O Espirito Moderno Espírito Moderno · Capítulo 3 de 12
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O Espirito Moderno

O ESPIRITO MODERNO

(*) Conferência na Academia Brasileira em 19 de junho de 1924.

Que é o espirito moderno? No ardente e perpetuo movimento da sensibilidade e da intelligencia, como distinguir a expressão inequívoca do momento fugitivo, o propulsor espiritual, que nos separa do Passado e nos arrebata para o Futuro? Não será uma contradição pretender-se fixar o que só tem Uma existência imaginaria e só é abstracção? Para o observador, que assiste á fuga do tempo, nada é actual; o Presente é uma illusão. Como ás águas de um rio, em cada instante que passa, o espirito do homem não é mais o mesmo. Que ânsia permanente em explicar o indefinivel, em querer encerrar o tempo illusorio em fórmulas, que fazem do Universo uma projecção da nossa própria personalidade! Tudo é movei, tudo se esvae, e tudo se transforma. O espirito moderno é uma abstracção. No momento em que o definimos e o captamos, entrou no passado. Os ephemeros humanos sentem esta impossibilidade absoluta, mas persistem fatalmente em buscar na mobilidade a eternidade. Sob o angulo relativo da comprehensão dos phenomenos transcendentes existe o Tempo, e fraccionando-o em épocas, podemos explicar o espirito moderno e delimitar no espaço a sua relevação e a sua opposição ao espirito do Passado. Antes da nossa actualidade, o instante mais próximo ao nosso momento caracterizava-se pelo subjectivismo, que transfigura o Universo, segundo o sentimento individual, illusoriamente livre. A edade média prei parou este estado especial do espirito, que subordinou o Todo universal ao nosso eu, que não considerou as cousas na sua realidade objectiva, mas segundo a representação que dellas faz o espirito humano. A Renascença continuou no humanismo esta accentuação e a Reforma saxonia é o surto definitivo do individualismo pratico, cuja raiz remota se acha no direito germânico. Rousseau e toda a sua numerosa progenie sentimental exaltou o indivíduo, e o romantismo, ahi germinado, foi o subjectivismo delirante. O homem oppoz-se ao Universo, fugiu á realidade permanente, deformou a visão dos objectos, a política armou-se da clava de egualdade e a literatura exprimiu a dôr da não conformidade com a vida. O subjectivismo transbordou na philosophia até a reacção positiva e a interpretação scientifica e unitária do Universo. Na literatura e na arte manteve-se perturbador e anarchico. A este subjectivismo passivo ou dynamico, o espirito moderno oppõe o objectivismo dynamico. Já se observou que para o subjectivismo a arte está em funcção do eu; para o objectivismo dynamico a arte exprime o movimento das cousas, que agem pelas suas próprias forças independentes do eu. E' um estado esthetico posterior ao expressionismo, em que toda a arte era subjectiva e emotiva. Pódese dizer que elle caracteriza a arte moderna nas suas derradeiras aspirações, A libertação do subjectivismo dynamico do romantismo, ou mesmo do subjectivismo contemplativo dos impressionistas, é a grande victoria do espirito moderno. O cubismo não chegou a realizar essa suprema desforra. Ha no cubismo uma estatistica, que prepara o dynamismo, mas que não realiza o perenne e implacável movimento das cousas. A pintura, a esculptura, ainda não attingiram esse modernismo esthetico, que a musica ostenta nas ultimas creações de Strawinsky. A poesia não se emancipou do sentimentalismo mesmo nos poemas de um Appolinaire e de seus epigonos, Cocteau, Cendrars, Ivan Goll e outros. Parece que ha uma lei de constância lyrica, que mantém o estado subjectivo nos artistas mais livres. E' estranho como nesses poetas toda a arte está em funcção do eu, e elles exprimem o irremediável dualismo, e raro fundem o sujeito pensante no objecto pensado. A objecção fácil de que toda a visão, toda a sensação do mundo é subjectiva e de que a arte não pôde ser independente do eu, do sujeito que a exprime, está prevista e repellida