nas mãos fortes do homem; rolaram por terra confundidos, lutando, destruindo-se, alucinados, doidos... O calor da mulher, já olvidado, incendiava-o implacavelmente agora; e no combate ele a estreitava com veemência, com ardor, beijando-a febrilmente, ferozmente. Também ela se apertava com fúria a ele, num acordar violento das suas entranhas... A tentação satânica da morte era mais poderosa... O Santa Maria urrava soturno e medonho... De um salto, Milkau ergueu-se, e arrebatando a mulher do chão avançou alegre e infernal para o abismo... e logo estacou. Os braços dela, enlaçando-se como correntes a uma árvore, o retinham. Pregados assim nessa postura, os dois desgraçados lutaram longamente, mas a força dele que a queria levar para a morte teve de ceder à dela, que os prendia à vida... E Milkau fraqueou por fim, caiu num súbito desfalecimento, aniquilado, confuso, e dos seus braços esvaídos desprendeu Maria. Ela, lívida, espavorida, sentindo-se em liberdade, deitou a correr veloz pela vereda de pedra, que aos seus pés medrosos e vivos se tornava macia e segura. Milkau, reanimando-se, seguiu-a. E as duas sombras, enormes, na obscuridade da treva, iam desfilando sinistras e rápidas pela aresta da barranca... Num momento, galgaram o alto da montanha, e pasmaram a vista nos livres descampados por onde descia a estrada. A agonia de Milkau se desmanchava à vista da planície dilatada e benfazeja, os ruídos desesperados e atraentes do rio morriam atrás, o abismo negro e assombroso passava como o tormento de uma vertigem; e agora eles se precipitavam numa campina suavemente esclarecida pela noite maravilhosa e límpida. Corriam, corriam... Atrás de si, ouvia ela a voz de Milkau, vibrando como a modulação de um hino...

– Adiante... Adiante... Não pares... Eu vejo. Canaã! Canaã!

Mas o horizonte na planície se estendia pelo seio da noite e se confundia com os céus. Milkau não sabia para onde o impulso os levava: era o desconhecido que os atraía com a poderosa e magnética força da Ilusão. Começava a sentir a angustiada sensação de uma corrida no Infinito...

“Canaã! Canaã!...” suplicava ele em pensamento, pedindo à noite que lhe revelasse a estrada da Promissão.

E tudo era silêncio, e mistério... Corriam... corriam. E o mundo parecia sem fim, e a terra do Amor mergulhada, sumida na névoa incomensurável... E Milkau, num sofrimento devorador, ia vendo que tudo era o mesmo; horas e horas, fatigados de voar, e nada variava, e nada lhe aparecia... Corriam... corriam...

Apenas na sua frente uma visão deliciosa era a transfiguração de Maria. Animada, transmudada pelo misterioso poder do Sonho, a Mulher enchia de novas carnes o seu esqueleto de prisioneira e mártir; novo sangue batia-lhe vitorioso nas artérias, inflamando-as; os cabelos cresciam-lhe milagrosos como florestas douradas deitando ramagens, que cobriam e beneficiavam o mundo, os olhos iam iluminando o caminho, e Milkau, envolto no foco dessa gloriosa luz, acompanhava em amargurado êxtase a sombra que o arrebatava... Corriam... corriam... E tudo era imutável na noite. A figura fantástica sempre adiante, veloz e intangível; ele atrás, ansiado, naquela busca fatigante e vã, sem a poder alcançar, e temendo dissolver com a sua voz mortal a dourada forma da Ilusão, que seguia amando... Canaã! Canaã! pedia ele no coração, para fim do seu martírio... E nunca jamais lhe aparecia a terra desejada... Nunca jamais... Corriam... corriam...

A noite encantadora recolhia-se, o mundo cansava de ser igual; Milkau festejou num frêmito de esperança a deliciosa transição... Enfim, Canaã ia revelar-se!... A nova luz sem mistério chegou, e esclareceu a várzea. Milkau viu que tudo era vazio, que tudo era deserto, que os novos homens ainda ali não tinham surgido. Com as suas mãos desesperançadas, tocou a Visão que o arrastara. Ao contato humano ela parou, e Maria volveu outra vez para Milkau a primitiva face moribunda, os mesmos olhos pisados, a mesma boca murcha, a mesma figura de mártir.

Vendo-a assim, na miseranda realidade, ele disse:

– Não te canses em vão... Não corras... É inútil... A terra da Promissão, que eu te ia mostrar e que também ansioso buscava, não a vejo mais... Ainda não despontou à Vida. Paremos aqui e esperemos que ela venha vindo no sangue das gerações redimidas. Não desesperes. Sejamos fiéis à doce ilusão da Miragem. Aquele que vive o Ideal contrai um empréstimo com a Eternidade... Cada um de nós, a soma de todos nós, exprime a força criadora da utopia; é em nós mesmos, como num indefinido ponto de transição, que se fará a passagem dolorosa do sofrimento. Purifiquemos os nossos corpos, nós que viemos do mal originário, que é a Violência... O que seduz na vida é o sentimento da perpetuidade. Nós nos prolongaremos, desdobraremos infinitamente a nossa personalidade, iremos viver longe, muito longe, na alma dos descendentes... Façamos dela o vaso sagrado da nossa ternura, no qual depositaremos tudo o que é puro, e santo, e divino. Aproximemo-nos uns dos outros, suavemente. Todo o mal está na Força, e só o Amor pode conduzir os homens...

“Tudo o que vês, todos os sacrifícios, todas as agonias, todas as revoltas, todos os martírios são formas errantes da Liberdade. E essas expressões desesperadas, angustiosas, passam no curso dos tempos, morrem passageiramente, esperando a hora da ressurreição... Eu não sei se tudo o que é vida tem um ritmo eterno, indestrutível, ou se é informe e transitório... Os meus olhos não atingem os limites inabordáveis do Infinito, a minha visão se confina em volta de ti... Mas, eu te digo, se isto tem de acabar para se repetir em outra parte o ciclo da existência, ou se um dia nos extinguirmos com a última onda de calor, que venha do seio maternal da Terra; ou se tivermos de nos despedaçar com ela no Universo, desagregar-nos, dissolver-nos na estrada dos céus, não nos separemos para sempre um do outro nesta atitude de rancor... Eu te suplico, a ti e à tua ainda inumerável geração, abandonemos os nossos ódios destruidores, reconciliemo-nos antes de chegar ao instante da Morte...”.

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