XI Canaã · Capítulo 11 de 12
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XI

XI

Lentz vagava nas desertas margens do Rio Doce, e o seu espírito, atormentado pela solidão, retraía-se comprimido diante da serenidade desesperadora da terra. Sobre ele o céu cavado, longínquo, desdobrava-se sereno e luminoso, o sol abrasava um mundo parado e morto. Ia errante e perdido, embebidos os olhos no que ali era a única vida, nas águas vagarosas, deslizando como alma expirante. A implacável beleza do silêncio o exaltava, e ele passava amaldiçoando a impassibilidade do Universo, que não estremecia nem se agitava fecundo aos seus pés sobre-humanos. Na conspiração da calma, da solidão, da luz, do esplendor, do infinito, o espírito do homem delirava. E nesse delírio a memória apagava-lhe as origens da existência, o passado não tinha sido; e tudo, formas deliciosas das coisas, água, que ainda se movia, árvores silentes e concentradas, céus, sol, montes, nuvens, tudo era a expressão de vidas que se extinguiram, de seres que se agitaram cheios de alma, e que preparavam extáticos o leito admirável para o despertar do primeiro homem. E a nova existência das novas formas ia começar...

Lentz sentiu-se maravilhado pelo cenário, em que se abriam seus olhos sem passado, virgens e primitivos; mas o tédio de se ver único, errante, desalentava-o, e imortal, e infinito, mergulhava o espírito no tempo imemorial, e tremia de tristeza. E assim na região do silêncio as ânsias da criação agitaram o homem forte.

O princípio da vida, o ímpeto de repetir-se eternamente erguia-se nele, súplice e imperioso. Lentz quis que as suas forças íntimas e essenciais, desagregando-se, se fracionassem em parcelas imponderáveis e invisíveis, como partículas de luz, numa misteriosa fecundação do Nada. Ansiado, inquieto, doloroso, delirava... e uma ilusão perversa descortinava a sua imagem multiplicada em miríades de corpos formosos e serenos, como a geração de um deus. Deliciou-se extasiado nos olhos da sua raça, nos cabelos, nos membros e traços de glória, em que cada um resumia a beleza e a força do Universo... E tudo era belo, e tudo era bom, porque tudo era ele.

Depois, não tardou a chegar-lhe a invencível monotonia de se ver a si, a si indefinidamente. No desespero, quis voltar ao incriado, extinguir tudo, e gerar novos seres, que não fossem a sua imagem, que não fossem divinos, que gemessem, que morressem e fossem humanos. O criador lutou com o próprio espírito e o espírito, como uma força diabólica, indestrutível, venceu-o, criando sempre a mesma expressão, sempre as formas ele só. Ele... E que saíam da força solitária e desdenhosa, acompanhavam-no eternas e fatais. Lentz horrorizava-se de se ver a si mesmo, numa multiplicação infernal. Do alto da montanha, aonde chegara, precipitou-se, fugindo da multidão de fantasmas que o perseguiam amorosos e escravos e que eram ele, sempre ele... Aproximou-se do rio, voou sobre este num impulso de salvação, num desejo estranho de aniquilamento, de alívio... e parou. Sobre o cristal das águas a sua imagem o espreitava para o seguir ainda na morte...

E o delírio se repetia sob mil terríveis combinações, nos dias serenos que abrasavam a alma frágil e desvairada do solitário. E quando, nas noites sossegadas, os tormentos da nova vida sobre-humana não o mortificavam, ele penetrava na solidão infecunda do espírito e errava pelo deserto ululando, amesquinhado e cobarde. Implorava a companhia tenebrosa do vento, e o vento se calava àquela invocação satânica; com os olhos ardentes e devoradores, buscava, em vão, reanimar as coisas que adormeciam. A lua voltava para ele a sua lívida face de cadáver.

Um movimento de piedade trouxe Milkau à colônia. Durante todo aquele tempo, não esquecera o seu companheiro de destino. E, quando houve uma parada no processo, veio ao Rio Doce. Era ainda madrugada quando entrou no prazo, e logo no jardim abandonado, invadido pelo mato, que não perdoa e está sempre atento ao descuido do homem, Milkau adivinhou tudo. A casa estava aberta, e derrubado no chão adormecia pesado o corpo de Lentz.