na synthese, que leva o espirito humano a sentir-se um com1 todas as cousas, a abolir o próprio eu para exprimir a vida, a acção dos objectos, movidos pelas suas próprias forças e nesse dynamismo realizar a emoção esthetica, que nos funde no Universo. E o espirito humano também se percebe como um objecto não sentimental, passivo ou contemplativo, mas dynamico, uma força viva, actuada pelas suas próprias forças, um ephemero entre as cousas ephemeras, uma expressão dynamica da natureza sem outra finalidade, que não seja a finalidade esthetica. Não ha movimento artístico que não seja precedido de um movimento philosophico. E a philosophia da unidade realiza-se no objectivismo dynamico da arte moderna. A razão desse objectivismo está na concepção esthetica do universo, que domina o problema da arte. Todo o conhecimento do Universo é esthetico, desde que não se pôde explicar scientificamente a substancia. Dos contactos, que nos vêm pelos sentidos, resultam sentimentos vagos, que nos levam á indiscriminação no todo infinito. E' a essência da arte. O artista é aquelle que possue e transmitte esses sentimentos vagos, transcendentes e realiza na obra de arte a fusão do seu ser no Universo. O espectador da obra de arte que sente, movido pela expressão artística, aquella emoção vaga, indefinivel, attinge á esthetica do Universo. Essa fusão essencial é tanto mais perfeita quanto mais é realizada pelos elementos geraes da expressão artística, pelos meios mais puros e mais intensos. Se quebrarmos por um instante a unidade da arte, vemos que a pintura tem os seus elementos essenciaes na fôrma e na côr, a esculptura na fôrma, na luz, no movimento, a architectura na fôrma, na luz, na estabilidade das massas, que suggere movimento . A obra de arte é tanto mais profunda e mais equilibrada quanto mais predominam os elementos geraes e universaes. Se o artista despreza ou não possue a emoção profunda que lhe vem dos elementos essenciaes da arte, e se preoccupa com o assumpto, a anecdota, e delia faz o centro da obra de arte, esta é inexistente estheticamente. Se o artista exaggera a sensação de um desses elementos, se por exemplo na pintura realiza a côr abolindo a fôrma, sem comprehender que a côr é um volume e a luz é outro, exaggero em que cahiram os últimos impressionistas, a obra de arte é falsa. Se o artista se esmera no desenho a ponto de principalmente por este representar os objectos sem correspondência com o ambiente, a arte é fria e acadêmica. O impressionismo reagiu contra este academismo da fôrma e proclamou que tudo era vago, sem consistência, dependendo da luz e que esta faz a côr. O cubismo veiu como uma reacção contra o exaggero impressionista. Ensaiou realizar na arte os volumes, as massas, e voltou á geometria, ás linhas e ás dimensões, e procurou nos objectos a sua expressão synthetica e essencial. Para attingir á synthese, o cubismo libertou a arte da tyrannia dos sentidos e deu-lhe uma preeminencia espiritual. Um dos theoricos da doutrina dogmatizou: "Les sens déforment, 1'esprit forme A pintura sensorial é passageira e errônea, porque os artistas só vêem nos objectos os factos simples, vulgares, ao passo que o artista cubista considera o objecto e o seu conjunto como factos artísticos. E num exemplo explicam os cubistas a these fundamental da doutrina. Se o artista examina uma laranja com o auxilio exclusivo dos sentidos só percebe um fruto de contornos suaves, de aspecto saboroso, de pelle enrugada e brilhante. E' o "facto simples" da laranja, a certeza vulgar. Mas se considera o mesmo fruto na sua representação synthetica e eterna só vê na laranja uma esphera de côr amarella, e a. verificação deste conjunto de elementos constitue um "facto artístico" primordial. Esta operação synthetica da arte é a mesma na linguagem, que na palavra dá a essência, a vida geral dos objectos da mesma ordem, eliminando os seus caracteres particulares, os factos simples e vulgares, para fixar a idéa synthetica. O grande erro do cubismo é o