X Canaã · Capítulo 10 de 12
Obra Menu

X

X

Paulo Maciel, agora, depois das audiências do processo, arrastava Milkau diariamente à sua casa e em longas e nobres palestras, dignas de homens, a amizade se ia formando entre eles. Para Maciel, sobretudo, que se sentia separado de todos daquela terra, esses momentos eram sagrados, tinham o perfume da liberdade, e jamais, depois que o doce veneno da dúvida lhe corrompera a alma, fora ele tão feliz e fecundo.

– Não vejo meio de evitar um mau desenlace ao processo – disse o magistrado, logo que se encerraram no escritório, respondendo a uma pergunta de Milkau.

– Como? Está convencido da culpa de Maria Perutz? – perguntou Milkau inquieto.

– Meu amigo, não estou convencido de coisa alguma... Apenas lhe explico que, pelos depoimentos, pela prova dada, a pronúncia é fatal, e a condenação...

– Mas as testemunhas – cortou Milkau – vêm insinuadas, foram industriadas para essa desgraçada conclusão.

– A quem o diz? É sempre assim entre nós: não há um processo em que se possa fazer Justiça. Digo-lhe isto eu, que sou juiz. Que exprimem as minhas sentenças sobre a verdade dos fatos? Nada...

Não pense que não desejaria reagir. Mas é inútil; quando recebo uns autos, há neles tal tecido de mentiras que tenho de capitular. É de desesperar, não é?

– É horrível!...

– Um país sem Justiça não um é país habitável, é uma aglomeração de bárbaros – afirmou Maciel no seu pendor para generalizar. – No Brasil não há Lei, e ninguém está garantido – continuava. – O processo é feito de tal maneira que tudo vai em perigo. Olhe, se aqui um homem entender se apossar da propriedade de outro, encontra no nosso sistema de Justiça, no modo por que se faz o processo, apoio para a sua intenção. E se esse homem é um potentado, ninguém o pode embaraçar. Nem eu mesmo... – concluiu.

– No mundo inteiro a Justiça é uma ilusão – interrompeu Milkau.

– Mas no Brasil a situação é ainda pior, porque não se trata de raros eclipses de Justiça.

Milkau, sem dizer nada, ficou pensativo, ouvindo o jovem magistrado que prosseguia num impulso de confissão, de desabafo:

– Isso, que chamamos Nação, não é nada, repito; aqui já houve talvez uma aparência de liberdade e de Justiça, mas hoje está tudo acabado. É um cadáver que se decompõe este pobre Brasil. Os urubus aí vêm...

– De onde?

– De toda a parte, da Europa, dos Estados Unidos... É a conquista...

– Não creio – assegurou Milkau.

– Virão. Como poderemos nós subsistir desta forma em que vamos? Onde a base moral para mantermos a nossa independência no exterior, se aqui dentro estamos na desordem e no desespero? O que se dá no País é uma verdadeira crise do caráter. Não há uma virtude fundamental.

– Um caráter de raça – explicou Milkau.

– Sim, meu amigo. Aqui, a raça não se distingue pela persistência de uma virtude conservadora; não há um fundo moral comum. Posso acrescentar mesmo: não há dois brasileiros iguais; sobre cada um de nós seria fútil erguer o quadro de virtudes e defeitos da comunhão. Onde está, mudando de ponto de vista, a nossa virtude social? Nem mesmo a bravura, que é a mais rudimentar e instintiva, nós a temos com equilíbrio e constância, e de um modo superior. A valentia aqui é um impulso nervoso. Veja as nossas guerras, de quanta cobardia nos enchem a lembrança!...

Houve tempo em que se proclamava a nossa piedade, a nossa bondade. Coletivamente, como Nação, somos tão maus, tão histericamente, inutilmente maus!...

Calou-se, como levado a tristes recordações. Milkau, compadecido das torturas daquela alma de brasileiro, fitava-o com imensa simpatia.

– Repare o que se passa com o patriotismo – prosseguiu depois Maciel. – No Brasil a grande massa da população não tem esse sentimento; aqui, há um cosmopolismo dissolvente, não que seja a expressão duma larga e generosa filosofia, mas simples sintoma de inércia moral, indício da perda precoce de um sentimento que se devia casar com o estado atrasado de nossa cultura. Note que os poucos patriotas que temos são ainda homens de ódios, de sangue, enfim logicamente selvagens.

