A Esthetica do Brasil Espírito Moderno · Capítulo 12 de 12
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A Esthetica do Brasil

A ESTHETICA DO BRASIL

(*) Discurso aos jovens escriptores brasileiros, em 12 de novembro de 1921.

"Se ao volver á nossa imprevista e maravilhosa terra, alguma coisa me surprehendeu foi certamente a ascenção espiritual da joven intelligencia brasileira. Sem ainda bem conhecel-a, eu a adivinhava. Ella me attrahia pela sua força irreprimível e promissora. Antes de deixar as veneraveis terras da cultura, onde vivi a tragédia da devastação, já sentia de longe o frêmito do poema da aspiração do novo Brasil. Durante a silente travessia do nosso mar, foram-se-me apagando do espirito os accentos elegíacos da Tristeza. Uma tarde, eu me lembro. Tudo era triste sobre o mar... O que restava de luz não era mais o sol, a lua apressada vinha vindo ainda embuçada nas descoradas nuvens. O céo não existia, perdido nas nevoas incertas. O melancólico oceano côr de cinza se cobria de espumas mortas, voltada a face azul para o fundo do abysmo. Tu vieste, Tristeza, a esta hora propicia, e buscaste abrigo em minha alma. Não entraste no acostumado refugio. Dentro deste coração, como uma luz, que viesse do Futuro, já entrara a Alegria. Era a annunciação do Brasil! Ao chegar vi realizado com explendor tudo o que a Esperança me promettera. A nossa Terra é a pátria da mocidade. Hoje a imagem do Brasil é a de um joven, que seja a representação do enthusiasmo. Bello, são, puro, aspira a plenitude da vida. Toda a luz, toda a força da natureza em seu ser. Elle sobe, paira, nada o embaraça em sua ascenção além das coisas. Ha uma infinita grandeza em sua alma. A atmosphera do seu espirito é límpida e luminosa, elle se desenvolve como uma livre força do Cosmos. Tudo o que ha de fecundo, de alegre no , Universo terá nelle um heróe. A sua mocidade é uma expressão solar. Sorri, domina. Imaginai Diosysios enriquecido da seiva tropical. E' para esse joven Brasil que o meu pensamento vive. Esse joven Brasil realizará integralmente a vida esthetica na sua magia. Viver estheticamente é sentir que tudo é illusão na vida universal e que somos uma apparição fantástica, imaginaria, na eternidade inconsciente. Nada pôde eliminar o pensamento inspirador da Esthetica da vida que affirma estar a tragédia fundamental nas relações do homem com o Universo e que toda a idéa, que se possa ter do Cosmos é espectacular. Esta philosophia não se oppõe á sciencia e nem a desdenha. Completa-a, porque a Sciencia, não podendo explicar a substancia universal, a cousa em si, o Todo infinito, a Philosophia interpreta o mysterio, subjuga-o pela lógica, pelo puro raciocinio, e imagina, porque imaginar é a funcção essencial do espirito humano. Aquelle agnosticismo dos primeiros philosophos nós o rejuvenescemos nesta interpretação do Universo pela Esthetica, que não é uma simples serva da Philosophia, mas a própria Philosophia. Tudo se reduz a Esthetica, porque tudo é fôrma e imagem. Nenhuma explicação scientifica ou metaphysica vem abalar este pensamento, qüe é a base da construcção esthetica do Universo. Uma indagação aprofundada das derradeiras cogitações da philosophia e da sciencia mostraria que não ha systema ou theoria, que não venha terminar em uma idéa esthetica, por onde se procure explicar a origem incognoscivel das cousas e das suas relações. O bergsonismo para dar a idéa abstracta da duração imagiiTa uma symphonia, que tivesse o sentimento de si mesma e fosse a sua própria criadora. Bergson, tentando representar o tempo, a duração, por uma imagem, obedece á fatalidade do espirito humano, que é a de pensar por imagens, e como a sua imagem nada explica, e nem é possível explicar a duração, o que resta da sua hypothese, é um pensamento esthetico, uma symphonia do Universo. E sempre por imagens pretende esta philosophia das causas finaes explicar a substancia. Quando affirma que o surto vital é uma exigência da criação e que a vida no seu mais humilde instante é uma