Maurice Barres Espírito Moderno · Capítulo 11 de 12
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Maurice Barres

MAURICE BARRES

A França, quando lhe foi raptada a AlsaciaLorena, já era uma nação de vencidos. O cataclysmo inicial produziu-se nos fins do século dezoito, mas a sensação do vácuo, a impressão do desalento, veiu á plenitude depois do novo abalo de 48. Os grandes espíritos francezes tornaram-se desde esse trágico momento artistas da destruição. Renan esforçou-se por desenraizar o catholicismo, Taine por matar a metaphysica, anniquilar a lenda napoleonica e entorpecer o gênio militar da raça, Flaubert revelou o bovarysmo, que é a caricatura do idealismo criador e escarneo do romantismo, de que Napoleão III fora uma fugaz apparição politica, Zola excedeu-se em patentear num paroxysmo realista a decomposição das cellulas sociaes. Quando os prussianos, bárbaros e depredadores, invadiram a França, onde a força para resistir-lhes? Não havia mais nada, exclamou-se cobardemente na hora da capitulação. O sentimento patriótico indomável e perenne, refugiára-se nos abysmos da nacionalidade. Desse âmago obscuro surgiu Maurice Barres, inspirado pelo espirito da desforra. Para reconstruir moralmente a França affirma, no pensamento e na literatura, alma de vencedor. Escriptor estranho á decrépita urdidura tradicionalista, não se reproduz nelle a figura clássica de um joven deus mythologico, de um Dyonisio infante, bello, surprehendente, desdenhoso a sorrir na perpetua alegria. Maurice Barres representava a imagem de um pássaro esquivo, intratável e bravio, sempre aggressivo, uma águia infantil, um falcão adolescente. Permaneceu até o fim, raro e singular. A sua voz guardou o som agudo, guttural e estridente, que dilacerava a trama subtil da velha linguagem franceza. Todo elle era ansiedade e vigilância. A ave selvagem debatiase em gritos violentos, como se a estivessem afogando num pântano de cobardia e imbecilidade. Os olhos agudos fixaram-se perpetuamente no inimigo. Maurice Barres deu o alarme para o permanente combate e postou o seu eu irreductivel deante dos Bárbaros, em desafio a todas as barbarias. Cumpria-se uma longínqua predestinação. O neto de um soldado de Napoleão, o descendente de enraizados antepassados auvernezes, o loreno, filho de lorenos, encarnava assim o espirito das raças, que formavam a nação e atiçavam nesta o victorioso sentimento da perpetuidade.

