VII
VII
Continuava Maria na colônia de Franz Kraus no seu mesquinho penar. Desesperada da volta de Moritz, vigiada pelos olhos cúpidos e inquisidores dos velhos, vivia como uma louca, volteando apatetada pela casa, nos serviços domésticos, e sem poder dormir noites e noites na aflitiva ânsia de querer salvar-se da desonra, que o tempo indiferente e implacável trazia cada vez mais à flor. Assaltava-a muitas vezes um desespero de fugir, de ir para longe, desconhecida e forte, sem preocupações alheias, esperar que das próprias entranhas lhe viessem a salvação e o consolo do futuro... Outras vezes definhava languidamente, presa de um grande temor, de uma imensa e mofina vergonha, e queria morrer. Mas fraca, cobarde, as forças não lhe acudiam para qualquer resolução, e ela se deixava ficar na colônia e na vida, no mesmo ruminar de desespero e de agonia...
Os velhos não tinham mais ilusão sobre o estado da rapariga, e vendo-a mover-se pela casa, num passo trôpego, com o ar transfigurado que lhe punha a amargurada maternidade, sentiam um ódio surdo contra ela, erguida ali como um estorvo ao desafogo da ambição deles. Viam desfeito o casamento do filho com a herdeira dos Schenker; tudo fora tarde, diziam inconsoláveis. E agora passavam os dias muito unidos, em cochichos de vingança ou em planos para se verem livres de Maria. Mas as suas cabeças não eram inventivas, nem mesmo para a maldade; ficavam irresolutos, com medo de processos, subjugados pelo infinito e crescente terror que lhes deixara a visita da Justiça. E deste modo a vida naquela colônia era uma tortura para todos. Não se conversava mais, não havia mais o esquecimento do tempo, mais a indiferença pela existência, que é o único encanto desta. A todo o momento eram ralhos e insultos, eram exigências de serviço à pobre rapariga, na doentia obsessão de vê-la abandonar a casa. Já lhe não davam quase comida, dobravam-lhe os trabalhos, e era com desespero nevrótico que viam a mísera inabalável, sem um movimento de revolta, num constante gesto de sonâmbula.
Assim viveram algum tempo esses desgraçados. E, como uma manhã, Maria, já fatigada de trabalhar, com as mãos trêmulas, tomada de um suor frio, deixasse cair um prato, que se quebrou, a velha Ema enfureceu-se e começou a insultá-la num berreiro. Franz correu à cozinha, e transbordando-se-lhe o ódio avançou colérico para Maria, que, intimidada, ia recuando, fugindo atordoada do alarido. E foi então que Ema gritou:
– Miserável... Vai-te embora... Sai... Sai...
O marido, comunicado do mesmo furor, agarrou uma acha de lenha e brandiu-a, numa ameaça de morte:
– Fora, canalha... Fora, ordinária.
Maria correu ao quarto, querendo se refugiar; o velho alcançou-a e com violento empurrão impediu-a de fechar a porta; a rapariga, lívida, ofegante, colou-se à parede, protegendo o ventre com as mãos. Franz estacou diante dela, rangendo os dentes, uma baba viscosa a escorrer-lhe da boca contorcida. Ema segurou a moça pelo braço, que apertou com violência, e ordenou-lhe:
– Parte, peste... Carrega teus trapos, suja... Vai-te daqui...
A rapariga obedeceu automaticamente. A excitação dos velhos, de súbita que fora, não deixava de prolongar-se, e foi debaixo de maldições, de pragas rancorosas, que a mísera entrouxou algumas roupas.
– Fora e já... – berrava Ema, possessa.
Maria saiu para o terreiro e, levada pelo impulso das ordens violentas, caminhava firme, sem hesitação, para o desconhecido. Por entre a folhagem verde os seus cabelos descobertos iam espalhando o fogo do sol... Não dizia uma palavra, não murmurava uma queixa.
Era uma estátua marchando, e os olhos grandes e limpos tinham o lustre cristalino e seco dos frios espelhos...
Atrás, seguia-lhe no encalço, como um latido de cão, a voz de Ema:
– Vai, miserável... Vai, perdição de minha casa... Maldita!
Maria andou algum tempo, inconsciente e desvairada. Sob a grande e funda emoção as ideias tinham-se congelado, enquanto a sua visão dilatada ia notando e retendo os pequenos incidentes da paisagem. Uma árvore cortada, um cafezal verde, um fio d’água, um reflexo de sol, um animal que se movia no fundo negro da mata, tudo era apanhado pela sua aguçada retina. E foi caminhando, sem dar fé da sua direção, até que lhe chegou a fadiga da energia em que se mantinham os nervos, trazendo-lhe uma sensação de desânimo, que lhe entorpecia os passos e lhe despertava a consciência... Via-se expulsa da velha casa que lhe fora o lar, o jardim, o mundo!... E na memória os quadros da sua vida desde a infância... Tudo cortado... Tudo acabado, sem explicação, num ímpeto de cólera, cuja razão não percebia bem... Quis tornar a casa, entrar sem rancor, desmanchar com o sorriso o pesadelo monstruoso... Sim, voltar, voltar! Mas quando se dispunha a retroceder, reconheceu, numa insondável desolação, que desvairava, imaginando poder tão simplesmente restabelecer o que estava extinto. Parada, com a cabeça pendida sobre o seio, os olhos embebidos no próprio corpo, chorava.
Uma vaga inquietação de não encontrar um pouso, um abrigo naquele deserto, começou a agitá-la, dando-lhe ânimo para prosseguir no silêncio da estrada. Encaminhou-se para os lugares mais ínvios, pois um grande pejo a afastava das casas conhecidas.
