IX
IX
E o que tinha de acontecer acontecia... No meio do cafezal que estava a limpar, Maria, que já desde a véspera vinha sofrendo, sentiu repentinamente uma dor aguda nas entranhas, como de uma violenta punhalada. Caiu pesada no chão, o corpo se lhe retorceu todo e o rosto desmaiado desfigurou-se numa contorção medonha. A dor fora viva e passageira, e logo que a rapariga voltou a si, assaltada por um grande terror, o seu primeiro movimento foi de se recolher à casa e aí, no abrigo doméstico, esperar o desenlace da crise. Teve, porém, medo de afrontar a ira dos patrões, que dia e noite ameaçavam despedi-la, para se furtarem ao incômodo do tratamento. Resistiu e continuou a labutar debaixo dos pés de café, sozinha, no silêncio do dia. O trabalho não prosseguia bem; das mãos entorpecidas deixava cair frouxa a enxada, e as pernas trôpegas, volumosas, não se sustinham firmes. De espaço a espaço a mesma dor voltava, como se lhe dilacerasse o ventre. Maria se amparava, apertando-se com as mãos para sufocar o sofrimento estranho e vergonhoso que sentia. Nos intervalos erguia-se, esforçando-se por trabalhar, desbastando o mato tecido ao cafezal, mas logo era derrubada exausta, alagada em suor frio. Às vezes, tinha ímpetos de gritar, e contra toda a vontade gemia alto, clamando socorro. Quando serenava, espantava-se dos seus inconscientes desabafos e tremia de pavor, pensando que lhe viriam acudir. Sabia bem que qualquer auxílio dos amos importaria em um aumento de tortura, de aviltamento e seguramente em uma expulsão imediata daquele lar desagasalhado, mas ainda assim um lar. As dores inexoráveis prosseguiam amiudadas, e a desgraçada, sem mais esperança, viu chegada a hora da maternidade.
Tomada de medo, abandonou o serviço e, afastando-se o mais possível da casa, deixou o cafezal e aventurou-se para o lado do rio, onde era mais deserto. Aí, no terreno inculto e bravio, as únicas árvores que havia eram esparsos cajueiros muito derreados, esgalhando-se pelo chão. Maria sentou-se debaixo duma dessas árvores que naquela época estavam em flor. O aroma forte invadiu-lhe a cabeça. E ela combalida deixou-se pender sobre a terra. No vão das dores, os olhos indiferentes se estendiam sobre o campo e recolhiam a pomposa fosforescência do rio faiscante... Nada se movia ali na solidão, a não ser uma manada de porcos, que vinha ao longe focinhando e escavando a terra... Maria gemia livremente, estorcendo-se na agonia. Os seus gritos eram finos e estridentes e às vezes ressoavam asperamente, como estrangulada gargalhada histérica. Rasgavam-se-lhe as entranhas, dilatando-se à força... Depois, a dor se interrompeu de novo e o suor frio banhou-lhe o corpo, que jazia desfalecido e inerte, até que arrancos lancinantes o agitaram outra vez. Os porcos pouco a pouco se iam aproximando, e a miserável, alheia a si mesma, entretinha- -se em acompanhar-lhes a morosa viagem...
Sempre as mesmas dores, agora mais miúdas, mais cortantes, acabando num grito soluçante, que se perdia num longo espasmo. Sofria muito, o corpo lhe tremia convulso, os dentes batiam de frio nervoso, as mãos róseas cerravam-se como molas de ferro. Tudo nela era desordem; os cabelos, desprendendo-se, caíam enovelados sobre o rosto, as faces túmidas estalavam de sangue, o vestido arrebentando deixava ver o colo nu e arquejante. E de repente sentiu-se mais desfalecida, parecendo que se ia desmanchando numa umidade viscosa, repugnante...
A morte devia ser assim. Oh! pior que a morte... Novas dores vieram, abafadas, quase surdas, sacudindo-a violentamente, dando-lhe ânsias de apertar alguma coisa contra si. Maria abraçou-se ao tronco deitado do cajueiro. Os seus olhos desvairados não viam mais nada. Nos ouvidos entrava-lhe o resfolegar roufenho dos porcos, que a cercavam, atraídos pelo cheiro que daí se exalava... E ela agarrava-se à árvore, estreitando-a com os níveos braços nus, e mordia o tronco, cravando-lhe os dentes desesperadamente, convulsivamente... Em torno fungavam os porcos, remexendo as folhas secas do cajueiro, chegando mesmo ali uns mais atrevidos, mais vorazes, a lamber afoitamente o chão... Maria, horrorizada, queria afugentá-los, mas as dores a retomavam, imperiosas; nem mesmo tinha forças para um grito agudo, e só podia gemer estrebuchando, numa mistura de sofrimento e de gozo, que a estimulava estranhamente... E os porcos persistiam sinistros, ameaçadores... Subitamente, ela caiu extenuada, largando a árvore... Um vagido de criança misturou-se aos roncos dos animais... A mulher fez um cansado gesto para apanhar o filho, mas, exangue, débil, o braço morreu-lhe sobre o corpo. Uma vertigem turbou-lhe a visão, enfraqueceu-lhe os ouvidos, e numa volúpia de bem-estar parecia deliciosamente suspensa nos ares, longe da Terra, longe do sofrimento, ouvindo no arfar dos porcos o resfolegar longínquo e adormecedor do mar... E os animais sedentos enchafurdavam-se, guinchando, atropelando-se no sangue que corria. Um novo gemido saiu do peito de Maria, despertando-a, em sobressalto. Os porcos afastaram-se espantados, e ela, meio consciente, contorceu-se. mirou atônita a criança, que vagia estrangulada. Depois, quando um grande vácuo se lhe fez de todo nas entranhas, a dor cessou, e Maria mergulhou afundada em outra vertigem. Os porcos, sentindo-a sossegada, precipitaram-se sobre os resíduos sangrentos, espalhados no chão. Devoravam tudo, sôfregos, tremendos; sorveram o sangue e na excitação da voracidade arremessaram-se à criança, que às primeiras dentadas soltou um grito forte, despertando a mãe... Quando esta abriu os olhos, deu um salto brusco e pondo-se de pé, lívida, hirta, alucinada, viu o filho aos trambolhões, partilhado pelos porcos, que fugiam pelo campo afora...
