V
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A felicidade de Milkau era perfeita. Tinha limitado o inquieto desejo, apagado do espírito as manchas da ambição, do domínio e do orgulho, e deixado que a simplicidade do coração o retomasse e inspirasse. Trabalhava mansamente no quinhão de terra que ocupava. A sua pequena habitação, erguida no silêncio da mata, era humilde como as outras dos colonos; nada existia ali que fosse a traição de um gosto refinado, ou uma pequena consolação da volúpia. Apenas, quebrando a uniforme monotonia rústica, o quarto de dormir de Milkau impressionava como uma capela ardente de amor, de veneração e de saudade. Estava povoado de retratos, como veladores Penates que o homem transporta nas suas migrações sobre a terra. Aí se viam pessoas da família, essa mãe, quase filha, com grandes olhos de dor e súplica perene, o pai iluminado por um sorriso de mártir, e a mulher criança que amara quando ela passou diante dos seus olhos, transfigurando-se para morrer. Os mais eram retratos das grandes figuras humanas, poetas, amorosos, sofredores. Era com essas imagens que Milkau vivia na comunhão funda e religiosa, que dá a alegria perpétua e que enche o vazio do isolamento. Sentia-se amparado por um fluido de esperança, de resignação, que, emanado do amor e das lembranças, o envolvia, dando-lhe uma armadura invencível. E a vida, dentro desse quadro, sorria-lhe como uma deslumbrante ressurreição. O trabalho pelas próprias mãos dava-lhe a sensação positiva da sua dignidade humana. Os seus olhos procuravam em torno o mundo para onde ele se queria dirigir num forte desejo de afeição, feliz e engrandecido, não pelo que tinha feito, mas pelo que aspirava fazer.
Sem demora, Milkau espraiava-se em relações com o grupo colonial do Rio Doce. Achava um encanto em conviver com essa gente primitiva, que o recebia sem desconfiança, e que se ia deixando infiltrar sua cordura e meiguice. Milkau, sem orgulho de inteligência, conformava-se com todas as lições que lhe davam os antigos e experientes colonos sobre as coisas da lavoura. Vendo-o assim atento, mais lhe queriam os camponeses, que ele não atemorizava com a sua educação, e em sua presença tinham instintivamente uma atitude cheia de simpatia e respeito. Milkau estava destinado a ser pouco a pouco a figura central daquela região; e, sem reparo, os colonos iam absorvendo o seu imortal prestígio, como a terra bebe imperceptivelmente as finas gotas do orvalho até ficar saciada.
Ao contrário do seu companheiro, Lentz vivia triste, num íntimo e reservado desespero. A vida que tomara era para ele uma grande humilhação, torturando-o essa pungente agonia de praticar a existência condenada pela ideia. Ficara ali ao lado de Milkau, incapaz de abandoná-lo, preso às seduções do camarada, que eram o estímulo para a agitação do seu pensamento. O caráter fraco traía a audácia do sonhador, e a bondade do sentimento entorpecia-lhe as maldades grandiosas do seu idealismo. E assim inativo, paralisado, caminhando na doce sombra de Milkau, ele, o criador da força, o apóstolo da energia, completava-se na contradição, como um verdadeiro homem.
Para se distrair e dar um pouco de fadiga aos nervos, Lentz encarregava-se das viagens, das compras da casa, e sentia uma expansão de alegria quando atravessava solitário as montanhas em silêncio e sobre elas dava grandeza aos seus sonhos de vida.
Outras vezes caçava, extenuando-se e acalmando-se, num esforço tenaz e porfiado. Era então que lhe sucedia encontrar no mato o vizinho taciturno que passara, na tarde da sua chegada, defronte do barracão. Sempre calado, desdenhando qualquer conversa, o velho alemão, ágil, enérgico, primitivo, seguia cercado da sua árdega matilha, cujos cães o festejavam aos saltos ou iam à sua frente, de orelhas caídas, farejando o chão.
Uma tarde, Lentz voltava de Santa Teresa, trazendo a notícia de que no dia imediato haveria uma festa em Jequitibá. O novo pastor celebrava o seu primeiro serviço religioso com o concurso dos pastores de Altona e Luxemburgo. Em Santa Teresa e nas casas de colonos por onde Lentz passara, todos se preparavam para essa diversão. Milkau, que se queria identificar com os hábitos da nova sociedade a que se consagrava, resolveu ir ao Jequitibá. E na madrugada seguinte os dois amigos partiram, marchando sempre por um caminho de montanhas.
Raras vezes a paisagem transmitira a Milkau uma emoção maior do que naqueles terrenos altos. Estava ele todo possuído pelo espírito da ascensão e sua alma escalara também as regiões silenciosas, plácidas e vastas do infinito. Sob a transparência cristalina do firmamento, a terra intumescida parecia, à hora do amanhecer, sair de si mesma, e querer se alevantar para o céu, para o espaço, num soberbo movimento de força e desespero. E também as essências místicas, que ainda viviam em Milkau, naquele instante de exaltação e vertigem, levavam-no a desejar atingir a eternidade e dissolver-se no infinito.
Quando já se avizinhavam do Jequitibá, iam pelo caminho encontrando colonos a pé ou montados, formando caravanas. Famílias e grupos ininterruptos enchiam as estradas. Todos vinham radiantes, excitados pela fresca da manhã e pela esperança do prazer em sociedade, pois havia muitos meses que não se abria a capela, e os colonos não se reuniam desde essa época; era como uma alegria de recém-chegados que se saudavam mutuamente. Alguns passavam a galope, e esse ardor, comunicando-se aos outros, então era de ver a carreira folgazã de toda a gente pelos caminhos. Quanto mais perto da igreja, mais a multidão se engrossava. Em certos pontos havia necessidade de demorar o passo para não se atropelarem, e tomavam uma rítmica marcha de procissão. Os dois amigos, depois de algumas horas de viagem, ao saírem de um atalho coberto, descortinaram a capela do Jequitibá.
Esta ficava-lhes à frente, e os olhos deles abrangiam todo o panorama claro, feito de uma dourada luz e de pequenas elevações, como ondas regulares, brandas e fixas de um oceano manso. Pela encosta do morro que vai ter à capela, via-se a subida dos pigmeus. A multidão, desembocando ali de toda a parte, parecia borbulhar de dentro da terra. Ao longe, a capela branca, rodeada pela multidão que fervilhava, que ondeava, parecia mover-se como uma presa arrastada vagarosamente por um formigueiro.
Acharam-se depois à base da colina e, seguindo outros, subiam por uns degraus de madeira fincados na terra e que muito espaçados chegavam até ao alto, à casa do pastor, que era no fim da igrejinha. À medida que galgavam, iam vendo viajantes que chegavam em bestas apear-se e amarrar os animais nas estacas, passando-lhes o embornal. O cimo, onde se erguia a capela, formava uma esplanada, e nela a massa de gente remexia, acotovelando-se. Um vozear confuso enchia os ares e turbava Milkau e Lentz, já tão descansados e entorpecidos na solidão bonançosa. Mas logo se habituaram e entretiveram-se, enquanto a capela se não abria, em mirar o povo.
Era um grande ajuntamento de colonos da região. Alguns estavam ali havia trinta anos, e a sua pele era amarela, encolhida como pergaminho; outros ainda eram louros e jovens. Trajavam as suas melhores roupas, o que fazia também uma mistura de modas de muitas épocas, conservadas religiosamente em trajes que se não acabavam mais. Cada uma das mulheres ainda tinha o seu vestido segundo o uso do momento em que deixara o país. O vestido largo, de cintura curta e babados, o corpinho fino, esguio, as crinolinas, as rendas, o casaco severo, as toucas de seda, os simples panos brancos envolvendo a cabeça, o chapéu de veludo, trajes aldeãos, trajes de cidade, reviviam nas serras do Espírito Santo, como se fosse uma revista retrospectiva de modas, ou a combinação fantasista de um baile de máscaras.
– Só isto paga a viagem – disse Lentz gracejando; – um perito poderia fixar pelos vestuários a época de cada migração.
– É verdade – concordou Milkau, acompanhando as observações que o amigo fazia sobre os detalhes das vestes. – Mas também admiremos a felicidade deste povo.
– Até os velhos...
– A alegria dos velhos é um mandamento para a vida.
