O Mysterio da Unidade Brasileira e Alma Brasileira
O MYSTERIO DA UNIDADE BRASILEIRA
A affirmação de que foi a "Natureza luzente e formidável a milagrosa criadora da Pátria nova" é a deslocação no tempo, a antecipação do sentimento, que só posteriormente se produziu no inconsciente do homem já brasileiro. Antes dessa exaltação formadora da alma brasileira, estava determinada a unidade inicial na colonização portugueza no desmedido território, que se tornou Brasil. Não ha duvida que o colonizador agiu, consideravelmente inspirado pela miragem da Natureza. Seria este motivo de acção capaz por si só de criar, fundir a unidade colonial que se transformou em unidade brasileira? Até que ponto os factores geographicos e ethnicos, tiveram a força exclusiva, ou conjuncta, de determinar essa unidade permanente e tenaz? Pela geographia do território, onde se desenvolveu a colonização, a conclusão seria a scissiparidade. Grandes systemas fluviaes fraccionam a terra em quatro mundos, a Amazônia, o S. Francisco, o Paraná e o Planalto Central Que ha de commum, geographicamente entre o Pará e o /lio Grande do Sul? Naturalmente a "physica" da terra brasileira deslumbrou, enfeitiçou o conquistador portuguez, mas isto não bastaria par dar á sua conquista o maravilhoso espirito da unidade política, que inspira conscientemente a colonização. Posteriormente se desperta e se fortalece o patriotismo brasileiro, que tem a sua magia na união capitosa do homem e da terra. Mas esse amoroso deixou de ser portuguez, já é brasilèrlt. O factor ethniuo poderia explicar muito, mas não basta por si só. A Hespanha, vigorosa e inconfundível, teve as suas colônias na America transformadas em estados differentes e continuamente hostis. A fusão dos dous factores geographicos e ethnicos não explicaria a unidade brasileira, como não impediu o fraccionamento castelhano. Se o Peru e o Chile têm aspecto geographico differentes da Argentina e do Paraguay, como se explicaria a secessão do território, onde se constituíram a Venezuela, a Colômbia e o Equador? Porque se organizaram em estados diversos as terras homogêneas da America Central, conquistadas e povoadas pelos hespanhóes? Geographicamente um só terreno, ethnicamente umá só raça, uma mesma lingua e uma mesma religião. Acima desses elementos — a fascinação da Natureza, o prestigio da terra immensa e poderosa, a raça povoadora — que prepararam a unidade brasileira, deve-se attender ao factor psychologico, ao espirito de progressão da nação portugueza, á consciência que se transformou em inconsciencia. A lei de constância vital, que condensaria estes factores espirituaes, é a extensão de uma hypothese biológica á evolução política dos povos. Os que meditam sobre os phenomenos sociaes deviam verificar até onde esta transposição, que aventuro, é justa. Na realidade cada Nação, na origem racial da sua formação, recebe esse impulso que a move e a inspira no correr dos tempos, e a que ella permanece fiel. Seria a lei da constância vital. Todos os organismos, diz a formula biológica, tendem a manter as cellulas que os compõem, num meio chimicamente idêntico ao seu meio originário. No cosmos moral este meio chimico seria formado pela áthmosphera espiritual, cuja essência se mantém idêntica á do período da formação do estado. Cada nação tem a sua lei vital. A da França será a de encerrarse nas suas fronteiras, manter a sua unidade deante da perpetua aggressão da Allemanha. Porque a França se formou da mistura do espirito latino com o espirito celta em opposição ao espirito germânico. Se a França fôr infiel a este principio originário e descuidar da sua defesa permanente deante da invasão allemã, faltará á sua lei de constância e morrerá. Na sua postura armada obedece á fatalidade da sua situação geographica e ao inconsciente nacional, que não quer desapparecer submerso na onda germânica. A lei de constância de Portugal define-se no espirito de progressão da raça, já ousei affirmar. 0 destino lhe foi traçado, logo que a nação se constituiu. A alliança entre Portugal e o mar determinou o espirito de conquista da raça portugueza e o da sua expansão pelo mundo. Na fidelidade a esse meio cellular originário está o segredo da vida do organismo portuguez. A colonização do Brasil obedeceu aquella vontade de criar, aquelle instincto de conquistar, de alastrar-se, de organizar, que é toda a lei de constância da raça portugueza. Repita-se o que foi escripto na "Esthetica da Vida": "Os territórios da America foram a perpetua miragem européa; mas, emquanto Inglezes, Hespanhóes e Hollandezes ahi fizeram incursões de traficantes, Portugal, vencendo a resistência de uma terra que não se entregava facilmente, e num momento de industria ainda mal apparelhada, realizou uma consciente obra de estado. O paiz foi descoberto, varado, estudado, conquistado por militares e funccionarios, uma nação política foi fundada. Os vestígios dessa organização são os alicerces do estado brasileiro.
