VI Canaã · Capítulo 6 de 12
Obra Menu

VI

VI

Maria não podia esquecer os fugitivos momentos do seu encontro com Milkau. Muito das palavras do desconhecido se impregnara no seu espírito, e ela guardava recordação desse dia do baile como de uma festa tranquila para a sua alma, de um pequeno clarão dentro da amargura da sua vida.

A história de Maria Perutz era simples como a miséria. Nascera na colônia, na mesma casa onde ainda vivia. Filha de imigrantes, não conhecera o pai, morto ao chegar ao Brasil, no barracão da Vitória; a mãe viúva e quase mendiga empregara-se como criada na casa do velho Augusto Kraus, antigo colono estabelecido no Jequitibá, longe do Porto do Cachoeiro. A colônia era próspera, e os outros habitantes eram o filho casado e um neto que nascera um ano antes de Maria. Vivia-se tranquilamente, as crianças cresciam como irmãos, e o velho Augusto, tendo quase chegado ao extremo da curva desse círculo em que as idades se tocam, entretinha-se em encher a alma dos meninos de recordações da sua vida, de coisas longínquas da pátria germânica. Esquecera Maria a morte da mãe; o fato devia ter acontecido na sua remota infância, não lhe deixando traço na memória. A sua família, o seu lar era aquele em que fora recolhida. Ignorando a própria história, por muitos anos viveu como inconsciente, passando a existência sem perceber o mundo, de que se não distinguia, e com o qual mesmo se confundia numa grande inocência. Viver puramente, viver por viver, na completa felicidade, é adaptar-se definitivamente ao Universo, como vive a árvore. Sentir a vida é sofrer; a consciência só é despertada pela Dor.

O grande amigo de Maria era o velho, de quem ela, crescida, e já moça, cuidava como de uma criança. Com ele conversava longo tempo, para ele cantava coisas cujo sentido não entendia bem, amores fabulosos, lendários, paisagens estranhas, mas que falavam, como o sol, à alma cansada e saudosa do colono. Só se separavam à noite, depois da ceia, quando o ancião vinha para o meio do terreiro e aí, sentado num tronco seco de árvore, se punha a fumar, cismando. O sonho era sempre o mesmo, um anseio de tornar à sua terra, de rever essas montanhas da Silésia, onde dormira quando pequeno, vigiando o gado. Nesse tempo conhecia pelos nomes as solitárias estrelas. Ele as viu sempre nessa marcha de forçados no campo azul, até que na época da sua migração, ao balanço do mar, desceram do céu, baixaram às águas para desaparecerem uma noite e serem trocadas por outras... Mas ainda, de vez em quando, neste outro mundo, lá vinham algumas das antigas conhecidas, como perdidas das companheiras, e ele as saudava pelos nomes, num rejuvenescimento infantil. E assim, para ver as velhas estrelas, Augusto Kraus se sentava ao ar livre, até que adormecia tranquilo como um pássaro. As mulheres, Ema, que assim se chamava a nora, e Maria se ocupavam em arranjar os leitos, e quando a tarefa se concluía e as duas voltavam ao silêncio, Maria saía a buscar o velho, despertando-o de mansinho. Enfiava-lhe o braço, arrastava-o brandamente até ao quarto e deitava-o na cama fofa, farta como um paiol de algodão. Uma noite, e foi a última, a rapariga achou-o derrubado, de bruços no chão e gelado.

Depois da morte do velho a situação de Maria na família foi se modificando. Já a tristeza entrando no seu espírito lhe revelava o desencanto da existência; já a ambição dos colonos, donos da casa, temerosos que da convivência do filho com a rapariga resultasse alguma ligação de amor, lhe traçava a separação entre ambos. Mas, apesar de todas as preocupações tomadas, Maria foi amante do jovem Moritz Kraus. Esses amores eram, como em geral, os amores da colônia e deviam acabar por um casamento. Assim esperava Maria. Mas a cúpida ambição dos já então velhos Kraus não permitiu que as coisas seguissem o curso habitual. Queriam que o filho se casasse com Emília Schenker, uma das mais ricas moças do lugar. Não era a distinção de classes, que não existe entre os colonos, quase todos da mesma origem, que os levava a afastar Maria de Moritz; era apenas o interesse, a avidez de incorporar o filho à família Schenker. Assim, os pais, sem suspeitarem do ponto a que tinham chegado as relações entre Moritz e a criada, e no desejo de cortar uma simples inclinação, que a convivência tornara inevitável, ligando-os inexoravelmente, deliberaram mandar o filho para outra colônia, longe do Jequitibá, onde o alugaram como trabalhador, esperando esquecesse o amor, enquanto preparavam o espírito dos Schenker para anuir ao desejado casamento.

Maria viu com grande pasmo a docilidade do amante, que lhe parecia entrar gostoso nos planos dos pais. O seu abandono foi completo; não teve meio de comunicar com Moritz nem ânimo de exigir o casamento. Que era ela senão uma miserável, uma pobre criada, que poderia ser lançada de um momento para outro na estrada? Como poderia embaraçar com a sua pessoa, com os seus desejos e ambições, os planos da família? Para o rapaz aquela ligação fora uma simples consequência da vida em companhia de uma rapariga; fora apenas uma conclusão animal, e desde que lhe acenavam com outra mulher rica ele prestava-se manso e satisfeito a esposá-la.

Pouco a pouco, Maria já não era a mesma galharda e resistente serva. Um grande desânimo a tomava, e de vez em quando fraqueza que não lhe vinha só do desalento moral mas também da misteriosa perturbação do organismo, tinha tonteiras e tudo se lhe turvava nos olhos, um grande suor frio inundava-lhe a fronte e à garganta subiam-lhe náuseas. Quando no cafezal lhe vinham subitamente esses momentos de cansaço, esquecia-se da tarefa, deitava-se ao sol num completo abandono, os cabelos amarelos misturavam-se com a relva verde, os seios arfavam intumescidos, e ela desapertava-os num gesto de desafogo; a boca umedecia-se, os olhos semicerrados perdiam-se no azul do infinito, e tudo, céus, terra, parecia balançar como em alto-mar... Indo às festas da colônia, alvoroçou-se, pensando encontrar-se com Moritz. Este, porém, não foi à capela nem ao baile de Jacob Müller, e Maria, cada hora mais abandonada, mais inquieta com a fatalidade da sua sorte, teve a dolorosa provação de se confundir com a alegria dos outros, e, reprimindo os sobressaltos, retendo uma imensa vontade de chorar, ouvia frases e juramentos de amores alheios, que lhe enchiam os ouvidos, redobrando-lhe a agonia. E por isso não esquecia a sua conversa com Milkau. As palavras dele, sem significação, sem alcance, vazias mesmo, eram ainda assim repassadas de uma infinita brandura, que caía sobre ela como um refrigério para sua ânsia... E no desespero, no abatimento, vivendo em si mesma como hipnotizada, em funda agonia, ela se apegava a essa lembrança como a um trecho de verdura no deserto imenso, desolador, que era a sua nova existência. Quem era ele? Quando o veria mais?... E sabia que tudo tinha passado como o rasto do pássaro no ar; mas teimava em reproduzir de memória aqueles momentos, a que pouco a pouco a turvada imaginação e a frágil lembrança, tudo pervertendo, numa doce conspiração, iam dando outro relevo, outra sensação, mais forte, mais expressiva.