Misturado com o aroma da terra, o cheiro das flores que as raparigas traziam ao cabelo e das roupas domingueiras, guardadas longo tempo nos baús, amenizava o odor forte das multidões. O povo continuava no seu burburinho tumultuoso e alegre. Milkau mirava para todos os lados, e ao longe descobriu Felicíssimo, Joca e o grupo de trabalhadores da comissão de terras, que desde algum tempo tinha deixado o Rio Doce continuando as medições para outras bandas. O agrimensor estava com um cravo ao peito, e do bolso do paletó pontas de lenço saíam espalmadas. Cumprimentou de longe, com uma barretada e um riso desdentado.
– Ora – disse Lentz, em voz baixa, depois de algum tempo; – afinal de contas, já vimos o melhor. E está ficando quente. Que nos importa a missa do pastor? Vamos esperar o fim da festa, para assistirmos à saída do povo, dando um passeio por essas montanhas, ou deitados à sombra de alguma árvore?
– Não; fiquemos aqui e acompanhemos esta boa gente. Nós nos divertiremos vendo divertir-se os outros.
– Mas, francamente, eles podiam se divertir de outra forma.
Essa religião...
– Ela é venerável como toda e qualquer outra.
– Haverá um tempo em que o homem há de enterrar com os antepassados o culto que eles nos legaram. Tudo será esquecido. E o homem viverá sem terror.
Milkau fitou muito calmo o amigo. Esteve um instante calado, hesitando se devia responder. Afinal disse:
– O espírito religioso é irredutível. Para destruí-lo é preciso que o homem explique o Universo e a vida; e o conhecimento por mais que se alargue e avance não esgota o mundo dos fenômenos. A marcha da ciência no nosso espírito é como a nossa na planície do deserto: o horizonte foge sempre, é inatingível à medida que caminhamos. Além, além, há sempre o desconhecido. E o culto que o idealiza, e o culto, seja do que for, de um deus ou de uma abstração, como a que diviniza a sociedade humana, é inseparável do homem. Ele é a expressão da nossa emoção imorredoura, do nosso eterno pasmo no Universo ou a exaltação do nosso amor, e é sempre uma força salutar, divina.
Defronte deles, no começo da ladeira do morro, três homens chegavam, esporeando com força os animais, que subiam arquejantes. Quando se apearam, Milkau reparou que eram os mais bem-vestidos de todos. O mais velho era um sujeito de cabeça grande, meio barrigudo, de monóculo escuro e costeletas; o outro, muito jovem, moreno e imberbe, enquanto o terceiro tinha no seu rosto claro, com uma moldura de barba castanha, um ar de fadiga e preguiça. Lentz teve curiosidade de saber quem eram. Um dos vizinhos disse-lhe serem as autoridades do Cachoeiro.
Com efeito era o triunvirato judiciário da comarca. Fitando-os, percebia-se que sentiam a consciência de uma posição superior. Olhavam os colonos como uma massa amorfa e subordinada, e o velho de monóculo, empertigado, esperava solene, silencioso, os cumprimentos. Dois ou três homens da cidade, rompendo a aglomeração, acercaram-se deles muito prazenteiros; outros, mais afastados, cumprimentaram, muito reverentes e pressurosos de se recomendar. Por contágio e por instintivo sinal de respeito dos humildes colonos, as saudações propagavam-se e daí só se viam as cabeças abaixando-se na direção dos magistrados, que correspondiam desdenhosos.
O sol já esquentava muito, e sob os seus ardores a impaciência crescia. Todos olhavam as portas cerradas da capela, praguejando contra o hábito de os deixarem de fora. Os homens tiravam o chapéu, limpavam o suor, e muitos cobriam a cabeça com o lenço. As moças atavam também o seu ao pescoço, enquanto mulheres velhas agitavam as saias, refrescando-se com estrépito. Abafava-se e murmurava-se. Alguns se esgueiravam para as escassas sombras das paredes; um grupo para se proteger do sol apertava-se debaixo de um mísero arbusto, os animais bufavam, espanavam-se com os rabos, triturando surdamente o milho.
A multidão impelia-se lentamente para as portas, num movimento inconsciente de quem ia forçá-las. Mas estacava, empurrando para trás, para adiante, zumbindo, e espalhando o calor de corpo a corpo. A porta afinal abriu-se, e foi uma invasão alvoroçada na capela sombria e fresca!
Milkau e Lentz conseguiram lugar num dos bancos de madeira, e aí repousados observaram a singeleza do interior, que bem se casava com a simplicidade externa. Não havia a menor pretensão de enfeite; na brancura das paredes estavam inscritos versículos da Bíblia; no centro, o púlpito baixo, de madeira não envernizada, e ornado de listas alvas cheias de palavras santas em negro, ao fundo uma cruz preta com um sudário branco pendente.
– Muito triste, muito nu, como sempre – dizia em surdina Lentz ao camarada. – O tom protestante é plebeu, inestético; mil vezes uma igreja católica, com a sua pompa, as suas cerimônias de finas expressões simbólicas.
Milkau concordou, com um aceno de cabeça. Em volta deles outras conversas prosseguiam em voz baixa.
– Ainda o não viu? – perguntava uma velha, aludindo ao novo pastor.
– Não – respondia outra. – Há muito tempo que não ando por estes lados. E onde você o viu?
– No armazém de Jacob Müller, outro dia. Parece uma pessoa muito de bem.
– Também se não fosse, para que lhe darmos o nosso dinheiro?
– Ah! isso você sabe, não há remédio senão darmos. Não fomos nós que encomendamos um pastor a Roberto? Seja como for, temos de o aguentar.
Depois do descanso do primeiro momento à sombra, recomeçava a impaciência, que se esforçavam por conter, mas que se percebia nos bocejos, nos movimentos de pernas e de braços. Não tardou, porém, que um acorde de harmônio soasse, chamando todos à respeitosa continência. A multidão apaziguou-se e o instrumento continuou a cantar os solos, como murmúrios de piano e de flauta, seguidos de um acompanhamento misterioso de vozes múltiplas, infinitas. A música infiltrava-se nos nervos dos ouvintes e os amansava molemente. Milkau vibrava. A música enchia a sua alma capaz de sentir os mais intangíveis e deliciosos segredos do som e de se transportar além de si mesma, perdendo a própria essência na mais copiosa e alucinadora emoção. Música!... Que conjunto de sensações não se acumularam desde as remotas almas progenitoras, que rios de sangue não correram de pais a filhos, longamente, carregando as vibrações recolhidas em cada célula, dolorosas, lentas, trabalhando o mundo dos nervos até enfim se formar no homem a derradeira das suas almas, a alma musical!... E enquanto o órgão no alto da capela cantava, lá ia Milkau, tomado pela saudade, carregado nas harmonias, à sua vida primeira. Era numa igreja de Heidelberg, na terra antiga, no passado... E Milkau, agora de olhos cerrados, não percebia mais as fronteiras do sonho e da realidade. Tudo se confundia estranhamente... Ele vê uma figura de mulher, que entra na sombra silenciosa e brandamente vai sentar-se. Os olhos dela embebem-se na Bíblia e sobre esta os seus cabelos caem numa chuva de ouro, como uma bênção e uma luz do céu iluminando o livro santo. Música também lá em Heidelberg: uma melodia fantástica, angélica, enche a igreja. Música! Canta a mulher que Milkau amou. Um sonho dentro de um sonho; na volúpia infinita de um templo, enquanto ela, recolhida, mística e crente, entoava hinos, ele, debaixo das harmonias, escrevia poemas sagrados, porque escrever é cantar com a pena... Música!
Cessou o órgão na capela do Jequitibá. Milkau teve um ligeiro sobressalto e despertou. Os seus olhos meio atônitos descansaram em uma jovem, que parecia entretida em vê-lo dormitar. Milkau ficou indeciso um instante... Continuava o sonho, ou era aquela mulher a sua visão realizada? Parecia-lhe já ter visto em outra vida aquela mesma cabeça de macios e crespos cabelos de infante, com a mesma suave e meiga expressão. E ela o olhava vagamente distraída. E quando reparou que era examinada, moveu-se, curvando o pescoço devagarinho sobre o peito, num gesto de recolhimento de ave mansa.