seu exclusivismo intellectual. A arte, afastando-se da injuncção dos sentidos, torna-se puramente espiritual, na incessante e chimerica busca de uma verdade eterna, que está além da certeza sensorial. Consciente de que toda a arte é precedida de uma philosophia, o cubismo remonta as suas origens a Platão, que proclamou "percebem os sentidos unicamente o que passa, o entendimento o que fica a Cicero, relembrando que Phidias, quando queria esculpir a estatua de um deus, não procurava modelo nos homens, mas no seu próprio espirito; a Kant, quando diz que os sentidos só nos dão a matéria do conhecimento, ao passo que o entendimento nos dá a fôrma; a Bossuet, quando affirmou que os sentidos fazem conhecer as nossas próprias sensações; a Malebranche: "a verdade não está em nossos sentidos, mas no espirito" A these capital do cubismo, formulada pelos seus doutrinários, seria: "Conhecer um objecto é querer conhecel-o na sua essência, represental-o no seu espirito o mais puramente possível, reduzil-o a um estado de signo, de totem por assim dizer, absolutamente livre de todos os pormenores inúteis, taes como os aspectos, accidentes múltiplos e vários. Os aspectos o situam no'*tempo e no espaço de um modo arbitrário e não podem sequer explorar a sua qualidade primeira. Assim como o artista fixará na tela ou no mármore não o que passa, mas o que fica, assim não situará os objectos em logar determinado, mas no espaço, que é infinito." Poder-se-ia accrescentar como corollario á phrase de Platão: "os sentidos só percebem o que é situado, o espirito o que está no espaço'' Nesta metaphysica do cubismo que o leva ao idealismo transcendente, ha todo o excesso do subjectivismo, que deixou de ser dynamico com os românticos e passou a ser estático com estes estranhos geometras da arte. Neste jogo ardente da intelligencia apoiam-se na palavra de Bossuet: "Les sens ne peuvent supporter les extremes, mais 1'entendement nen est jamais blessé" Repellem a certeza dos sentidos e buscam a chimera da verdade eterna. Raphael já dissera: "io me sirvo de certa idea chi me vienne alia mente" Voltamos ás categorias, ás entidades e o cubismo torna-se uma arte do passado, para a qual os objectos só possuem a emoção, que nós lhes damos com o auxilio dos meios, que nos fornecem nossa sensibilidade e nossa intelligencia, e são imagens, que só existem, quando lhes prestamos attenção estricta, ou quando lhes attribuimos valor artístico. E' a mais intensa affirmação do subjectivismo, a opposiçãò mais viva e mais profunda ao objectivismo dynamico, que este sim é a expressão fecunda do espirito moderno. Todo o subjectivismo importa em destruição individualista. Na ordem social contemporânea a dissolução que vem desde a revolução franceza, attingiu o seu máximo na grande guerra e ainda se alastra. O signo da nossa actualidade é o formidável empenho de reconstrucção. Neste cháos, o objectivismo dynamico nos revela o universo nas suas forças simples e eternas e recompõe com os seus fragmentos activos a unidade intellectual e sentimental, creando uma ordem pratica, simples, útil, enérgica/. Libertador e constructor, o espirito moderno sabe que ha uma unidade essencial e infrangivel entre todos os seres, os organismos, que por sua vez são órgãos do Todo universal. Uma obra de arte é organismo distincto dos outros organismos, mas por sua vez ella é órgão do pensamento, da emoção, da vida total. Ligar estes organismos particulares ao organismo universal é o senso occulto da cultura. A obra de arte deve ter uma vida interior em relação com a vida exterior, de que faz parte integrante. Nesse assombroso trabalho de reconstrucção esteja sempre omnipresente e activo o sentimento da unidade universal. E' para o universalismo que tende o espirito humano. Se pudéssemos fixar neste perpetuo movimento dos seres e das emoções algumas expressões mais características do espirito moderno, diríamos: 1.