Raízes de Idealismo Espírito Moderno · Capítulo 6 de 12
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Raízes de Idealismo

RAÍZES DE IDEALISMO

A civilização é uma violência do homem á natureza. Por mais brutal que seja o impeto, uma força ideal, remota, obscura, intangível, está na origem, da energia criadora. A civilização é o mysterio, em que se cumpre a fatalidade da união dos homens para vencer a matéria universal. Expressão externa e collectiva do rythmo individual, traz em si o germen do idealismo. Se ha povos sem a proeminencia daquella magia extasiada na religião, na philosophia ou na arte, ha em todos um resíduo espiritual, que um dia transmudará o máximo do realismo em funcção de idealismo. A própria realização americana, opposta ao traçado do civilizador europeu, revela-se idealista nas suas syntheses sociaes, na sua democracia, no fabuloso poder do dinheiro, na transbordante philantropia, no excesso da força, na rapidez da acção, na aspiração ardente e ingênua de renovar o mundo. O povo americano, no desenvolvimento da parábola da sua historia, tráe as origens mysticas dos seus formadores quakers, fenianos, sonhadores do ouro, anarchistas e os demais transviados do ideal.

No Brasil o idealismo propulsor da nacionalidade é uma predestinação. A terra surgiu do inconsciente immemorial, revelada por homens possessos da loucura dos descobrimentos. A inquietação é o fardo da vida do espirito. Nascido de um sonho de navegantes, o Brasil ficou para sempre enfeitiçado pela miragem. O espirito secreto, que inspirara os allucinados do desconhecido, soprou em todos os recantos do paiz e insuflou para sempre a nacionalidade. E' o espirito de progressão. Transplantada ao Brasil a raça portugueza, a sua lei de constância vital determinou a força indomável, que desbravou, subjugou e disciplinou a terra. O idealismo tornou-se consciente e agiu como suggestão no decurso da civilização brasileira. A historia colonial é uma affirmação de idealismo patriótico, installação no solo, organização da collectividade política, que espiritualmente é a nação. A' aurora do seu surgimento, já o Brasileiro apparece como collaborador do Portuguez por vezes o supplantando, na repulsa das invasões perturbadoras, na conquista systematica do paiz, que é elaborada como uma obra de estado. O idealismo affirma-se e progride. Em toda a expressão de progresso ha um ideal de perfeição. Na historia do Brasil esse ideal de perfeição é sempre proseguido, como se fosse a finalidade do espirito collectivo. A Independência do Brasil é um ticto de idealismo. Veiu naturalmente do instincto de revolta nativista, resultou da crystalização do sentimento nacional e exaltou-se das idéas que flammejaram na independência da America do Norte e na Revolução franceza. Na "Esthetica da Vida" escreveu-se, e aqui se repete, que jamais o homem brasileiro foi tão senhor e tão grande como naquella época. Um espirito de mocidade o conduzia. Para o valor homem o grande movimento da historia foi a Renascença. A personalidade humana nesse ardente e fecundo instante expandiu-se vivaz e livre, não conheceu limites á curiosidade da intelligencia, não refreiou as paixões e tudo foi um deslumbramento de forças intellectuaes e sensuaes, que refez o mundo e renovou a sensibilidade. A Renascença do Brasil foi a época da Independência. O homem único, o homem universal appareceu como furtivo clarão na vida do Brasil. Os "homens" não foram somente os conductores do movimento. Foi uma vasta floração da presonalidade humana, manifestada na luta politica da independência nacional que tornou ousado o caracter. O exemplo da revolta do Príncipe, que se fez Imperador, deu o contagio da independência a todos. Foi uma insurreição geral dos espíritos, que inflamou o sentimento nacionalista e repelliu toda a vassalagem de Portugal, purificando-se de todo o cosmopolitismo. Neste maravilhoso instante da nossa historia havia o orgulho de se sentir o homem novo de uma pátria nova. O nacionalismo no alegre nascer da pátria foi a affirmação da vontade brasileira. Nesse tempo, a incandescencia nacionalista não temia os compromissos despertados pela necessidade de povoar o solo, pelo destino econômico do paiz, que exige a collaboração estrangeira. O homem brasileiro naquelle alvorecer nativo tinha a illusão de se bastar a si mesmo. A essa energia valorosa junte-se o ideal de perfeição, que inspirará os Independentes. Estes geometras da política procuraram architectar o paiz segundo um plano ideal. Ensaiou-se uma "Cidade de Deus" política. A monarchia não foi só uma suggestão colonial e uma lógica continuação, melhor que uma incerta substituição. Foi também a cupola do edifício, e sob o domo o Poder Moderador apparecia como imagem da Razão, da Justis"ú e da Divindade, presidindo magestaticamente a innumeravel theoria dos factos. O artista revelou-se no constructor político. Desde então a formula, consciente ou inconsciente, da historia do Brasil, é esta: "idealismo e como funcção