A filha dos patrões, em busca de Maria, chegava nesse instante, e vendo a espantosa cena, sem nada indagar retrocedeu à casa, alarmada, gritando numa espontânea e comunicativa maldade que a criada tinha matado o filho...
Dois dias depois, Maria estava na cadeia do Cachoeiro.
A população germânica ficou horrorizada com a notícia do crime, e os sustentáculos da colônia, os ricos negociantes, os pastores, os proprietários, unidos, agitaram-se para a vingança e o exemplo. Uma manhã, antes da audiência em casa do Dr. Itapecuru, este despachava autos com o Escrivão Pantoja; o Dr. Brederodes percorria uns jornais políticos da capital, quando Roberto Schultz, vestido como nos domingos, entrou solene.
– Seja bem-vindo a esta casa... – saudou-o com servilismo o juiz de direito.
O alemão cumprimentou a todos com uma palavra amável para cada um, muito macio e delicado. Entretiveram-se algum tempo sem pretexto, numa conversa, que prosseguia aos arrancos. Itapecuru pressentia que Roberto tinha o que lhe comunicar em reserva. Que será? pensava o juiz de direito. Algum despacho, que vem pedir, como de costume? Ou, quem sabe, vem exigir o pagamento da minha conta? Aqui Itapecuru, longe do assunto, ficou nervoso, sorrindo estúpido e sem propósito aos outros. Não se atrevia a chamar o alemão em particular e demorava com jeito o escrivão, que também, cheio de curiosidade, se não apressava. “Não, não é para uma questão de autos”, pensava o juiz, “senão não estaria tão grave... Com esse ar de importância... Há de ser a conta.” E o magistrado ficou abatido, aniquilado.
– Senhor doutor – disse por fim Roberto, já maçado, – o que me traz aqui...
Itapecuru respirou. Não, não era cobrança. Assim, diante de gente... Não, não era a conta.
– Oh! meu bom amigo, o senhor manda, não pede. Aqui estamos todos para servi-lo. Não é, Dr. Brederodes?
O promotor resmungou, sacudindo os ombros.
– Depende... Se for de direito...
– Como, senhor doutor? Julga Vossa Senhoria que eu seria capaz de falar à Justiça senão de coisas sérias? – perguntou o alemão, sorrindo, acariciando o ombro do promotor, que enrubesceu com a impertinente familiaridade.
– Está claro – acudiu Pantoja. – Nós somos amigos velhos e nunca o senhor me pediu nada desarrazoado.
– Nem a mim, capitão – acrescentou Itapecuru, espraiando as bochechas num riso grotesco, que o desarmou do monóculo.
– Mas de que se trata?... – interrogou abelhudo o “maracajá”.
– Meus senhores, eu venho aqui, em nome da colônia, pedir a punição dessa miserável que matou o filho. O crime é horrível, e a dignidade dos alemães exige uma lição severa...
– A colônia sabe – disse gravemente Itapecuru – que aqui não falta Justiça. Havemos de examinar tudo com o cuidado que sempre empregamos em nossa missão.
– O que nós receamos é que algum dos senhores tenha uma fraqueza de coração pela sorte da ré – e...
– Oh! impossível. A Justiça tem os olhos vendados – considerou o juiz de direito, fitando o escrivão. – E em que termos está o processo, capitão?
– O Dr. Brederodes deu ontem a denúncia... Já expedi os mandados para a formação da culpa.
– Ah! Então, doutor e caro colega, não há dúvida sobre a criminalidade da acusada? – perguntou Itapecuru ao promotor – O senhor, que viu os autos?
Brederodes não respondeu e continuou de lado a folhear os jornais.
– Não pode haver dúvida – observou Roberto. – Há testemunhas de vista, que afirmam ter ela lançado a criança aos porcos...
E, depois, os precedentes...
– Ah!
– Sim... Uma perdida... O filho lhe seria um trambolho. Vossa Senhoria compreende... Mas não há de ser aqui que pegarão esses maus exemplos. Imagine Vossa Senhoria se ficasse impune o delito, se nós passássemos a mão por cima, que seria da moralidade das famílias dos colonos para o futuro?...
– Mas como podiam os senhores abafar o crime? – perguntou Brederodes secamente...