Não tardou que o seu apelo de salvação fosse para o pastor de Jequitibá. Desde aquela manhã da missa, não o tornara a ver, mas da sua tímida e doce figura de campônio ficara-lhe uma agradável impressão. Na pequena alma de mulher rústica e simples de Maria houve um rebate de esperança, que ela seguiu confiadamente.
Quando, depois de duas horas de marcha, a rapariga avistou a igreja e a morada do pastor, um sobressalto de terror sacudiu-lhe o corpo. Mas foi instantânea a hesitação, porque a falta absoluta de outro apoio no mundo lhe impunha uma estranha intrepidez.
Começou a subir. A paisagem era limpa, e os dois pequenos edifícios de atalaia davam maior tristeza à solidão. Lembravam habitações humanas perdidas no deserto, lembravam o isolamento, o sacrifício, o abandono... E à proporção que Maria subia, recordava-se da última festa da colônia, e com a saudade ia enchendo, povoando de gente, de vozes e gestos, de movimento, de vida, o vazio descampado das montanhas e dos vales calados. Ela recompunha também os instantes em que vira Milkau, e levada por essa corrente de evocações ia cismando com a música do harmônio que soava na capelinha, enquanto ele dormia...
Quando chegou ao alto viu a terra em roda da casa, talhada e preparada para jardim, o que era a paixão do novo pastor. De uma porta aberta vinham vozes de crianças soletrando, monótonas e cantantes. Era aí a escola regida pela irmã do padre. Maria passou cabisbaixa, e a voz infantil, mais forte e estridente, deu-lhe um tremor. Olhou de soslaio, e viu uma sala escura, uma mulher de preto no fundo, na parede uma cruz negra envolta no sudário, cabeças alvas de crianças movendo-se curiosas para ela. Passou adiante e em face da porta fechada da casa tremeu mais. De dentro nenhum outro rumor vinha para abafar a voz da criança na escola, que prosseguia desarticulada, sinistra, infatigável... Maria quis fugir, mas o medo da solidão, da montanha deserta, o terror do recolhimento daquela casa arrancou-lhe as forças... Alagada em suor frio, desfalecida um instante, atirou ao chão a trouxa de roupa e apoiou-se à parede. Depois veio-lhe um novo esforço de valor, e num impulso nervoso tocou a campainha, que retiniu alarmante naquele repouso universal.
A mulher do pastor acudiu à porta, assustada pelo barulho, com uma expressão de espanto que ainda mais atemorizou Maria. Afinal, depois de confusas explicações, entrou esta para falar ao pastor, que veio logo à sala, onde a rapariga o esperava.
Quando Maria o viu, ficou petrificada. O homem, ereto como um soldado e vestido como um jardineiro, tinha uma voz de uma doçura inesperada e que se não casava com o seu porte rústico.
– Que deseja, minha filha?
Maria não respondeu. Pôs os olhos no chão, muito vermelha e trêmula. Depois, grandes lágrimas rolaram-lhe pelas faces.
– Vamos, que lhe aconteceu? – interveio com meiguice Frau Pastor.
– Eu... eu... queria... um agasalho – respondeu soluçando a miserável...
O pastor ficou confuso, achando estranho o pedido.
– Você não tem uma casa, uma colônia?... Nós não precisamos de mais criadas... – disse ele, sempre com a sua voz macia, que lhe saía do peito de touro como um balido de ovelha.
Maria ficou calada. Frau Pastor aproximou-se, bateu-lhe no ombro:
– Que lhe aconteceu? Perdeu seu emprego?
Agora, a este mofino contato da piedade, Maria chorava sem pejo, abundantemente. As pessoas da casa, querendo arrancar-lhe alguma coisa sobre a sua situação e darem-lhe mais confiança, prosseguiam no interrogatório. Pouco a pouco ela se foi acalmando, e pelo instinto da obediência respondia, por entre lágrimas.
Fora, uma grande algazarra se fez e gritos festivos de crianças soltas se foram perdendo pela encosta da montanha abaixo. Era o alegre rumor da liberdade...
A irmã do pastor, rústica e marcial como ele, entrou na sala. O irmão explicou-lhe o assunto, e essa mulher, severa e silenciosa, fiel aos seus hábitos de nunca perguntar, esperou que tudo se explicasse. O pastor a temia, e ela o tinha submisso, amedrontando-o com as regras religiosas. Na casa, onde Frau Pastor era uma sombra do marido, a autoridade da cunhada era decisiva.
– Vamos – dizia o sacerdote com o jeito astuto do campônio, trocando um olhar com a irmã. – Vamos; ainda não me disse por que deixou a casa de Kraus... Como posso tomá-la sem saber de tudo?
– Não me quiseram mais... fui expulsa.
– Oh! Oh! Então o negócio é grave! Que falta cometeu você, filha, para tamanha punição?
A professora, que mirava com olhos devassadores a rapariga, interrompeu o inquérito com uma risada seca. Frau Pastor, temendo a explosão da cunhada, ergueu-se por instinto, para deixar a sala. Mas a curiosidade reteve a sua alma de criança.
– Ora, deixemos de comédia – clamou zombeteira a professora. – Eu sei bem por que os seus patrões, que devem ser gente honrada, a puseram na estrada... Divertiu-se? Por que chora? Temos nós culpa dos seus prazeres? Olhe, mulher, já que entrou nesse caminho, não era para aqui que se devia dirigir. Esta é uma casa de respeito, a morada de Deus. Vá para a sua vida... Vá... Fora...
Era o grande ódio, o maior de todos, o que vem do sentimento sexual, a incendiar a irmã do pastor. Não era ela a mulher incompleta, a inabalada, a torre fechada, enquanto a outra, a mesquinha Maria, era a perturbadora, a consoladora, a amiga do homem?
– Oh! minha senhora, que mal lhe fiz?