Uma manhã, o dono da casa ia partir para o cafezal próximo da habitação quando um mulato, montado numa besta, se aproximou dele vagarosamente.

– Você se chama Franz Kraus? – perguntou o mulato de cima da montaria, desdobrando uma folha de papel, que tirara do bolso.

O colono disse que sim.

– Pois, então, tome conhecimento disto. – E desdenhoso entregou o papel ao outro.

Kraus olhou o escrito, e como, apesar de estar no Brasil havia trinta anos, não sabia ler o português, ficou embaraçado.

– Não posso ler... Que é?

– Também vocês vivem aqui na terra a vida inteira e estão sempre na mesma – bradou o mulato. – Venho por aqui furando este mundo, e de casa em casa sempre a mesma coisa: ninguém sabe a nossa língua... Que raça!

O colono ficou aturdido com aquele tom insolente. Ia replicar meio encolerizado, quando o mulato continuou:

– Pois fique sabendo que isto é um mandado da Justiça. É um mandado do senhor juiz municipal para que vosmecê dê a inventário os bens de seu pai Augusto Kraus. Não era assim o nome dele? A audiência é amanhã, aqui, ao meio-dia... A Justiça pernoita em sua casa. Prepare do que comer... e do melhor. E os quartos... São três juízes, o escrivão e eu, que sou o oficial do juízo, que também se conta.

O colono, ouvindo falar em Justiça, tirou o chapéu submisso, e ficou como fulminado.

– Ah! Prepare tudo para se arrolar. Não esconda nada, senão cadeia. Ouviu? Bom, adeus; não tenho mais conversa. Não lhe deixo contrafé, porque de nada lhe serve... Era só o que faltava... mais essa maçada.

Picou o burro, e solene lá se foi num chouto pelo caminho. Antes de passar a cancela, voltou-se para a casa. Kraus estava pregado no mesmo lugar, com o chapéu a rolar nas duas mãos. O meirinho gritou:

– Comida e dormida para cinco. Veja lá!

Desapareceu; e o colono ficou por algum tempo na mesma postura. O nome mágico da Justiça aterrava-o. Na colônia, quando se falava em tribunais e processos, todos se confrangiam. A Lei e o Direito tinham ali um prestígio inquietador.

Franz Kraus não teve mais ânimo de ir para o trabalho. Entrou em casa. A mulher, que o viu em tão estranho abatimento, arrancou-lhe palavra por palavra a narrativa da intimação. Depois, ambos ficaram mudos o dia inteiro. Maria tentou confortá-los, mas o terror dos outros, um terror como se tivesse havido ali uma visita da morte, fazia ainda aumentar a própria tristeza dela, tirando-lhe as energias para distrair os patrões. Apenas quando foi a tarde Maria lembrou os hóspedes do dia seguinte e o interesse que deviam empregar para recebê-los do melhor modo. Compreendendo isso, Franz animou-se, e auxiliado por Ema e a criada começou a arranjar a hospedagem. As mulheres matavam galinhas, preparavam o pão negro dos colonos, arrumavam a casa, remexendo velhos baús esquecidos nos quartos. Tudo se fazia debaixo de conselho, cada qual, como sucede nos dias de desgraça, querendo apoiar-se no outro, todos conchegando-se numa desfalecida cobardia.

Na manhã seguinte, a “colônia” estava ordenada. Kraus, vestido como nos domingos, pôs-se inquieto a andar no terreiro, espreitando a chegada dos magistrados. As mulheres, também vestidas com os seus melhores fatos, não se arredavam do trabalho na cozinha.

Era mais de meio-dia quando a Justiça entrou senhorilmente na colônia. Os magistrados montavam excelentes bestas, que, segundo o costume, eram emprestadas pelos negociantes ricos do Cachoeiro. O colono correu a recebê-los, de chapéu na mão, solícito em ajudá-los a apearem-se das montarias. Um dos juízes largou-lhe o animal; os outros da comitiva amarraram os seus nas árvores e todos espanaram com o chicote a poeira das botas, batendo no chão ruidosamente com os pés.

– Estou morto! – disse o juiz municipal, espreguiçando-se.

– Uma estafa! Quatro horas de viagem... Ainda o senhor veio por obrigação, mas nós dois, eu e o colega, que nada temos com isto, e só pelo passeio! Enfim, sempre a gente se diverte... – disse o juiz de direito, procurando fitar com o monóculo o promotor.

– Perdão, então não terei ocasião de funcionar? – perguntou vivamente o promotor, adaptando a luneta azul aos olhos.

– Ah! é verdade, senhor Curador de órfãos...

– Mas aqui não há disto... Todos, meu doutor, são maiores – atalhou com um riso de escárnio um mulato velho, cor de azeitona, recordando, nas linhas e na expressão inquieta, a cara de gato maracajá, como era a sua alcunha. Era o escrivão.

– Mas, senhores, entremos... A casa é nossa em nome da Lei – disse o juiz de direito, encaminhando-se para dentro.

– Mas onde está esse inventariante imbecil? – perguntou com arrogância o promotor.

– O sandeu fica todo este tempo a arranjar os animais e nos deixa aqui ao deus-dará – explicou o escrivão.

E todos passeavam pela sala com estrépito, batendo com chicote nos móveis, ou praguejando, ou rindo das pobres estampas nas paredes, ou farejando para dentro, de onde vinha um capitoso cheiro de comida.

– Delicioso esse tempero! Promete! – exclamou o juiz de direito.

– Moça bonita que saia! – gritou rindo o promotor.

– Não haverá alguma por aí?

Ouvindo tanto rumor, Kraus correu à sala atarantado, como se já tivesse cometido o primeiro delito, e pôs-se como um criado à espera das ordens.

– Traga parati! – ordenou o escrivão. – Mas que seja do bom.

O colono sumiu-se, para logo voltar com uma garrafa e um cálice.

– Não há mais copos nesta casa? – perguntou com desprezo o escrivão.

O colono tornou ao interior e depois reapareceu, balbuciando desculpas, e pôs em cima da mesa quatro copos.

– Vamos a isto, meus senhores! – propôs o promotor. Segurou a garrafa, serviu no cálice ao juiz de direito.

– Dr. Itapecuru, como mais graduado...

E foi distribuindo a cachaça nos copos.

– Você quer?

– Muito pouco, um nada.

– Tome lá, seu fracalhão.

– Sr. escrivão – continuou o promotor distribuindo.

– Mas, Dr. Brederodes, o senhor me afronta com este copo quase cheio.

Rindo, contente, o “maracajá” começou a beber, estalando os beiços:

– É bom... Esses diabos de colonos a primeira coisa que aprendem aqui na terra é a conhecer parati.

