A Formação do Pangermanismo Espírito Moderno · Capítulo 10 de 12
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A Formação do Pangermanismo

A FORMAÇÃO DO PANGERMANISMO

Nas suas origens e durante longos séculos o espirito germânico foi sempre individualista, em opposição ao espirito romano, que era social e estatista. Desse individualismo racial a Germania deu algumas manifestações, que tiveram a força de mover as correntes da evolução dos povos. A principio revelou-se no "jus germanicum" que foi o canon do direito individual. No direito romano a base do direito era a familia, cellula da organização social. O homem só era juridicamente considerado como pertencente a uma familia, a uma tribu, a uma "genus" ao Estado, ao passo que no direito germânico o indivíduo era, por si mesmo, o sujeito do direito. A vontade individual era a fonte d'onde derivavam os direitos e as obrigações, força irreductivel que impedia a formação política do Estado, tornando-o sempre fluctuante e ephemero nos paizes germânicos. A essa raiz do espirito individualista se deve remontar a explicação da Reforma, e mais tarde a do Romantismo allemão.

Como, pois, a Allemanha renegou esse individualismo fundamental e veiu a ser dominada pela "vontade" do império universal, pelo principio da subordinação do indivíduo ao Estado? Como foi possuída do propósito consciente de organizar a humanidade pela forma de um Estado universal, adoptando o mesmo ideal e procurando seguir as mesmas realizações de Roma no plano que ella combateu, sempre, de dominar o mundo? Evidentemente, ha nas raças um elemento indefinivel, um temperamento moral que lhes constitue o caracter e se mantém immutavel. O allemão é por natureza essencialmente idealista e pratico. Da alliança dessas duas essências oppostas nasceu o conceito do Estado, entidade suprema e divina, e ao mesmo tempo reguladora da vida e da sociedade. 0 sentimento da liberdade dos germanos teve sempre uma expressão exagerada, que o levava ao mysticismo do indivíduo, imaginado como a molécula, a vontade immortal da vida collectiva. O direito germânico foi o reducto desse individualismo primitivo. A Reforma representou no seu inicio uma reacção idealista, uma desforra do espiritualismo contra o sensualismo do Renascimento. N'um como n'outro phenomeno ha um sentimento de liberdade individual tão profundo e tão vasto que se pôde ahi encontrar o conceito do "eu" como uma expressão do indivíduo. A esse idealismo jurídico e religioso devia corresponder uma philosophia idealista que, nascida embora da iniciação de Descartes, adoptasse principalmente as tendências espiritualistas do cartesianismo, deixando aos inglezes a parte sensualista e materialista. Leibnitz foi o magnífico interprete desse espiritualismo, e a sua theoria da mónada preparou a política da unidade abstracta do organismo social. Assim a philosophia abriu o caminho que levou á concepção do Estado, como o grande-Indivíduo, o supremo espirito da sociedade humana, em que todos os outros indivíduos se explicam e são absorvidos, como ao seio mystico de Deus tornam os seres da criação. Para attingir esse conceito, o pensamento allemão fez uma longa viagem. Mas, ao chegar a Fichte, já o subjectivismo extrairia o mundo real da idéa pura. O "eu" universal de Fichte annunciava o Estado universal de Hegel, Estado que é egualmente uma abstracção, um conceito. Como o "eu" pensante considera o mundo sua criação, sua cousa, o Estado, que é a realização da idéa do direito, considera os povos e as sociedades, como seu próprio reflexo. Para a doutrina hegeleana "o Estado é a realidade da idéa moral, é o espirito moral como vontade visível, consciente de si mesma, que conhece o seu pensamento, realiza o que conhece e na medida do seu conhecimento" Tal é a metaphysica do conceito do Estado, de onde provem a idéa pangermanista. A concretização da idéa abstracta do Estado, desse puro conceito da supremacia moral do Estado allemão era uma operação necessariamente lógica para o espirito absoluto do povo, que, pela força do principio do individualismo, havia sido o principal demolidor do império romano e tirara á Igreja universal romana uma grande parte do seu dominio, e cuja philosophia, c ija poesia não deviam conhecer limitações ao seu idealismo. O Estado de uma tal nação só podia ser a criação absoluta e sem contraste da idéa pura. Assim, a Allemanha que, por força do seu primitivo espirito independente, pretendera dominar o mundo, dominando o direito e a religião, veiu finalmente encontrar no conceito do Estado a força suprema, o instrumento formidável para luctar pela supremacia do espirito allemão e da nação allemã no mundo ideal e no mundo real. O conceito do Estado allemão, como todas as criações do espirito germânico, foi sempre incerto, vago, repetindo confusamente, nas noções políticas, as idéas claras e positivas dos povos greco-latinos. Porque a idéa do Estado universal e do império universal não foi original á Allemanha, como também não foi a synthese do direito e da religião. Como conclusão da idéa primordial do Estado absoluto, a doutrina allemã proclamou que a humanidade não teve ainda uma existência orgânica, e que a política, á semelhança da Egreja, não pôde renunciar ao pensamento de organizar a humanidade. Onde falharam Alexandre, os Romanos e Napoleão, a Allemanha, Estado eleito, devia vencer. Essa vontade, vinda da força do instincto, animava a