Subia ao púlpito o novo pastor, cercado pela curiosidade do povo. Era um homem alto, com uma barba fulva, que lhe caía sobre o casaco preto, em rico contraste. Pelas mãos calejadas, pela cor vermelha do áspero rosto, pelo acento da voz, pelas frases, Milkau reconheceu nele um camponês; e voltaram-lhe à memória as observações de Lentz sobre o protestantismo, que sempre entendeu como uma religião seca e simples, aquela que mais se liga ao judaísmo pela austeridade, pelo rigor excessivo de seu monoteísmo, uma religião rústica, cujos melhores intérpretes eram homens rudes, violentos e radicais. Na cisão da Igreja cada uma parte ficara com a porção dos espíritos que lhe era própria e peculiar; a gente do Norte inculta, bárbara, independente revoltara-se naturalmente contra os civilizados, nos quais o catolicismo se desenrola como um sucessor natural do paganismo, astuto, elegante e pomposo.
Numa toada humilde e tímida, o pastor ia desenvolvendo o seu alemão religioso. Este primeiro contato com os colonos era para ele uma crise, e, em vez de continuar desembaraçado o sermão, detinha-se a examinar o povo, a refletir sobre si e os seus embaraços, e muitas vezes parava distraído, outras ia tropeçando para adiante. Os ouvintes desinteressavam-se da atrapalhada e vagarosa prédica e preocupavam-se com o pregador e sua família.
Ao lado de Milkau um homem explicava a uma mulher que bisbilhotava a respeito de duas outras que se viam no coro da capela:
– Aquela mais magra e morena...
– Tem cara de judia...
– Sim... mas me parece muito boa pessoa... É a mulher do novo pastor.
– Ah! E a outra é que é a irmã dele?
– Quem vê um vê outro. A cara não engana.
– E de onde as conhece?
– Daqui mesmo. Outro dia vim preparar a horta, que estava toda abandonada... Agora se pode ver; creio que o pastor tem gosto pelas plantas. A irmã mete-se em tudo.
– E Frau Pastor?
– Não sei, pareceu-me uma alma penada em casa.
– Pobre! Então, que lhe fazem?
O colono não respondeu, porque, vendo que as suas palavras eram recolhidas por outros ouvidos da vizinhança, volveu concentrado e hipócrita à sua Bíblia.
Na tribuna o pastor ia rolando o sermão, procurando com vão esforço esquentar-se, tentando vociferar e clamar a religião. A sua voz logo esmorecia e caía na morna toada.
Do outro lado, em frente a Milkau, estava Felicíssimo, muito nervoso, a fazer sinais de impaciência. O cearense arregalava os olhos para os seus amigos do Rio Doce, sacudia a cabeça num gesto de contrafeita resignação, e em caretas sucessivas transformava a sua móvel fisionomia. Lentz não pôde deixar de murmurar com certo desdém a Milkau, que seguia complacente o agrimensor. – Que macaco! – O grupo dos magistrados também não estava resignado ao enfado da cerimônia. Sentaram-se os três juntos num banco, ao lado do púlpito, e enfrentavam solenes a multidão; o mais velho, que era o juiz de direito, não se cansava de gesticular; ora tirava o lenço, enxugando a testa que se franzia em grandes rugas, ora limpava o monóculo que, mal assestado ao olho direito, caía logo, obrigando-o a repetir indefinidamente os movimentos; ao seu lado o promotor crispava as mãos, aborrecido, e, de lábios cerrados, agitava a perna, suando muito, fitando com desprezo e rancor o pastor e os colonos; o terceiro, o juiz municipal, coçando a barba por desfastio num grande abandono, espreguiçava-se no banco, estirando as pernas, e bocejando; às vezes, murmurava alguma coisa ao juiz de direito; e este, pondo maquinal o monóculo para melhor entender, sorria benévola e cavalheirosamente.
Os alemães, cheios de respeito, não se moviam; concentravam-se recolhidos ao livro de orações, ou de olhos fechados voltavam-se para o abismo vazio do seu espírito, que miravam absortos e suspensos, sem a menor vibração íntima, sem um pensamento.
E o tédio envolvia a capela, até que o novo pastor terminou a prédica, e a música do órgão, as vozes das cantoras vieram numa desabafada desforra levantar os ânimos. Os três pastores reuniram-se no fundo da igreja e leram sucessivamente os salmos; a música foi suspensa um instante, para recomeçar um coro a que o povo respondia. O velho pastor de Luxemburgo, com a cara toda raspada e de óculos, tinha uma voz rouca, que se ia apagando, enquanto o pastor de Altona, com uma barba muito curta e dura, espraiava o seu ar desabusado e insolente. No meio dos dois o novo pastor de Jequitibá, muito grande e de olhos meigos, tinha uma atitude de gigante tímido. Em breve acabou o serviço religioso; os pastores sentaram-se, vendo o povo retirar-se em ordem, lentamente, tangido pela música, levando cada um o eco longínquo dos cantos. Fora, todos ficaram deslumbrados com o sol e apressaram-se a partir. Os burros foram desamarrados, os embornais vazios embrulhados e escondidos debaixo da sela, e daí a pouco homens e mulheres montavam, descendo toda a massa de gente pelo morro abaixo, como uma represa de água escura que se tivesse aberto sobre a verdura da paisagem. Escorregando vagarosamente, ninguém se apressava, com receio de um perigoso atropelo. E a grande vozeria de comentários, de galhofas, as grandes gargalhadas e gritos festivos rebentavam das mil bocas da multidão, matando a tranquilidade da região silenciosa. Milkau e o companheiro vinham-se também arrastando, partilhando da alegria e esquecidos de si para se misturarem na comunhão ali formada pelo acaso e pelo impulso comunicativo. Embaixo, na cruz das estradas, o povo começou a debandar; alguns tomavam a dianteira, galopando na estrada e envoltos na poeira, outros corriam mesmo a pé; as mulheres arregaçavam as saias de cima por economia, e cobriam com elas as cabeças, enquanto os homens se descalçavam, levando nas mãos as botinas ou os chinelos. E a gente ia-se escoando pelos caminhos, procurando as suas casas, ou as tabernas próximas, onde costumava passar o domingo. Milkau voltou-se, sentindo um toque no ombro. Era Felicíssimo, que lhe falava de cima de um burro.
– Bons olhos os vejam... Há quanto tempo não nos avistamos! E para onde se botam agora?
– Para casa, naturalmente – respondeu Milkau.
– Pois eu lhes proporia...
– O quê? – perguntou Lentz, interrompendo.
– Irem à casa de Jacob Müller, onde há um grande baile à noite, e já agora de dia começa o pagode.
– Mas não tivemos convite...
– Oh! isto é uma conversa... Aqui na colônia não há convites. Em se sabendo que há uma festa, a gente não tem mais que se apresentar, porque isto também faz parte do negócio...
– Que negócio? – interrogou Milkau.
– Que negócio? – repetiu o agrimensor, respondendo. – Então não sabe? O sujeito arranja a festa com olho de fornecer a comida, vender muita cerveja e tudo mais... Ora, vamos daí. É verdade que estou montado, e não podemos ir juntos... Mas não há dificuldade; o caminho é este da esquerda, vai descendo, depois torna a subir e, quando chega no alto, vocês têm um pequeno pouso com uma venda; passem pela frente, tomem à direita, e vão seguindo sem se desviar. Quando toparem um sobrado branco com um terreiro, é aí. Não há confusão: a casa está em festa e vocês a reconhecem logo.
Os dois amigos consultaram-se com o olhar, meio indecisos; mas Lentz não demorou em responder:
– Pois sim, iremos.
– Assim é que eu gosto da rapaziada – disse radiante o agrimensor –, que não tem história nem maçadas. Falou-se em patuscada, não enjeita. Bem, eu vou indo... vou na frente, mando guardar três lugares na mesa para nós... Temos muito que desenferrujar...
E apontava com a mão livre a língua. Depois, tomado de uma repentina excitação, passou a fazer trejeitos inconsiderados com a cabeça, a rir muito. “Até logo!” Picou o burro com veemência, deu-lhe chicotadas, gritou para a frente, e se foi num galope, espantando os colonos com os berros e a correria. Os outros executaram as indicações do cearense e foram andando apressados pela estrada.