– Meus senhores, uma consulta – disse Brederodes –, uma consulta de direito. O oficial de justiça pode beber antes da audiência?

Na porta, em pé, o meirinho esperava a sua vez. Os outros riram sem responder à pergunta.

– Senhor doutor, para clarear as ideias... – E, meio desconfiado, o mulato chegou-se à mesa com o braço estendido. – Vá lá! depois se esqueça de tocar a campainha, e temos processo nulo.

– Não há risco!

De um trago engoliu a aguardente, com medo que esta lhe escapasse. Uma onda de sangue enegreceu-lhe o rosto, os olhos cheios d’água tingiram-se-lhe de vermelho.

– Este sujeito não nos dá almoço? Olhe que já é tarde... Faça favor de ver isto, Sr. escrivão. O senhor é o nosso mordomo – disse o Dr. Itapecuru, olhando pelo monóculo o subalterno.

O escrivão entrou pela habitação adentro, procurando o colono.

Quando voltou, disse:

– Vamos almoçar, o homem tinha tudo preparado. O melhor é deixarmos essas nossas cerimônias, tomarmos conta da casa, porque, se formos esperar que esta gente se mova, estamos convidados. Não sairemos daqui. Olhem, se querem lavar as mãos, o quarto é este.

Indicou os aposentos; todos o seguiram e se viram em um quarto com duas camas altas, de grandes colchões de palha farfalhantes e cômodos.

O juiz municipal apalpou com volúpia um dos leitos:

– Ah! que sono divino aqui!

– Mas, como é isto? Só duas camas e somos quatro! – observou inquieto o promotor.

– Aqui ao lado há outro quarto. – E empurrando a porta de comunicação, o escrivão mostrou-o.

– Nós hoje não sairemos daqui, não é exato? – inquiriu o juiz de direito.

– Pois bem, vou me pôr à vontade. Manoel, veja as chinelas.

O oficial de justiça obedeceu. Os colegas do juiz de direito o imitaram, e logo depois todos três, mudados de roupa, lavados e refrescados, como se estivessem em suas fazendas, entraram radiantes na sala, onde o almoço os esperava.

Comeram com apetite as comidas da colônia, beberam cerveja em quantidade. O dono da casa e o oficial de justiça serviam a refeição, e só no fim do almoço, Maria, que estivera todo o tempo na cozinha, entrou com o café. Única mulher no meio desses homens, ela ficou vexadíssima e rubra, sentindo por instinto a crueza e a lubricidade dos olhares excitados e cobiçosos.

– Oh! lá!... Caça estranha... Não é nenhuma asneira – disse afoitamente o promotor.

– Sossega, Brederodes – observou sorrindo o juiz municipal, dando-lhe de manso uma palmada nas costas.

Maria, meio perturbada, foi depondo as xícaras de café defronte de cada hóspede. Eles agradeciam, a sorrir intencionalmente, enfiando os olhos nos olhos da rapariga.

– Até o Sr. Dr. Sousa Itapecuru... – notou o escrivão, dirigindo-se ao juiz de direito, que de monóculo na mão ficou atrapalhado, com um sorriso parvo enchendo-lhe a cara.

– Oh! é só para ver...

E a pobre moça, finda a tarefa, desapareceu num andar incerto e balanceado. E enquanto os outros comentavam, divertindo-se com a cena, Brederodes ficou pensativo. Nos seus olhos turvos passavam miragens de volúpia, e ele sentiu ímpetos de se apossar da mulher.

Depois do almoço, puseram-se a fumar descansados; e quando um grande torpor ia dominando a companhia, entendeu o escrivão espertá-la, dizendo ao juiz municipal:

– Senhor doutor, V. S.ª não manda abrir a audiência?

O Dr. Paulo Maciel espreguiçou-se bocejando, como se o convidassem à mais enfadonha das tarefas.

– Pois sim. Vamos lá, seu Pantoja.

O “maracajá” pôs os óculos e armou-os na testa, enquanto arranjava a mesa para o serviço. O oficial de justiça apresentou-lhe um bauzinho, de onde ele tirou utensílios para escrever e um formulário, que abriu em página marcada. Procurou a melhor luz, sentou-se e principiou, debruçado sobre o papel de margem dobrada, a lançar os termos do processo. Paulo Maciel tomou um lugar à cabeceira da mesa, e com ar fatigado e distante começou a acompanhar o serviço do escrivão.

– Bem; está pronto o termo...

– Sim senhor, então abra a audiência – ordenou o Juiz Municipal ao meirinho.

Este, de campainha em punho, foi até à porta e começou a badalar, passeando na frente da casa, clamando com voz fanhosa:

– Audiência do Sr. Dr. Juiz Municipal... Audiência do Sr. Dr. Juiz Municipal...

Sob a força do sol de fogo, na grande calmaria do mundo, esses gritos estridentes, avolumando-se no silêncio total, aterravam os moradores da “colônia”.

Depois foi apregoado o dono da casa, que entrou na sala, confuso e medroso. O seu olhar não retinha da cena senão uma vaga impressão; começara por desconhecer sua própria casa transformada em tribunal, governada por aqueles homens que se tinham apoderado dela, e onde ele parecia estranho e prisioneiro. Ordenaram que se aproximasse, e fizeram-lhe perguntas a que respondia com voz apagada e trêmula. Quando declarou que o pai era morto havia quatro anos, o escrivão resmungou:

– Vejam só... Este herói aqui na posse dos bens, desfrutando-os como se já fossem dele... sem dar contas à Justiça, nem à Fazenda Nacional.

Paulo Maciel, desinteressado, levantou-se e disse ao escrivão:

– Seu Pantoja, vá tomando as declarações.

E passou para o quarto, onde os colegas fumavam tranquilos e preguiçosos, estirados na cama. Tirou o paletó e deitou-se como eles.

Na sala, Pantoja atormentava o colono com perguntas e de vez em quando se interrompia para ameaçá-lo:

– Se você me ocultar qualquer coisa aqui da casa ou das terras, ou do cafezal, tem de se haver com a Justiça... Vocês são finos, mas eu sou macaco velho... São as penas da sonegação... Penas terríveis!

Assim envolvia as suas ameaças nas dobras de termos técnicos, com que ainda mais amedrontava o alemão. O processo foi-se fazendo com esses dois únicos personagens; sentado numa cadeira, junto à janela, cochilava o meirinho, abrindo de tempos a tempos os olhos rubros de sono, que se fechavam logo; do quarto não vinha mais o som da conversa: apenas um roncar monótono e regular de alguém a dormir enchia a casa, onde tudo se entorpecera num grande sossego.

Duas horas levou o escrivão a trabalhar no inventário, prosseguindo à sua discrição, deixando apenas em claro as assinaturas do juiz e dos avaliadores que ele dava como presentes, e que eram seus homens de palha, numa costumada fraude que lhe rendia mais custas.

Acabado o serviço, despediu o dono da casa, que assinou tudo quanto ele mandou, sem receber a menor explicação. Depois Pantoja tirou os óculos, e manso, sorrateiro, veio ao quarto em que estava o juiz municipal.