° — Todos os seres estão em actividade e em continua transformação, exterior ou secreta á nossa percepção. Por mais apparente que seja a immobilidade de um objecto ha nelle um indomável e incessante movimento de todas as suas moléculas. Esse movimento, por mais lento e imperceptível que seja, existe como uma fatalidade. O ser humano deve comprehender, sentir, essa perenne transformação, idêntica á sua e a arte tem de exprimir ininterruptamente essa sensação e esse sentimento. 2.° — Os objectos destacam-se do ambiente, por sua vez formam ambiente pelos seus volumes e pesos. Não ha objecto tangível que seja imponderável. A côr e a luz são volumes. A luz tem peso, actua sobre os objectos, geometricamente. Pela sua energia modifica os movimentos e exerce attracção, pelo seu peso é um elemento da gravitação universal. 3.° — O universo fragmenta-se em seres, mas todos estes se unem indefinidamente. A obra de arte deve exprimir necessariamente essa unidade infrangivel e não ser jamais fragmentaria, senão na apparencia. Somos todos universaes e todo o movimento, consciente ou inconsciente dos seres, sejam estes ou não conscientes, levam á unidade primordial. O Universo não é um espectaculo, é uma integração. Por esse dynamismo a arte se liberta da natureza. A finalidade da arte não é a imitação da natureza. Ella tem o seu fim em si mesma. O espirito humano é tão creador como é a natureza e só se attinge a obra de arte, quando o espirito se liberta da natureza e age independentemente. As fôrmas artísticas, que se limitam a reproduzir a natureza, são de qualidade inferior áquellas que o artista formula como creação individual e livre. Nem todos os povos primitivos se subordinaram á natureza, muitos foram verdadeiramente artistas, creando obras de arte sem imitação, como jogos da fantasia espiritual. Quanto mais uma civilização é artística, mais ella se afasta da natureza. A arte não é um canto da natureza, visto através de um temperamento, como a paizagem não é um estado da alma. Todas estas formulas subjectivas fizeram o seu tempo. São incomprehensiveis hoje. A essência da arte está nas emoções provocadas pelos sentimentos vagos, que nos vêm dos contactos sensíveis com o Universo e que se exprimem nas cores, nas linhas, nos sons, nas palavras. Que é a Natureza? Não é a matéria universal. Ella está na matéria, na energia, porque nada existe fora desta, e realiza-se perpetuamente na profunda inconsciencia, independente do espirito humano. No sentido artístico a Natureza é tudo o que se apresenta aos nossos sentidos como exterior a nós. As artes plásticas são as que mais procuram reproduzir a Natureza. A musica é mais independente. Depois da grande vassalagem á Natureza, a arte libertou-se e cria livre de toda a submissão. E' a suprema victoria do espirito humano. A imitação no principio, a libertação no fim. Não ha uma machina, um apparelho, que não seja no seu inicio uma cópia de um facto natural. O primeiro vapor idealizado tinha patas de palmipedes; o avião, azas de pássaros. E quando as machinas succediam a outros apparelhos, guardavam a estructura destes. O automóvel foi a principio um coche sem cavallos. Depois estas machinas se emancipam da imitação e tomam fôrmas próprias, constituem organismos originaes, distinctos e característicos, fixando o typo, a espécie. Hoje, o vapor, o avião, o automóvel têm a sua fôrma própria e modelar. Assim será a obra de arte, que a cultura liberta da imitação da natureza para dar-lhe fôrma artística, fôrma espiritual, peculiar, como um organismo novo, vindo da força creadora do homem. Esta independência da natureza e da arte é uma das maiores conquistas do objectivismo dynamico. O espirito brasileiro ainda não a sentiu e vive por isso no terror cósmico, de que a imitação da natureza e a subordinação a esta são significativas expressões. Somos os lyricos da tristeza, porque ainda não vencemos a natureza, vivemos esmagados, saudosos, apavorados. O brasileiro está no período subjectivo, do qual o romantismo é manifestação constante e perturbadora. Póde-se affirmar que o Brasil é um