No alto estava realmente a venda, onde já se aglomeravam muitas pessoas, formando grupos diferentes, todos alegres. A taberna era limpa, bem-arrumada e com duas portas largas. Dentro, encostados ao balcão, os alemães bebiam em geral cerveja fabricada no Cachoeiro e alguns tomavam cachaça; algumas mulheres de várias idades agruparam-se aos homens, e entre todos trocavam-se saudações e oferecimentos amáveis de bebidas. A dona da casa e uma filha, moça e loura, de um louro lavado em que uma rosa traduzia a eterna faceirice da mulher, serviam lestas os fregueses. Fora, uma grande latada corria pelo oitão da casa, e na sombra larga debaixo do caramanchão, sentadas às mesas toscas, famílias almoçavam e eram atendidas pelo dono da casa.
– Como esta sombra convida a descansar! – disse Lentz, fatigado do sol.
– Podemo-nos demorar aqui um pouco, e fazer a caminhada mais à vontade – concordou Milkau.
– Não... Se não estás morto, continuemos, porque receio, uma vez em casa, não tornar a sair por este sol!
E lá se foram, deitando um olhar de cobiça ao caramanchão ruidoso, onde o verde das folhas entrançadas nas grades formava quadro para as cores simples, álacres dos vestidos das mulheres.
No caminho, viram muita gente que tomava o rumo da casa da festa. E quando chegaram à lombada de um morro, avistaram embaixo um fio d’água veloz, e à beira o sobrado onde se percebia, mesmo de cima, o movimento de uma reunião.
– Apertemos o passo – propôs Lentz –, que não vale a pena mais nos pouparmos, quando lá está o nosso refúgio.
– Sim, isto agora vai depressa; é só descer.
E ao lado deles passavam rapazes e raparigas a correr pelo morro abaixo, gritando de júbilo e levados pela excitação de chegar sem demora. Isso transmitiu-lhes também o desejo de correr, de se perder na alegria do ar, na vertigem da descida. E correram também; mas daí a pouco pararam e sorriram vexados da inconsciência que os tomara.
– Ora esta – disse Lentz –, estávamos a imitar.
– Não foi isso o que me fez parar, mas é que nós nos estávamos esgotando – ponderou Milkau, desconhecendo-se naquele arranco de expansão jovial, e contente com este rejuvenescimento do seu espírito. “Afinal, a natureza readquiriu os seus direitos”, pensava ele...
Desamordaçavam-se-lhe os nervos, e uma invasão de luz punha-o em misteriosa e infrangível harmonia com o mundo jovem, verde e glorioso.
Ergueu a cabeça num gesto de desafogo, sacudindo a barba de ouro. Os seus olhos azuis estavam radiantes de paz e calma, e foi com o passo cheio de majestade e de graça simples que baixou da montanha.
Nas cercanias da casa de Jacob Müller a paisagem tinha o realce e a vida comunicada pelo movimento da gente, que se ia reunindo. Muitos a pé ou montados vinham da capela do Jequitibá, outros de Santa Teresa, e outros do Cachoeiro. A casa tinha uma bela situação no centro de várias estradas, e era um dos maiores pontos do comércio do interior da colônia, e aos domingos um dos mais procurados pelos habitantes do lugar, por moradores de longe, e até pelos caixeiros da cidade. Era um sobrado branco, no fundo de um vale e à margem de um endiabrado ribeiro, que descia em tropel infindo do morro para o Santa Maria. À roda dele o terreno estava limpo de plantação, e havia um pequeno campo de relva tenra e fresca que brilhava ao sol. O sobrado ficava destacado das grandes massas de árvores e de folhagem que vestiam as pedras dos morros.
Ao chegaram ao terreiro da casa já as vozes da festa vinham ao encontro dos dois novos colonos, e eles foram entrando no meio do ruído, da agitação dos alemães à sombra da varanda, quando a tarde começava a refrescar e a luz a esmorecer.
– Venham, venham, meus amigos.
E Felicíssimo, gritando, corria para eles, arrastando-os. Os outros, espantados da efusão do agrimensor, perguntavam para onde os levava.
– Vamos a um copo de cerveja.
– Não, obrigado; arranjemos antes um lugar aqui à sombra – disse Milkau –, porque precisamos de descansar.
O agrimensor ficou meio amuado: – Ora bolas! – E os deixou bruscamente. Milkau acompanhou-o, para lhe dar uma explicação da recusa, mas o outro, levado pelo rompante, lá se foi, metendo-se pelos grupos e entrando no armazém. Milkau desistiu de segui-lo e voltou a Lentz, procurando ambos um lugar para descansar. Acharam-no enfim em um banco, debaixo de uma laranjeira, em frente à casa. A gente movia-se muito. Bandos de moças de branco passavam de mãos dadas, rapazes corriam pelo campo em mangas de camisa, em apostas brincalhonas, uma pequenada vadia espalhava-se guinchando pelo terreiro, como um bando desesperado de maitacas.
Outros entravam e saíam do armazém cantarolando com a voz rouca e a gesticulação de embriagados. O estrondo dos pés que dançavam no sobrado, ecoando no vasto armazém, e o som langoroso de um realejo incessante desciam do alto, atordoando a gente. E nas janelas muitas pessoas com ar indiferente debruçavam-se para o terreiro, olhando a agitação em volta, e fitando pasmadamente a paisagem, que parecia também mover-se toda, arrebatada pela celeridade do regato.
Milkau, que se tinha conservado mudo, a contemplar satisfeito o prazer alheio, viu um rosto amigo que se aproximava. Era Joca que, em mangas de camisa, de lenço ao pescoço, e um cinturão de couro segurando a calça, vinha saudá-lo, abrindo a boca em que se apertavam os dentes felinos.
– Então vieram divertir-se um pouco? Sim, senhores, já é coragem, que do Rio Doce aqui é um estirão!
– Saímos de madrugada e fizemos a viagem sem grande fadiga – respondeu Milkau.
– Lá isso não – interrompeu Lentz –, porque eu estou que não me posso mexer... Começo a ter fome também.
– O que não falta é comida. Olhem só lá para dentro do armazém, por cima das cabeças desta gente: vejam que povo está ali agarrado ao balcão, parece urubu cercando carniça. E atrás, nas salas, as mesas já estão apinhadas para a hora do jantar. O que é preciso é marcar os lugares desde já.
– Seu chefe se encarregou disso – referiu Lentz –, sumiu-se de nós e esqueceu-se de nos dizer o que arranjou.
– Mas ele há de voltar – concluiu confiante Milkau –, e estou certo de que temos tudo arranjado; e você, Joca, que fim levou?
– Rolando, amigo... De um lado para outro, a fazer medição agora lá para o Guandu... Isso é, estes dias nós descemos ao Cachoeiro para folgar um pouco. E como vão lá no prazo? Já sei que a casa está bonitinha. E o cafezal?
– Plantado.
– No roçado que fizemos?
– Sim, ao lado da casa.
– E quando beberemos desse café?
A resposta foi um gesto largo de mão, indicando o tempo remoto. Por um instante uma ligeira sobre-excitação coloriu as faces de Lentz, que tremia em pensar no vago da distância ainda à sua frente, e naquela vida estranha que levava.
– Ah! agora a coisa vai ser mais animada – disse em sobressalto o mulato, olhando alvoroçado para o fundo; – lá vem a banda.
Os músicos da filarmônica do Cachoeiro vinham chegando ao arraial, e todas as vistas se voltavam para eles. Um grande rebuliço fez-se no povo, e repentinamente todos se foram aproximando da banda, que, caminhando lentamente e como por um velho hábito, se dirigia para um pátio ladrilhado de cimento, que era o lugar destinado para secar o café comprado por Jacob Müller. Nos dias de semana uma grade de arame protegia esse pátio da invasão dos animais e da criançada. Aos domingos, quando havia festa, a grade era retirada, e todos tinham a liberdade de penetrar na área. Joca deixou Milkau e foi se postar ao lado dos músicos, alguns dos quais eram seus conhecidos e camaradas.
– Então, minha gente, vocês hoje estavam com preguiça de desunhar! A rapaziada aqui já andava impaciente... O velho Martinho já está com o braço morto de tocar realejo, para entreter o povo lá em cima. Vamos à gaita!
E, contente, o mulato começou a dar vivas à banda do Cachoeiro. Um alarido de gargalhadas e aclamações acompanhou os vivas. Os homens da música sorriam, rubros de vexame, e todos automaticamente tiraram o chapéu, agradecendo.