– Pronto, senhor doutor!

Maciel espantou-se com a voz do subalterno, que curvado sobre ele sorria, fitando-o com os olhos endiabrados e sinistros.

– Ah! o senhor? Já acabou?

– Tudo. Havendo milho, meu doutor, vai depressa que é um gosto. E aqui há bastante... Tenho prontos alguns mandados para intimar uns colonos desta vizinhança que não fazem inventário há muito tempo, comendo os espólios à tripa forra, sem nos dar satisfação. Venha V. S.ª assinar os mandados para se fazerem amanhã esses inventários aqui mesmo. É coisa pouca, mas...

– Ora, seu Pantoja, é melhor deixar essa pobre gente em paz. Não sendo coisa grande, não nos adianta.

– Não, meu doutor, tudo o que cai na rede é peixe, e quando se sabe espremer a mandioca, pode-se ver o que rende no fim da festa.

– Seu Pantoja, seu Pantoja... – disse o juiz municipal, como se quisesse suster aqueles apetites do escrivão. Afinal, condescendente e resignado, levantou-se, e em mangas de camisa e chinelos veio à mesa da audiência assinar os mandados.

– Neves, ponha-se em campo – ordenou escrivão ao oficial. E lendo os papéis, repetia alto os nomes das pessoas a intimar. – Viúva Schultz... Viúva Koelner... Otto Bergweg... tudo é perto. Para amanhã às nove horas, aqui.

– Às ordens, seu capitão. Com poucas estou de volta.

O meirinho meteu os mandados no bolso e foi selar o burro.

– Mas que malandrice – disse o juiz municipal, voltando ao quarto onde descansavam os colegas. – Com este belo dia, deitados! Ora, meus senhores, vamos passear!

E abrindo as janelas, deixou que entrasse no aposento uma luz branda, amortecida no verde da folhagem das árvores que envolviam a casa.

Os dois outros abriram os olhos.

– Que boa soneca, doutor! – disse Maciel ao juiz de direito. E voltando-se para o promotor: – Você tem-se fartado de dormir!

– Para que serve o colono senão para isso? Para sustentar e regalar a Justiça. Olhe, Maciel, no seu caso, se fosse eu o juiz dos inventários, não sairia das “colônias”.

– Muito bem, Dr. Brederodes, devemos sempre fazer as nossas desobrigas, como os vigários. Esta é a nossa religião... Mas não é com o Dr. Maciel que se consegue isso. O senhor bem sabe o trabalho que tivemos para arranjar esta pequena excursão.

– Tenho pena... – ia dizendo o juiz municipal.

– De quê, senhor doutor? – interrogou vivamente o escrivão.

– Desta pobre gente, destes miseráveis.

– Na miséria anda a Justiça. O senhor deve ter pena é de si, da sua família e dos seus patrícios. Não é, Sr. Dr. juiz de direito?

Itapecuru, que de pé se penteava, dividindo o cabelo ralo, voltou-se gravemente, acudindo à interpelação, e, assestando o monóculo, meteu-se entre os discutidores.

– A quem pergunta! Fui juiz municipal doze anos na Bahia. Vão lá saber a minha fama. Fui o terror dos inventários. Não deixei um só por fazer, ia de porta em porta em nome da Lei, quando me constava que havia um falecimento tomava nota, e trinta dias depois o mandado fazia mexer os recalcitrantes. Ah! todos prosperamos no foro... eu movia a máquina. Estes moços de hoje se dão outros ares... Capitão Pantoja, é por essa falta de espírito prático que o país vai mal. Nós somos de outra escola, nós, os velhos.

Havia nessas palavras um prazer refinado de meter-se de camaradagem com o subalterno, que era o chefe político do lugar.

– Perdão, Dr. Itapecuru, não me envolva na classe dos românticos – protestou Brederodes com interesse. – Comigo, aqui o capitão sabe, colono anda fino.

Paulo Maciel viu-se assim excluído daquela comunhão e ficou meio desdenhoso, mirando os colegas dominados pelo olhar felino do escrivão. Todos triunfantes escarneciam do juiz municipal, e nos seus risos entravam suas almas, compondo um conjunto extravagante; um era o riso tumultuoso, alvar, de Itapecuru, outro era o riso canino, rápido, cortante de Brederodes, o do escrivão era o riso silencioso, sem energia para o ruído, perdendo a força em se estampar demorado na fisionomia.

Vieram todos para o terreiro, e se puseram a passear vagarosos. O sol já ia fraco, e a tarde era amena. Os colonos, encurralados na cozinha, não apareciam. A Justiça reinava livremente na casa e no pomar. De chinelos e em mangas de camisa os jovens magistrados fartavam-se do belo ar da tarde, o juiz de direito, que não os acompanhava em tamanho desalinho, ia com um paletó de palha de seda, muito penteado, engravatado, com um gorro de veludo na cabeça. O escrivão conservava a sobrecasaca de alpaca preta, já muito ruça. Cobria a cabeça com uma espécie de solidéu de lã, que lhe tapava a calva.

Deram algumas voltas, examinando cada detalhe do sítio; e quando estavam debaixo do laranjal carregado de frutos, amarelos e vermelhos, frutos novos ou sazonados, notou Paulo Maciel:

– É admirável a ordem e o asseio desta colônia. Nada falta aqui, tudo prospera, tudo nos encanta... Que diferença em viajar nas terras cultivadas por brasileiros... só desleixo, abandono, e com a relaxação a tristeza e a miséria. E ainda se fala contra a imigração!

– Então, pela sua teoria – interrompeu o promotor –, devemos entregar tudo aos alemães?

– Apoiado – comentou o escrivão. – É a consequência do que diz o Dr. Maciel.

– Sim – confirmou este –, para mim era indiferente que o País fosse entregue aos estrangeiros que soubessem apreciá-lo mais do que nós. Não pensa assim, Dr. Itapecuru?

O juiz de direito tomou um ar solene:

– Sim e não, como se diz na velha escolástica. Não há dúvida de que falta ao brasileiro o espírito de análise. E quando digo brasileiro, refiro-me a todos nós. E que se pode fazer sem análise? É o destino da Espanha: caiu em nome da filosofia. Não podia entrar em concorrência com um povo analítico...

– Como, doutor? – gritou o juiz municipal. – Então os Estados Unidos...

– Terra de análise, meu amigo. Terra invencível. Olhe, eu sou um fanático da análise. Quando vejo um indivíduo, estudo-lhe todos os hábitos, não preciso saber das suas ideias, basta uma circunstância, por exemplo, o que esse homem come, e eu concluo sem medo de errar quais os sentimentos psicológicos do meu examinado. Ah! Porque uma vez apanhado, classifico-o. É meu.

– O doutor é terrível – disse Maciel trocando um olhar com o promotor.

– Ah! Tenho confiança nos novos povos formados nesta escola. Quando estive em França, não deixei de ir ao Parlamento e admirei os jovens espíritos, que ali estão dissecando o orçamento, analisando os impostos... Fala-se em Lamartine... Um sujeito, e até patrício nosso, me disse uma vez em Paris: veja os seus oradores de hoje... Anões! Lembre-se de Berryer, de Lamartine. Quando falavam aqui dentro (estávamos no Palais Bourbon) a voz deles era ouvida no mundo inteiro... E a destes de agora nem na praça da Concórdia.