Ergueu-se da cadeira o pastor e muito solene, com aquela maldita e doce voz, disse:
– Em nossa casa não se encontra o prazer; aqui é o lugar do amor de Deus. Vá, regenere-se. Lembre-se de que todo pecado tem uma punição. O seu é horrível. Desencadeou-se a ira do Senhor...
Maria cessou de chorar e pensou espantada que ali também todos estivessem loucos. Um olhar de piedade infantil escapava de Frau Pastor. Mas era uma compaixão sem agasalho, inane, medrosa. Maria lho retribuiu, e talvez o coração, que tudo faz compreender, lhe inspirasse maior piedade por aquela esvaída sombra de gente. O pastor empurrou-a de leve para a porta, acariciando-a paternalmente.
E ao passo que a rapariga ia deixando a casa, a voz do padre se revestia de um acento cada vez mais delicioso de ternura:
– Vá, filha... minha pobre filha, que pena! Como sofro em não poder conservá-la em minha casa... Se este lugar não fosse sagrado... Se não fosse terrível a morada de Deus! Vá, filha, vá!
E quando Maria se viu no alto da montanha e olhou deslumbrada, alucinada, a voz do pastor ainda lhe cantava ao ouvido:
– Vá, filha, cuidado na descida, cuidado com os caminhos... Isto aqui é muito solitário.
Depois, a porta fechou-se, e tudo o que era humano ali desapareceu num imenso silêncio. Ficando só, Maria, arrastada pelo medo e por um assomo de vergonha, começou a descer a montanha correndo e na sua febre sentia-se como que apertada, sufocada pelos morros e enterrando-se neles. Ao chegar abaixo, à cruz das estradas, pôs-se a caminhar pela que levava a Santa Teresa. No seu coração inocente, na sua inteligência confusa, todas as cenas violentas desse dia se misturavam estranhas como num pesadelo. Era o sofrimento animal numa alma rudimentar, e o que a impelia para a frente era um vago terror da noite, o desespero do desamparo na mata. Transmontava o sol, e as encostas dos morros, os vales apaziguados e, enfim, livres do grande incêndio do dia, embebiam-se na luz serena da tarde. Transformava-se a expressão das coisas; as primeiras sombras, deitando-se longas, preguiçosas tomadas de sono sobre a relva aveludada e voluptuosamente verde; os pequenos ventos acalmando a febre da terra inflamada; a viagem dos pássaros na limpidez do céu, dilatado pela claridade cristalina do ar...
No fundo do vale Maria viu um núcleo de colônias engastadas na vegetação. Das chaminés saía fumaça, e àquela hora, em cada uma das casinhas da mata brasileira, as famílias dos emigrados se reuniam num obvido feliz, e em torno da mesa esperavam a ceia... A miserável sentou-se desalentada sobre a borda do morro com vista perdida nas habitações. Aos seus ouvidos subiam vozes humanas, que ela escutava, como uma música sussurrante, deliciosa... Outra fraqueza a pungia, que não era só o cansaço da corrida, a fadiga angustiosa da maternidade, mas o vácuo da fome, ali, na opulenta terra Canaã... Maria teve o ímpeto de se precipitar do alto sobre as casas que estavam a seus pés, sentindo-se atraída pelo feixe de forças humanas, reunidas naquelas vivendas. E, então, impelida pelo imperioso desejo de partilhar o conchego, o calor, a simpatia dos semelhantes, Maria, esquecida da sua triste situação, sem o menor pejo, arrebatada pela fome, ergueu-se e desceu rápida para o grupo de casas.
Quando aí chegou, não havia ninguém fora. Os cães a receberam num atroador alarido, mas ela prosseguia pelo terreiro adentro e com sua calma de louca tornava inofensivos os animais. Da primeira morada saíram para ver a razão do alarma. Homens e mulheres chegaram à porta, ainda mastigando e aborrecidos de ser interrompidos. Ao enfrentar a gente, a fugitiva como que despertou e ficou intimidada, sem saber o que dizer. Assaltaram-na de perguntas. E como no seu enleio a miserável respondesse por disparates, alguém disse:
– É com certeza uma maluca.
Foi um pânico, que se comunicou subitamente, e todos se julgaram em presença de alguma perigosa doida vagabunda. Correram as mulheres para o interior da casa, os homens pegaram em paus e avançaram para ela, amedrontando-a.
– Fora, maluca, fora!
Maria recuou escorraçada, sem perceber bem o que se passava. Os cães excitados ladravam furiosamente, e das outras casas a gente saía para o pátio, fazendo coro com os vizinhos, num grande berreiro.
– Fora, maluca, maluca!
A moça fugiu numa desabalada corrida. Homens e cães a perseguiram alguns momentos, raivosos e ululantes:
– Maluca, maluca...
Já Maria voltara à estrada, e ainda continuava mesmo ofegante a correr, fugindo espavorida para longe daquele ponto. Na sua carreira chegou até uma pequena mata que o caminho cortava. A claridade da tarde aí dentro esmorecia ainda mais. Maria parou, com medo de penetrar na sombra, e, postada na abertura da floresta, tomada de um calafrio, espiou para dentro, até perder os olhos na outra longínqua porta de luz. Pela estrada interior iam e vinham borboletas enormes, azuis e pardas, num voo cativo e arquejante... Maria ficou pregada à beira da mata, sem ânimo para entrar, sem ânimo para fugir, e uma inexplicável e funda atração por aquele sombrio e tenebroso mundo a retinha extática... Das mãos trêmulas e despercebidas caiu-lhe a trouxa de roupa. Esgotada de forças, aterrada, vendo-se colhida em pleno deserto pela noite, desamparada, batida, a mesquinha derreou-se aos pés seculares de uma árvore, e de olhos dilatados, ouvidos apurados, ela espreitava o rumor e o curso das coisas... E o poder de visão redobrava à medida que a sombra surgia misteriosa nos meandros da floresta, como o bafo vaporoso, impalpável da Terra... Na sua imaginação perturbada sentia a natureza toda agitando-se para sufocá-la. Aumentavam as sombras. No céu, nuvens colossais e túmidas rolavam para o abismo do horizonte... Na várzea, ao clarão indeciso do crepúsculo, os seres tomavam ares de monstros... As montanhas, subindo ameaçadoras da terra, perfilavam-se tenebrosas... Os caminhos, espreguiçando-se sobre os campos, animavam-se quais serpentes infinitas... As árvores soltas choravam ao vento, como carpideiras fantásticas da natureza morta... Os aflitivos pássaros noturnos gemiam agouros com pios fúnebres. Maria quis fugir, mas os membros cansados não acudiam aos ímpetos do medo e deixavam-na prostrada em uma angústia desesperada.