dos últimos refúgios do romantismo. Do lyrismo, que seria a expressão ingênua do enthusiasmo natural e primitivo, do lyrismo fecundo, ardente, que eleva o homem além de si mesmo e o transforma divinamente, vencedor da matéria, cahimos na deformação romântica, que mascara a realidade e nos entorpece no sentimentalismo. Ha entre a realidade, a matéria que se faz arte, e o espirito que a exprime, uma perniciosa zona literária, mantida pelo academismo, que estraga a visão do real e impede a construcção de tornar-se robusta e sã. A infecção literária corrompe a poütica, a arte, a vida. Em uma terra ardega, que vive o poema da aspiração, não pode haver maior paradoxo do que este espirito romântico da nossa cultura.. Este espirito é dissolvente e vago. O espirito moderno é dynamico e constructor. Por elle temos de crear a nossa expressão própria. Em vez de imitação* creação. Nem a imitação européa, nem a imitação americana — a creação brasileira. Todos os povos crearam. O próprio americano do norte, ainda inculto, creou. Só o brasileiro se julga incapaz de crear e resignado se humilha na imitação. O nosso privilegio de não termos o passado de civilisações aborígenes facilitará a liberdade creadora. Não precizamos, como o México e o Peru, remontar aos antepassados Mayas, Aztecas ou Incas, para buscar nos indígenas a espiritualidade nacional. O Brasil não recebeu nenhuma herança esthetica dos seus primitivos habitantes, míseros selvagens rudimentares. Toda a cultura nos veiu dos fundadores europeus. Mas a civilização aqui se caldeou para esboçar um typo de civilização, que não é exclusivamente européa e soffreu as modificações do meio e da confluência das raças povoadoras do paiz. E' um esboço apenas sem typo definido. E' um ponto de partida para, a creação da verdadeira nacionalidade. A cultura européa deve servir não para prolongar a Europa, não para obra de imitação, sim como instrumento para crear cousa nova com os elementos, que vêm da terra, das gentes, da própria selvageria inicial e persistente. O desejo de libertação é um signal de que ella já está em nós. Até agora todo o nosso empenho andava em imitar. Desde que em nosso espirito rompemos com esta pratica, começamos a fazer cousa nova e cousa nossa. Faremos cousa differente dos Americanos, libertos material e moralmente da Inglaterra. Quebraremos a uniformidade continental, com que nos ameaçam. Faremos cousa nossa, sahida do nosso fundo espiritual, que seja determinada pelo prodigioso ambiente, em que vivemos. Subjugaremos a natureza, para impôr-lhe o nosso rythmo haurido nella própria. Não se trata somente de creação material, de um typo de civilização exterior. Aspira-se á creação interior, espiritual e physica, de que a civilização exterior das architecturas, dos machinismos, das industrias, dos trabalhos e de toda a vida pratica seja o reflexo. Para essa creação integral a Academia Brasileira é chamada. A fundação da Academia foi um equivoco e foi um erro. No sentido em que commummente se entende ser uma academia, é esta um corpo de homens illustres nas sciencias, nas letras e nas artes, consagrados pelo talento e trabalhos, summidades espirituaes de uma cultura collectiva. As academias são destinadas a zelar tradições e suppõem um povo culto, de que são os expoentes. Deante desse conceito, a Academia Brasileira foi um equivoco. Somos um povo inculto, sem tradições literárias ou artísticas, ou pelo menos de tradições medíocres, que seria melhor se apagassem. O facto de haver raros escriptores ou artistas de primeira ordem não fôrma uma tradição. E é ridículo suppôr que as tradições são creadas pelas academias. A tradição não é um artificio. Vem do inconsciente collectivo e, sé tem força para impôr-se no curso do tempo, viverá a despeito das academias. O equivoco permaneceu, porque geralmente se imagina que um paiz de Academias literárias alimenta-se de um vasto manancial de producção, que é preciso reger e disciplinar. No Brasil não existe tal producção. A Acadtemia