aspiração ao império universal. Para chegar á realização dessa idéa abstracta, que systema adoptou a Allemanha? Alexandre quiz effectuar a unidade do occidente e do oriente e o mallogro do seu plano veiu da própria confusão da idéa inspiradora. O occidente humanista não se podia fundir com a theocracia religiosa do oriente. O processo romano foi outro. Não era o da fusão dos povos e dos princípios: Roma quiz dominar pela sua supremacia e impor aos outros povos o seu caracter nacional, romanizandoos. Foi o systema seguido em nossa época pela Allemanha. A reacção germânica derrubou o império universal romano, como hoje a reacção dos povos vindos de Roma repelliu a tentativa da Allemanha na sua mystica aspiração ao império universal. Oh! santa desforra da historia!. A esplendida actividade de Napoleão não foi bastante para a realização do império universal sob a hegemonia da França. O velho sentimento da liberdade, inherente ao espirito anglo-saxonio, de struiu o resurgimento da idéa romana. A Allemanha copiou o plano de Roma e de Napoleão, procurando germanizar o mundo, submettendo-o á sua direcção. Somente, antes de empregar a força para a execução do plano pangermanista, a Allemanha foi preparando a sua dominação do mundo pela invasão pacifica, pela expansão econômica. Nessa política econômica e financeira, precursora da guerra, é que está a novidade da applicação do plano pangermanista. O pensamento do império universal allemão, apezar de retrogrado, reflecte a época industrial, em que elle chegou á maturidade. Não se inspirou apenas no principio da força e serviu-se do espirito commercial para a sua execução. Ainda assim, nessa combinação dos processos da força e da industria, a Allemanha obedeceu ás duas grandes organizações politicas em que repousava a base do seu Estado,, a Prússia e a Hansa. O pangermanismo integral é a fusão da dominação do Estado militar e da dominação econômica. A monarchia prussiana realizava desde o século dezoito o conceito do Estado divino, segundo a ideologia dos políticos e dos philosophos. Por seu lado a Hansa encarnava o espirito de associação, essência da alma collectiva dos povos saxonios, tradicional na vida civil e religiosa da Allemanha. Póde-se dizer que só depois da fundação do imperio allemão em 1870 se tornou possível a execução do plano pangermanista pela alliança do Estado prussiano e da Confederação hanseatica, já preparada na União aduaneira, no "Zollverein" de 1869. 0 novo Império, apezar do espirito commercial ahi intensamente infiltrado, se caracterizou como uma reminiscencia do Santo Império romano de Othon 1 com os seus elementos mysticos e theocraticos. Esses fermentos de idealogia persistirão na mentalidade allemã, e embora a theocracia militar prussiana desappareça no cataclysmo da guerra, o allemão sonhará dominar o mundo pela supremacia pacifica, se possível, da sua raça. E por esse mysticismo da conquista e da rapacidade, elevado ao prestigio de uma formula política, o povo allemão estará em permanente antagonismo com os outros povos, porque só na Allemanha hoje a anciã da dominação do mundo é um sentimento nacional colIectivo. A idéa do Estado universal não acudiria jamais ao pensamento inglez. O inglez é pratico. O pragmatismo é a formula do seu espirito. O imperialismo inglez é um pragmatismo político, como convém aos continuadores de Locke, tão differentes dos discípulos de Leibnitz. Não tentaria absorver as outras nacionalidades fundindo o seu espirito nos dos outros povos. Contenta-se com uma grande dominação econômica, exercício de um poder tutelar, que se applica ás nações desorganizadas e extinctas, como a índia e o Egypto, ou a terras novas onde desponta a civilização, como o Canadá e as ilhas oceânicas. Póde-se dizer que o império inglez é mais a valorização de territórios abandonados ou incultos, um império territorial, do que a hegemonia espiritual, econômica e militar idealizada pela Allemanha, a pezar sobre Estados vigorosos. Para executar o plano pangermanista de um Estado universal allemão, a Allemanha teria de realizar a associação intima de uma unidade politica a uma unidade econômica. A unidade religiosa, que foi a base do santo Império romano da edade media, não sendo mais dos nossos tempos, o novo império germânico teve de abandonal-a e de substituil-a pela architectura de uma unidade politica e econômica do mundo, em que a Allemanha tivesse a hegemonia. A essência do pensamento do Estado universal está no principio da unidade em opposição ao principio de diversidade nas sociedades humanas. A Allemanha, lutando por estabelecer a unidade pangermanista, teve o seu plano político destruído, virtualmente, por antecipação. O império universal inverte o plano intuitivo da civilização. Se houvesse uma lei de sociologia que explicasse o traçado de evolução politica dos povos, essa lei seria a da passagem do estado de unidade para o de diversidade. A lucta entre esses dois princípios antagônicos encheu a historia. Mas cada vez que apparece uma tentativa de monarchia ou de Estado universal, uma formidável reacção agita o mundo. A reacção da Europa contra a tentativa de Napoleão se devia repetir, em nome do principio geral da diversidade, na repulsa do pangermanismo pela civilização de hoje. E' a lei da evolução, segundo a idéa spenceriana, que se realiza na passagem do homogêneo para o heterogêneo.

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