Os primeiros vaga-lumes começavam no bojo da mata a correr as suas lâmpadas divinas... No alto, as estrelas miúdas e sucessivas principiavam também a iluminar... Os pirilampos iam-se multiplicando dentro da floresta, e insensivelmente brotavam silenciosos e inumeráveis nos troncos das árvores, como se as raízes se abrissem em pontos luminosos... A desgraçada, abatida por um grande torpor, pouco a pouco foi vencida pelo sono; e deitada às plantas da árvore, começou a dormir... Serenavam aquelas primeiras ânsias da Natureza, ao penetrar no mistério da noite. O que havia de vago, de indistinto, no desenho das coisas transformava-se em límpida nitidez. As montanhas acalmavam-se na imobilidade perpétua; as árvores esparsas na várzea perdiam o aspecto de fantasmas desvairados... No ar luminoso tudo retomava a fisionomia impassível. Os pirilampos já não voavam, e miríades e miríades deles cobriam os troncos das árvores, que faiscavam cravados de diamantes e topázios. Era uma iluminação deslumbrante e gloriosa dentro da mata tropical, e os fogos dos vaga-lumes espalhavam aí uma claridade verde, sobre a qual passavam camadas de ondas amarelas, alaranjadas e brandamente azuis. As figuras das árvores desenhavam-se envoltas numa fosforescência zodiacal. E os pirilampos se incrustavam nas folhas, e aqui, ali e além, mesclados com os pontos escuros, cintilavam esmeraldas, safiras, rubis, ametistas e as mais pedras que guardam parcelas das cores divinas e eternas. Ao poder dessa luz o mundo era de um silêncio religioso, não se ouvia mais o agouro dos pássaros da morte; o vento que agita e perturba calara-se... Por toda parte a benfazeja tranquilidade da luz... Maria foi cercada pelos pirilampos que vinham cobrir o pé da árvore em que adormecera. A sua imobilidade era absoluta, e assim ela recebeu num halo dourado a cercadura triunfal; e interrompendo a combinação luminosa da mata, a carne da mulher desmaiada, transparente, era como uma opala encravada no seio verde de uma esmeralda. Depois os vaga-lumes incontáveis cobriram-na, os andrajos desapareceram numa profusão infinita de pedrarias, e a desgraçada, vestida de pirilampos, dormindo imperturbável, como tocada de uma morte divina, parecia partir para uma festa fantástica no céu, para um noivado com Deus... E os pirilampos desciam em maior quantidade sobre ela, como lágrimas das estrelas. Sobre a cabeça dourada brilhavam reflexos azulados, violáceos, e daí a pouco braços, mãos, colo, cabelos sumiam-se no montão de fogo inocente. E vaga-lumes vinham mais e mais, como se a floresta se desmanchasse toda numa pulverização de luz, caindo sobre o corpo de Maria até o sepultarem numa tumba mágica. Um momento, a rapariga inquieta ergueu docemente a cabeça, abriu os olhos, que se deslumbraram. Pirilampos espantados faiscavam relâmpagos de cores... Maria pensou que o sonho a levara ao abismo dourado de uma estrela, e recaiu adormecida na face iluminada da Terra...
O silêncio da noite foi perturbado pelas primeiras brisas, mensageiras da madrugada. As estrelas abandonam o céu, os vaga- -lumes vão se apagando medrosos e ocultando-se no segredo das selvas, enquanto os seus derradeiros lampejos na mata se misturam ao clarão do dia nascente, formando uma luz turva, indecisa, incolor. Na árvore que agasalha Maria, começa o canto dos pássaros, e, sem tardar, de todos os galhos da floresta sai uma nota musical, que enche os ouvidos da mulher com o acento de uma felicidade inextinguível. E aves surgiam, e tudo se esclarecia de outra luz, e o ruído começava, e um perfume concentrado durante a noite espalhava-se, capitoso, pelo mundo despertado. Abandonada pelos pirilampos, despida das joias misteriosas, Maria foi emergindo do sonho, e a sua inocência de todo o pecado, a sua perfeita confusão com o Universo acabou ao rebate violento da consciência. E a infatigável memória lembrou-lhe a agonia. Maria conheceu-se a si mesma. Arrancada pelo pavor dos perigos porventura passados naquele deserto, ergueu-se de um salto e partiu correndo. E enquanto atravessava a mata, apesar do medo que a tomara, na sua lembrança persistia um clarão, que lhe descia dessa miragem entrevista no espetáculo da noite maravilhosa. E quando chegou aos caminhos descobertos, já encontrou o sol, a cuja temível potência morreu toda a ilusão do sonho.