– E que respondeu?

– Pensa que embatuquei? – disse com o seu riso volumoso o magistrado. – Vai ver. Não, respondi eu, não há inferioridade; antigamente esses homens falavam por falar. Só retórica, nada de sério. E a sua loucura era tão grande que pagavam pela língua... Idiotas! Veja hoje essa gente nova, rapazes quase imberbes, educados na ciência positiva, cheios do espírito de análise. Não reparemos na forma, olhemos a essência. Aí é que está tudo. Não olhe você como eles dizem, mas sim o que eles dizem.

– E depois?

– Matei-o, como vê. O Brasil (voltando à nossa questão) morre por esse mesmo espírito de retórica. É uma fatalidade. Até certo ponto convenho, com o Sr. Dr. Maciel, que devemos ceder o passo ao mais forte. Ao mais ditoso cedo o ingresso, como diz o poeta.

E Itapecuru arrependeu-se profundamente de ter dito isso, porque leu nos olhos de Pantoja a sua condenação. Teve um frio de medo e quis, gaguejando, remendar o pensamento. Mas o escrivão não lhe deu lugar e acudiu rancoroso:

– Admira-me ouvir de dois magistrados tal linguagem. Não há mais patriotismo, não há mais nada. Os senhores podem querer entregar a Pátria ao estrangeiro, podem vendê-la, mas enquanto houver um mulato que ame este Brasil, que é seu, as coisas não vão tão simples, meus doutores.

E o pardo cerrou os punhos, rangeu os dentes, estampando-se-lhe na cara um sorriso tenebroso.

– Mas, capitão, escute – obtemperou o juiz de direito com uma voz de melíflua cobardia; – não duvide dos meus sentimentos patrióticos. Quem aplaudiu mais do que eu a resposta do marechal? À bala, sim, meu capitão, à bala quando eles vierem.

– E não há de tardar muito o momento – disse o promotor. – Patriotismo vai-se ver em breve.

– Sim, é preciso desmascarar os patriotas de barriga – disse, soturno, Pantoja.

– E quando é esse famoso momento? – perguntou calmo e desdenhoso Maciel.

– Quando esse imperador da Alemanha que você admira tanto – replicou Brederodes – mandar a sua esquadra bloquear os nossos portos.

– E que fazem vocês para se oporem? Pensa você, Brederodes, que com o nosso exército diminuto, com a nossa marinha insignificante, podemos arrostar a alguém?

Brederodes deu uma gargalhada e disse vitorioso:

– E os Estados Unidos, meu caro?

– É verdade – ajuntou também, rindo, Itapecuru. – E a grande América cruzaria os braços?

– Não sei até que ponto se meteriam nisso os Estados Unidos... Depois, que lucro teríamos nessa intervenção? Passaríamos de um senhor para outro. Nada mais.

– E a Doutrina de Monroe? A América para os americanos...

– ... do Norte. Como eles mesmos dizem – concluiu gracejando Maciel.

– De toda a parte. O nosso combate será com os europeus.

– Ninguém pode dominar um país quando o povo não quer – interveio o escrivão. – Meu doutor, com uma caixa de fósforos se liquida um exército e toda essa canalha europeia.

– Como, capitão? – perguntou, cortês e lisonjeiro, o juiz de direito, esperando com ar admirativo a resposta.

– Como? – respondeu o escrivão com uma satisfação sinistra. – Tocando fogo nas casas, no mato, nas cidades. Um grande incêndio que há de espantar o mundo!

– Sei disso. A Polônia e o Transvaal também prometiam tanto... – observou irônico o juiz municipal.

– Os polacos eram aristocratas e por isso indignos; os bôeres são uns miseráveis que têm o que perder – disse fora de si Brederodes. – Ali há mais amor ao dinheiro, às minas, do que à honra. Os brasileiros, não. Não temos nada a perder, felizmente, e isso decide o povo.

– Bravo, doutor. O senhor é dos nossos.

– Capitão, não duvide dos meus sentimentos – disse interessado o juiz de direito.

O escrivão encolheu os ombros com desprezo.

– Os senhores falam em independência – observou, então, cáustico, o juiz municipal; – mas eu não a vejo. O Brasil é e tem sido sempre colônia. O nosso regímen não é livre: somos um povo protegido.

– Por quem? – interrompeu Brederodes, gesticulando com a luneta.

– Espere, homem. Ouça. Diga-me você: onde está a nossa independência financeira? Qual é a verdadeira moeda que nos domina? Onde o nosso ouro? Para que serve o nosso miserável papel senão para comprar a libra inglesa? Onde está a nossa fortuna pública? O pouco que temos, hipotecado. As rendas das alfândegas nas mãos dos ingleses; vapores não temos, estradas de ferro também não, tudo do estrangeiro. É ou não o regímen colonial com o nome disfarçado de nação livre?... Escute. Você não me acredita; eu desejaria poder salvar o nosso patrimônio moral, intelectual, a nossa língua, enfim, mas a continuar esta miséria, esta torpeza a que chegamos, é melhor que viesse de uma vez para cá um caixeiro de Rothschild para governar as fortunas, e um coronel alemão para endireitar isto.

– Você é um cínico – insultou-o Brederodes, pálido, com os lábios a tremer.

Houve um pequeno silêncio. O escrivão saboreou a disputa, Itapecuru temeu um conflito, mas Paulo Maciel sorriu logo com superioridade:

– Descomponha-me como quiser; o que você não pode negar é a evidência dos fatos. Colônia somos nós e seremos – repetiu frio e insistente.

O outro enrubesceu, e, obedecendo a uma excitação fula, prosseguiu atrevido:

– Colônia, enquanto houver miseráveis como você.

– Menino, menino, deixe de ser malcriado – disse secamente Maciel. E, retomando o seu jeito, continuou: – Se na verdade não entramos ainda na órbita de um grande povo, é porque aproveitamos da disputa entre as nações fortes. Temos sobre o continente projetada a sombra dos Estados Unidos. Isso reconheço; mas um dia, fatigados de impedir que outros se apossem de nós, eles nos comerão, como fizeram a Cuba.

– Dizem que a Alemanha tem planos. Dizem... O colega sabe que em questões dessa ordem não convém falar sem toda a segurança – comentou profundamente o Dr. Itapecuru. E a sua cobardia solene punha uma certa brandura na discussão.

– Pode afirmar sem medo – disse o escrivão – que estamos sendo cercados pela cobiça dos alemães. O próprio Imperador paga do seu bolsinho missionários e professores no Rio Grande e em Santa Catarina.

– E o Governo, que faz a tudo isto? – perguntou Brederodes. E ele mesmo respondeu: – Cruza os braços, cuida de eleições, de politicagem. Nós precisamos, capitão, varrer essa corja que se apossa do poder para enriquecer, esquecendo-se de que o povo sofre e o estrangeiro só tem a ganhar com a nossa miséria.