Foi um delírio para o maranhense, que começou a dar outros vivas ao “povo do Cachoeiro”, a “Jacob Müller”, “à união da rapaziada”. Todos se divertiam, gesticulavam, dançavam descompassados, acompanhando a banda. Os músicos instalaram-se num dos ângulos do pátio largo, liso, lavado, que recebia em seu lajedo, para irradiá-la, a força do sol. Num momento ficou coalhado da gente simples e fácil de contentar, desses que são amados da alegria e em quem ela não encontra atropelo para reinar livremente.
Colocadas as estantes, os músicos sentaram-se e começaram a tocar uma marcha de que cada qual, entusiasmado, ia repetindo os compassos. Joca, cantando marcialmente, com os olhos acesos e as narinas arregaçadas, perseguia um bando de raparigas louras, coradas, que fugiam rindo, num fingido susto. Alguns velhos já ébrios, de cachimbo ao queixo, arrastavam as vozes, fazendo mesuras às mulheres, que riam destemperadamente. As crianças invadiam o terreiro, vindo em grupo, abrindo espaço aos empurrões. O dono da casa, todo de branco, em mangas de camisa, e com um grande chapéu de palha na cabeça, apareceu no pátio, e depois de se entender com o mestre da banda principiou a falar, dando ordens. Algumas velhas aplicavam-lhe palmadas nas costas, outras puxavam-lhe levemente a barba; ele respondia aos socos, berrando:
– A festa é das crianças. Limpa o terreiro! Arreda! Vocês têm baile à noite. – E depois, persuasivamente, virava-se para os mais teimosos: – Anda, meu velho, ajuda-me, que tenho de atender à freguesia. Olha, vai tomar um copo lá dentro.
Era o argumento irresistível e proveitoso, porque a miragem desse copo afastava o homem daí, e dava algum lucro ao armazém. O lugar ficou limpo da gente grande, que se enfileirou aos lados, formando o quadro do pátio. A criançada agora sobre ele girava doidamente, a rodar, a rodar, como se fosse movida por um pé de vento.
A música acabou a marcha, e deu o sinal de uma quadrilha. Um velho alto, com uma longa sobrecasaca preta e surrada, de óculos azuis e uma cara de jenipapo murcho, entrou no terreiro para dirigir o baile infantil. Foi um instante de sossego. O homem mandou que os pequenos se ordenassem pelos sexos, e começou depois a distribuir os pares, chamando cada criança pelo seu nome. “Alberto e Ema”, “Herman e Sofia”, “Guilherme e Ida...” Às vezes, um dos pequenos recalcitrava contra o arranjo.
– Mas eu estou comprometido, professor.
– Como? Com quem?
– Com Augusta Feltz...
– Mas não é possível: você tão miúdo e ela tão crescida – replicava o velho, tremendo-lhe as mandíbulas moles.
No círculo as mães intervinham, acompanhadas por outras vozes de mulheres.
– Deixe, senhor professor. Que é que tem? Cada um escolhe a que deseja.
O mestre resignava-se, e Augusta Feltz, com os seus doze anos, de canelas compridas e olhos mansos de veada, lá ia para a forma, inclinando o pescoço para o cavalheiro, que a levava de braço, fitando-a muito ancho.
Afinal o professor conseguia arranjar as quadrilhas, e a música rompia a dança. Os pequenos estavam exercitados, de modo que tudo corria em ordem, sem confusão. Das pessoas grandes, muitas ficavam entretidas, acompanhando a festa das crianças; outras, porém, fatigavam-se da atenção, e punham-se a passear pelo arraial, indo à beira do rio, deitando-se na relva para verem passar a água; alguns, de braço como noivos, iam se perdendo pelo mato adentro, e outros se reuniam ao balcão a beber e a cantar as velhas estrofes do prazer e do convívio humano, que na ilusão instantânea os transportavam à terra abandonada. Em tudo, no menor movimento, no mais pequeno gesto, a reunião ali na estação do Cajá dava a sensação do esquecimento e da alegria.
– Era isto o que eu procurava – dizia Milkau a Lentz, quando passeavam pelo terreiro ao ritmo da música, e olhando a cena. – Era isto que eu procurava, e que enfim achei... Viver no meio de gente simples, partilhar com ela o seu doce esquecimento da dor, matar o ódio... Compara este povo com os homens de outras terras, onde cada um parece possuído do espírito do demônio, solto sobre a face do mundo, devastando-a nos seus impulsos de loucura, e estrebuchando para morrer num espasmo de maldade. Aqui ao menos é a serenidade, é a calma, é a alegria.
– Mas – observava Lentz, traçando no rosto um gesto de desdém –, no fundo isto é a estagnação, é uma existência vazia e inútil.
– E não é o amor a ação por excelência? E não é ele a força que aqui na colônia, no canto do Universo, move os homens? Que queremos mais?
Aproximaram-se do baile das crianças, que prosseguia vivo e animado. Agora havia uma grande roda dos dançantes, que, ora célere, ora vagarosa, se ia movendo aos cantos infantis, estridentes e desafinados. E quando a meninada estava muito entretida, um sujeito mascarado saltou no pátio, disfarçado em palhaço maltrapilho, besuntada de alvaiade a cara, e beiços e faces pintados de vermelhão. Uma imensa risada dos grandes o recebeu, e os meninos pararam a dança meio espantados, abrindo o círculo. O palhaço começou a cabriolar, a gritar, imitando animais, e daí a pouco, no meio da algazarra geral, metia-se na roda das crianças, de olhos tapados, a diverti-las.
– E Felicíssimo que não nos procurou mais? – lembrou Milkau, afastando-se do círculo, com o amigo pelo braço.
– É verdade. Creio que desconfiou conosco.
– Vamos procurá-lo – propôs Milkau.
– É tempo, mesmo porque já podíamos ir jantando – acedeu Lentz.
Já àquela hora o sol esfriando transformava magicamente o panorama, graduando a cor, que parecia surgir pouco a pouco do seio secreto das coisas e se expandir mais livre à superfície luminosa. A aragem refrescava o tempo, passando volátil pelas cabeças louras das mulheres, brincando-lhes nos cabelos num leve arrepio que lhes descia da nuca. A paz da tarde avançando sutil reinava sobre as gentes, entorpecendo-as com a sua doce perfídia.
– Mas onde se meteu o agrimensor?... Onde se meteu ele? – ia dizendo Lentz, passando de grupo em grupo, e mirando por toda a parte.
– Hoje ele está misterioso conosco... Também por que não lhe aceitamos o copo de cerveja?... Não custava nada uma amabilidade.
– E não se perdia um camarada... tão idiota – concluiu Lentz.
– Oh! Também vais logo aos extremos...
Procuraram o agrimensor pelo terreiro, dando volta por trás da casa. Uma caminhada inútil. Foram até à margem do regato, chegaram até à beira das estradas, e precipitaram-se para onde avistavam grupos de gente, na esperança de achar o cearense. Tudo em vão. E entraram no mato. Debaixo de uma carregada sombra, um par amoroso, cochichando, descansava. Com a presença dos estranhos, o jovem abaixou a cabeça enleado, disfarçando a remexer nos gravetos esparsos no chão; a rapariga, porém, numa tranquilidade altiva, com seus olhos serenos e francos, expulsou os perturbadores.
Quando tornaram à clareira, desistiram de procurar Felicíssimo no arraial e se encaminharam para a casa.
O balcão continuava sempre cercado, bebia-se largamente, e numa língua arrastada, enfadonha, cantava-se. Os dois amigos lançaram uma vista d’olhos pelo armazém e não viram o agrimensor. A mulher de Jacob, percebendo-os indecisos, fez-lhes um gesto, perguntando-lhes o que bebiam. Milkau, desviando delicadamente alguns colonos pesados e oscilantes, chegou-se a ela, indagando de Felicíssimo. A mulher aconselhou-os a subir à sala do fundo onde se servia o jantar, pois talvez aí o encontrassem, e falou-lhe dos lugares encomendados para três. De fato, no sobrado, enquanto a sala da frente se achava quase deserta, e apenas com algumas pessoas à janela vendo o baile das crianças, a sala do fundo estava num grande burburinho. À mesa muita gente sentada comia avidamente. Em pé, uns com pratos na mão tomavam caldos, e outros, agarrando linguiças, fatias de pão, mastigavam com uma fome voraz e com os olhos injetados, fixos, num espasmo de satisfação bestial. Um cheiro de alho, de vinagre e pimenta excitava a multidão e entretinha a sua voracidade.