– Não há dúvida – ponderou Milkau, interessado nesta análise franca de Maciel – que há profunda disparidade entre as várias camadas da população. E a falta de homogeneidade será talvez a maior causa deste desequilíbrio, desta instabilidade...

O juiz refletiu e, debruçando-se um pouco sobre a mesa, voltado para Milkau, replicou a este num tom mais decisivo e vibrante:

– Tem razão. O aspecto da sociedade brasileira é uma singular fisionomia de decrepitude e de infantilidade. A decadência aqui é um misto doloroso de selvageria dos povos que despontam para o mundo, e do esgotamento das raças acabadas. Há uma confusão geral. As correntes da imoralidade vagueiam sobre a sociedade e não encontram resistência em nenhuma instituição. Uma tal nação está preparada para receber o pior dos males que pode cair sobre o mundo: a geração dos governos arbitrários e despóticos. Se a sociedade é uma obra de sugestão, que se pode esperar dos sentimentos, da idealização das massas incultas, quando a imaginação delas é deslumbrada pelo espetáculo da mais desbragada perversão dos governantes? Que reações sobre cérebros obscuros não provocará o desamor desses condutores das gentes, ao ideal, às coisas superiores, e seu apego às posições e ao ganho? E não é só o Governo. É a magistratura subserviente e aparelhada para explorar os restos da fortuna privada, são os funcionários, os militares, o clero, tudo num declive em que se vão resvalando, horrivelmente deformados...

Levantou-se muito nervoso, abriu a janela que dava para o rio, e pôs-se a mirar absorto e vago a cachoeira, enquanto a claridade da tarde, mansa e suave, invadia o aposento. Milkau, sem se mover do seu lugar, encheu-lhe os ouvidos de louvores à natureza.

E Maciel voltou-se:

– Ainda é uma vantagem viver-se na roça nesta hora tenebrosa. Ao menos, temos a benignidade da calma e a tranquilidade da família. E por quanto tempo, não sei... O clima... A peste se apodera do corpo miserável da Nação... A família vai sendo demolida pela força imperiosa dos vícios.

Parou, e como resumindo todas as suas decepções e anelos, murmurou num desalento:

– O meu desejo é largar tudo isto, expatriar-me, abandonar o País, e com os meus ir viver tranquilo num canto da Europa... A Europa... A Europa! Sim, ao menos até passar a crise...

E quando ia sendo arrebatado pela expansão dos seus mais íntimos anseios, Maciel conteve-se com esforço, ficou repentinamente mudo, fitando com os olhos vermelhos e úmidos o estrangeiro. Milkau falou-lhe com brandura; e as palavras caíam frescas e consoladoras sobre os campos desertos daquele coração.

– Não quero diminuir – disse ele – a exatidão dos seus conceitos. Mas lembre-se de que não há sociedade sem abalos. Ou melhor, que não há nada fixo e eterno: tudo vai de passagem, tudo está sempre em crise, procurando perpétuas e incessantes combinações de ser. Por outro lado, esse terror que nos vem dos acontecimentos presentes é também um pouco uma questão de perspectiva. Quando estamos dentro deles, tudo se mostra grandioso ou ridículo, terrível e formidável, tudo parece ir acabar numa desagregação irremediável; mas no futuro eles minguam à força de distância, parecem normais e suaves, e nós começamos a louvá-los, como uma engenhosa e admirável expressão dos melhores tempos, que são sempre os passados. Deixa que lhe repita uma velha imagem? É assim como se estivéssemos no mar, no meio das ondas e dos ventos: o espetáculo do oceano enche-nos a alma de terror, porém, depois que o atravessamos e o olhamos de longe, as ondulações das vagas são como um leve sorriso.

E Maciel também sorriu, festejando a metáfora.

– Muito bem – replicou, tornando-se subitamente jovial – mas aqui se passa uma verdadeira tormenta...