– As eleições vêm aí... Por que não fazem os senhores um manifesto? propôs o juiz municipal.

– O negócio não é para manifesto, nem para eleições. Isso é coisa à parte, coisa do interesse dos partidos, dos amigos – respondeu o escrivão, tomando a sério o que dizia Maciel.

– Eis o que nos prejudica – replicou Brederodes; – é essa mania eleitoral: por causa de partidos deixa-se naufragar o País.

– E até se aproveitam dos votos do estrangeiro – acrescentou Paulo Maciel. – Porque esses alemães não serão nunca brasileiros, e são os melhores eleitores aqui do Capitão Pantoja.

O escrivão ficou embaraçado no seu duplo sentimento de chefe de partido na localidade e de nativista.

– Mas esses alemães não fazem nada. São muito respeitadores e mansos... Um rebanho de carneiros... por esses respondo eu.

Brederodes deu uma risada, escarnecendo:

– Está aí o perigo. Os alemães são uns velhacos, metem-se em nossa casa muito quietinhos, obedientes, nós nos aproveitamos deles, do seu número, do seu dinheiro, e eles vão na sombra engrossando, até um dia se despejarem sobre nós e avassalarem o País. Capitão, deixe de conversa, fogo no estrangeiro, nativista sempre. À bala!

Paulo Maciel parecia desinteressar-se da discussão e, descuidado, foi-se afastando na direção da casa, tirando de passagem folhas das laranjeiras que ia aspirando, nervoso. Os companheiros o seguiam, empenhados no assunto. Maciel pensava:

“É o debate diário da vida brasileira... Ser ou não ser uma nação... Momento doloroso em que se joga o destino de um povo... Ai dos fracos!... Que podemos fazer para resistir aos lobos? Com a bondade ingênita da raça, a nativa fraqueza, a descuidada inércia, como nos oporemos a que eles venham?... Tudo vai acabar e se transformar. Pobre Brasil!... Foi uma tentativa falha de nacionalidade. Paciência... E que nos adiantam os Estados Unidos? Será sempre um senhor. Todo este continente está destinado ao pasto das feras... Sul América... Ridículo... Mas não haverá uma salvação, não haverá um deus ou uma força que paralise o raio armado contra nós?... Enfim, vá lá... Minha culpa, e está acabado... Temos o que merecemos... Daí, pode ser que seja melhor... A Terra prosperará... Melhor administração... mais polícia... e é só... Vale a pena? E o mundo é só isso? Vale a pena viver para ter mais polícia? E a língua? a raça... esta associação... degradada se quiserem... mesquinha... sim, fraca, quase a esfacelar-se... mas amorável, boa e amada, apesar de tudo, porque é nossa, nossa... Oh! muito nossa...”

Caminhando, assim chegaram à casa, onde eram esperados para jantar. Puseram-se à mesa, e o meirinho, já de volta das intimações, ajudava o serviço. Saindo do seu esconderijo, Maria rodava pela sala, sempre perseguida pelos homens. A pobre, porém, parecia fria e indiferente às frases atrevidas, imorais, com que a cobriam os sujeitos da Justiça. Acabado o jantar, estes puseram as cadeiras do lado da casa e entretiveram-se a conversar pela noite adentro, enquanto as estrelas se vinham abrindo numerosas e infinitas.

O juiz de direito não desanimava em desmanchar qualquer impressão sobre a sua falta de patriotismo que porventura ficasse no espírito de Pantoja, temido pela sua influência política, e voltava ao assunto.

– O meu nacionalismo, capitão, é antigo. Desde a Academia fui um exaltado em questões de patriotismo. Ah! nunca transigi.

– Mas isso foi noutro tempo, creio que hoje... – ia interrompendo Maciel por brincadeira.

– Hoje, com a idade – respondeu empenhado Itapecuru pondo o monóculo –, redobrou o meu nativismo. Não dou tréguas ao estrangeiro. Aqui para nós, sou até jacobino.

– Mas divertiu-se bem na Europa, e com certeza, se pudesse, não sairia de lá –, objetou Maciel.

– Nunca abandonaria minha Pátria. Não nego que a Europa tenha alguma coisa de bom. Aqueles que, como o senhor, sentem desgosto de ser brasileiros devem dar uma vista d’olhos ao velho mundo. É salutar, creia. Os meus sentimentos nacionais, confesso, estavam enfraquecendo, mas, vendo a decadência da Europa, tive orgulho deste Brasil e voltei ao meu furor. Não é debalde que me chamo Itapecuru. É a marca nativista que trago da Academia...

– Como assim? – inquiriu Brederodes.

– Quando Gonçalves Dias e Alencar deram o grito de alarma pelo Brasil, pelo caboclo, nós, estudantes, respondemos ao nosso modo... Eu me chamava Manoel Antônio de Sousa. E só. Sousa cheirava a galego. Acrescentei Itapecuru. Manoel Antônio de Sousa Itapecuru... Foi um movimento geral. Cada um tomou um nome indígena, e daí os Tupinambás, os Itabaianas, os Gurupis.

Quando mais tarde a palestra esmoreceu, o juiz de direito disse aos companheiros:

– Meus senhores, que propõem para matar o tempo? Vamos a uma partida de manilha?

Paulo Maciel não temia o tempo e, ao contrário dos companheiros, era mais feliz quando o deixavam só com os seus pensamentos.

– Não conte comigo, doutor. Estou cansado e vou deitar-me.

Boa noite; eu os espero no quarto.

Os outros, logo que Maciel partiu, entraram a detraí-lo.

– É uma pena – disse Itapecuru –, não dá para nada.

– Também pouco se perde – acrescentou Brederodes. – Presunção não lhe falta, mas, no fim de contas, que tem feito?

– Sim, desembuche para vermos o que tem tão escondido, escarneceu o escrivão. – Uma coisa afirmo: nada sabe do ofício. Eu podia contar impagáveis... Se um dia escrever para a Capital, para os jornais, havemos de rir muito. Será bonito e asseado.

– O que ele sabe é descompor o Brasil, maldizer de tudo o que é nosso – disse o Dr. Itapecuru, acentuando a frase com vistas ao escrivão Pantoja, que ajuntou por sua vez:

– Mas o dinheirinho no fim do mês não se enjeita, esse, nem por ser brasileiro, fede.

– Pode ser que quando isto for da Alemanha receba o dobro dos seus patrões – disse o promotor.

– É verdade – insinuou Itapecuru – que não larga a gramática alemã?

– Sim, está se preparando para nos governar – respondeu Brederodes.

Riram e ergueram-se para jogar. O juiz de direito trazia sempre um baralho de cartas na mala para essas excursões judiciárias em que nada tinha a fazer, e que acompanhava por divertimento.

Os três jogaram algum tempo, até que o promotor, pretextando cansaço, abandonou o seu lugar.

– Neste caso, capitão, desafio-o para uma bisca – disse pressuroso o juiz de direito, não querendo desistir de jogar, com aquele vago receio do tédio, que tanto o perseguia.