Felicíssimo estava numa cabeceira da mesa com dois lugares vazios de cada lado, e quando avistou os companheiros chamou-os num sobressalto.
– Aqui! Aqui!
Os outros foram rompendo caminho e tomaram os seus lugares.
– Até que afinal vocês resolveram vir... Pensei que não quisessem saber de mim hoje, pois tão entretidos andavam... Viram passarinho verde?
– Ora – respondeu Lentz –, não mude os papéis. Foi você exatamente que nos deixou, e meio amuado não se importou mais conosco, que sem nenhum conhecimento temos andado vagando à matroca...
– Não me conte histórias, patife. Imagino quantas amizades não tem por aí, com quanta rapariga não tem falado!... Vamos lá, nada de segredos.
O alemão enrubesceu, e não sabia como replicar, Milkau veio em socorro.
– Lentz não se preocupa com isso.
– Vá pregar noutra freguesia, seu maganão.
– O nosso interesse é misturarmo-nos à alegria deste povo, compreender a sua vida e felicidade...
Felicíssimo olhou-o com os olhos miúdos, caídos e vagos. Depois, com uma cara feita de um riso complacente e velhaco, arrastando a voz:
– Qual, camarada, não me conte rodelas, então você mesmo, você, que lá na sua língua procura misturar-se à alegria desta gente, que quer mais se não...
– O pior, meu amigo, é que com esta discussão nós vamos ficando sem jantar – cortou Lentz.
– Oh! é verdade – gritou o agrimensor, erguendo-se apoiado nas mãos.
Em pé, berrava chamando os criados. Afinal, uma rapariga atendeu, postando-se em frente ao cearense, à espera de uma ordem. Felicíssimo mirou-a com malícia, piscando os olhos para o companheiro, e depois como a alemã, enleada, quisesse partir, ele resolveu-se a falar.
– Meu bem, meu amor, você traga jantar igual ao que me tem trazido, para estes dois amigos; comecemos por um caldo de ervas.
A criada desapareceu rapidamente, com um movimento airoso como um passo de dança.
Felicíssimo estalou a língua, atirando-lhe os olhos, que a seguiram como servos amorosos.
– Ah! esta vida! esta vida – murmurava o agrimensor, melancolicamente, e sem saber o que dizia.
Puxou o copo de cerveja e bebeu. Olhou a garrafa que esvaziara, bateu na mesa, pedindo que lhe trouxessem outras seis.
– Nós não tomamos tanto – objetou Milkau.
– Se vocês fizeram voto, eu não fiz: beberei todas seis.
Milkau e Lentz começaram a jantar dos pratos rústicos, que serviam no meio de algazarra e de desordem. Muitos caixeiros da cidade, mais bem trajados que os camponeses, recusavam a comida ordinária, e pediam aves em conserva, de que se serviam bebendo o vinho do Reno. Alguns desses rapazes, que eram da casa de Roberto, reconheceram os antigos hóspedes nos novos colonos, e os cumprimentaram com gestos de cabeça, numa expressão amável. Dos seus lugares ofereciam-lhes vinho, acenando com a garrafa. Milkau agradecia com outro gesto, e o grupo continuava a beber indiferente e desdenhoso do resto da gente.
Felicíssimo bebia sempre com grande alarde, e tanto barulho fazia que não tardou muito a atrair sobre ele a curiosidade geral. Excitado por essa atenção, o agrimensor exibia-se por todas as formas, cantava, dançava, trepado na cadeira, de copo em punho, levantando brindes. Os camponeses o admiravam numa alegria infantil, os rapazes da cidade o deprimiam com aplausos irônicos, com frases insultuosas, ditas no meio de risadas. A estes o agrimensor respondia improvisando versos em português, versos dessa toada sertaneja que lhe falava tão intimamente. Muitos não o entendiam, mas a cadência dos versos os enternecia e era com amor que pediam ao cearense que não parasse. Este variava o seu repertório, cantando canções alemãs, que estropiava, mas que ao seu lado eram retomadas com brio, com entusiasmo, pelos colonos. Produzia-se um berreiro descomunal, feito de vozes de velhos, moços e mulheres, aumentado pelos repiques nos copos e nos pratos, e pelo som estridente de um realejo, tangido num impulso frenético para acompanhar as canções, cujas notas graves eram abafadas no barulho, destacando-se apenas os agudos, violentos e ferozes. O dono da casa, querendo conter a matinada, tomou Felicíssimo pelo braço, para forçá-lo a descer da cadeira. O agrimensor o repeliu, continuando a gritaria, e outros o cercaram, protegendo-o contra Jacob, que foi expulso da sala aos empurrões. O agrimensor ordenou por sua conta mais cerveja, que mandava distribuir em torno. Disputava-se cada garrafa das mãos das criadas, e na confusão, na desordem, na desatenção, o líquido espalhava-se pela mesa dos copos entornados na sofreguidão da conquista. Milkau, temendo pelo agrimensor, propôs-lhe saírem um pouco, a desfrutar o resto da tarde no terreiro.
– Daqui não arredo – gritava ele.
E os alemães embriagados o acompanhavam num berreiro.
– Não arreda, não arreda.
E de então em diante estas palavras serviam disparatadamente de estribilho a cada canção. Os que ainda tinham consciência riam gostosamente da ira dos outros e mais que tudo do efeito dos próprios cantos cheios de versos de amor, de idílios campesinos casados com aquele estribilho do cearense.
Milkau e Lentz julgaram-se no meio de doidos, que se fitavam com expressões várias de desdém e de divertimento. E os dois foram-se esgueirando da sala, sem cólera, perseguidos pela vaia dos que ficavam.
Fora, a lua vinha rompendo, e a claridade que dela descia apoderava-se furtivamente do domínio da várzea abandonada pelo sol. E nesse instante indeciso, intermediário, o vento extinguia-se, e todos se sentiam sob um encanto misterioso de saudade, de repouso, com os olhos pregados no espaço, abismados em melancolia. No terreiro as crianças fatigadas estavam serenas, intimidadas pelo silêncio que elas mesmas faziam, e as mais pequenas, cabeceando de sono, encostavam-se às mães sentadas no chão. Os músicos recolhiam os instrumentos e vinham vagarosos jantar. Os dois amigos caminharam até ao rio, e o foram margeando, descuidosos por algum tempo. Detiveram-se e sentaram-se nas pedras. E mais tarde, como esfriasse, e ouvissem de novo a música, volveram à casa da festa. Quando a descobriram, ela estava iluminada, e a luz rubra e quente que saía das janelas e das portas abria um círculo de fogo e fosforescência, dentro da claridade mansa e leitosa do luar. No terreiro já não havia quase ninguém: as crianças tinham debandado, os grandes haviam partido para as colônias, ou se tinham recolhido ao salão do baile. Subiram ao sobrado, onde na sala da frente se começava a dançar. Ali, a música tocava uma valsa arrastada e langorosa, e pouca gente dançava, pois muitos ainda permaneciam à mesa ou se postavam encostados às portas e às janelas, tímidos e negligentes. Em geral, os pares compunham-se de raparigas que, enlaçadas umas às outras, rolavam provocadoras, sacudindo com os seus movimentos o torpor dos rapazes, até que estes, estimulados, viessem separá-las, tomando uma delas para seu par fixo.
Não se passou muito tempo sem que o baile entrasse em plena animação. A sala, depois que a noite avançara, fora mais iluminada, a música não cessava de tocar, e todos se divertiam alegremente. Agora é que se podia ver a variedade de gente aglomerada na casa de Jacob. Ali estavam negociantes do Cachoeiro, com as mulheres, caixeiros da cidade, tropeiros, lavradores, criadas e todos reunidos numa grande promiscuidade, sem separação de classes. Diante de Milkau, que, sentado a uma janela aberta, acompanhava a festa, passou, na série de pares de uma marcha polaca, uma jovem de flexível graça, de movimentos ondulantes, voluptuosos, distinguindo-se do resto das outras raparigas, desengonçadas ou morosas, arrastadas com estrépito pelos seus pares. Um homem de tosca figura, que estava ao lado de Milkau, referiu-se a ela.
– Não há nenhuma que seja capaz de chegar a Luíza Wolf.