Espirito M o à tr no

A unidade da França se fez por aggregação. As regiões as mais diversas, trabalhadas pela historia, foram pouco a pouco se desfazendo da primitiva rudeza e annulando as separações até se amoldarem nessa homogeneidade politica, que se imagina hoje inteiramente ininterrupta e inquebrantavel. O Auvergne, sendo geographicamente o centro do paiz, é também o centro da resistência, onde pulsa o coração. A terra foi vulcânica; é altiva e solitária. Maurice Barres reflectia essa sobranceria; era arredio, apezar de político e patriota, e trazia na alma esse fogo secreto do solo, que lhe aquecia a tempera e explodia em erupções intellectuaes. A Lorena é a terra indecisa entre a Gallia e a Germania. E' varia e incerta, lutando pela sua personalidade ameaçada de successivas invasões e absorpções. Dessa formação lorena provém, por singular infiltração allemã, o individualismo de Barres. Percebe-se á primeira vista, na doutrina nacionalista do reconstructor do pensamento francez, a iniciação germânica. Maurice Barres confessou a procedência de Fichte. Podia remontar a Leibnitz, á theoria da mónada, de onde dimana o conceito do Estado, como o grande Indivíduo, o grande Eu. Desse conceito individualista deduziu Barres a concepção da pátria como a categoria do eu. Quando o subjectivismo allemão avassalou o espirito de Fichte, já havia extrahido o mundo real da idéa pura. O eu de Fichte tornou-se universal e preparou o Estado universal de Hegel. Em Barres o eu collectivo, a Nação, contrahiu-se, tornou-se restricto. A Pátria é uma limitação e para Barres, que era loreno, oriundo de uma incerta e pequena pátria, situada na fronteira dos Bárbaros, e cujo espirito se formou sob o terror da invasão do inimigo e sob a esperança da desforra, a Pátria devia ser uma cidadella defendida pela energia do eu, dentro da tradição, cuja argamassa é feita pela lingua, pela historia, pela religião que se nacionaliza até os limites do schisma. Para esse sentimento patriótico o estrangeiro é o inimigo. Dentro dos muros não ha culto mais fervente do que o dos mortos, tutelares da continuidade. Volta-se ao conceito primitivo da pátria, que se inicia em torno dos túmulos e cuja formula exclusiva tem a estructura de uma religião. Antes de systematizar a sua doutrina do patriotismo, Maurice Barres, instinctivamente levado pelo espirito da desforra e pelo pensamento da victoria, fixou o seu eu deante dos Bárbaros. No fundo do seu nacionalismo descobre-se o conceito dualista gerado na consciência humana pelo terror metaphysico, "eu e o universo" "eu e os outros" E' a formula de Fichte. O culto do eu concretiza-se na reacção systematica do ser individual contra tudo o que procura dominal-o e esmagal-o. A força physica ou moral, hostil ao eu, é o que Barres chama "o bárbaro" O dever primordial é defender o eu, eleval-o, engrandecel-o. Ao egoísmo dos outros oppor o nosso próprio egoísmo, e mesmo no Amor não se deixar absorver. E por isso o Amor no sentido barresiano não attinge jamais a altura, em que a fusão irítegral dos Amantes realiza a unidade com o Universo. Se para o escriptor metaphysico o bárbaro é tudo o que resiste ao eu, para o joven loreno essa resistência se corporifica no Prussiano, que é o bárbaro por excellencia, tangível e ameaçador. O conhecimento desse bárbaro, desse inimigo hereditário, revelou a Maurice Barres a pátria, que assim surge do sentimento racial. Maurice Barres alargou a categoria do eu, que de individual se tornou collectiva. A nacionalidade é a somma e a summa dos infinitos eu da mesma progenie, da mesma idealidade, da mesma projecção no futuro. A Pátria, categoria do eu, oppõe-se ás outras pátrias e o antagonismo persiste como a profunda e successiva expressão do dualismo inicial. Por um momento o conceito barresiano, movido pela metaphysica allemã, como instantânea desforra do bárbaro, alarga-se para fundir o eu no Inconsciente. Sem demora o espirito loreno reapparece, recompõe o mysticismo individualista, não permitte essa elasticidade vaga, essa posse do Universo. Ao contrario, o eu retráe-se, torna-se nacional, volta ao conceito pragmático da pátria deante dos bárbaros. Para Barres a pátria é a continuação do Passado, tem a sua cidade invisível povoada de sombras, que inspiram os vivos na rríissão primacial de zelar pela tradição. O mysticismo anarchista destróe todas as restricções, que possam limitar o surto do indivíduo. O mysticismo patriótico de Barres enraiza o indivíduo na terra dos antepassados e o encerra dentro das muralhas da nacionalidade. Por esta formula Maurice Barres rompe definitivamente com o idealismo de Fichte, que o estimula no principio e repelle a theoria hegeliana que considera os povos, as sociedades humanas como reflexo e domínio do Estado e move a Allemanha para o pan-germanismo. No conceito barresiano a pátria franceza tem a suprema missão de aefender-se dos Bárbaros germanos, de fortalecerse dentro dos seus limites naturaes e históricos e entreter o espirito numa perpetua vigília contra toda invasão physica e moral, sem sobrar-lhe tempo para as aventuras da conquista. A doutrina nacional de Maurice Barres é uma contradição ao imperialismo allemão. Quando essa doutrina nacionalista se crystallizou, a França vencida, ultrajada, não offerecia resistencia ás vagas do anarchismo, que vinha com a sua ideologia completar a dissolução dos alicerces da nacionalidade. Por esse tempo os governantes estavam ao serviço de uma burguesia cupida. A França foi o campo de rapina, onde tudo foi lama, sangue e morte. Nos destroços da catastrophe moral veiu do subterrâneo da nação um sobresalto, que a salvou. Maurice Barres incorporou o seu idealismo á acção politica e tornou-se um dos reconstructores do paiz. A base da reconstrucção está na idéa da pátria, que a fortalece e se organiza em culto. A idéa faz-se sentimento