– Não denunciando, não prendendo, empenhando-nos para não haver andamento no processo – arriscou o alemão.
– É muita petulância... Eu não digo, capitão, que o Sr. Roberto e os seus patrícios nos têm aqui como seus criados? – E Brederodes deu um violento murro na mesa.
– Dr. Brederodes... – Senhor doutor...
Os outros queriam evitar o desabafo do jovem promotor. Este continuava a vociferar, quase esbordoando o negociante, que procurava com um riso cobarde amparar a fúria do brasileiro.
– Sim, criados... Vem aqui à casa do juiz de direito um bolas qualquer, porque enriqueceu furtando o nosso dinheiro, exigir em nome da colônia... Que colônia?... Exigir que se cumpra a Lei...
É boa!
– Mas não há inconveniente... creio, colega, que o povo...
– Qual povo, qual nada. Ladrões, mandões de aldeia...
Estrangeiros... Qual povo!...
– O que eles querem é exatamente Justiça!
– Tartufos, miseráveis... Como viram uma das filhas apanhada com a boca na botija, e como não há remédio algum, se alvoroçam todos para reclamar Justiça... Muito boa!
– A nossa moralidade – teve forças de dizer o alemão.
– Moralidade? Fingimento... hipocrisia. A moralidade de salteadores, que se apossam de nossas terras e enriquecem!
– Então Vossa Senhoria pensa que não há crime no caso? – interrogou Pantoja, para desviar a questão.
– Se há? Oh! esta miserável, conheço-a bem – replicou Brederodes, motejando.
– É aquela? – perguntou o “maracajá” com intenção.
– Sim, a mesma, fez-se de fina, de pudica comigo, e aí está o que ela era; mas agora liquidaremos contas. Aproveitarei a ocasião para levar esse processo até ao fim, desmascarar toda esta corja daqui. Este fato não é o único. Para mim todas estas alemãs matam os filhos, quando... Havemos de ver. Não sou o promotor? Exigências comigo? Não, isso não.
Não pôde mais vociferar, engasgado pela cólera. Pegou no chapéu e, mal apertando a mão de Itapecuru, que ainda o quis demorar, saiu olhando com raiva a figura farta e desmoralizada de Roberto.
– Tem graça! – disse Pantoja, quando ficaram a sós, querendo iludir a impressão deixada pelos desmandos da ira do promotor.
– É verdade. Nós gostamos muito de bolir com ele para vê-lo se queimar – ajuntou por disfarce Itapecuru.
– Lá se vai batendo com as mãos, falando sozinho. Que danado!... rapaziadas – comentava o escrivão, que ia acompanhando da janela a marcha de Brederodes na rua.
O alemão não dizia nada. Não era ali que havia de confessar os seus rancores.
– O defeito principal dos moços de hoje – considerou o Dr. Itapecuru, balançando o monóculo, – é a falta de atenção com os elementos conservadores do País. São simples revolucionários. Pensam que o progresso é a revolução. Eu também admiro os direitos do homem, sou liberal, mas como magistrado sei dar a cada um o que é seu. Suum cuique tribuere.
– É o hábito da Justiça – cortou o escrivão, já principiando a enfadar-se.
– Sim, a Justiça para todos, velhos e jovens. Que pode fazer uma sociedade sem ordem? É a base. É preciso termos sempre em vista o elemento conservador do País. Por exemplo, aqui na colônia, onde repousa este salutar elemento?
Ninguém respondeu. Itapecuru sorriu da incapacidade do mudo auditório e continuou:
– Onde está o elemento? Nos senhores negociantes, nos proprietários, nos colonos estabelecidos, enfim, nas classes respeitáveis, que têm o que perder... E não é maltratando-as, que se tem uma perfeita organização social. Os senhores jacobinos não compreendem este princípio admirável. Para eles a política é só destruir e botar abaixo. Pois é pena...
Roberto, impaciente, levantou-se. O juiz de direito suspendeu o discurso.
– Bem, seu doutor. Posso responder à colônia que não há meio da criminosa escapar?
– A colônia sabe que pelas minhas teorias... – ia dizendo Itapecuru.
Mas Roberto não esperou o resto, fez-lhe uma grande cortesia e foi saindo. Pantoja acompanhou-o com passo sorrateiro.
– Oh! seu escrivão! E os nossos autos? – interrogou aflito o juiz de direito, ainda mais que tudo aborrecido por ficar só, sem ouvinte.
– Espere um pouco, já venho – retrucou o escrivão sem se voltar. E se foi esgueirando ao lado do alemão.
– E que tal o promotorzinho! – disse na rua Roberto ao “maracajá”.
– Maluco...
– Maluco? Canalha! vou já escrever para o Cachoeiro armando-lhe a cama.
– É... É... – gaguejou o escrivão, embaraçado. – O diabo é que esses jacobinos são muito fortes... Todos se protegem... Uma irmandade... E não vá o Governador não atender...
– Donnerwetter! – praguejou o alemão.
E logo prosseguiu na língua do país:
– É boa! Os senhores querem o nosso auxílio nas eleições, quinhentos votos só aqui nesta colônia, e quando se trata de castigar um insolente, que vive a nos insultar, fogem com corpo!...