– Realmente é muito graciosa.
– Ah! É preciso conhecê-la para saber que não é só no baile; é em tudo assim. Parece que não cansa de levantar aquela cabecinha. Amanhã estará trabalhando com o mesmo ar...
– Naturalmente é uma colona...
– Não: é criada no Cachoeiro, e o patrão dela é aquele mesmo que é o seu par... Martin Fidel. Não conhece?
– Não.
– Pois admira, é um dos negociantes mais ricos da cidade; a família está toda aqui. A mulher já é velha como ele... Ah! lá vai ela ao braço daquele mocinho alto, de nariz grande, não vê? É um colono e filho de colono no Jequitibá. O pai dele também está dançando; é aquele baixo, gorducho, barbado e de chapéu na cabeça; o par é a criada, uma desenxabida... como vê.
Os dançantes continuavam no compasso marcial da polaca, executando variadas figuras, ora desenhando meias-luas, ora separando-se em alas, marchando frente a frente, ora fazendo evoluções de homens e mulheres, separados, para se reunirem depois de diferentes voltas. Os movimentos eram tardos e pesados; dentro de sapatos grossos ferrados, batendo fortemente os pés no assoalho, arrastando-se com esforço, faziam um barulho seco, enorme, que dominava as vozes dos instrumentos. Quando a contradança parava, os pares voltavam-se num mesmo instante como por uma combinação mágica, e todos livres se moviam vagarosamente, procurando os bancos encostados às paredes das salas ou aos cantos das janelas. Muitos saíam até ao terreiro para se refrescar; namorados passeavam ali no escuro, abraçados; velhos fumavam o seu cachimbo, resmungando conversas preguiçosas, até que de novo a música dava o sinal e todos voltavam à sala, em ordem, sem o menor embaraço, passando a dançar automaticamente, de charuto ou cachimbo ao queixo, e chapéu na cabeça, enquanto as mulheres amarravam lenços ao pescoço, por causa do suor que lhes escorria da fronte.
Milkau estava só; o seu informante tinha-o abandonado, farto de lhe relatar coisas da colônia. Lentz desde muito tempo não aparecia na sala, e o amigo pensou que, fatigado daquelas simples e monótonas danças, estivesse no terreiro passeando solitário. Felicíssimo não saía da sala de jantar, onde com amigos alemães continuava a cantar e a beber. De vez em quando, ao menor silêncio da música, as vozes deles, alegres, entoadas, entravam num grande alvoroço.
Junto de Milkau, no mesmo banco, sentaram-se duas mulheres. Numa delas reconheceu ele a mesma que na capela o fitara durante o seu sono. Estavam ali, a descansar bem perto dele, aqueles mesmos olhos meigos e infinitos sobre os quais via boiar imagens doloridas que seriam a vida e o amor da rapariga. Esta respirava ofegante, tinha um ar fatigado e sentava-se num pesado abandono. Também da sua parte ela não deixou de acompanhar a furto o vizinho e, às vezes, mesmo com certa ousadia, o mirava nos olhos, plácida e inocente. Havia nela certa beleza, uma distinção maior do que era comum nos colonos; o porte era gracioso, o busto erguido, porém de um contorno farto, e as mãos brancas, talvez longas demais, saíam dos braços como cabeças de galgo. Mas o que ela tinha de superior era a fronte aberta, era o cabelo louro, fofo, volátil, era a expressão da boca, da sua boca descorada, mas úmida e bondosa. Alguns minutos depois, tocou de novo a música uma valsa, e quase todos foram dançar. Milkau então falou à vizinha:
– Não dança?
Ela não se intimidou ouvindo a voz dele, até então silencioso e tranquilo. Respondeu prontamente:
– Não; não posso, pois não me sinto bem; mas, se quer um par, aqui tem esta minha amiga, que é uma das melhores na valsa.
E com gesto de carinho quase maternal, pegou na mão da outra rapariga, que se deixou acariciar negligentemente, como habituada àquelas maneiras da amiga.
Milkau ficou meio confuso e desculpou-se, confessando que não sabia dançar. E a sua interlocutora:
– É o que me acontece pretextar, quando não me sinto bem... Mas ninguém me acredita. Vejam só...
E sorriu levemente. A voz dela era um canto íntimo, sonoro, e como que rasgava um tênue véu para mostrar a deliciosa paisagem da sua alma. E como em toda voz humana, o acento da sua era uma revelação da personalidade íntima; pela voz, que traduz a música do cérebro, percebem-se as qualidades secretas de cada espírito, conhece-se a nobreza ou a grosseria da raça ou do grupo moral a que pertencemos.
Um rapaz se aproximou, e sem dizer uma palavra, à moda do lugar, tomou pelo pulso a outra moça, arrastando-a para a dança. A rapariga ergueu-se e, voltando-se para a amiga, disse radiante e rápido.
– Maria, onde me esperas?... Não quero me separar de ti. Tenho tanto que te dizer...
– Por aqui mesmo. Neste banco ou na janela.
Quando a jovem partiu arrebatada pelo par, Maria disse a Milkau:
– Não lhe parece tão boazinha? É filha de um colono do Luxemburgo; há muito tempo não nos víamos, e hoje tem sido um regalo...
– Oh! desde manhã andamos nesta roda-viva. Lembro-me de tê-la visto na capela do Jequitibá – referiu Milkau.
– Sim. É verdade, recordo-me bem de que não estávamos muito longe um do outro.
– Por sinal que eu dormi...
Maria enrubesceu, mas imediatamente retomou o fio da conversa.
– Fazia um calor terrível... E o pastor não o divertia, não é verdade?
– Não sei... Ao contrário, sentia um bem-estar imenso, e o sono me veio como um arrebatamento feliz.
– Deixe lá – replicou meio confiada e íntima – que às vezes seria melhor passar a vida a dormir...
– Já vejo que converso com uma grande preguiçosa...
– Eu? Nunca – volveu com vivacidade a rapariga. – Não é por preguiça... seria para esquecer tantos aborrecimentos que desejaria um grande sono...
Acabou a frase com uma voz sumida e vagarosa.
– Aborrecimentos? Imagino a que coisas simples dá este triste nome – observou Milkau.
Ela não respondeu e ligeiramente abaixou os olhos; quando logo depois os ergueu, mudou de assunto.
– Como é belo dançar!
Com a sua mão fina fazia um aceno afável às amigas que passavam, alucinadas no movimento aéreo da valsa.
Milkau ia achando prazer em se entreter com a rapariga, que também ao seu lado não sentia o menor constrangimento e se exprimia sem embaraço, como a um velho conhecido.
Quando a música parou, os pares se desfizeram e cada um dos dançantes tomou direção diversa.
– Tu vês – disse Maria à amiga –, não me mexi daqui à tua espera.
– Eu sabia. E agora queres dar um passeio ou preferes ficar aqui? – perguntou a outra arquejando de cansaço e sentando-se instintivamente.
– Oh! meu Deus! Passear, quando estás que não podes? Não, amor, descansa um pouco.
– Talvez – observou Milkau – fosse preferível, para sua companheira, sentar-se à janela; as cadeiras ali estão desocupadas. Vamos para lá: o ar fresco lhe dará forças.
Levantou-se, e as moças correram sôfregas para as cadeiras indicadas, receosas de perdê-las. O primeiro olhar deles foi para o quadro de fora. Toda a terra estava inundada de um luar branco; nuvens, descendo no céu, desmanchavam-se no horizonte, e o grande campo vaporoso, livre, sem estrelas e desmaiado ia se transformando em um pavimento de cristal, puro, rijo, transparente. O verde das árvores adoçava-se à luz diamantina; a torrente rolava borbulhando, um vento manso balançava os ramos, e destes as sombras ainda longas dançavam inquietas.
– Que é isto? – interrogou Maria, meio assustada por um grande barulho de vozes, que vinha da sala de jantar para o lugar do baile.
Todos se precipitaram para indagar do que se passava. Havia grande discussão em vozes altas e agudas, mas tudo cortado por atroadoras e bruscas gargalhadas. Todavia, Maria e a companheira não estavam tranquilas, pensando que uma grande rixa se travava ali. Milkau saiu para ver o que se passava, e pouco tempo depois voltou.