– É natural, e não podia ser de outro modo. Do que tenho observado e adivinhado um pouco, é ela consequência da primitiva formação do País. Desde o princípio houve vencedores e vencidos, sob a forma de senhores e escravos; desde dois séculos estes lutavam por vencer aqueles. Todas as revoluções da história brasileira têm a significação de uma luta de classe, de dominados contra dominadores. O povo brasileiro foi por longos anos apenas uma expressão nominal de um conjunto de raças e castas separadas. E isso se manteria assim por muitos séculos, se a forte e imperiosa sensualidade dos conquistadores não se encarregasse de demolir os muros da separação, e não formasse essa raça intermediária de mestiços e mulatos, que é o laço, a liga nacional, e que, aumentando cada dia, foi ganhando os pontos de defesa dos seus opressores...

E quando o exército deixou de ser uma casta de brancos e passou a ser dominado pelos mestiços, a revolta não foi mais do que a desforra dos oprimidos, que fundaram desde logo instituições destinadas a permanecer algum tempo, pela sua própria força de gravidade, numa harmonia momentânea com os instintos psicológicos que as criaram... Era preciso esse choque do inconsciente para se fazer o que se buscava desde séculos por outros meios: a nacionalidade...

– Bravo – aplaudiu Maciel. – Está aí a explicação do triunfo e do prestígio do nosso “Maracajá”.

– É o representativo – afirmou Milkau, também gracejando.

– Vejo bem que é isso mesmo – comentou o juiz. – Era preciso formar-se do conflito de nossas espécies humanas um tipo de mestiço, que se conformando melhor com a natureza, como ambiente físico, e sendo a expressão das qualidades médias de todos, fosse o vencedor e eliminasse os extremos geradores. Perfeito... Reparemos que Pantoja não é um caso isolado. Os que tendem a nos governar, e que nos governam com melhor aceitação e êxito, são desse mesmo tipo de mulatos. O Brasil é, enfim, deles...

Paulo Maciel deteve-se um momento, e depois, enquanto olhava para as mãos brancas e longas, continuou com um sorriso irônico:

– Não há dúvida... Se eu tivesse algumas gotas de sangue africano, com certeza não estaria aqui a me lamentar... O equilíbrio com o País seria então definitivo... Pantoja, Brederodes... estes não marcham firmes e seguros?... Não são os donos da terra?... Porque não nasci mulato?...

O pequeno mundo da colônia, tangido pelo escrivão, representou-se no espírito de Milkau como um resumo bem claro de todo o País. Todos os nacionais que ali dominavam saíam fatalmente do núcleo da fusão das raças, enquanto aquele jovem de uma inteligência mais fina, de uma sensibilidade maior e mais distinta, era aniquilado, vencido pelos outros. Tinha razão? Faltava-lhe a gota de sangue negro para que tudo nele se equilibrasse?

– Vê, meu amigo. É fatal – disse Maciel negligentemente – não há salvação possível para o nosso caso, é uma incapacidade de raça para a civilização...

– Oh! não. Isto não se pode concluir dos meus pensamentos. A crise da cultura aqui é motivada pela divergência dos estados de civilização das várias classes do povo. É preciso um pouco mais de identificação, como dolorosamente já se está fazendo. Não há raças capazes ou incapazes de civilização, toda a trama da História é um processo de fusão: só as raças estacionadas, isto é, as que se não fundem com outras, sejam brancas ou negras, se mantêm no estado selvagem. Se não tivesse havido a fatal mistura de povos mais adiantados com populações atrasadas, a civilização não teria caminhado no mundo. E no Brasil, fique certo, a cultura se fará regularmente sobre esse mesmo fundo de população mestiça, porque já houve o toque divino da fusão criadora. Nada mais pode embaraçar o seu voo, nem a cor da pele, nem a aspereza dos cabelos. E no futuro remoto, a época dos mulatos passará, para voltar a idade dos novos brancos vindos da recente invasão, aceitando com reconhecimento o patrimônio dos seus predecessores mestiços, que terão edificado alguma coisa, porque nada passa inutilmente na terra...

– O País será branco em breve – suspirou Maciel – quando for conquistado pelas armas da Europa.