para ter vida. Essa força ideal foi a que em primeira linha se oppoz aos Bárbaros e os venceu. A' victoria, que foi uma desforra, Maurice Barres consagrou-se integralmente. A sua actividade combativa foi um maravilhoso espectaculo. Reagiu contra o scepticismo. Reagiu contra Renan, patriarcha da indifferença. Ao cynismo que exclamava: "a França morre, não perturbemos a sua agonia" Barres oppõe a violenta therapeutica da fé. Disciplinou-se para disciplinar. Já nos seus primeiros livros individualistas aspira a uma disciplina, que lhe dissipasse o torpor doloroso, em que se entibiava o seu espirito. Clama por essa força, pelo "Mestre" que seria um axioma, uma religião, um principio ou uma doutrina. Encontrou no nacionalismo a sua disciplina e desde então passou a, servir o seu "mestre" A finalidade do seu nacionalismo era a desforra, que libertaria a França da humilhação de 1870 e restituiria na aureola de victoria a integridade gloriosa. "Eu digo, exclamou, que Metz e Strasburgo nos voltarão um dia... Que dia será esse? Os Francezes serão vencedores no dia em que serás homem" assegurou Barres a seu filho. E Philippe Barres collaborou para cumprir-se a prophecia do pae. Soldado da grande guerra, deu o seu sangue para que Metz e Strasburgo voltassem á França e fosse restaurada a velha Lorena geradora desse egoísmo patriótico immorredouro. A construcção barresiana assentada no nacionalismo rejeitou toda a libertação para manter o espirito subordinado á tradição. Impregnou-se da formula que não limita o patriotismo ao amor do solo, enraiza-o no amor do passado. Voltou-se para este e o defendeu nas suas expressões mais definitivas, na religião, na hierarchia politica, no gênio militar e no culto dos mortos. O excesso da disciplina levou Barres ao automatismo. Parece que procurou na energia um remédio ao seu temperamento, independente e vago, de descendente renegado de Rousseau, de herdeiro da melancolia de Chateaubriand. Para curar-se do traiçoeiro veneno do romantismo innato, para libertar-se do sentimentalismo, empregou a disciplina de Loyola e de Goethe. Subordinou o mundo e o próprio eu á vontade. Desta faz um cilicio, em que constrangiu a liberdade. E por um singular paradoxo, nos seus livros da iniciação, ha tanta vontade, tanta disciplina para libertar dos bárbaros o joven Philippe, que este se torna um autômato, um mecanismo, um homunculo fabricado pela intelligencia. E' na funcção cerebral que reside o segredo de Barres. Tudo, universo, sensações, fôrmas, sentimentos, tudo transfigura em idéas. E' a operação secreta da sua sensibilidade. Esta apura-se, estrema-se e de tão vibrante, torna-se seductoramente intellectual. O encanto barresiano, que se infiltra pela literatura franceza, vem do mysterio romântico, da hyperesthesia egotista que, domada pela disciplina, torna-se sortilegio. Os espíritos ávidos de metaphysica para fugir ás torturas do relativismo scientifico, encontram no estylo de Maurice Barres a repercussão procurada e entranhada do seus próprios desejos de libertação. A phrase barresiana tem ás vezes uma secura interior, e da sua vibração resulta uma sonoridade aguda e irritante. Não é a fonte de melodia que se transmuda em ondas doces e correntias. E' uma musica dissonante, cuja volúpia cerebral é deliciosamente attrahente. Que resta dessa musicalidade? Barres foi o primeiro a corrompel-a pela volta ao sentimentalismo. Uma invasão de sensibilidade deturpou grande parte da magia altiva e áspera do primeiro estylo. 0 rythmo permaneceu o mesmo, mas a sonoridade estava viciada. O cheiro da morte infectou a atmos phera. A morbidez denegerou em compaixão. Tudo tornou-se triste neste homem, soberano de desdém e orgulho. Aquelle frêmito febril que, na aurora da espiritualidade, se compraz na pestifera Veneza, vem no crepúsculo excitar-se da phosphorescencia dos cadáveres, alimentar-se da morte. Ama o que é sombra e mysterio. O criador do enthusiasmo patriótico, o sarcástico dominador da vida, consagiase ao culto dos mortos. Procura defender tudo o que passa, e exprimir tudo o que morre. Quando lhe faltam expressões do seu idioma, o nacionalista pede aos idiomas estranhos a palavra piedosa... Assim transportou para a sua phrase melancólica a mais triste das nossas palavras, saudade. Encadeiou os vivos aos mortos. O Oriente pérfido lhe revelou que o filho é o segredo do pae. Descobriu Barres que o Occidente, sobrecarregado o conceito mystico, accrescentára: "Nossos filhos são a imagem dos nossos pensamentos os mais profundos" Dessa falsidade psychologica concluiu a formula, com que resolve o mysterio da tradição, e revendo a sua sentença contra Renan, termina por absolvel-o do scepticismo religioso em face do sacrifício dos netos, martyres da guerra, cheios de fé e de illusão christã. Neste auge de piedade patriótica, que tudo incorpora ao patrimônio moral da França, morre o encantador e entra serenamente na communhão dos mortos. Desde o instante supremo da desforra triumphante, de que fora annunciador e constructor, estava cumprida a sua bella fatalidade. Veiu da subtil raiz lorena e da profunda fonte auverneza, revelou o seu eu na magia de uma musica estranha, encerrou-se no quadro nacional, disciplinou-se, serviu o gênio da sua raça, de onde brotou a estirpe que elle continuou e que continuará depois delle. À ma mort, Philippe, recommendava Barres, il faudra me conduire dans 1'ombre du clocher de Sion et ne point t'attrister, car ma fortune será comblée si je me confonds dans cette terre riche de toute Ia continuité lorraine" Agora abram-se as janellas. A musica barresiana, ao longe, dá o rythmo sepulcral ao silencio das cathedraes e á melancolia dos túmulos. Outra sonoridade, vivaz e victoriosa, vinda da alegria do Universo, enche a França, que se renova indefinidamente .

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