está no vácuo. Não tem funcção possível a exercer, segundo a tradição acadêmica. E se tem a funcção de regulamentar a intelligencia e crear o academismo, ella é funesta. Foi o seu erro inicial. Para justificar-se a sua fundação evocou-se a necessidade de defender o Passado "que ameaça ruina, deante do Futuro que não tem fôrma" Como em toda a creação, no principio era o terror... O passado é uma ficção. Nós o criamos, o interpretamos e o deformamos. Não tem realidade objectiva. A sua existência e a sua persistência são inteiramente subjectivas. Sob este angulo relativo e realista, o Passado não existe livremente. E' uma suggestão do terror. Como funcção social é a somma de deuses, de monstros, de fetiches, que se disfarçam em regras, methodos, grammaticas para nos governar e nos limitar. O Passado é o pavor, que perdura em cada um de nós. Se pudéssemos dominal-o, vencel-o em nosso espirito, contemplai-o com alma de vencedor, situal-o com justeza, saberíamos extrahir das suas expressões o encanto e a lição. A nossa vida existe verdadeiramente no excedente da herança que recebemos. O que vivemos do passado não é nosso, não somos nós. A nossa vida começa exactamente no ponto, em que se inicia a nossa libertação, oq já no esforço que fazemos para nos libertar das nossas heranças espirituaes. Só dahi em deante começamos a viver a nossa personalidade. Aquelle que não tem forças para essa libertação, para crear a sua vida e fazer delia uma força nova, esse na sua humilde submissão não é um homem vivo. E' espectro do passado. A Academia será uma reunião de espectros? Nas paredes desta sala, como no túmulo das múmias, a tradição gravou para defèite dos espíritos, além da morte, o que em vida elles amaram e fizeram as suas delicias intellectuaes, os versos, os dísticos dos clássicos, as glosas dos arcades, as bailadas românticas, as deformações do sentimentalismo, as rinhas grammaticaes? Ou neste Brasil, que procuram converter em uma China literária para império de todas as velhices, a Academia será uma casta de immortaes em um paiz de immemoriaes? Para que fomos creados, a que alta e vigorosa missão fomos chamados do nosso cháos intellectual? Para defender a tradição. Tradição de que? Do espirito nacional? Mas isto não é funcção de Academias. O espirito nacional defende-se por si mesmo ou morre. Tradição da nossa literatura? Ella felizmente é incerta, em infindável formação, e neste período allucinante de aspiração, o mal acadêmico poderá matal-a. A nossa missão é manter a ordem nos espiritos, nas artes, nas letras? Seria uma finalidade inútil, porque a ordem é da essência da vida. Não ha coexistência sem ordem. O que chamam desordem é uma abstracção sem valor lógico. No sentido absoluto, a ordem é o rythmo do universo, a sua fatalidade. E' como a energia, a matéria, a intelligencia. A liberdade, essa não é da essência das cousas. E' uma relatividade humana, que forçamos a existir para a nossa illusão criadora. O segundo erro da formação da Academia foi copiar a Academia Franceza. A imitação é uma pratica brasileira. Em tudo renunciámos á energia de criar para fazermos commodamente a cópia, que mal se ageita á nossa indole e ao nosso ambiente. Copiando a Academia Franceza, fizemos logo ao nascer acto de submissão e passámos a ser reflexo da invenção estrangeira, em vez de sermos dynamo propulsor e original da cultura brasileira. Somos excessivamente quarenta immortaes, consagração exaggerada para tão pequena literatura. Justificou-se o quadro forjando-se impropriamente um "simile" com a adopção do metro, que também nos veiu da França. Insistiu-se no vicio da imitação, cuja única vantagem foi tornar maior o quociente dos mortos e o divertimento das eleições mais repetido. Pelo facto» de sermos uma Academia não significa devermos reproduzir o figurino francez. A Inglaterra não adoptou o systema métrico, fundou afinal uma Academia, mas fez obra própria e não a cópia servil. A nossa Academia é brasileira. Por que brasileira? Para ser