Permaneceram juntos na colônia até o dia seguinte. O contato de Milkau alevantava e restabelecia o espírito do infeliz. E agora, num incomensurável pavor da solidão, este se ia deixando governar pelo instinto da ligação universal, e prendia-se numa afeição entranhada e decidida a Milkau, que o chamava ao Cachoeiro, à defesa e ao consolo do sofrimento. Um raio da luz que irrompia do martírio de Maria chegou a Lentz, que, obedecendo ao poder do inconsciente, contra que tanto lutara, curvou a cabeça e seguiu o amigo.

Na estrada, quando tudo se animava à passagem deles, e ventos, e pássaros, e árvores cantavam em volta, Lentz, recapitulando a curta história da sua desilusão, dizia consigo:

– Ah! como tenho saudades dos meus sonhos de audácia, dos meus desejos de ambições... E tudo isso que eu e ele ambicionávamos fazer é nada. Encontramos no nosso caminho a dor mesquinha e poderosa, e ela nos guia e nos transforma...

“Toda a maldade nele era obra da imaginação”, refletia Milkau, acompanhando-o com o carinho dos olhos. “Mas não é a ideia que governa o homem, é o sentimento. A nossa força individual não é nada em comparação à força acumulada na vida. Que pode um só contra a corrente imperiosa e dominadora, formada pelas primeiras lágrimas, descendo das origens do mundo, avolumando-se, tudo arrastando, tudo vencendo, até que um dia seja um perene preamar de bondade e doçura? Que pode o homem, insignificante e inútil, erguer para desviar o curso, o ímpeto da piedade e da simpatia?”.

Chegando ao Cachoeiro, foram logo à cadeia. Durante a ausência de Milkau, tinha conhecido Maria uma nova tortura, a que sai das perseguições da sensualidade. Com sua brancura, com a estranheza da sua raça, ela vinha já de algum tempo alvoroçando os soldados negros. A princípio, o aspecto severo da desgraça os afastara, envolvendo-a num círculo de respeito e de proteção; imperceptivelmente, porém, a convivência e a familiaridade foram permitindo que neles se erguesse o desenfreado desejo. Procuraram seduzi-la, comunicando-lhe por instinto a lubricidade; mas quando a viram insensível e obstinada nas suas recusas, fugindo ao velho costume da prisão, onde as mulheres encarceradas eram amantes dos guardas, enfureceram-se e empregaram para vencê-la o medo, a força e a crueldade. As suas noites eram agitadas, escapando ela sempre de ser violada pelos soldados assanhados e bêbados. Debatia-se nas mãos deles, e salvava-se, ou pela disputa sensual da posse que entre os dois pretos se formava, ou pelo alarido levantado, diante do qual se recolhiam cobardes e espavoridos. E os dias, que lhe concediam, eram para vingar as lutas da noite, obrigando-a a trabalhar para eles como uma escrava, dando-lhe pancadas, negando-lhe alimento. E Milkau, agora na frouxa luz da prisão, notava, surpreendido, quão terrível fora a devastação da miséria no corpo da rapariga. Não se enganava ele sobre a exata situação da pobre vítima, por mais que esta lhe sorrisse, mostrando-lhe vislumbres de esperança e traços de resignação, querendo com esforço apagar a história do seu martírio escrita indelevelmente nos olhos famintos, no rosto murcho, nas mãos de esqueleto e no peito mirrado... Milkau teve a impetuosa ânsia de arrebatá-la dali e carregá-la afoitamente para longe, e pô-la onde as feras não fossem homens.

Durante o tempo que aí passaram, Lentz ficou silencioso. Pela primeira vez se via num cárcere, misturando-se com criminosos e réprobos. A sua velha alma aristocrática estremecia de repugnância, e o espírito de sonhador soberano e forte, que não se lhe tinha extinguido de vez, estranhava o contato da miséria, revoltava-se por se libertar da moleza, da piedade, ardendo em remontar às alturas do silêncio e do império. Mas era tarde: a garra da compaixão o prendia ao mundo, que ele também assim fecundava com o seu quinhão de sofrimento.

Na rua, quando saíram da cadeia, Milkau ouviu, como um eco do seu próprio coração, estes murmúrios:

– Pobre mulher! Como é triste a vida!