E Milkau disse ao brasileiro:

– Essa Europa, para onde daqui se voltam os vossos longos olhos de sonhadores e moribundos, as vossas cansadas almas, cobiçosas de felicidade, de cultura, de arte, de vida, essa Europa também sofre do mal que desagrega e mata. Não vos deixeis deslumbrar pela exausta pompa da sua civilização, pela força inútil dos seus exércitos, pelo lustre perigoso do seu gênio. Não a temais nem a invejeis. Como vós, ela está no desespero, consumida de ódio, devorada de separações. Ainda ali se combate a velha e tremenda batalha entre senhores e escravos... Não há calma para a consciência, não há tranquilidade no gozo, quando ao vosso lado sempre alguém morre de fome... É uma sociedade que acaba, não é o sonhado mundo que se renova todos os dias, sempre jovem, sempre belo. E ainda para manter tais ruínas, os governantes armam homens contra homens e entretêm-lhes os ancestrais apetites de lobos com a pilhagem de outras nações. Tudo que se apresenta à flor da vida não corresponde mais aos fundamentos da Vida... As leis, nascidas de fontes impuras para matar a liberdade fecunda, não exprimem o novo Direito; são o escudo perturbador do Governo e da riqueza, e quem diz autoridade diz posse, diz servidão e destruição. Por tais leis os povos chegaram a esse excesso de grandeza que é o primeiro toque da decadência. Por elas tudo se baralha, toda a humanidade parece sem raízes na terra, passando, como se estivesse para morrer, sem cuidar dos que vêm surgindo após. Está vacilante, inquieta, nesse momento indeciso em que não teme mais a justiça vingadora e póstuma, que amedrontava no passado os espíritos, e nem pratica a maravilhosa Justiça que vai chegar amanhã para dar a todos o que é de todos.

“Nada corresponde ao Tempo. O espírito que morreu ainda anima debilmente o mundo... As raças deixaram de ser guerreiras e ainda se armam... Os povos abandonaram a religião e conservam os templos e o sacerdócio... A arte não exprime a vida, nem a alma do momento; a poesia volta-se para o passado, e a sua língua sutil, fina e mesquinha, sem seiva nem vigor, não é a lâmina poderosa e refulgente na qual se reflete a imagem dos novos homens. E por tudo isso que enlanguesce e definha, passa o veneno sensual, mórbido e pérfido, tirando a força ao homem e a bondade ao leite da mulher... Não a temais, que vos não pode escravizar; antes que se erga contra vós, ela se despedaçará. Não longe, os seus exércitos não se poderão mover, pois como a essas figuras carbonizadas desentranhadas da terra do passado, um sopro de vento os reduzirá a pó, o sopro benfazejo que tudo invade, tudo vence, como o bafo sagrado das divindades do futuro, e que são as forças redentoras da ciência, da indústria, da arte, da inteligência, do ódio e do amor e de mil outras potências ainda incógnitas, misteriosas e santas... E já as posições vão sendo tomadas insensivelmente pelos que as desprezam”.

– É um grande mal – disse involuntariamente Maciel, numa voz imperceptível.

– É o primeiro passo e um grande bem. Que o Exército, a Magistratura, o Governo, o Parlamento, a Diplomacia, a Universidade e tudo mais que deva finar caiam nas mãos dos que julgam tais instituições como instrumentos do mal, criações grosseiras ou ridículas. Então os exércitos não marcharão...

– Não será a conquista fatal do País, onde isto primeiro se der?– arriscou o jovem brasileiro.

– Se tais consequências resultarem, serão tão fugazes e passageiras que não devemos delas cogitar. O domínio do vencedor dessas lutas inferiores será instantâneo, porque aquelas forças da ressurreição se comunicam invisíveis entre os homens do nosso grupo de cultura, e conduzem ao mesmo resultado neste sistema planetário, onde, destacando-se da nebulosa inicial, entrou o Brasil para sofrer conosco os mesmos sacrifícios, as mesmas transformações e, numa semelhança de destino mais funda que aparente, sonhar os mesmos sonhos...

Quando Milkau partiu, o juiz, ficando só, cismava em tudo o que acabava de entrever deliciosamente, nesse mundo a transfigurar-se, nessas ânsias para novas e mais belas expressões da vida, nessa esperança luminosa e feiticeira... E, apesar do deslumbramento da visão, as atribulações do momento venciam-no.

– Tudo desmorona em torno de mim. Já ninguém aqui se entende, e não tarda que eu mesmo seja estranho a tudo e nada mais sinta de comum com aqueles que são os homens de minha terra... O que me resta é ainda este sossego da família, este amor de mulher que me conforta, e esta criança que nos rejuvenesce, enquanto lá fora tudo vai desabando.

