A Emoção Esthetica na Arte Moderna Espírito Moderno · Capítulo 2 de 12
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A Emoção Esthetica na Arte Moderna

A EMOÇÃO ESTHETICA NA ARTE MODERNA

(*) Conferência com que foi inaugurada a Semana de Arte Moderna no Theatro Municipal de S. Paulo em fevereiro de 1922.

Para muitos de vós a curiosa e suggestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma agglomeração de "horrores" Aquelle Gênio suppliciado, aquelle, homem amarello, aquelle carnaval allucinante, aquella paizagem invertida se não são jogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado o vosso espanto. Outros "horrores" vos esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta collecção de disparates, uma poesia liberta, uma musica extravagante, mas transcendente, virão revoltar aquelles que reagem movidos pelas forças do Passado. Para estes retardatarios a arte ainda é o Bello. Nenhum preconceito é mais perturbador á concepção da arte que o da Belleza. Os que imaginam o bello abstracto são suggestionados por convenções forjadoras de entidades e conceitos estheticos sobre os quaes não pôde haver uma noção exacta e definitiva. Cada um que se interrogue a si mesmo e res' ponda que é a belleza? Onde repousa o critério infallivel do bello? A arte é independente deste preconceito. E' outra maravilha que não é a belleza. E' a^ realização da nossa integração no cosmos pelas emoções derivadas dos nossos sentidos, vagos e indefiniveis sentimentos que nos vêm das fôrmas, dos sons, das cores, dos tactos, dos sabores e nos levam á unidade suprema com o Todo Universal. Por ella sentimos o Universo, que a sciencia decompõe e nos faz somente conhecer pelos seus phenomenos. Porque uma fôrma, uma linha, um som, uma côr nos commovem, nos exaltam e transportam ao universal? Eis o mysterio da arte, insoluvel em todos os tempos, porque a arte é eterna e o homem é por excellencia o animal artista. O sentimento religioso pôde ser transmudado, mas o senso esthetico permanece inextinguivel, como o Amor, seu irmão immortal. O Universo e os seus fragmentos são sempre designados por metaphoras e analogias, que fazem imagens. Ora, esta funcção intrínseca do espirito humano mostra como a funcção esthetica, que é a de idear e imaginar, é essencial á nossa natureza. A emoção geradora da arte ou a que esta nos transmitte, é tanto mais funda, mais universal quanto mais artista fôr o homem, seu creador, seu interprete ou espectador. Cada arte nos deve commover pelos seus meios directos de expressão c por elles nos arrebatar ao Infinito. A pintura nos exaltará, não pela anecdota, que por acaso ella procure representar, mas principalmente pelos sentimentos vagos e ineffaveis que nos vêm da fôrma e da côr. Que importa que o homem amarello ou a paizagem louca, ou o Gênio angustiado não sejam o que se chama convencionalmente reaes? O que nos interessa é a emoção que nos vem daquellas cores intensas e sorprehendentes, daquellas fôrmas estranhas, inspiradoras de imagens e que nos traduzem o sentimento pathetico ou satyrico do artista. Que nos importa que a musica transcendente, que vamos ouvir não seja realizada segundo as fórmulas consagradas! O que nos interessa é a transfiguração de nós mesmos pela magia do som, que exprimirá a arte do musico divino. E' na essência da arte que está a Arte. E' no sentimento vago do Infinito que está a soberana emoção artística derivada do som, da fôrma e da côr. Para o artista a natureza é uma "fuga" perenne no Tempo imaginário. Emquanto para os outros a natureza é fixa e eterna, para elle tudo passa e a Arte é a representação dessa transformação incessante. Transmittir por ella