Ainda hoje, quando se debatem os direitos dos povos, que succederam nos territórios americanos ás nações européas, os títulos do domínio portuguez são títulos de ordem publica, actos jurídicos que testemunham o furíccionamento de uma organização política. A esses títulos da conquista e do domínio dos capitães-móres, donatários e vice-reis, os outros paizes oppõem incertos roteiros de negociantes, vagos traços da passagem de forasteiros nômadas, vestígios de precários estabelecimentos commerciaes independentes entre si e sem ligações com o governo das metrópoles." Esta obra de consciência, Portugal realizou e manteve na acurada energia, que, na repulsa á invasão de outros conquistadores, cresceu de tenacidade e de animo de dominar e possuir. A colonização do vasto território obedeceu a um plano systematico do Amazonas ao Prata, delimitadas as fronteiras pelas margens dos rios, onde intencionalmente se deteve a conquista portugueza. A própria Hespanha respeitou a vontade portugueza, pois quando Portugal foi annexado a Castella, a administração do Brasil continuou entregue ao Conselho Ultramarino de Lisboa. Neste período de soberania hespanhola raros são os actos da metrópole, que não dimanam directamente de Portugal e em lingua portugueza. Não é também singular que a unidade do Brasil reflicta a unidade de Portugal, já definitiva no período do descobrimento, emquanto a diversidade do mundo hispano-americano, é o espelho, em que se reproduz a imagem da Hespanha fraccionada em vários reinos, ao tempo da colonização hespanhola na America do Sul?
ALMA BRASILEIRA
A nossa alma é múltipla, mysteriosa é estranha. Ella tem no seu firmamento uma infinidade de deuses. Quando eu quero buscar as divindades que me agitam as cellulas inconscientes, e me exaltam e me governam, não ergo os olhos para o céo, volto-me para o abysmo insondavel do meu espirito. Curvado sobre este mundo longínquo, ora sou deslumbrado vendo desfilar fôrmas luminosas e docemente plásticas, ora espio, curioso, sombras satânicas, que se embuçam nas trevas, me atormentam com os seus esgares infernaes, ora de horror se me fecham vertiginosas, devorantes, as palpebras dos meus olhos ávidos ante as visagens tremendas e escancaradas de monstros de fôrmas nunca imaginadas. Tudo é a minha alma, tudo é a alma tenebrosa da minha raça.. E neste cháos as divindades se confundem, se emmaranham, se combatem ferozmente. Os meus olhos se habituavam á treva, ao espanto, á agonia. Quando as sombras passam, ellas me fitam amorosamente numa ânsia de posse exclusiva e dominadora. O meu corpo é o desejo de cada uma. Todas procuram seduzir-me, vencer-me e eu sou o pasto das suas ambições e perfidias. Quero arrebatar-me de mim mesmo e fico delirante chamando-as. Ao meu appello ellas correm supplices. Lá no fundo do circulo umas são embaciadas, quasi indistinctas, como se fossem as almas das nebulosas geradoras, outras fluidas mandam-me o seu hálito sem fôrma, como a alma dos ventos, outras deslizam como águas, aquellas surgindo do limo da terra, tão verdes como as arvores... E aspectos horríveis, animaes, se atropellam na vastidão de séculos, entorpecem na nevoa sem fim. Mais perto surgem outras. Aquella é negra e tingida de sangue, primitiva e ardente, tem na retina aguda a visão do deserto devorador, que a persegue implacável. Aquella é negra também e é branda, é um feitiço, e se despedaça eternamente para dar a vida, que outras lhe bebem no sangue generoso... Essa é a alma rubra, que se encheu da voz do trovão, que se amedronta ao rumor da floresta, que é encarniçada em sua força e que se destruiu sem nunca ter cedido ao affago de almas estranhas.. E os meus olhos chamam sempre, e todo o mundo interior se esclarece fantasticamente; tudo é luz, tudo é gloria, tudo é criação. Vêm vindo almas nobres, altivas que me avassalam e me inspiram. Uma confabulou com a divindade no deserto. Solenne, severa, mostra-me a immensidade cheia do Espirito. E os. meus olhos inquietos desviam-se do seu olhar duro e matador e sorriem volvidos para a alma branca, que infiltrou de sonho o mundo das águas e o mundo das terras, que se cobriu de neve para ser mais pura e mais alma. Esta outra cresceu na solidão, de onde tudo surge agudo e intenso, entendeu os astros na noite maravilhosa, e, dócil, balbuciou orações submissas á fatalidade, e, meiga, na lubricidade do sol, impregnou de volúpia o mundo todo e o próprio céo. E a alma grega, a alma latina, majestatica e senhoril que venceu, dominou e agasalhou o Universo... Tal é o ser estranho e numeroso da minha raça. Assim não será mais o espirito da sua infinita posteridade.