– Pois sim, doutor, aguente-se para uma sova – aquiesceu Pantoja por entre baforadas da fumaça de cigarro.

Brederodes no terreiro chamava em voz baixa o meirinho:

– Neves, Neves!

– Pronto, seu doutor.

O oficial de justiça estava a cochilar, deitado na relva, e ergueu-se meio atordoado. O promotor deu-lhe uma ordem que ele partiu a cumprir. Brederodes, ficando só, passeava nervoso, agitado de desejos lúbricos. Não tardou o oficial de justiça.

– Então? – perguntou o promotor, quando o viu ainda de longe.

– Qual! seu doutor. Não vejo jeito.

– Como assim?

– A bicha é arisca como quê. Só se Vossa Senhoria visse o nojo com que me olhou... Nem me respondeu, como se ainda tivesse o que perder... Vossa Senhoria não reparou como já vai bem adiantada?

Brederodes ficou colérico. Uma fluxão de sangue subiu-lhe à cabeça, rangeu os dentes, e os olhos na noite escura brilharam felinos e maus.

– Ela me paga. Deixe estar. Ainda que tudo isto aqui arrebente... Corja de alemães!

– Vossa Senhoria não se zangue... Vou ver se ainda dou uma volta no caso. – E desapareceu na direção da casa, fugindo ao desabafo do promotor.

Este ficou só, numa meia alucinação, ruminando vinganças. Na casa tudo se aquietara. Os dois parceiros, mortos de sono, tinham-se resignado a deixar o baralho e estavam deitados nos quartos; os colonos não davam sinal de vida; o meirinho não voltara. Farto de esperar, e um pouco acalmado no seu furor, Brederodes resolveu vir para o quarto. Aí o seu companheiro, que era o escrivão, ressonava. Ele deitou-se de manso e pôs-se à espera de que a noite avançasse. Tornava-se-lhe o sangue impetuoso de desejos, e na mente nevrótica passavam perturbadoras miragens sensuais. Levantou- -se sorrateiro e, apenas alumiado pela frouxa luz de um candeeiro de azeite que estava na sala, seguiu pela casa adentro; e quando na volta do corredor o clarão se acabou, às apalpadelas foi tateando as paredes. Ao dar com alguma porta, punha-se à escuta, para ver se, por um movimento, um sinal qualquer, reconhecia o quarto de Maria. E um momento acreditou descobri-lo... Tentou abrir a porta. Mas esta estava fechada a chave. “Miserável” pensou, com raiva o promotor. Um impulso de arrombar a porta apoderou-se dele, mas um vago vislumbre da consciência da sua falsa posição tolheu-lhe o movimento.

– Pode ser que não seja aqui... Isto naturalmente é o quarto dos velhos.

E com esta esperança passou adiante nas trevas. Outra porta estava em frente. Escutou; nada... Pôs a mão no trinco, a tramela levantou-se e com a pressão a porta abriu-se, rangendo. Brederodes palpitou alvoroçado. De dentro ouviu um rumor de alguém que acordara, e uma voz assustada de velha perguntar:

– Quem é? És tu, Maria?

Brederodes recuou para o corredor e deixando a porta aberta deslizou nas pontas dos pés, num instinto salvador que lhe fazia adivinhar no escuro o caminho do quarto.

No dia seguinte, às nove da manhã, o meirinho anunciava ao toque de campainha a audiência dos inventários dos vizinhos de Kraus.

Na sala, o juiz municipal e o escrivão estavam no seu posto, à mesa; o promotor e o juiz de direito à janela conversavam, voltados para dentro; em pé, encostados à parede, duas mulheres e um homem, rodeados de crianças, seguiam atemorizados a cena, esperando ser chamados.

– Sr. Dr. Brederodes, Vossa Senhoria tem de funcionar como curador de órfãos nos três inventários. Há uns desvalidos que precisam da proteção legal de Vossa Senhoria – disse o escrivão, motejando.

O promotor teve um risozinho de satisfação e veio sentar-se à mesa.

– Não é possível arranjar alguma fatia para mim nesta festa? – perguntou o Dr. Itapecuru, num sorriso idiota.

– Vossa Senhoria sabe que é depois, no fim do negócio, que se precisa da sua bênção. Todos comerão do bolo...

– Bem, neste caso, como nada tenho a fazer, enquanto os senhores preparam o prato, vou dar um giro aí fora.

Pondo o chapéu, assestou o monóculo nos intimados e saiu majestoso, seguido pelo sorriso zombador dos que ficavam.

– Viúva Schultz! – chamou Pantoja.

Depois de alguma hesitação, uma camponesa alta, ainda moça, se aproximou.

– Há quanto tempo seu marido é morto? – perguntou o escrivão, iniciando o interrogatório diante da apatia do juiz municipal.

– Há dois anos.

– Sempre o mesmo... Ninguém cumpre a lei; aqui todos herdam sem a menor cerimônia... Isso vai acabar. Juro.

Em seguida, passou a tomar as primeiras declarações da viúva, que, triste e subjugada por aquele aparato judiciário, ia respondendo docilmente a tudo. O juiz municipal e o promotor, despreocupados da audiência, levantaram-se e foram entretidos para a janela. A mulher a cada passo sofria descomposturas insolentes de Pantoja, e um imenso pejo a assaltava.

– Quantos pés de café tem a sua colônia?

– Quinhentos...

– Só? Não minta... senão temos conversa no Cachoeiro.

– Mas, senhor, pode ser que tenha mais ou menos, não contei um por um, meu defunto marido avaliava em quatrocentos... eu plantei uns cem nestes dois anos.

– Bem, eu arredondo a cifra.

E calado, sem nada dizer à interessada, que, além de tudo, não sabia ler o português, escreveu: “Mil e quinhentos pés de café”.

Continuava Pantoja a lançar os termos do inventário, segundo o seu velho processo de tudo fazer ele mesmo, aumentando descaradamente o valor dos bens para acrescer os seus lucros. Depois de algum tempo, disse à colona:

– Agora pode ir. Daqui a duas semanas apareça no Cachoeiro, no meu Cartório, para receber os seus papéis.

A mulher ia se retirando, radiante de alívio.

– Espere lá!... Que desembaraço! Ainda não lhe disse o principal – observou com acento escarninho o “maracajá”.

Num papel escreveu várias parcelas, somou-as resmungando e disse consigo afinal:

– Cento e oitenta mil-réis. – Está direito; olhe leve consigo o dinheiro das custas. Trezentos mil-réis. Ouviu?

– Trezentos mil-réis!... Trezentos mil-réis!... Meu senhor!

– Não tem meu senhor nem nada; aqui não se faz esmola... e dê-se por muito feliz, porque não houve demanda. Se tivesse de meter um advogado, é que havia de ser bonito... Trezentos mil-réis. Nada de conversa e bico calado. Se eu souber que vosmecê andou batendo a boca pelo mundo, tem de se haver comigo.