de idealismo a busca incessante da perfeição." Se não é attingida, o esforço permanece irreprimível, porque idealismo e ânsia de perfeição dimanam daquella qualidade essencial da alma brasileira, a imaginação. Na sua pureza primitiva será um estado de magia, uma illusão da representação do Universo, mas ao influxo da cultura torna-se criadora de idealidade, dynamo de idealismo, chamma da perfeição paradoxal. O Império desenvolve-se nesta progressão. Combate-se pela unidade do paiz, defendem-se as fronteiras, traçam-se as linhas divisionarias das nacionalidades antagônicas, constróe-se a muralha imaginaria da pátria. E a elite governa o povo com as ficções transplantadas exoticamente de outros estados, tudo pela suggestão de um ideal de perfeição política, que parecia crystalizar-se na monarchia parlamentar. Não tardou uma explosão de idealismo nesse ambiente de hierarchia. A Abolição foi uma idéa que se fez todo o sentimento violento de um povo. Apoderando-se da emoção do paiz, tornou-se invencível e na celeridade do seu movimento, tudo arrebatou, tudo desmoronou e exigiu a contribuição de todos para o seu triumpho. O que fizeram a monarchia e os estadistas não foi mais do que satisfazer, como pacificadores, as imperiosas exigências da sensibilidade popular. E neste sentido, a abolição foi um acto revolucionário e ao mesmo tempo esse delírio de abnegação collectiva marcou na vida brasileira o mais bello instante da nossa emoção nacional. Cada um procurava exceder-se a si próprio e aos outros no desinteresse pela causa da redempção. A principio a idéa aponta ao longe no espirito de alguns inspiradores. Pouco a pouco foi ganhando as almas e mais tarde uma grande préamar espraia-se pelo paiz inteiro. Ha um repentino fervor de piedade e que se deve chamar a loucura da abolição, como no tempo das perseguições aos christãos, houve a loucura da Cruz. São povoações que eliminam do seu recinto a escravidão, são províncias que se redimem, são senhores que se empobrecem alforriando massas de trabalhadores, são fazendas que numa vertigem de abnegação, se immolam e se tornam em taperas desertas e livres, é o próprio trono imperial que, no esplendor da exaltação collectiva, se sacrifica... Onde, porém, a rebusca da perfeição neste idealismo redemptor? Na liberdade incondicional dos escravos, como respeito á humanidade. Foi o toque da elevação no sacrifício total da riqueza. Com a abolição ainda mais se accentuou no Brasil o impulso da egualdade. A Republica resultou como conseqüência do "absolutismo" democrático. O idealismo republicano teve a maravilhosa phantasia de esculpir os traços da sua affinação moral na liberdade religiosa sem restricções, na excessiva soberania federativa, na egualdade de brasileiros e extrangeiros, no arbitramento internacional obrigatório — signos característicos desse espirito, destituído de compromissos que é o da raça na sua livre expansão. Enthusiasmo, imaginação, idealismo, ânsia de perfeição sentimental são os motores secretos da alma brasileira. O povo de tal inspiração, sempre prompto a exceder-se, está predestinado a viver no absoluto e a repellir toda a relatividade. Os seus difficeis "trabalhos" na ordem pratica o elevarão do intenso realismo ao excelso idealismo. Assim quando transforma as pertinazes mattas em terras de cultura attinge a uma conquista material formidável, que, vel-a ou evocal-a, se nos exalta o espirito a louvar a energia primitiva de feros desbravadores das florestas, dos errantes caminheiros dos sertões, transmigrada nesta espiritualidade da conquista, que nasce do realismo. A terra, offendida para ser fecundada, permanece a eterna desejada do homem. Ha seguramente um amor physico entre brasileiro e a natureza da sua pátria e que é a raiz inconsciente do seu patriotismo. A progressão não pôde ser reprimida sob pena de uma crise mortal da nação. Para cumprir o fado imposto pela sua lei de constância, o brasileiro vae para a frente, pelas trágicas mattas, pelos tristes desertos, pelos vagos sertões, pelos rios absurdos, a vivificar o solo nacional. Um dia elle augmentou o desmedido território, e a incorporação do Acre foi até hoje a maior realização brasileira na época republicana, porque foi a maior expressão da energia collectiva e obedeceu fatalmente ao idealismo, criador da nacionalidade. Depois de taes frutos, o idealismo, fortificado em tenazes e seculares raizes, não será estirpado do espirito brasileiro. A fé no prodigioso destino da pátria lhe perdurará sobranceira e fervente, a despeito da amargura que soffrer, do cháos em que se abysmar o paiz, das retrogradações da justiça e do progresso moral, do eclipse da liberdade e da honra. Crê eternamente na ascensão triumphante da pátria, na sua limitada força criadora, na sua immortal projecção no futuro. Faminto, torturado, esmagado sob a tyrannia, lá vae o Brasileiro, caminhando extatico dentro da luz, escravo da miragem, mystico do idealismo...

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