– Tem razão, tem razão... Olhe, eu mesmo vou escrever ao Governador, em segredo, pedindo pelo menos, a remoção do Brederodes... Basta a remoção... Não é?
– Que vá para o inferno!
– Sim... para o inferno – repetiu o outro maquinal e pensativo.
– Então escreva... Posso contar?
– Oh! comigo o senhor sempre conta. Que não faço pelo partido? Mas, segredo... Muito entre nós. Porque... sabe... os jacobinos...
– E o tal processo? – interrompeu Roberto, mudando de assunto. – Veja... há muito pedido do centro. Realmente, é um caso monstruoso. A colônia não pode abafar. Que se diria? Que as alemãs do Cachoeiro são umas perdidas e atiram os filhos aos porcos.
– É muito sério; compreendo...
– Os jacobinos de quem o senhor fala tanto...
– Ah! a política!
– ... gritarão, como fez o Sr. Brederodes. Além disso, nas outras colônias, em Itapemirim, Benevides, por toda a parte, os nossos patrícios haviam de nos desmoralizar. Nada; é preciso um exemplo, para que se calem.
– Pode ficar tranquilo, que respondo pelo resultado desse negócio.
– E o promotor?
– Não viu? Com a ideia de se vingar dos colonos, e mesmo por tolices pessoais, perseguirá a tal sujeita até às últimas. É cabeçudo... O juiz de direito, esse, coitado! já se sabe, é nosso...
– Sim. É meu, posso dizer – proclamou o negociante, batendo com alarde no bolso da calça.
Pantoja sorriu, acompanhando o gesto.
– Quanto ao juiz municipal... – continuou o escrivão.
– É verdade, é um senhor cheio de maçadas, esse Dr. Maciel.
– Não faça caso... Um imbecil. Dá-se um berro com ele, e tudo vai direito. E depois, temos o Itapecuru e as testemunhas... E eu, esse seu criado, que mói a mandioca – concluiu com jactância o cabra.
– Sim, perfeito, ninguém discrepa. Bom, adeus, não esqueça a carta...
Pantoja e o alemão separaram-se, seguindo direções diversas.
Mas logo o “maracajá” voltou sobre os passos e gritou para o outro:
– Ia-me passando...
Depois, aproximando-se, abaixou a voz:
– Tenho precisão urgente, hoje, de cem mil-réis...
– Apareça.
– Muito obrigado. Não é para mim – ajuntou pressuroso. – É para a caixa do partido...
A cadeia do Porto do Cachoeiro, resto do antigo povoado, já existente antes da colonização, talvez fosse a mais velha e a pior habitação da cidade. As paredes eram negras e as grades enferrujadas da janela quase soltas dentro dos buracos da cravação. Um corredor dividia a casa ao meio: de um lado a prisão e do outro o alojamento dos dois únicos soldados, que serviam de guardas efetivos aos detidos. O carcereiro aí aparecia raramente; tinham-lhe dado, como é o hábito no país, o emprego para remunerar serviços eleitorais, em que era excelente. Entre presos e soldados havia a mais relaxada camaradagem. Os acusados passavam nessa casa apenas como por uma estação durante o processo; depois de condenados, eram remetidos para as prisões da capital. Mas o que sofriam esses miseráveis quase sem alimento, dormindo sobre estrados de madeira, sem roupas, numa promiscuidade animal, ao frio, à umidade e numa incrível imundície!
Maria não compreendia bem por que a prendiam. A inteligência nela adormecera, e apenas de longe em longe lhe vinham vislumbres da exata noção do que tinha acontecido. Trazia-lhe a memória o quadro medonho, que os seus olhos uma vez tiveram a suprema agonia de ver... E ela se exaltava, se debatia em gemidos de horror, em súplicas, em choros, até que de novo o torpor benfazejo lhe arrebatava a consciência... Em outros intervalos, quando, mais calma, se sentia sofrer, esmagada pelo temeroso peso do mundo, e ainda assim fraca, acobardada, quase a morrer, o seu maior tormento era a desesperada ânsia por seu filho, entrevisto tão belo no nevoeiro da vertigem...
Não tardou muito que Milkau soubesse da sorte de Maria. E foi um rugido no seu coração. Compreendeu logo, por instinto de bondade, e pela cristalina claridade da sua alma desanuviada, que atrás dessa acusação havia um drama, um tecido de cobardia, de vingança, de estupidez, tão fértil nos humanos. E teve pejo de ser homem, vergonha, desprezo de si mesmo, e de tudo o que era vida... Chegara-lhe o momento doloroso, em que o divino sonho se desmancha ao sopro da maldade. Tudo o que julgara como o doce convívio da bondade, do esquecimento e da paz não era senão o baixo conúbio de todas as vilezas sociais...
Na tarde desse mesmo dia, Milkau disse a Lentz:
– Vou ao Cachoeiro por algum tempo.
– E que te leva lá? – perguntou o amigo.
– A simpatia pelo destino dessa infeliz rapariga...
– E por isso me deixas?... Abandonas os nossos interesses... a nossa colônia?
– É meu dever, como é o teu, esse socorro.
– Não compreendo... – replicou secamente Lentz, esperando uma resposta.
– Não compreendes? – respondeu Milkau com calma. – Então não vês que essa desgraçada é uma vítima? E desde que eu a tenho por tal, devo correr para o seu lado.