C ra ça Aranha as vagas emoções absolutas vindas dos sentidos e realizar nesta emoção esthetica a unidade com o Todo, é a suprema alegria do espirito. Se a Arte é inseparável do homem, se cada um de nós é um artista mesmo rudimentar, porque é um creador de imagens e fôrmas subjectivas, a Arte nas suas manifestações recebe a influencia da cultura do espirito humano. Toda a manifestação esthetica é sempre precedida de um movimento de idéas geraes, de um impulso philosophico, e a Philosophia se faz Arte para se tornar Vida. Na antigüidade clássica o surto da architectura e da esculptura se deve não somente ao meio, ao tempo e á raça, mas principalmente á cultura mathematicá, que era exclusiva e determinou a ascendência dessas artes da linha e do volume. A própria pintura dessas épocas é um accentuado reflexo da esculptura. No renascimento, em seguida á perquirição analytica da alma humana, que foi a actividade predominante da edade média, o humanismo inspirou a magnífica floração da pintura, que na figura humana1 procurou exprimir o mysterio das almas. Foi depois da philosophia natural do século XVII que o movimento pantheistico se estendeu á Arte e á Literatura e deu á Natureza a personificação que raia na poesia e na pintura da paizagem. Rodin não teria sido o innovador, que foi na esculptura, se não tivesse havido a precedência da biologia de Lamarck e Darwin. O homem de Rodin é o anthropoide aperfeiçoado. E eis chegado o grande enigma que é o de precizar as origens da sensibilidade na arte moderna. Este supfremo movimento artístico se caracteriza pelo mais livre e fecundo subjectivismo. E' uma resultante do extremado individualismo que vem vindo na vaga do tempo ha quasi dous séculos até se espraiar em nossa época, de que é feição avassaladora. Desde Rousseau o indivíduo é a baze da estructura social. A sociedade é um acto da livre vontade humana. E por este conceito se marca a ascendência philosophica de Condillac e da sua escola. O individualismo freme na revolução franceza e mais tarde no romantismo e na revolução social de 1848, mas a sua libertação não é definitiva. Esta só veiu quando o darwinismo triumphante desencadeou o espirito humano das suas pretendidas origens divinas e revelou o fundo da natureza e as suas tramas inexoráveis. O espirito do homem mergulhou neste insondavel abysmo e procurou a essência das cousas. O subjectivismo mais livre e desencantado germinou em tudo. Cada homem é um pensamento independente, cada artista exprimirá livremente, sem compromissos, a sua interpretação da vida, a

C r aç a Aranha emoção esthetica que lhe vem dos seus contactos com a natureza. E' toda a magia interior do espirito que se traduz na poesia, na musica e nas artes plásticas. Cada um se julga livre de revelar a natureza segundo o próprio sentimento libertado. Cada um é livre de crear e manifestar o seu sonho, a sua fantasia intima desencadeada de toda a regra, de toda a sancção. O canon e a lei são substituídos pela liberdade absoluta que nos revela, por entre mil extravagâncias, maravilhas que só a liberdade sabe gerar. Ninguém pôde dizer com segurança onde o erro ou a loucura na arte, que é a expressão do estranho mundo subjectivo do homem. O nosso julgamento está subordinjjfefr aos nossos variáveis preconceitos. O gênio se mat^pestará livremente, e esta independência é uma magnífica fatalidade e contra ella não prevalecerão as academias, as escolas, as arbitrarias regras do nefando bom gosto, e do infecundo bom senso. Temos que acceitar como uma força inexorável a arte libertada. A nossa actividade espiritual se limitará a sentir na arte moderna a essência da arte, aquellas emoções vagas transmittidas pelos sentidos e que levam o nosso espirito a se fundir no Todo infinito. Este subjectivismo é tão livre que pela vontade independente do artista se torna no mais desinteressado objectivismo, em que desapparece a determinação psychologica. Seria a pintura de Cezanne, a musica de Strawinsky reagindo contra o lyrismo psychologico de Debussy procurando, como já se observou, manifestar a própria vida do objecto no mais rico dynamismo, que se passa nas cousas e na emoção do artista. Esta talvez seja a accentuação da moda, porque nesta arte moderna também ha a vaga da moda, que até certo ponto é uma privação da liberdade. A— tyrannia da moda declara Debussy envelhecido e sorri do seu subjectivismo transcendente, a tyrannia da moda reclama a sensação forte e violenta da interpretação constructiva da natureza pondo-se em intimaícorrelação com a vida moderna na sua expressão mais real e desabusada. O intellectualismo é substituído pelo objectivismo directo, que, levado ao excesso, transbordará do cubismo no dadaismo. Ha uma espécie de jogo divertido e perigoso, e por isso seductor, da arte que zomba da própria arte. Desta zombaria está impregnada a musica moderna que na França se manifesta no sarcasmo de Eric Satie e que o grupo dos "seis" organiza em attitude. Nem sempre a factura desse grupo é homogênea, porque cada um dos artistas obedece fatalmente aos impulsos mysteriosos do seu próprio temperamento, e assim mais uma vez se confirma a