A miserável marchou seguidamente duas horas, passando já por desertos, que lhe engrandeciam a desolação, já por vales repletos de colônias, que lhe recordavam a sua vida de ontem. Em todas as casas começava com o dia o trabalho; vultos de mulheres moviam-se em roda das vacas, na densa evaporação dos currais; homens rachavam toros de lenha; crianças corriam nos terreiros limpos, e de todas as chaminés aquele suave e inefável fumo da manhã, que anuncia, sem pejo da fome alheia, a fartura do homem. Maria continuou a subir as montanhas até ao alto de Santa Teresa. Quando aí atingiu, ficou mais tímida, receosa de perturbar com o seu ar de vagabunda a serenidade da população ativa e silenciosa do lugarejo. E foi num grande rubor, gerado da acabrunhadora humilhação, que se dirigiu, vacilando, para a estalagem.
Na taberna que era o único pouso daquelas alturas, viajantes tomavam a primeira refeição da manhã. Maria ficou parada à porta, numa postura de mendiga. A dona da casa, ocupada em servir, não reparou nela, mas a filha, menos atarefada, vendo-a, veio à porta inquirir de que necessitava. Com a voz sumida, Maria disse que tinha fome. A jovem a convidou a entrar, mas depois, como que arrependida, deixou-a bruscamente e foi falar à mãe. A estalajadeira veio examinar a foragida, e quando esta lhe explicou que buscava abrigo e trabalho, a velha perguntou:
– E que dinheiro traz você?
Maria, que não tinha pensado nisso, ficou embaraçada em responder. A outra insistiu. Afinal, a rapariga confessou que nada trazia.
– E então como quer você que lhe dê de comer?
Maria fitou-a aterrada, com os olhos secos e vidrados. A estalajadeira tornou:
– Mas que traz você aí nesse embrulho?
A mendiga abria-o para lhe mostrar as roupas, quando de dentro os passageiros gritaram pela dona da casa, insultando-a. A velha virou como um corrupio, dizendo:
– Bem, entre para a cozinha, que já lhe falo.
A moça atravessou o corredor sem olhar para o refeitório. Na cozinha onde entrou, uma massa repulsiva movia-se como uma lesma, ao lado do grosseiro fogão de barro. Era a criada do albergue. E Maria teve um confrangido asco, não ousando sentar-se, esperando de pé, num embrutecimento de faminta, a comida que lhe iam dar. Os viajantes partiram, e a estalajadeira foi à cozinha.
Depois de examinar o que Maria trazia, declarou:
– Por esta roupa, dou-lhe comida e dormida dois dias.
E foi se apoderando da trouxa, diante da complacente apatia da rapariga, a quem deu um pedaço de pão e uma tigela de café. A desgraçada, cheia de fome, comeu numa volúpia desprezível.
Maria passou o dia inteiro a vagar pela povoação, e por toda a parte aonde chegava ia despertando a curiosidade e dando a impressão de tristeza que apavorava a descuidada gente do lugar. Ninguém lhe falava; e ela, absorta, alheia, rolava vagarosa, arrastando-se como um animal empestado.
Mergulhada na desgraça, Maria ia rapidamente sendo governada por uma velha alma mais rudimentar, mais primitiva, que recalcava todos os ligeiros vislumbres de uma sensibilidade menos grosseira. E para o meio-dia, era quase sem pudor que pedia trabalho de casa em casa. Ninguém a queria; repeliam-na, escorraçavam-na, num instinto de apertada defesa. Ali na tranquilidade do povoado, na conchegada e bonançosa vida aldeã, não era ela o estranho fantasma da miséria?
À tarde, depois do jantar, quando o sol baixava, a população se apresentava à porta das casas, repousada e esquecida. No meio da felicidade dos outros, sentiu Maria crescer a sua solidão. Percorreu a estrada que corta Santa Teresa e foi até ao fim, onde acabava a povoação; quis ir além, pela mata adentro, mas não teve ânimo de se afastar daquela atmosfera de desespero, de se evadir do raio do calor humano. Voltou.
Naquela primeira noite, quando foi a hora de se recolher ao albergue, a dona deste mostrou-lhe um colchão estendido num quarto infecto.
– Esta é a sua cama.
Alumiada por uma candeia de luz mortiça, a infeliz ficou um instante só. O bafio do quarto tonteou-a, e numa vertigem ela caiu, desalentada sobre o colchão de palha podre. Não tardou que um vulto entrasse no quarto e fosse sentar-se noutro monturo de palhas, que ficava em frente àquele em que se achava Maria. Era a velha criada. Tirou o casaco e ficou em camisa e saia, mostrando uma magreza de bruxa. Os cabelos despenteados caíam-lhe sobre o pescoço; à luz turva os olhos brilhavam num fulgor de loucura. Sobressaltada diante da megera, a moça permaneceu petrificada, na mesma postura, e foi com um revoltado nojo que viu na tíbia claridade a sua companheira meter a mão esquelética na palha nauseabunda e retirar dali um pedaço de carne, que começou a devorar.
As duas miseráveis não se falaram. Mas os olhos da megera se incendiavam de ódio contra a rapariga, que lhe aparecia como uma inimiga, a invasora do seu círculo de independência naquele imundo aposento, que ainda assim era o refúgio da indeclinável liberdade. Vencida pela prostração, não tardou muito a tombar dormindo sobre a palha. Maria acompanhava o arfar daquele corcovado corpo e o latejar das grossas artérias, e com inquieto receio não podia dormir. Tudo a prendia à vigília, o medonho quarto, o mau cheiro e o terror da bruxa. E quando ia cabeceando, derrubada por alguma rajada de sono, via num instantâneo pesadelo a velha erguer-se, lívida, satânica, alongando as mãos de esqueleto, para a estrangular. Despertava convulsa e, gelada, espichava a cabeça até junto da outra, que continuava a dormir.