– Quem sabe da verdade?
– E quando não fosse inocente, o seu crime não seria antes a culpa dos que a repeliram e a levaram ao desespero?
– Mas tu não estás em causa... parece-me... – escarneceu Lentz.
– Todo homem está em causa quando há um sofrimento no Universo.
E partiu só. No dia seguinte, chegando ao Cachoeiro, a cidadezinha não tinha mais para ele o encanto daquela primeira manhã, em que a saudara como filha do sol e das águas. A tristeza que trazia comunicava-se à paisagem e toda a antiga maravilha desta se desfazia misteriosamente. Apertado entre duas linhas de morros, o povoado parecia-lhe abafado e condenado a uma irremediável angústia. O sol infernal castigava sem piedade as habitações, e sobre as rochas abrasadas, colossais viam-se estampadas a esterilidade e a aridez. O rio, quase sem água, quebrando-se nas pedras negras, informes, fervilhava o seu cachão monótono. Sobre as ruas barrentas, descalçadas, erguiam-se, olhando para o rio, casas desiguais, sem arte, feitas às pressas, como para um povo apenas acampado sobre a terra. Eram pequenos sobrados, verdadeiros aleijões, dolorosamente nus, fazendo ver nas linhas inconscientes figuras deformadas de seres monstruosos. E aí, na embrionária e abortada cidade, a gente grosseira e rude mostrava o ar embrutecido, torturado pela ávida cobiça... Tudo o que era natureza tinha o aspecto sinistro, trágico, desolador, e o que era humano, mesquinho e ridículo.
O único desejo de Milkau era estar imediatamente com Maria. Todavia hesitava, com receio de se ver num instante desiludido sobre a inocência dela, e de ouvir a lúgubre confissão do crime. E, agitado, trêmulo, dirigia-se, impelido por ímpetos confusos e irresistíveis, à cadeia.
À porta, um mulato moço, vestido de soldado, de farda desabotoada, desarmado, era o guarda da prisão. Milkau pediu permissão para falar à prisioneira. O homem, sem mesmo se levantar da soleira da porta, mostrou-lhe dali, com a mão preguiçosa, o corredor da casa e apontou-lhe o quarto onde ela estava. Milkau entrou, apreensivo.
As grades não deixavam penetrar no aposento toda a luz do dia, e na minguada claridade viu Maria sentada sobre o estrado que lhe servia de cama. Ela, muito assustada com a aparição, tremia, e nenhum dos dois por algum tempo disse uma palavra.
Ela curvava humilhada a cabeça, sem olhar o homem; depois, muito branca, fitou-o implorando misericórdia. A compaixão foi crescendo em Milkau ao aspecto miserável da mulher. O que fora nesta de gracioso, de sedutor, de docemente feminino, tinha-se apagado, e só restava uma triste carcaça, uma face lívida, donde espiavam cintilantes olhos em que dançava a loucura.
– Sofres tanto... não é? – disse Milkau, tateando-lhe levemente a cabeça.
Maria recebeu daquelas mãos e daquela voz um fluido de ternura estranha e de bondade nunca sentida. Foi um gozo sutil, que ela, curvada como para lhe recolher toda a carícia, queria se prolongasse indefinidamente. E nos lábios da desgraçada chegou a abotoar um sorriso, sorriso infantil e humilde.
Milkau não esperou que ela falasse. Ia por diante, arrebatado pela simpatia, que o não deixava premeditar nas palavras e nos gestos.
– Sofres... Eu sei... Mas isto vai acabar... Terás ainda tanta felicidade neste mundo... Tanta!
E sentou-se na única cadeira que havia no quarto, puxando para si a cabeça de Maria, que, inerte, lhe deixou afagar os cabelos tecidos, emaranhados e secos, como um ninho dourado. E sobre os joelhos dele descansou muda, submissa, a fronte. Ele não lhe via a face voltada para o chão, mas, à medida que falava, sentia sobre o corpo a morna umidade das lágrimas...
– É preciso cuidares de ti... Erguer o espírito... Estás tão fraquinha... e doente. Não... isto vai acabar... Haverá piedade da tua sorte. Tu sairás daqui. E ainda a felicidade...
Instintivamente hesitava em acusá-la. Para que levantar ali o espectro do crime? E ela se reanimava, e pouco a pouco, ao poder misterioso da bondade, ia surgindo a sua consciência entorpecida.
– Olha. Não te abandono – continuava Milkau, – e direi aos outros que a culpa não é tua... Sim, foram eles os responsáveis... Eles te perdoarão, confessando a sua terrível falta. Porque... Não é? são os mais culpados...
Maria estremeceu. As lágrimas secaram-lhe instantaneamente. Milkau prosseguia, arrastado pela deliciosa ânsia de confortar.
– Foi num momento de alucinação... Não eras tu, bem sei. Era a loucura... Abandonada, perdida, não quiseste (desgraçada que foste!) ver o teu filho sofrer, como tu... – A miserável ergueu a cabeça e olhando-o firme, aterrada, recuou para o fundo do estrado. – Não... não... – murmurou arquejante.
– Eu me compadeço de ti... Não tenhas medo... – disse Milkau, querendo atraí-la.
– Não... vai... vai. – E com o gesto incerto o expelia da sua vista. – Desgraçada! Que te resta, se me repeles...