2 ESPIRITO MODERNO C ra ça Aranha característica da arte moderna que é a do mais livre subjectivismo. E' prodigioso como as qualidades fundamentaes da raça persistem nos poetas e nos outros artistas. No Brasil, no fundo de toda a poesia, mesmo liberta, jáz aquella porção de tristeza, aquella nostalgia irremediável, que é o substracto do nosso lyrismo. E' verdade que ha um esforço de libertação dessa melancolia racial, e a poesia se desforra na amargura do humorismo, que é uma expressão de desencantamento, um permanente sarcasmo contra o que é e não devia ser, quasi uma arte de vencidos. Reclamemos contra essa arte imitativa e voluntária que dá ao nosso "modernismo" uma feição artificial. Louvemos aquelles poetas que se libertam pelos seus próprios meios e cuja força de ascenção lhes e intrínseca. Muitos delles se deixaram vencer pela morbidez nostálgica ou pela amargura da farça, mas num certo instante o toque da revelação lhes chegou e eil-os livres, alegres, senhores da matéria universal que tornam em matéria poética. Destes, libertados da tristeza, do Iyrismo e do formalismo, temos aqui uma pleiade. Basta que um delles cante, será uma poesia estranha, nova, alada e que se faz musica para ser mais poesia. De dous delles, nesta promissora noite ouvireis as derradeiras "imaginações" Um é Guilherme de Almeida, o poeta de "Messidor" cujo lyrismo se distilla subtil e fresco de uma longínqua e vaga nostalgia de amor, de sonho e de esperança, e que, sorrindo, se evola da longa e doce tristeza para nos dar nas Canções Gregas a magia de uma poesia mais livre do que a Arte. O outro é o meu Ronald de Carvalho, o poeta da epopéa da "Luz Gloriosa" em que todo o dynamismo brasileiro se manifesta em uma fantasia de cores, de sons e de fôrmas vivas e ardentes, maravilhoso jogo de sol que se torna poesia! A sua arte mais aérea agora, nos novos epigrammas, não definha no frivolo virtuosismo que é o folguedo do artista. Ella vem da nossa alma, perdida no assombro do mundo, e é a victoria da cultura sobre o terror, e nos leva pela emoção de um verso, de uma imagem, de uma palavra, de um som á fusão do nosso ser no Todo infinito. A remodelação esthetica do Brasil iniciada na musica de Villa-Lobos, na esculptura de Brecheret, na pintura de Di Cavalcanti, Annita Malfati, Vicente do Rego Monteiro, Zina Aita, e na joven e ousada poesia, será a libertação da arte dos perigos que a ameaçam do inopportuno arcadismo, do academismo e do provincianismo. O regionalismo pôde ser um material litterario, mas não o fim de uma litteratura nacional aspirando ao universal. O estylo clássico obedece a uma disciplina que paira sobre as cousas e não as possue. Ora, tudo aquillo em que o Universo se fragmenta é nosso, são os mil aspectos do Todo, que a arte tem que recompor para lhes dar a unidade absoluta. Uma vibração intima e intensa anima o artista neste mundo paradoxal que é o Universo brasileiro, e ella não se pôde desenvolver nas fôrmas rijas do arcadismo, qúe é o sarcophago do passado. Também o academismo é a morte pelo frio da arte e da litteratura. Ignoro como justificar a funcção social da Academia. O que se pôde affirmar para condemnal-a é que ella suscita o estylo acadêmico, constrange a livre inspiração, refreia o joven e ardego talento que deixa de ser independente para se vasar no molde da Academia. E' um grande mal na renovação esthetica do Brasil e nenhum beneficio trará á lingua esse espirito acadêmico, que mata ao nascer a originalidade profunda e tumultuaria da nossa floresta de vocábulos, phrases e idéas. Ah! se os novos escriptores não pensassem na Academia, se elles por sua vez a matassem em suas almas, que descortino immenso para o magnífico surto do gênio, emfim liberto de mais esse terror. Esse "academismo" não é só dominante na litteratura. Também se estende ás artes plásticas e á musica. Por elle tudo o que a nossa vida offerece de enorme, de esplendido, de immortal, se torna medíocre e triste. Onde a nossa grande pintura, a nossa esculptura e a nossa musica, que não devia esperar a magia da arte de Villa-Lobos para ser a mais sincera expressão do nosso espirito divagando no nosso fabuloso mundo tropical? E, no emtanto, eis a paizagem brasileira. E' construida como uma architectura, são planos, volumes, massas. A própria côr da terra é uma profundidade, os vastos horizontes absorvem o céo e dão a perspectiva do infinito. Como ella provoca a transposição pela arte, que lhe dê no máximo realismo a mais alta idealidade! Eis as nossas gentes. Sahem das florestas ou do mar.. São os filhos da terra, moveis, ágeis como os animaes cheios de pavor, sempre em desafio do perigo, e, no impulso do sonho, allucinados pela imaginação, caminhando peja terra na ânsia de conhecer e possuir. Onde a arte que transfigurou genialmente essa perpetua mobilidade, essa progressão infinita da alma brasileira? Da libertação do nosso espirito sahirá a arte victoriosa. E os primeiros annuncios da nossa esperança são os que offerecemos aqui á vossa curiosidade. São estas pinturas extravagantes, estas escülpturas absurdas, esta musica allucinada, esta poesia aérea e desarticulada. Maravilhosa aurora! Deve-se accentuar que, excepto na poesia, o que se