Pela noite adentro, no maior silêncio da casa, ratos começaram a surgir no quarto. Guinchando, farejando, corriam doidamente; passeavam pelo corpo da velha como sobre um cadáver, e no seu colchão comeram os restos de carne que ela deixara. Maria sentiu-se endoidecer de pavor. Os ratos largaram a comida e continuaram a sua infatigável investigação no aposento, indo e vindo a todos os cantos, incessantes, irrequietos. A lamparina principiou a se extinguir, crepitando, e o quarto, ora se escurecia, ora se iluminava em sucessivos relâmpagos, até cair tudo numa profunda escuridão... Maria, sempre alerta, acompanhava o ruído aterrador dos ratos, e semimorta sentiu passar sobre a cabeça o voo tenebroso de um morcego...
Correram os dois dias marcados pela estalajadeira, sem que Maria pudesse encontrar trabalho; suas implorações e suas súplicas eram desdenhadas, e num instante a sua miséria tornou-se o ludíbrio da gente amparada e farta daquele retiro do mundo. A dona do albergue intimou-a a deixar a casa, e Maria teve um pânico terrível em se ver de novo obrigada a bater as estradas, sem pão e sem guarida. Desatou a chorar, atirando-se aos pés da velha para que a deixasse permanecer ali até encontrar um emprego. A filha, abalada por tanta miséria, teve ânimo para intervir, e Maria ficou na hospedaria como criada, em companhia da outra. E assim viveu alguns dias, apática, esmagada, mas nesse maldito apego à vida, que é o alimento da desgraça.
Uma manhã, Milkau em viagem para o Porto do Cachoeiro, onde ia comprar mantimentos, almoçava sossegadamente no albergue de Santa Teresa quando viu Maria passar no corredor, entrando da rua. Apesar da miserável situação em que ela estava, Milkau reconheceu a sua jovem companheira do baile de Jacob Müller, e que entrevira primeiro na capela de Jequitibá, num delicioso momento. Ficou um instante pensativo, procurando explicar por vãs conjecturas o novo encontro. Depois de alguma hesitação, chamou a dona da casa e perguntou-lhe quem era a mulher que ele acabava de ver.
– Ah! – disse ela –, é uma vagabunda que recolhi. Não sei donde veio; apareceu aqui sem um vintém e tanto chorou que a fui deixando ficar...
– É sua criada hoje?
– Qual! Um trambolho... O que ela me faz não é nada em relação ao que eu lhe faço. O melhor é que se vá para outras bandas; aqui ninguém a quer. Também era só o que faltava! Aquilo no estado em que está, sem eira nem beira, desmoraliza uma casa... E então breve, que tem de ir para a cama...
Essa linguagem atordoou o espírito de Milkau. Prontamente pediu que chamasse a rapariga, e a velha, obedecendo, retirou-se. Milkau numa grande aflição interrompeu o almoço. Alguns momentos depois, a estalajadeira entrava empurrando Maria, que, tendo por sua vez reconhecido Milkau, vinha arrastada, com imensa vergonha. Vendo-o agora, pôs-se ela a chorar. Milkau levantou-se comovido e procurou acalmá-la. A dona do albergue, espantada da cena, motejava:
– Olhem, vejam só, coitadinha... Está-se a lhe arranjar emprego e ainda fica amuada. Esta não quer me largar a sopa!...
Não continuou, porque da cozinha a chamaram, e ela acudiu para lá, deixando Milkau e Maria a sós. A confiante meiguice das palavras de Milkau a decidiu a contar-lhe a sua desventura. Por vezes, embaraçava-se vergonhosa, e delicadamente Milkau a desviava dos pontos íntimos e mais dolorosos. Maria, porém, retomada de um inesperado ardor, abria-lhe todos os cantos da sua humilde existência. E quando naquela sala da hospedaria Milkau acabou de ouvir a narrativa, pôs-se a cismar. Era a primeira vez em que na sua vida nova se esbarrava com a Desgraça... E num instante esse encontro lhe apagava todos os longos meses de felicidade, de ressurreição. A dor impunha-se com a sua força solene, devastadora, e os sentimentos de Milkau galopavam para o passado, mergulhando-se outra vez nos ciclos sombrios do sofrimento, donde pensara ter-se libertado para sempre... Se ele não desse ouvidos, se passasse adiante, deixasse no caminho a miséria alheia e continuasse no seu embevecimento de felicidade?... Não tinha ele fugido à maldade humana, abandonado a velha sociedade odiosa e recomeçado a existência na virgindade de um mundo imaculado, onde a paz devia ser inalterável? Por que então o espectro do sofrimento o perseguia ainda ali?
Milkau divagava num fundo desespero. Maria o fitava serena, esperando que ele falasse. Passou-se longo tempo nesse silêncio triste.
– Bem – disse afinal Milkau, com o semblante iluminado; – tenho uma colônia onde posso empregá-la. É uma casa de conhecidos meus no Rio Doce... Tenho medo, porém, de que não aguente a viagem. É longe, e está tão abatida...
Era a salvação. Maria sorriu encantada.
– Abatida? Oh! não... Estou pronta para caminhar. Vai ver como não me canso.
Depois, refletindo:
– Mas o senhor não ia para o Cachoeiro? Por que então abandona a sua viagem e volta ao Rio Doce? Por amor de mim?
– Ora, isto não vale nada – respondeu Milkau, sem afetação. – Depois de vê-la amparada, tornarei ao Cachoeiro. Amanhã mesmo.
– Mas...
– Vamos – disse ele com meiga decisão.
Chamaram a estalajadeira, a quem Milkau comunicou que a rapariga seguia com ele. A mulher fez uma careta zombeteira:
– Oh!... meu senhor. Ela não é minha filha; pode tomá-la como quiser. Uma vagabunda... Que bem me importa a mim...
– Diga-me uma coisa: quanto devia pagar esta pobre moça aqui na sua estalagem? – inquiriu Milkau, sem se importar com o que estava tagarelando a velha.