– Vai... vai... Meu Deus! – E as mãos, ora crispadas se torciam juntas num aperto, ora, pesadas, comprimiam como tenazes a cabeça.
– Não... Eu fico para te salvar afirmou Milkau obstinado. – Eles não te perdoam... Eles te pedirão conta de teu próprio filho.
– Meu filho... sim... meu filho...
– Que tu mataste.
– Eu?
– Tu.
Num impulso frenético de arrancar a confissão, de tudo saber, Milkau alucinado perdia-se desvairadamente.
– Sim... tu... Assassina...
– Não... Meu filho... Não... Não me lembro bem. Arrancaram-no de mim para o devorar... Oh! meu Deus, é horrível!
E os seus olhos pungentes e frios atravessavam os de Milkau, que, espantado, confuso, emudecera. Agora era ela que falava.
– Assassina! Meu filho! Oh! Por que me vem perseguir na minha miséria? Oh! Deixe-me... deixe-me...
A cólera de Milkau abrandara em presença desse desespero, e humilhado ele se arrependia do seu transporte inconsciente.
– Maria – recomeçou com uma voz apagada, – eu te peço por tudo que amas: dize-me que estavas louca, que não eras tu quando mataste teu filho. Dize-me.
– Deixe-me... Deixe-me – murmurava sufocada a pobre.
– Não... Fico... Devo ficar. É para o teu bem. Hás de me dizer tudo.
Maria ficou acobardada, sentindo a enérgica decisão com que foram ditas essas palavras. O seu espírito frágil debateu-se ainda para lutar, mas apenas pairou um momento livre e logo caiu vencido, aniquilado, aos pés do dominador.
– Quero saber... quero... – insistia Milkau.
A rapariga esperava submissa.
– Por que não me chamaste em teu socorro, quando te viste desamparada, perseguida? Por quê? Não confiavas em mim?
– Tinha medo... Vergonha... – disse com uma voz imperceptível.
– Vergonha! E por isso...
Calou-se pensativo, tomado de uma tristeza infinita.
– Natureza humana! Vergonha... disseste... E por isso mataste teu filhinho, miserável... teu filhinho?...
– Mas, eu não matei ninguém – gritou num esforço a infeliz.
– Não negues... Eles te acusam...
– Eles são maus...
– E quem matou?... Anda... responde... – suplicou angustiado Milkau.
Ela obedeceu.
– Quando foi... Pensei estar tão longe... Pensei estar morrendo... – E depois?
– Ouvi ao meu lado a vozinha dele... Chorava! Meu Deus! Depois, um roncar de porcos em roda de nós... Depois, eles o carregaram... e foram... comendo... comendo... – Estes fragmentos de frases eram bastantes para aclarar o espírito de Milkau, e a espantosa cena se lhe representou exata na imaginação aguçada pela simpatia. E então, iluminado de novo, chamou-a a si, carinhoso e terno.
– Vem! Escuta!
A essa voz, cheia de meiguice, ela se aproximou, dócil e abandonada. Curvou-se outra vez sobre os joelhos dele, e ali, na infecta e tenebrosa prisão, os dois desgraçados foram recompondo tudo lugubremente:
– Tu te sentiste desfalecer... Uma vertigem derrubou-te...
– E os porcos...
– Vieram... O sangue corria...
– A criança... a criança...
– Chorava aos teus pés.
– E os porcos...
– Arrebataram-na...
– Meu filho!
– Tu despertaste e viste ao longe teu filho ensanguentado... aos pedaços, nos dentes dos porcos...
– Meu filho!
– Perguntaram-te por ele... Não te escutaram. Acusaram-te, prenderam-te...
– E agora... amaldiçoada... presa. Nada mais me resta, nada mais...
Desde aquele momento a vida de Milkau transformou-se de novo. Todas as forças do seu coração votou-as à defesa e salvação de Maria. O processo demorava, e enquanto não começava Milkau não desamparava a desgraçada. Fazia-lhe amiudadas visitas, e sendo ela a única prisioneira, os guardas deixavam-lhe a liberdade de entrar na detenção quando quisesse. Maria chegou a sentir-se feliz na sua miséria. Longos momentos havia em que, presa à voz, à doçura do amigo, ficava deliciosamente esquecida do próprio infortúnio. Por sua vez, ele, vendo-a diariamente, encantava-se em sondar essa alma primitiva, rica de emoção e de bem-aventurada ingenuidade. Nas conversas, narrava-lhe sempre as suas viagens, e a sua vida de peregrino no mundo. Tudo ela ouvia com sofreguidão, acompanhando fielmente os casos por ele praticados ou conhecidos. Ora erravam nas pequenas cidades do Reno e ressuscitavam lendas... Subiam aos Alpes gelados e guardavam nas pupilas as cores maravilhosas do sol a morrer... Ora nas grandes cidades tumultuosas sem piedade, onde há fome... Ou no mar, balançados pelos ventos, arrastados pelas tempestades... E ainda no mar glacial, esclarecido vagamente pela lua, e brancos navios avolumados na fosforescência da noite, a passarem sinistros para se mergulhar, sumir, engolidos pela treva insondável... E ela, como sombra, sempre o seguindo, sempre atrás... Outras vezes, não contava; lia-lhe poemas, de que ela não percebia bem o sentido, mas a cuja misteriosa música vibrava, chorando perdidamente, sem saber por quê...