Era o novo Lentz que falava.

Comovidos e angustiados, os dois amigos separaram-se. Enquanto o outro voltava a se recolher ao repugnante albergue do Cachoeiro, Milkau seguia sem propósito, vagando, para as bandas do Queimado, a região abandonada, onde fora a antiga cultura do lugar, e que atravessara no dia de esperança em que chegou à colônia.

Entrou na velha terra exausta e morta. Ainda no chão, que pisava, estavam os marcos deixados pela geração extinta e vencida... Um dia, tudo o que fora vida já por ali transitara... E agora, restos disformes de habitações humanas se sustinham petrificados, dolorosos e nus, e trepadeiras mesquinhas e bravas se esforçavam por cobrir-lhes o pejo de ruínas mutiladas. Nas colinas baixas e humildes da redondeza, destroços de pedras miravam com suas caladas máscaras de monstros a grande Terra em frente, as altas e viçosas montanhas, onde se fartava a força dos invasores... Perdido no largo e desdobrado espaço, o Santa Maria, desembaraçado das pedras que antes o faziam vibrar alegre e vivaz, passava vagindo mofino e lento... Tudo era lânguido, e vazio, e descampado, e deserto. Num canto da planície, uma moita de árvores extinguia-se mansamente. Elas vinham de outrora e ainda eram a derradeira vida que ali restava... Cadáveres de árvores derrubadas desmanchavam-se em pó, e outras de pé, tocadas pela morte, vestiam-se de púrpura e ouro, numa transfiguração gloriosa. O sol impaciente precipitava-se a mergulhar nos braços verdejantes e opulentos da Terra futura e mostrava ao Passado a outra face roxa, fria e morta... No silêncio dos ventos, cabras aconchegadas aos filhos roçavam-se nos oitões das ruínas, ruminando preguiçosas... Pássaros no céu desmaiado buscavam o pouso da noite... Àquela hora, no teatro da Agonia, Milkau cismava: “Não, eu não te fujo, doce Tristeza! Tu és a reveladora do meu ser, a razão da minha energia, a força do meu pensamento. Sobre ti me reclino, como se foras um insondável e voluptuoso abismo; tu me atrais, e estendo-te os braços nesse doloroso e invencível amor, com que o sonho ama o passado, a morte ama a vida. Antes de te conhecer, pérfida ilusão me entorpecia os sentidos, e a minha frívola existência foi a lúgubre marcha do inconsciente risonho por um caminho de dores. Nesse momento eu ainda te não buscava, sol moribundo! No meu rosto se estampava o riso contínuo e fatigante, e ele afastava de mim os homens, para quem a eterna alegria é morte... Mas tu, Tristeza, não estavas longe. Tu te sentaste à minha porta, numa postura de resignação e silêncio. E como esperaste! Um dia a alegria, de cansada, se extinguiu, e então soou para mim a hora da paz e da calma. Entraste. E como desde logo amei a nobreza do teu gesto! Oh! Melancolia! minha alma é a morada tranquila onde reinas docemente.”

Milkau caminhou ainda iluminado pelos últimos clarões da luz. No céu não passavam mais os bandos das aves. O sol resvalara de todo no fundo do horizonte. A aragem se calara... O débil vagido da cachoeira ia-se perdendo para sempre. E Milkau cismava:

“A dor é boa, porque faz despertar em nós uma consciência perdida; a dor é bela porque une os homens. É a liga intensa da solidariedade universal. A dor é fecunda, porque é a fonte do nosso desenvolvimento, a perene criadora da poesia, a força da arte. A dor é religiosa, porque nos aperfeiçoa, e nos explica a nossa fraqueza nativa”.

“Tristeza! tu me fazes ir até ao fundo das remotas raízes do meu espírito. Por ti compreendo a agonia da vida; por ti, que és o guia do sofrimento humano, por ti, faço da dor universal a minha própria dor... Que o meu rosto não mais se desfigure pelas visagens do riso cansado e matador; dá-me a tua serenidade, a tua séria e nobre figura... Tristeza, não me desampares... Não deixes que o meu espírito seja a presa da vã alegria... Curva-te sobre mim; envolve-me com o teu véu protetor... Conduze-me, oh! benfazeja! aos outros homens... Tristeza salutar! Melancolia...”

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