Esta pôs-se a contar nos dedos e depois pediu um preço exagerado. Milkau não replicou, e dando o dinheiro:
– Eis aqui a importância que você pede.
A mulher ficou pasmada e recolheu as cédulas, contentíssima.
– Agora – acrescentou Milkau – peço que restitua a roupa que foi o penhor do pagamento.
A dona do albergue tornou-se fula, como se fosse roubada:
– Esta é boa; negócio é negócio. A roupa foi coisa à parte.
Milkau explicou mansamente que ela tinha de optar entre os vestidos e o dinheiro; e a velha, assim compelida, preferiu ficar com a quantia e restituir os objetos, de que não necessitava, e foi buscá-los, resmungando, malcriada. Maria seguiu-a. E quando voltou à sala, vinha de roupa mudada, com uma fita azul no cabelo, faceira, risonha. Milkau festejou num sorriso o despertar da mulher.
Partiram. A estalajadeira, fincada na porta, enquanto eles atravessavam o povoado, clamava aos vizinhos:
– Vejam só. Não é que a desavergonhada teve sorte... E aquele sujeito com uma cara de santo! Pouca vergonha...
Quando deixaram Santa Teresa e tomaram o caminho do Timbuí, Milkau recordou-se da sua primeira viagem com Lentz, atravessando num êxtase a pomposa região, para se libertar do Mal... A sua viagem de hoje era ainda um combate contra o sofrimento, contra o ódio entre os homens... Mas, afastando as apreensões de uma irremediável desilusão, o seu espírito tomava outro caminho e confiava que aquele doloroso incidente, interrompendo a descuidada bem-aventurança, passaria rápido, e tudo voltaria à doce calma. Amanhã, pensava ele, Maria tornará a ser feliz, o seu amante arrependido virá buscá-la, e todas as ligeiras feridas da dor serão curadas por um sopro de bondade... Isso deu-lhe novas forças, e, esquecendo a tristeza, a miséria da sorte da companheira, foi alegre conversando com ela.
Debaixo do sol ardente desciam e subiam morros, e durante as primeiras horas Maria marchava lépida, apesar de tudo. Mais tarde começou a fraquear e era com dificuldade que prosseguia. Sentaram-se às sombras das árvores, à beira dos caminhos. Descendo das regiões férteis, passavam tropas de burros carregados para o Porto do Cachoeiro, passavam viajantes montados, escoteiros, passava gente a pé, e só eles, descuidados, se deixavam ficar ali. Com o avançar da tarde, Milkau ficou inquieto, percebendo que lhes era impossível alcançar o Rio Doce naquele dia. Pediu a Maria continuassem a caminhar até descobrirem uma colônia onde pernoitar. Andaram mais um pouco, e uma colônia se lhes deparou no alto da montanha. Milkau propôs subirem pela vereda que levava até lá, onde talvez conseguissem agasalho.
Maria fez um esforço e foi subindo vagarosamente.
A colônia para onde se dirigiam era um pequeno jardim europeu, que quebrava a uniformidade das habitações dos imigrantes. À medida que se aproximavam, iam sendo maravilhados.
Embaixo estendia-se uma série de vales recortados em mil aspectos diversos; ora montanhas baixas, formando massas enormes, secas, áridas; ora matas folhudas, negras; ora despenhadeiros, planícies, riachos, plantações, casas; tudo numa abundância de criação, num capricho de linhas, de desenho, como numa paisagem extravagante. Os viajantes foram-se deliciando com o cenário, perfumado com os aromas que vinham do jardim, até que, chegando à cancela, Milkau bateu palmas. Os cães ladraram atirando-se sobre a cerca, e logo um velho acudiu, sossegando-os com alegre autoridade:
– Olá, patifes! assim é que se recebem visitas?
Os cães afastaram-se rosnando, e o velho, alisando a longa barba branca, falou aos viajantes, mostrando no riso uma fila de dentes sãos. Milkau explicou-lhe o que os levara aí. E o velho, radiante, escancarou a porta, num gesto de agasalho fácil e espontâneo. Penetraram no jardim, que estava em triunfal floração. Os olhos não se podiam fixar em nenhum pormenor. A impressão que tiveram foi de um só conjunto de cores desdobradas ao infinito. A vista se lhes estendia farta e satisfeita sobre uma tela mágica, uma zona cambiante, uma irradiação espectral, divina e rara.
Levou-os o velho para dentro da casa e ofereceu-lhes jantar, servindo-os à mesa e obsequiando-os como podia. Entretanto, ia-lhes contando que era viúvo, morava ali só, havia muitos anos, as filhas eram casadas e os filhos viviam na vizinhança; o que o entretinha era cultivar flores; o cafezal também o distraía, e da janela apontou as plantações no morro próximo, tratadas com o carinho de uma horta. Findo o jantar, vieram os três para o jardim. O homem da colônia deixou os hóspedes e foi regar as plantas. Milkau ficou um momento admirando os movimentos espertos e juvenis do ancião, e depois, seguido de Maria, começou a passear pelo jardim. Ela parecia nunca ter sofrido; uma resignação de nômada apagara rapidamente os vestígios da miséria.