Na cidade, Milkau começou a ser notado, e a princípio com curiosidade, depois com rancor, acompanhavam a sua estranha conduta. Formaram-se ali, como se formariam em qualquer parte do mundo, as mais indignas conjecturas. Acreditou-se que era ele o amante de Maria, e um ódio coletivo não poupava o homem, que se ligava ainda, talvez como cúmplice, à mulher que lhe matara o filho. Todos o evitavam; em casa de Roberto Schultz, seu correspondente para os fornecimentos da colônia, era tratado com desdém, e Milkau, na sua força, na sua superioridade amorosa, resignou-se a ser o inimigo comum. E assim, repelido pelos outros, quando não ia à cadeia, passeava solitário pelos arredores do povoado.
Dias depois Felicíssimo chegou ao Cachoeiro e alojou-se no mesmo hotel em que estava Milkau. O cearense, com a sua índole franca e bondosa, não participava do preconceito da cidade, e, indiferente a isso, era o companheiro de Milkau nos passeios e com inquietação amiga observava-lhe os silêncios profundos.
De volta de uma dessas caladas excursões, entraram uma manhã na cidade e viram um movimento desacostumado na rua principal. Às portas das lojas e nas calçadas a gente do lugar e os tropeiros e colonos do centro seguiam pasmados um grupo que passava. Era Maria, ladeada dos dois soldados, que ia responder ao processo. Vinha transfigurada, e à claridade do dia a sua lividez era cadavérica; os olhos postos no chão tinham grinaldas roxas, e na boca morria-lhe um nenúfar branco, úmido, gelado...
Milkau comovido, mudo, deixou passar aquela visão que lhe parecia o fantasma da Inocência levada para o martírio... Ao longe ela se foi perdendo, apagando-se... Milkau abandonou Felicíssimo e precipitou-se no encalço, para o juízo. O agrimensor, compadecido, não procurou detê-lo.
Depois da primeira audiência seguiram-se outras, a que Milkau não faltava. As testemunhas depunham contestes contra Maria. A trama estava bem tecida e fatalmente a acusada não poderia rompê-la. Paulo Maciel era o juiz da instrução dirigindo desprevenido e inteligente o processo, com uma inútil cordura. A persistência de Milkau tornava-o um familiar das audiências e, muitas vezes, depois de acabado o trabalho, Maciel entretinha-se muito à vontade com ele. Por seu lado, Milkau achava o juiz municipal uma esplêndida natureza e o ia estimando. Não era seguramente a posição do magistrado que o atraía. Quando estava diante de outro homem, Milkau imaginava-se no deserto; o seu espírito eliminava todas as separações que vêm da sociedade e instintivamente não conhecia as vãs distinções de posição, de fortuna, de família, de raça. Apenas via um ser igual, que tratava sempre com simpatia e às vezes com respeito, quando, pela sadia inteligência, pelo sofrimento augusto, pela superioridade moral, esse homem lhe inspirava tal sentimento.
Os dias dessa acabrunhadora vida no Porto do Cachoeiro se iam sucedendo sem alteração para Milkau, quando, voltando da cadeia, uma tarde, encontrou Felicíssimo muito sobressaltado.
– Que desgraça! que desgraça! – foi-lhe dizendo abrupto o cearense.
– Que foi? – perguntou Milkau interessado.
– Uma desgraça... O pequenino Fritz, o filhinho de Otto Bauer, acaba de ser esmagado por um barril de vinho no armazém do pai...
– Que horror! Pobrezinho! E onde está?
– Ali, mais abaixo – apontou Felicíssimo. – Em casa deles. Fui chamar o médico, e volto para lá.
– Vamos.
Quando chegaram, a casa estava em alvoroço. A notícia tinha-se espalhado e muita gente apiedada viera aglomerar-se aí, invadindo com a familiaridade da compaixão o aposento onde, deitada em uma mesa, a criança morria. A mãe ainda jovem debruçava-se sobre ela, devorando-a com os olhos, numa dor sombria, confusa, de animal. O pai vagava a tremer pela sala, atordoado com o desastre. Ouviam-se lamentos e choros em roda. O pequeno Fritz agitava de vez em quando os bracinhos, estrebuchando. Pelos cantos da boquinha escarlate saíam espumas de sangue. Os olhos azuis arregalavam-se desmedidos e as pupilas imensas, de tão dilatadas, parecia não lhes caberem mais. A cabeça estava intacta; o esmagamento tinha sido no tórax.
– Pobre criança! – gemeu Milkau, não duvidando da morte. E atrás dele uma voz lhe pediu:
– Veja se dá um remédio para a salvação.
Milkau voltou-se e fitou Joca. Este tinha o ar trágico de um sátiro em dor. A criança era o carinho do tropeiro quando ele vinha à cidade. Os pais lha confiavam a passeio, entregavam-na aos seus desvelos quase maternais, e o cabra sentia-se desvanecido, feliz, quando o trazia nos braços de loja em loja ou quando lhe dava, com o cuidado de uma ama, a mão na rua para ir ensaiando os passinhos vacilantes. Milkau ficou sensibilizado, vendo aquela face de homem primitivo e bárbaro molhada de lágrimas, e sem a menor esperança fez com auxílio do tropeiro alguns curativos. O médico não tardou. Viu o que estava praticado e, sacudindo a cabeça, murmurou:
– Era o que se podia fazer... Não há mais nada.