C r aç a Aranha fez antes disto na pintura e na musica é inexistente. São pequenas e timidas manifestações de um temperamento artistico apavorado pela dominação da natureza, ou são transplantações para o nosso mundo dynamico de melodias mofinas e languidas, marcadas pelo metro acadêmico de outras gentes. O que hoje fixamos não é a renascença de uma arte que não existe. E' o próprio commovente nascimento da arte no Brasil, e como não temos felizmente a pérfida sombra do passado para matar a germinação, tudo promette uma admirável "florada" artística. E, libertos de todas as restricções, realizaremos na arte o Universo. A vida será, emfim, vivida na sua profunda realidade esthetica. O proprio Amor é uma funcção da arte, porque realiza a unidade integral do Todo infinito pela magia das fôrmas do ser amado. No universalismo da arte estão a sua força e a sua eternidade. Para sermos universaès, façamos de todas as nossas sensações expressões estheticas, que nos levem á anseiada unidade cósmica. Que a arte seja fiel a si mesma, renuncie ao particular e faça cessar por instantes a dolorosa tragédia do espirito humano desvairado no grande exilio da separação do Todo, e nos transporte pelos sentimentos vagos das fôrmas, das cores, dos sons, dos tactos e dos sabores á nossa gloriosa fusão no Universo.

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