Não ouvindo mais rumor de conversa no escritório do marido, a mulher de Paulo Maciel entrou aí discretamente, como tinha por hábito todos os dias antes do jantar. Era esbelta, magra e ainda muito jovem. A palidez brasileira, doentia e diáfana, dilatava-lhe os olhos negros e faiscantes. Sentou-se no seu lugar de retiro e daí, arrancando o marido das cismas em que estava, foi-se reclinando suavemente para ele. Maciel, eternamente fascinado por ela, acalmou-se, e sem demora esquecido de suas devastadoras angústias e débeis revoltas foi em sussurro entretecendo com a companheira, como em fios de brando e macio cabelo de mulher, uma doce e infinda conversação. A noite vinha vindo, avançando e estendendo-lhes em silêncio os braços cheios de ternura misteriosa. E tudo foi uma volúpia, casta e sutil.

Mas não tardou que passos miúdos e velozes os sacudissem desse vaporoso adormecimento, e logo invadisse o aposento a figura em desordem de uma criança. Trazia as faces vivas e acesas, tremia-lhe o narizinho; os cabelos vinham debandados, e pela testa corria um suor gelado. Caiu nos braços da senhora, vibrando, abafada:

– Mamãe!

Esta, aflita e estupefata, olhando-a sem ver, recolheu-lhe ansiosa o corpinho.

– Glória! Glória! – murmurou.

O marido achegou-se a ela, e tomando-lhe umas das mãos, beijou a criança.

– Sosseguem.

Esta palavra foi dita varonilmente e trouxe lágrimas à mulher, como uma reação de alento, e Glória, a criança, enterrou mais a cabeça no colo onde se agasalhara. Neste momento entrou no aposento a criada, que, agitada, começou a explicar a angústia da menina, reconstituindo com largos gestos e grandes vozes, quase numa algazarra, um episódio da rua. Passeavam ambas quando uns imigrantes mendigos se acercaram delas, pedindo esmola. Algumas mulheres do bando desejavam com mãos descarnadas apossar-se das joias da menina, e uma mais ousada beijou-lhe o rosto; e enquanto forçava por tirar-lhe a pulseira, o filho arrancou-lhe o laço de fita, correndo numa gargalhada de triunfo. A criada defendera Glória, repelindo o grupo com o chapéu de sol, mas à sua energia tonta correspondera uma vozeria desbragada. Se não fosse a intervenção de dois homens que passavam, a luta não se terminaria logo. Mal puderam escapar, partiram desvairadas para a casa, no meio de imprecações de fúria.

Durante a narração, a moça segurava a menina pela cabeça, beijando-lhe frequentemente os amortecidos olhos de sonâmbula. Paulo Maciel, para diminuir nesta o natural e invencível horror aos pobres, tentou disfarçar o acontecimento, sorrindo daqueles sustos. A criança encarou-o indecisa. O medo dava-lhe o justo sentimento do real, e tornava vãs as palavras.

Procuraram distraí-la e desviar para coisas alegres e diversas a sua atenção, pois já aos cinco anos uma precoce e mórbida fantasia era-lhe doença d’alma. A invenção dos grandes não foi feliz e fértil naquele momento; as ideias lhes fugiam; eles paravam, cismavam, e apenas como recurso lançavam-se ao argumento que nunca trai, beijos, que foram então arquejantes...

A grande calma do crepúsculo aquietava-lhes, como num remanso, as perturbações, e só a menina de vez em quando tremia, segurando-se à senhora, a quem não sobrava regaço para ocultá-la, e abrigá-la mais e envolvê-la com os braços, perdidamente, maternalmente.

– Tenho medo, mamãe!

Depois, um soluço histérico, outro, mais outro, sucedendo uma modorra interrompida de instante a instante pelo crispar de suas garrazinhas aferradas aos pulsos da senhora, que tentava inutilmente adormecê-la. Os seus sentidos sabiam do pesadelo numa dolorida expressão de susto e de fadiga. Levantou a cabeça, fitou os outros com um sorriso leve, melancólico, que traduzia uma mansa agonia, rudimentar, inconsciente, a indizível tristeza das almas rudes, primitivas ou infantis. Moveu os lábios como quem ia falar, e os dois esperaram, em súbita transformação de alívio, a sua voz.

– Ah! nós também fomos como eles, hein, mamãe! – murmurou Glória, brandamente.