– Não é nada. O agrimensor Felicíssimo entende que já basta destas danças estrangeiras e que agora se deve passar às danças brasileiras... Os músicos não sabem como executá-las, os rapazes protestam contra a inovação, que eles ignoram, o agrimensor insiste, ensaia alguns passos, assobia, quer forçar os músicos a tocarem...
– E afinal? – perguntou Maria.
– Afinal parece que Felicíssimo vencerá, e veremos alguma dança da terra.
De fato, o agrimensor conseguira impor os seus desejos, e arranjara que os músicos de experiência em experiência lhe dessem uma peça, cujos compassos seriam mais ou menos os da dança que premeditara. Depois desse acordo, os músicos vieram para os seus lugares, e a gente ansiosa correu para a sala, num burburinho de risadas, para conseguir um bom lugar. Depois sucedeu um silêncio de espera, ninguém se movia mais na sala, livre para a dança; quase todos estavam sentados, e muitos amontoados às portas e janelas. Junto aos músicos, Felicíssimo cantarolava o andamento. Não tardou, porém, que a orquestra, agora afinada, começasse a tocar uma peça arrastada e voluptuosa. Alguém perguntou ao agrimensor o que ia ele dançar. Felicíssimo, cambaleando, com os olhos tortos e compridos, saiu para o meio da sala, gritando com voz difícil:
– É o chorado, meu povo!
E, erguendo e abaixando os braços, ensaiava estalar os dedos como castanholas. Mas nenhum som produziam as suas mãos dormentes. A música suspirava gemidos lânguidos, e o dançarino só, no meio da casa, fazia trejeitos desconexos, desengraçados, medonhos. Rodava sobre si mesmo, acocorava-se, arrastava a perna, e jamais um gesto se casava com o compasso da música. Riam em torno, achando aquilo estúpido e grotesco. A embriaguez do agrimensor era completa, e o inutilizava inteiramente. Felicíssimo deu mais algumas voltas, e afinal, como numa guinada de navio, o seu corpo se arrojou rápido, violento contra a parede. Foi uma barafunda; todos gritavam de susto, uns fugiam abandonando os lugares, outros riam do espetáculo. O agrimensor apoiou-se com a mão à parede, livrando a cabeça, e caiu brusco e pesado numa cadeira vazia. Por entusiasmo, por prazer, a música continuava. Felicíssimo ainda tentou erguer-se, mas os seus vizinhos o sustiveram na cadeira, com medo de alguma queda desastrada. Ele deixou-se prender, agradecendo-lhes com o enternecido olhar de bêbado manso.
Durante algum tempo ninguém se moveu e a música prosseguia solitária nos seus largos e chorosos compassos. Mas, de repente, como um fauno antigo, Joca pulou na sala e principiou a dançar. A sua alma nativa esquecia por um momento essa dolorosa expatriação na própria terra, entre gente de outros mundos.
Arrebatado pela música que lhe falava às mais remotas e imorredouras essências da vida, o mulato transportava-se para longe de si mesmo e transfigurava-se numa altiva e extraordinária alegria. Todo o seu corpo se agitava num só ritmo; a cabeça erguida tomava uma expressão de prazer ilimitado, a boca entreaberta, com os dentes em serra, sorria; os cabelos animavam-se livremente, ou empinados e eriçados, ou moles caindo sobre a fronte; os pés voavam no assoalho e, às vezes, paravam, sacudindo-se os membros numa dança desenfreada; as mãos, ora baixas, estalando castanholas, ora unidas, saindo dos braços retesados, ora espalmadas no ar, e nesse gesto, ébrio de música, perfilado nas pontas dos pés, ele parecia, com os braços abertos, querer voar. Umas vezes, corria pela sala saracoteando o corpo, com os pés juntos num passo miúdo e repinicado; outras, obedecendo ao compasso da música, vinha lânguido, requebrado, de cabeça inclinada e olhos compridos, e achegava-se a alguma mulher, quase de rastos, suspenso, querendo arrebatá-la numa volúpia contida, mas que se adivinhava febril, vertiginosa. Depois, erguia-se num salto de tigre, retomava a sua doidice, como num grande ataque satânico, agitava-se todo, convulso, trêmulo, quase pairando no ar, numa vibração de todos os nervos, rápido, imperceptível, que dava a ilusão de um instantâneo repouso em pleno espaço, como a dança de um beija-flor. Nesse momento a orquestra podia parar, fazer um silêncio que desequilibrasse tudo, Joca não perceberia a falta dos instrumentos, pois todo ele, no seu corpo triunfal, na sua alegria rara, no impulso da sua alma, vivendo, espraiando-se na velha dança da raça, todo ele era movimento, era vibração, era música.
A cena continuou algum tempo com esse único personagem. Joca procurou um par, uma mulher que acudisse aos seus apelos, que correspondesse aos seus movimentos. Ninguém veio, ninguém sentiu o ímpeto de sacudir-se, de remexer-se ao ritmo daquela dança. Todos tinham curiosidade e nada mais. Desolado, tomado de uma repentina tristeza, de uma saudade das suas companheiras de mocidade, das mulheres negras, que sentiam como ele, pouco a pouco foi cansando... O peito ofegava, as pernas morenas não se retesavam com a mesma energia de pouco antes, com a flexibilidade vigorosa do pau-d’arco...
Exausto, ele derreou o corpo combalido, e o último intérprete das danças nacionais foi cedendo o terreno aos vencedores, enquanto outra música, outra dança, invadia o cenário. Era a valsa alemã, clara, larga, fluente como um rio.
Na sala os pares voavam num frenesi. E entre estes se foi a amiga de Maria. Fora havia mais luar, as sombras minguando se resumiam mais fixas. Numa das janelas um par cochichava, esquecido de dançar. Era uma longa, infindável e sussurrante palestra. Um momento a rapariga alteou voz, e, toda entregue à paixão, declamou como na velha bailada: – Ob ich dich liebe? Frage den Stern... Maria estremeceu ouvindo o canto de amor, e sem saber o que fazia, fitando com os olhos ardentes o céu, apontou a lua, dizendo com a voz sumida e trêmula:
– Que tristeza!
O pensamento de Milkau, como obedecendo a um chamado estranho, subiu ao astro morto. Ela imaginou a solidão de um mundo sem vida, essa terra deserta, marchando como um cadáver fantástico na estrada do infinito... Ele pensou que algum dia também, aqui nesta Terra radiante, viçosa e feliz, toda a vida se acabaria, e uma imensa tristeza, um grande silêncio reinaria nestes mesmos cantos cheios de movimento e de alegria. E para quantos não começara o isolamento, princípio da morte... Pensou na sua própria vida, no seu destino, nesta solidão em que ia passando a existência, envolto como num véu intangível que o não deixava sair para o mundo nem permitia que o mundo viesse a ele. Sua vida triste, sem uma companheira, sua vida casta e mística, pior que o eterno frio...
Acabara a dança e era a hora da separação. Um velho chegou à janela onde estava Maria e chamou-a. A moça despediu-se de Milkau, como de um antigo conhecido, que no dia seguinte se tornaria a ver. Por sua vez, Milkau, já recomposto daquele instantâneo desfalecimento, foi procurar Lentz, encontrando-o, entre vários colonos, no terreiro, ao ar livre.
– Oh! pensei que fosses o último a deixar esta casa – gritou Lentz, recebendo jovial o companheiro. – Não sabia que eras tão grande apaixonado de festas.
– Distraí-me, vendo os outros alegres, e quis te dar a liberdade de te divertires ao teu modo.
– Aqui estive, a conversar sobre a Alemanha com estes amigos. E falamos também de outra Alemanha que há de vir, no futuro...
Não é verdade, camaradas?
Os outros aplaudiram a profecia.
– Bem – disse Milkau –, mas agora cuidemos de ir para casa.
– A caminho! Adeus, amigos. Até um dia!
Bateram durante horas e horas a mesma estrada de manhã percorrida. Um momento, depois de passarem por um grande cafezal belo em sua viçosa negrura, na encosta de uma montanha majestosa, começaram a ver cruzes pretas e pedras brancas por entre os pés de café.
– Que é isto? – perguntou Lentz.
– Um cemitério! – respondeu Milkau.
E acrescentou:
– Vê tu. Não há em Canaã lugar para a morte. A terra dá o menos possível aos túmulos; eles, escassos e raros da fralda da montanha, não apagam a Luz nem dão sombra sobre a Vida, que os enlaça e domina na força do seu triunfo.