actividade espiritual, ainda é uma imagem que se substitue á idéa. Bergson suppõe uma corrente de realização ascendente que seria o espirito, e este determinando a contra-corrente da matéria. Assim todo o "real" se resume em um duplo movimento de subida e descida, o que é uma fantasia esthetica. Também a theoria da relatividade de Einstein em nada modificou a concepção esthetica do Universo. Permanece immutavel o agnosticismo philosophico deante desta critica physico-mathematica das idéas do tempo e do espaço. A relatividade não explica o Universo, nem o Ser, nem a Cousa em si. Quando analyza os modos do Ser, a luz, o intervallo, o ether, a sua interpretação relativista é desenvolvida em equações, que são signos e imagens do Universo. A tentativa do metapsychismo para explicar as origens das cousas pela psychologia supranormal é uma renovação do platonismo. A idéoplastica é uma volta a Platão, quando suggere a hypothese de que a idéa modela a matéria e lhe dá fôrma e attributos. Confirma-se nesta suprema concepção de um processo teleologico da criação universal, que se executa por meio de fôrmas, mais uma interpretação esthetica do Universo. A philosophia da unidade do Todo infinito repelle esse finalismo, que seria a mascara da dualidade e tragédia do espirito humano. Se ella prescreveu uma actividade pragmática, é pela necessidade de uma disciplina indispensável ao homem para realizar a vida esthetica. Para o homem brasileiro a esthetica da vida será a conformação do seu espirito á Terra, de que é elle uma expressão. Na fidelidade do sentimento nacional está a inspiração do magestoso trabalho que elle vae executar. O Brasil lhe fala pelas vozes da Natureza e da Historia e dirá: "Sou a Terra, a categoria do teu espirito, a carne da tua carne, os ossos dos teus ossos, numa união inquebrantavel. Ao meu ser immemorial, perdido na incommensuravel inconsciencia, deste a tua alma e fundaste a Nação. A tua raça é múltipla e traz em seu sangue o terror de muitos deuses, mas a tua espiritualidade vem da progenie latina, que disciplinou o Universo. Carregas para o futuro esse gênio antigo, de que és impetuoso depositário, e pela sua magia transformadora farás das minhas selvas, dos meus céos, das minhas águas, a exaltada morada da belleza e da intelligencia. E' a lei da progressão, que trouxeste das tuas origens européas e que continua aqui a obra de civilização dos teus valorosos criadores. Livre, forte, audaz, arma-te. Não desdenhes a força pelo exclusivo e divino prazer da philosophia e da arte. Faze do teu ser a,dupla face da energia e da intelligencia, que é a unidade humana. Olha estes lindos e alegres mares. São teus, foi o dom dos teus antepassados. Defende-os, guarda-os, são a esmeralda e a saphyra que me circumdam o corpo dourado e me dão a perpetua refulgencia. Por elles tu te ligas ao mundo antigo e dilatas o teu espirito que fluctuará sempre sobre as águas, como a divindade, e darás o teu rythmo eterno ás ondas geradoras. "Em todos os mysterios da luz, da côr, da fôrma, dos sons, das lendas, das tradições e da historia extasia a tua própria alma. "O meu instincto vital está na tua imaginação. Nascido de mim, tu és o meu criador, porque só da tua idealidade terei perpetua vida. A arte é a tua libertação. Elimina o terror inicial e funde o ser no Todo infinito. Esta é a tua suprema victoria. A tua pátria é movei e tu terás a ânsia de a fixar em tua criação transcendente. Oh! Deliciosa tentação para o espirito este incerto instante, em que tudo passa, tudo foge, tudo se transfigura e dessa incessante transformação ser o mágico espelho! Sob a violência luminosa do meu céo, eu te suscitarei idéas fortes e ousadas. Possue intimamente as cousas sobre que o teu espirito paira. São os bens da Terra, que é tua. Corre o risco da morte, que é o prêmio da vida. Na alegria interior gosa o eterno espectaculo. Sê insaciável de belleza, de poder, de alegria e faze da tua Nação uma imperecivel obra de Arte."

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