Terra, E Mar, Marcel Proust e Transfiguração Espírito Moderno · Capítulo 8 de 12
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Terra, E Mar, Marcel Proust e Transfiguração

TERRA

Desejo da Terra: arvore!

Espiritualidade da Terra: arvore!

Elegância, força, doçura, fragilidade, eternidade.

Folhas: adorno e sentimento. Galhos: defesa, amparo, agasalho, aspiração, elevação para o Infinito.

Postura da arvore: adoração perpetua, trágica immobilidade. Silencio. Campo deserto, arvore solitária. Montanha espectral, arvore, phantasma allucinado.

Arvore e vento. Inútil gemido. Infatigavel açoute.

Arvore e sol. Febril exaltação de aromas. Resinas. Quietação. Adormecimento da natureza na volúpia do perfume.

Madrugada da arvore. Cantos de alvorada. Clarins, flautas, zumbidos. Alegria, alegria. 'Fim de sombra. Nocturno. Gargalhadas. Aves zombeteiras. Rhetorica do pavor. O que a arvore vê á noute... Suave humidade. Pérfida humidade. Vida secreta. Pedras humidas. Limos, artistas subtis. Roseos troncos verdes. Céo humido. A arvore e a água. Perenne seiva. A Água mysteriosa que mora no intimo da arvore e mora nas ceilulas humanas. Integração. Vida profunda. Intelligencia buscando na Terra a vida. Humanização. Arvores disciplinadas, dominadas. Revoltas, violência. Vingança. Venenos..Segredos dos vegetaes. Solidariedade. Unidade verde. Desterro da arvore. Saudade. Nostalgia. Culto. Religião. Melancolia. Amizade. Confidencia e Consolo. Romantismo. Velha arvore. Parasitas, cipós. Enfeite, protecção. Velha arvore se desfaz em pó. Transfiguração universal. Alegria de renascer. E o Homem, processo da loucura do movimento, mata na arvore o repouso e a eternidade.

E MAR

Sob a frigida pelle azul do mar, o corpo fremente. Mar de amor. Ardentes vagas, ondas do desejo.

Esquife negro correndo sobre a fonte profunda e mysteriosa da vida. Funeral. Cadáveres de nymphas, neptunos, amphitrites, adamastores, tritões boiam rhetoricamente ao extincto canto das sereias. Musica alegre dos ventos zombeteiros.

A vida vem do mar. A vida faz-se Amor, fusão no Todo infinito. Sonoridade universal. Zumbidos, murmúrios, luz esmagadora, pedras, aves, montanhas concentradas, palmeiras espirituaes, águas travessas, ilhas de ouro, velas pensativas, fumos insolentes. Exaltação.

Movimento perenne. Transfiguração. Vento que é desejo; água, infinito; nuvens, imaginação; sol, estupor; amor, êxtase. Illusão infatigavel. O pensamento abysma-se na inconsciencia do Universo. Eternidade.

MARCEL PROUST

Proust não nos rejuvenece. As raizes da sua arte são longínquas. Nella o velho espirito francez compraz-se na analyse das cousas, na narração dos acontecimentos, na associação das idéas e das sensações. Uma infiltração da seiva humorística e deformadora dos inglezes dá a mystificação da novidade. Aquella analyse vae até o paroxismo e por tal exasperação a sensibilidade de Proust é do nosso tempo, embora a arte lhe seja antiga. Arte de intelligencia, em que o pensamento se faz instincto e parece tecer inconscientemente. Arte processual, em que se reflecte a cultura voluntária. Arte de tradição, que termina em decadência. O poderoso dom de representação limita-se a fragmentar a vida. Proust nos transmitte a sensação dos objectos, como elle os percebe. Os seres não se exprimem por si mesmos Tudo emana da consciência do artista, que não possue o senso philosophico para ligar os fragmentos e compor com elles a illusão da unidade. E' uma decomposição do Universo a qual falta a recomposição esthetica. Não ha pensamento universal que dirija a creação e faça delia um todo. Ora a Arte é transcendente, quando da múltipla imagem dos seres tudo arrebata para tudo fundir no Todo infinito.

TRANSFIGURAÇÃO

E' preciso vencer o terror e a sua metaphysica, ser um com o Todo infinito e no prisma da poesia realizar o grande segredo da arte, que é o da victoria sobre a natureza. A libertação não está simplesmente na quebra dos moldes, nas mutações da forma. Está na substancia da intelligencia e do sentimento. E' a libertação do espirito e attinge ao transcendentalismo, em que a unidade do Universo se revela e é a razão do pensamento e da arte. A libertação não está naquelle velho pantheismo relativo, em que a Natureza é uma personagem omnipotente perturbadora da unidade infinita. Seria antes o pantheismo emanente, o pantheismo independente da Natureza, livre desta, o pantheismo sem a natureza. O libertador sente o Universo em si. Para elle tudo é imagem e a funcção essencial do espirito humano é a funcção esthetica. Este poder de transfiguração é a essência da Arte. Tudo transfigura-se e em cada transfiguração ha uma imagem que muda. A imagem que passa chama a que ha de vir. Este perpetuo "fieri" de imagens é a suprema esthetica. O movimento é incessante. Nada é extatico, tudo é êxtase. O pantheismo é emanente e não transcendente. A transfiguração é a causa e o fim; é o universal inattingivel. Explica-se a nós mesmos e mantém o nosso perpetuo mysterio. E' uma divina allucinação. O abysmo está em cima, no alto, o Ser sobe, perde-sfe, transfigura-se. Sente-se a Unidade absoluta; é'a imagem. E' o máximo da ascensão. E' a beatitude além {'a alegria. E' o êxtase além da imagem. E' a transfiguração que se detém. Eternidade. Recomeça a descensão e a imagem renasce. Multiplica-se a transfiguração, prodigam-se os êxtases, a vida define-se, o absoluto explica-se, a Unidade desune-se. E' a volta á ânsia da fusão do ser no Todo infinito. A ascensão recomeça. Tudo transfigura-se. Tudo é imagem. Transfiguração, perpetuo jogo esthetico do Universo, que. nos arrebata ao infinito espiritual. A Alma transporta-se, é o Êxtase. O Homem imagina-se, é o Ideal. A Dor transforma-se, é a IIlusão. O Amor realiza-se, é a Magia. A Vida exalta-se, é a Alegria.

Espirito M o d er n i

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