E um instantâneo olvido encerrou a sua agonia. Agora, toda era encanto por Milkau, e com os olhos postos nele ficava embebida num humilde enlevo. Encerrado ali, Milkau julgava-se fora da natureza tropical, via interrompida a eterna verdura, substituída a tragédia da natureza brasileira pela doçura europeia trazida nas flores que peregrinaram até aí. E o jardim lembrou a Milkau a terra que abandonara, e ele transportou-se no voo da saudade para velha Germânia. Naquela mesma hora era ali a hora da primavera... Tudo ressuscitava, saindo da morte gelada. Recordou-se dos bosques, dos jardins, das casas, da gente num regozijo de novidade ao calor benfazejo do sol. E no ânimo de Milkau amolentado pelo violento encontro da dor, entristecido, abatido, apontou no momento do crepúsculo uma ligeira sombra de nostalgia... Maria estava meio fatigada e inconscientemente apoiou a mão no ombro de Milkau. Este sentiu uma fulminante carícia, e o calor emanado das entranhas geradoras da mulher infiltrou-se nos seus nervos, entorpecendo-os bruscamente. E foram caminhando como espectros: olhos perdidos no vago, mudos e sonhadores. Com a queda do dia, as plantas cheiravam ainda mais. Quando eles passavam esquecidos, absortos, borboletas voavam saindo das plantas, como flores aladas... Andaram até onde o jardim ia acabar num lugar seco, descampado, onde, como uma mulher bela e daninha, uma palmeira se alteava, esterilizando a terra... Sentaram-se em uma pedra. Os olhos, depois de mergulharem no tremedal que ficava embaixo, no despenhadeiro da montanha, ergueram-se para o céu, e acompanharam a morte do sol. Era uma representação fantástica. Sem raios, sem reverberação, o imenso globo ostentava uma sucessiva gradação de cores, como se dentro dele um mágico se divertisse em iluminá-lo. O mundo inteiro tinha parado para assistir ao espetáculo... O grande ator foi descendo no espaço sem nuvens, sobre a sua superfície as cores ainda continuavam numa infinita mutação, até que afinal ele mergulhou no horizonte e a terra tingiu-se de sangue e em seus mil nervos agitou-se toda...
Era noite... O colono acabara o serviço e veio ter com os hóspedes, convidando-os a se recolherem. Dentro, à mesa, os três conversaram sem interesse, até que o dono da casa, caindo de sono, propôs irem dormir. Mostrou a Milkau dois quartos contíguos, onde lhes tinha preparado as camas.
E já a casa estava em sossego e Milkau, no seu leito, sem poder dormir, acompanhava o sono de Maria. O ressonar leve e regular da mulher vinha-lhe aos ouvidos, como uma música estranha que se lhe infiltrava, aquecendo-o...
Seguia deliciosamente todo aquele brando respirar, e pouco a pouco uma funda perturbação lhe alvoroçava o sangue. Mulher!... pensava ele. E esta palavra evocadora dilatava-lhe os horizontes da restringida e quase apagada sensualidade. Mulher! E lá vinham do esquecimento, onde jaziam sepultadas, as visões lúbricas e lascivas... Mulher!... E um torpor, um espreguiçamento dos músculos o desequilibrou de uma vez e o atirou a uma vertigem de volúpia... Milkau levantou-se trêmulo, o coração galopando, a garganta estrangulada, a boca seca. Chegou-se à porta entreaberta do quarto de Maria. Cresceu-lhe o tremor e uma lânguida moleza o deteve, dando-lhe um instante de consciência e um profundo vexame... O homem forte ficou envergonhado desse momento de loucura, e, abrindo a janela, pôs-se a cismar debruçado sobre a Noite divina... Amaldiçoou-se e teve nojo de si; viu-se o ludíbrio do desejo e descreu da redenção...
Maria continuava a dormir tranquilamente; o seu respirar chegava sempre aos ouvidos de Milkau, enchendo-os de um gozo infinito... Não era um ressonar de adormecida, era um suspiro de amante, debaixo de cujas camadas sonoras se sente o mistério do instrumento, que vos canta... O cheiro do jardim transtornava as coisas... Milkau estremeceu outra vez, sacudido pela volúpia... Era noite, e todos se amavam... Àquela hora chegava-lhe do Universo inteiro o eco do Amor... Só ele era mudo... E o seu olhar perscrutava as sombras da imensidade... Tudo se iluminava ao poder formidável da sua alucinação. E tudo era uma visão de amor: as bocas se beijavam com febre, os braços se apertavam enlaçados, os corpos, misturados, gemiam num frenesi de doidos... O solitário também amou... O sangue dentro dele, o jovem sangue parado pela ilusão, degelou-se num momento e, quente e sôfrego, clamou o corpo da mulher... Milkau deixou a noite tentadora e entrou no quarto de Maria. Os cabelos dela estavam soltos e caíam sobre o colo nu... Milkau recolheu a quentura do corpo feminino, que amornava o aposento, e nos cabelos de Maria, como em frocos macios e louros, mergulhou a mão até ao fundo... E ficou trêmulo, num frêmito convulso, mudo e refreado. Deslumbrado pela vertigem, via-lhe os cabelos descer pelo corpo abaixo, correntios, luminosos, como um rio de ouro... Ficou assim séculos pregado àquele corpo, sem poder ir além, numa arquejante respiração, que acordou a rapariga. Ela, com os olhos meio cerrados, perguntou:
– Já são horas de partir?
A voz inocente caiu sobre Milkau como uma rajada de frio.
Retirou a mão e, voltando rapidamente a si, fugiu, murmurando:
– Não, não... Dorme... Sossega. Não é nada...
Voltou à janela. E para ele, que não era mais o mesmo, a Noite era outra; não tinha mais aqueles acentos de volúpia, aqueles transportes de luxúria. Era serena e benfazeja como a face de uma irmã. Ficou longo tempo ali, humilhado, confuso, arrependido, e com a brisa misturou os queixumes da sua agonia sexual, e com o orvalho, que a madrugada para o sarar lhe derramou sobre a cabeça, confundiu as suas lágrimas de solitário.
De manhã, ao deixarem a casa, o velho os acompanhou até à porta do jardim encantado, sorrindo-lhes com carinhosa malícia, como se costuma sorrir aos noivos. Maria retribuiu a saudação sem saber o que esta dizia. Milkau sentiu uma pungente tortura com aquele sorriso; mas logo, erguendo a cabeça, partiu altivo, como o vencedor de si mesmo.