E, nas tenebrosas torturas da meningite, morreu o pequeno Fritz. Na vigília da noite eram todos os que guardavam o cadaverzinho, muito silenciosos, divagando em cismas. De fora vinha pelas janelas abertas o doloroso mugido da cachoeira. Pouco a pouco o silêncio em que estavam e a fadiga do coração foram entorpecendo e adormecendo a quase todos. E na frouxa claridade das velas mortuárias desenhava-se fugitivamente o vulto de uma velhinha, a bisavó do pequenino, quase extinta, incorpórea, de uma transparência vítrea, a vida só nos olhinhos limpos e de uma cintilação sinistra... A mãe de Fritz também fechou os olhos e o sono lhe foi vindo ao tempo que a respiração ofegante moderava e as cores rubras das faces inchadas se iam apagando até uma palidez absoluta... Depois, a fisionomia serenou, tomando uma expressão sossegada e feliz. Era uma bela mulher, de uma cabeleira farta e negra, com um perfil delicado e fino. Tudo nela exprimia saúde e força, e a dor lhe vinha como uma hóspeda estranha e importuna. Os que ainda alerta a contemplavam tiveram uma pungente tortura vendo essa mãe bonita e moça dormindo a sorrir, voltada para o filho morto... No canto da sala uma imagem de Nossa Senhora, iluminada por uma lâmpada, presidia a morte.
A família católica revelava-se. E Milkau refletia diante do admirável símbolo. Tinha a impressão de que todo o culto se ia restringindo em torno da Virgem Maria. Lembrava-se das catedrais, dos templos onde passara e onde sempre os altares d’Ela atraíam mais os corações das gentes, enquanto os outros, mesmo os do Cristo, ficavam quase desertos. E por quê? Talvez pela maior conformidade entre o gênero humano e a mulher. E essa tendência universal para divinizar, exaltar as deusas, as santas, não vinha acaso de longe, de muito longe, não estava agora em plena culminância no culto de Maria, que ia insensivelmente apagando, absorvendo todos os outros?...
Toda a noite passou Milkau a confortar a família. Ele estava também esmagado e abatido. E, quando olhava o mortozinho, cismava:
– É dolorosa ainda mais do que as outras a morte de uma criança. É a dor diante do inacabado, do apenas ensaiado... do que nos ia completar... Não viver... E os que morrem sem ter vivido, os que foram apenas esboços da existência, deixam-nos uma piedade torturante. Quando morre uma criança, nós também morremos um pouco nela, porque aí morre uma ilusão nossa.
No outro dia foi o enterro. Toda a gente da cidade, numa espontânea unidade de sentimentos, participava de um mesmo pesar, tornando a tristeza coletiva.
A manhã era límpida, lavada e azul. Uma banda de música alegre, ruidosa, como nos enterros de anjos, puxava o préstito, em que o povo vinha sorumbático e lúgubre. Foi um luto geral na povoação espantada com a catástrofe: as escolas fecharam-se, e grupos de meninos vestidos de branco enfileiraram-se alongando o cortejo; os armazéns também cessaram o trabalho e de todas as casas e lojas vinha gente incorporar-se ao enterro, mesmo os inimigos e competidores do pai de Fritz, que traziam flores, suspendendo confrangidos e aterrados os seus ódios.
As autoridades brasileiras vieram, exceto Brederodes, que não perdoava ao estrangeiro nem mesmo na desgraça. E a marcha ia nessa mistura de amargura, ruído e música alegre, desenrolando-se pela rua principal do povoado. Entre os que carregavam o esquife estava Joca, a mirar embevecido o seu amado menino vestido de marinheiro e embarcado como num brinco infantil naquela gondolazinha dourada e vermelha, em viagem para o céu...
Quando deixou a rua à margem do rio, o enterro tomou a direção da cadeia, que ficava perto do cemitério. Lá, à prisão chegou primeiro matinal e alvissareira a música, e Maria, que tudo ignorava, sentiu uma fresca claridade n’alma com aquelas carícias do som imortal. E despercebida, atraída por ela, veio à grade e pôs-se a mirar... O enterro vinha vindo marcial e solene... Maria espreitava; o seu olhar de alucinada saía violento pelas grades da prisão e repousava ardente no morto... Ainda ali na morte passava o triunfo, a vitória da força e da felicidade... Ela ouvia agora, confundidas na harmonia dos sons, outras vozes abafadas, cavernosas... Vinham de longe, do desconhecido, mas tão persistentes, tão terríveis que dominavam os cantos dos instrumentos... E Maria, na sua sensibilidade desvairada, ia ouvindo, ia vendo o enterro do próprio filho, levado pela música macabra do resfolegar dos porcos... Com o rosto descomposto, os cabelos pendentes, a boca cerrada, numa contorção, ficara hirta, agarrada às grades... Da multidão, só Milkau olhava para ela, tomado de uma compaixão infinita. Os mais, apavorados e rancorosos, desviavam-se da figura infernal da desgraçada... A colônia passava, unida na piedade como no ódio.