A mulher de Maciel a princípio não percebeu toda a extensão daquele pensamento, mas do pouco que compreendeu ficou aterrada. Maciel, que estava a ler, deixou cair o livro, e enfiou olhos agudos na menina.

– Sim, mamãe, há muito tempo, longe, noutra terra. Nós andávamos na rua toda a hora, dormíamos na rua, você me carregava, quando eu não podia mais; papai me dava tanto...

A sua fisionomia transfigurava-se com essa recordação, e, em êxtase, voltada para a janela, parecia buscar dias passados. Os outros cismavam.

– Você se lembra quando a gente não tinha que comer e ia pedindo dinheiro? Você me beliscava para eu chorar e me empurrava dentro das lojas para pedir comida...

– Glória – disse Maciel – que tolices são essas? Não fales nisso...

A menina moveu para ele o rosto. Quedou-se um momento calada, obedecendo à intimação. Ouviu-se um grande suspiro. Mas daí a pouco, como que irresistivelmente:

– Ah! que frio fazia lá. Aqui não se treme, não cai neve. Por quê, mamãe?... Você se lembra daquele chapéu que você tirou do menino na rua e me deu? Ih! correram atrás de nós, não foi, mamãe? Mas nós nos escondemos naquela casa escura, e eu fiquei com o chapéu bonito...

– Glória, Glória! – teve a moça forças de exclamar.

Paulo Maciel levantou-se convulso, tomou-a ao colo e mostrou-lhe uma estampa, que tirou precipitadamente do armário.

– Que bonito! – não se conteve a criança. – Me dá, papai?

– Dou, se não disseres mais tolices.

Ela pagou-lhe com um beijo. Voltaria à realidade o seu espírito desanuviado das névoas que o envolviam? pensou Maciel. E pousou Glória no chão com a gravura. A criança, porém, pouco se demorou em admirá-la; voltou à senhora que estava a chorar.

– Mamãe, não chore. Você tem tanto dinheiro... Você não apanha... Não é, papai?

Fazia-se escuro. A criada tardava em trazer o candeeiro. No completo repouso da casa, à sombra que abafava os últimos clarões da luz, a figura e as palavras de Glória, como a imagem e a voz de um passado horrível, que ressurgia em meio da felicidade, tinham ares de monstros. E ainda assim Maciel gozava um absurdo e requintado prazer intelectual naquelas tenebrosas visões da criança...

– Você não era assim, mamãe, como agora, boa para mim. Eu não tinha boneca, não tinha criada; nem cama! Andava suja. Não era? Você não tinha vestido bonito, não tinha dinheiro, não tinha anel!... Tinha uma pulseira que aquele moço lhe deu... Papai ficou zangado, você apanhou muito, hein mamãe!...

A pobre moça desalentada parecia ver lágrimas no rosto do marido.

– O moço dormiu lá, quando papai foi preso pelos soldados. Me dava dinheiro, dizia que eu era filha dele, mas eu queria era meu papai... Papai voltou... você disse que ele era tonto... aquela mulher contou tudo...

Levantando os braços num imenso esforço de quem suspende algemas, Paulo avançou esboçando no espaço gestos inúteis para tapar aquela boca maldita e inocente.

– Mamãe também mordeu na rua a mão da menina para tirar o anel. Eu vi. Pensa que eu não vi? Agora a gente não tira mais de ninguém. Papai, cadê o homem que você quis matar com aquela faca?...

De repente, voltou-se para a senhora:

– Amanhã vou passear com o vestido cor-de-rosa? Levo a boneca maior, a Dulce, sim?

Murmurando umas desculpas, a criada penetrou no gabinete trazendo um candeeiro aceso.

– Emília, Emília, amanhã... – gritou Glória, partindo no seu encalço.

A mulher de Paulo Maciel abraçou-se a ele como a um rochedo. Agarrados um ao outro, fulminados pela sensação, olhavam correr a criança. A sua caridade amorosa colhia os frutos amargos de Canaã. Havia dois anos, num grande desespero de infecundidade, tinham aberto o coração àquela filha de uns imigrantes espanhóis. E agora, das células obscuras e implacáveis dela, surgia-lhes, como um castigo, uma existência de outros, um passado alheio...

1/1
Menu

Fazer anotação