A colona lançou olhos de súplica para os dois magistrados, que continuavam indiferentes a sua palestra. Sem um apoio, esmagada, saiu cabisbaixa da sala da audiência. Pantoja chamou o colono, que esperava a sua vez de ser apregoado. E depois de repetir com ele a mesma coisa, passou a se ocupar da última intimada.

A mulher, vestida de luto, muito baixa e ainda jovem, com um ar apatetado e longínquo, o ar da miséria, aproximou-se. Uma filha de cinco anos segurava-lhe o vestido, e ela carregava ao colo outra, cuja cabeça dourada se realçava radiante por entre a pretidão das roupas da mãe.

Paulo Maciel, cansado de estar em pé, veio sentar-se no seu lugar e interessou-se um pouco por esse grupo.

– É viúva há pouco tempo? – perguntou ele.

– Dois meses... – respondeu a moça.

– E desde quando está no Brasil?

– Há um ano apenas... Meu marido, que já vinha doente do peito, não durou muito...

– Estavam principiando a vida... Não é verdade?

– Apenas houve tempo de levantar a casa, fazer o roçado para a plantação... Não se plantou nada.

– É triste! E como vive você? – inquiriu compassivo.

A mulher ficou pensativa sem responder.

– Naturalmente tem algum amigo que substitui o defunto – disse Pantoja, para se vingar do interesse do juiz, o que ele, habituado a fazer tudo, considerava como uma invasão dos seus privilégios.

Paulo Maciel, para evitar uma discussão com o subalterno, no fundo de todos eles temido, fingiu não ouvir.

A colona, afinal, disse:

– Estou em trato para vender a minha casa e vou me empregar como criada em outra colônia.

– No fim de contas, seu Pantoja – opinou Maciel –, não há inventário a fazer. É melhor mandá-la embora.

– Como é isto? – disse trêmulo o escrivão. – Vossa Senhoria tem competência para dispensar na Lei? Ora, essa é muito boa...

Que diz a isso, Dr. Brederodes, Vossa Senhoria é o principal interessado... Trata-se de órfãos.

– Não concordo na dispensa do inventário – acudiu vivamente o promotor... – E se o senhor não quer fazer ex-ofício, Dr. juiz municipal, eu requeiro.

Paulo Maciel ficou sem saber o que dizer diante de tais atitudes. O seu sentimento era suspender, prender este escrivão insolente, seu subordinado legal; era dispensar o inventário, era ainda por cima dar dinheiro do seu bolso à desgraçada e mandá-la embora, envolvendo-a num clarão de bondade. Mas para isso que soma de energia, de fluido nervoso, não precisava de consumir!... Valeria a pena? As suas poucas forças o traíram, e a inteligência fina, distinta descortinou-lhe, pérfida, o desenrolar de uma luta com os seus colegas, com esse escrivão chefe político, mandão da localidade, luta inglória em que ele não se queria estragar... Os juízes passam e os escrivães ficam.

– Está bom, cheguemos a um acordo. Faça-se apenas um arrolamento sumário dos bens, em vez de um inventário formal – propôs com uma voz fatigada.

Pantoja mediu-o triunfante.

– Isto é uma novidade para iludir a Lei... aqui está o formulário oficial e Vossa Senhoria não me mostra esses arrolamentos. Inventário é inventário, senhor doutor – respondeu-lhe o escrivão, apossando-se da situação que o superior lhe abandonava.

– Homem, deixe de luxos, seu Maciel – disse o promotor. – Que mal há em fazer-se o inventário?

– Que mal?... obrigar esta pobre mulher a pagar mais custas...

É pouco?

– As custas são o azeite da máquina do foro... – objetou alegremente Pantoja.

E o inventário foi feito como os outros, com as mesmas extorsões e violências. No fim, quando o escrivão intimou a colona a que lhe desse duzentos mil réis, esta começou a chorar.

– Deixemos de cenas... Querem obrigar a Justiça a trabalhar de graça... Era só o que faltava.

– Mas não posso arranjar tanto dinheiro.

– Venda a casa.

– Sim, meu senhor, vou vender o que tenho para pagar as dívidas de meu marido, dívidas da moléstia, e depois trabalhar para outras novas.

– Primeiro a Justiça... Se não quiser nos pagar, não venderá a casa nem o roçado; eu prendo os papéis, e agora vamos ver.

– Capitão Pantoja... – ia dizendo o juiz municipal.

– Deixe o caso comigo – atalhou o escrivão, colérico e intratável. – Vossa Senhoria é rapaz, não entende disto, veio ontem ao mundo, mas a mim ninguém me embaça... Lágrimas!... Todas elas choram.

E voltando-se para a colona:

– Vá, a mulher moça não falta dinheiro...

Deu uma risada seca. Atordoada como uma sonâmbula, a colona saiu, arrastando os filhos.

Depois do almoço, os animais estavam selados para a partida. O dia era abafadiço e dominado pelo sol, que mantinha sempre com a luz poderosa um grande silêncio. Os juízes vieram para montar, ajudados pelo meirinho e pelo dono da casa. Pantoja chegou-se ao grupo e disse ao promotor, apontando o colono:

– Ainda não tive a minha conversa aqui com o amigo.

E batendo no ombro de Franz Kraus, que o fitou espantado da intimidade, acrescentou num gesto de irônica cortesia:

– Muito obrigado pela hospedagem, camarada... mas ainda falta alguma coisa.

– Que é? – interrogou inquieto o colono.

– As nossas custas, meu amigo. Você pode... E por isso dê-nos logo. Está me cheirando mal o fiado... vá buscar... Quatrocentos mil réis.

O homem vacilou, como para cair. Uma vertigem o ia tomando; na garganta a voz morreu-lhe num espasmo. O escrivão empurrou-o de manso, dizendo-lhe zombeteiro:

– Vá, amigo, não se espante. Olhe que o negócio podia ser pior...

Advogados, demandas, penhoras...

Sob aquela pressão, o colono foi caminhando automaticamente para a casa.

– Bravo, capitão, o senhor é de força – observou lisonjeiro o juiz de direito.

– Ainda não viram nada – respondeu o escrivão, estimulado.

Depois de alguma demora, que os ia impacientando, apareceu o velho Kraus. Tinha os olhos vermelhos, as faces inchadas e rubras. Chorara.

Pantoja recebeu o dinheiro e contou. O colono olhava-o, mudo e abatido.

– Muito bem. Agora tudo está em ordem. Fiquemos bons amigos. Procure os papéis no cartório, no fim do mês.

E montou. A cavalgada partiu.

– Parabéns – disse Itapecuru a Paulo Maciel; – está chovendo na sua roça.

O juiz municipal, sem dar-lhe resposta, olhou-o com um grande nojo.

Em pé, no meio do terreiro, de chapéu na mão, a cabeça ao sol, o colono via com os olhos desvairados a Justiça sumir-se na estrada... E quando Ela desapareceu e tudo voltou ao sossego profundo, ficou ele longo tempo com a vista pregada na mesma direção... Subitamente, numa raiva imensa e cobarde, murmurou olhando medroso para os lados:

– Ladrões!

1/1
Menu

Fazer anotação