um instrumento enérgico da formação nacional, uma alavanca do espirito brasileiro. A sua appafição foi um erro, mas já que existe que viva é se transforme. Ha uma vida espiritual intensa, que a Academia desconhece. Deixemos entrar aqui um sopro dessa vida para despertar-nos da somnolencia, em que nos afundámos. O Brasil é movei. Todo o Universo move-se, transforma-se perpetuamente. O espirito do homem corre como a matéria universal. "A energia é a vida única, disse o mystico. E' a eterna delicia" A energia brasileira apossa-se da terra e fecunda-a. Seccam-se os valles de lagrimas da tristeza romântica e o optimismo alegra a resurreição. Tudo vive espiritualmente. Só a Academia traz a face da morte. Ao iniciar-se a creação acadêmica lamentou-se cautelosamente não ter a Academia força para instituir um estylo acadêmico, como toda a arte franceza, convencional, acabado, perfeito. E' para esse estylo acadêmico que por uma fatalidade institucional caminhamos e o attingiriamos se uma rajada de espirito moderno não tivesse levantado contra elle as cousas desta terra informe, paradoxal, violenta, todas as forças occultas do nosso cháos. São ellas que não permittem a lingua estratificar-se e que nos afastam do falar portuguez e dão á linguagem brasileira este maravilhoso encanto da alluvião, do esplendor solar, que a tornam a única expressão verdadeiramente viva e feliz da nossa espiritualidade collectiva. Em vez de tendermos para a unidade literária com Portugal, alarguemos a separação. Não é para perpetuar a vassalagem a Herculano, a Garrett e a Camillo, como foi proclamado no nascer a Academia, que nos reunimos. Não somos a câmara mortuaria de Portugal. Já é demais este peso da tradição portugueza, com que se procura atrophiar, esmagar a nossa literatura. E' tempo de sacudirmos todos os jugos e firmarmos definitivamente a nossa emancipação espiritual. A cópia servil dos motivos artísticos ou literários europeus, exóticos, nos desnacionaliza. O aspecto das nossas cidades modernas está perturbado por uma architectura literária, acadêmica; a musica busca inspiração nos themas estrangeiros, a pintura e a esculptura são exercícios vãos e falsos, mesmo quando se applicam ao ambiente e aos assumptos nacionaes. A literatura vagueia entre o peregrinismo acadêmico e o regionalismo, falseando nesses extremos a sua força nativa e a sua aspiração universal. Se escaparmos da cópia européa não devemos permanecer na incultura. Ser brasileiro não significa ser bárbaro. Os escriptores que no Brasil procuram dar de nossa vida a impressão de selvageria, de embrutecimento, de paralysia espiritual, são pedantes literários. Tomaram attitude sarcástica com a presumpção da superioridade intellectual, emquanto os verdadeiros primitivos são pobres de espirito, simples e bemaventurados. O primitivismo dos intellectuaes é um acto de vontade, um artificio como o arcadismo dos acadêmicos. O homem culto de hoje não pôde fazer tal retrocesso, como o que perdeu a innocencia não pode adquiril-a. Seria um exercício de falsa literatura naquelles que pretendem supprimir a literatura. Ser brasileiro não é ser selvagem, ser humilde, escravo do terror, balbuciar uma linguagem imbecil, rebuscar os motivos da poesia e da literatura unicamente numa pretendida ingenuidade popular, turvada pelas influencias e deformações da tradição européa. Ser brasileiro é ver tudo, sentir tudo como brasileiro, seja a nossa vida, seja a civilização estrangeira, seja o presente, seja o passado. E' no espirito que está a manumissão nacional, o espirito que pela cultura vence a natureza, a nossa metaphysica, a nossa intelligencia e nos transfigura em uma força criadora, livre e constructora da nação. O movimento espiritual, modernista, não se deve limitar unicamente á arte e á literatura. Deve ser total. Ha uma ansiada necessidade de transformação philosophica, social e artística. E' o surto da .consciência, que busca o universal além do relativismo scientifico, que fragmentou o Todo infinito. Se a Academia se desvia desse movimento regenerador, se a Academia não se renova, morra a Academia. A intelligencia impávida, libertadora e constructora, animada do espirito moderno que vivifica o mundo, transformará o Brasil. A Academia ignora a resurreição que já começa, mas o futuro a reconhecerá. Ella aponta no pensamento e na imaginação de espíritos jovens. Vem na musica de Villa-Lobos, que dá á nossa sensibilidade um rythmo novo e poderoso, na poesia de Ronald de Carvalho, libertador do nosso romantismo, creador do nosso lyrismo, na poesia de Guilherme de Almeida, livre da natureza e das suas suggestões subalternas, na poesia de Mario de Andrade, vencedor do convencionalismo, constructor alegre do espirito verdadeiramente brasileiro, nas esculpturas de Brecheret, que objectivam dynamicamente o subjectivo, no pensamento, na critica, na poesia, no romance de Renato Almeida, Jackson de Figueiredo, Agrippino Griecco, Manuel Bandeira, Paulo Silveira, Tristão de Athayde, Menotti dei Picchia, Ribeiro Couto, Oswald de Andrade e mil jovens espíritos soffregos de demolição e construcção. Tudo se harmoniza, espirito e natureza, no fulgurante ambiente brasileiro. O céo não é leve nem subtil para alimentar idéas de débil e fria belleza. Não é um céo clássico para cobrir acadêmicos. E' um céo ardente, escandecido, longínquo e implacável, que aspira as forças da natureza, homens e cousas, os eleva, os engrandece e os dissolve na immensidade da luz. O dynamismo brasileiro tem o seu segredo na profunda harmonia com as forças do universo, que aqui se apresentam fecundas, céleres, voláteis, vorazes. Não percamos o equilíbrio neste jogo arriscado com a eternidade. Sob este céo, encerrados neste quadro da energia tropical, debatem-se os espíritos dos homens. A' margem desta bahia, que o mar fecunda e que a terra contempla numa elevação estática, os sonhos dos jovens brasileiros se cruzam. Tudo é nitido no espaço ardente; a água lisa espelha, as ilhas reluzem, as casas inflammam-se, vapores, cupolas, navios, zimborios, azulejos, pedras, arvores, tijolos, barcos, tudo pesa e tudo se agita. E' o movimento universal na quietação luminosa. Na ânsia de posse da Terra e de libertação espiritual, uma voz dirá: "Tudo isto me apavora e a minha alma não se harmonisa com esta loucura das forças da natureza. A consciência antiga separa-me do Todo e afasta-me da terra,desconhecida. Volto ás raizes do meu espirito. Os meus olhos fecham-se a esta luz aggressiva e só vêem a claridade serena, que illuminou a alma dos meus antepassados europeus. Torno á terra antiga da civilização, reintegro-me no mundo clássico, com que se harmoniza o meu pensamento. Ha uma volúpia no Passado, que é a attracção da morte" Outra voz responderá: "Este é o meu Brasil. A nossa união é immorredoura. Nada me afasta da sua energia transcendente, que vibra na minha alma e alegra a minha fusão com esta terra exaltada e fascinante. Os meus olhos não se voltam para o Oriente, de onde vieram os meus antepassados, elles só fitam a immensidade da terra, que avança para o Occidente, e é um dom da energia da minha raça. Repillo os artifícios do Passado, deslocado nesta feliz magnificência sem historia, nem antigüidade humana. Destruo toda esta architectura de importação literária, grega, rococó, colonial, servil. Destruo toda esta esculptura convencional e imbecil, esta pintura mofina. Destruo toda esta literatura acadêmica, romântica, literatura que só é literatura e não vida e energia. Construo com o granito, com o ferro, com a madeira, que a terra pródiga me offerece, a morada simples, clara, forte, graciosa do brasileiro. Ergo os palácios, as fabricas, as estações, os galpões, não copiando as nossas florestas, os nossos montes, mas com a força dynamica libertadora do espirito moderno, que cria cousa própria. Recolho a lingua do meu povo e transformo a sua poesia em poesia universal. Faço da minha actualidade a forja do Futuro.

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