Mocidade e Esthetica Espírito Moderno · Capítulo 5 de 12
Obra Menu

Mocidade e Esthetica

MOCIDADE E ESTHETICA

Longo tempo faltou ao Brasil o espirito de mocidade. "Nascem velhos os moços de hoje" exclamou-se em 1914, deante do espectaculo de uma juventude destituída de qualquer ideal, mesmo do que vem da consciência da energia, do vigor physico, do athletismo. Os jovens daquella época, ávidos de um emprego publico, que fosse um ócio, formavam na clientela dos políticos. No emtanto o espirito de mocidade já havia soprado, ardente e soffrego, por todo o paiz. Na aurora da nacionalidade, a Independência, o sete de abril, foram movimentos da gente moça, embora alguns chefes fossem homens velhos. As duas grandes evoluções sociaes, a abolição e a republica, foram principalmente actos da mocidade. Não se poderiam realizar sem o enthusiasmo juvenil, sem o desinteresse, sem a belleza do sacrifício, de que só os moços são pródigos. Elles não hesitaram entre o sentimento e a razão. Filhos de senhores de escravos, destruíram abnegados o patrimônio familiar, que lhes seria a fortuna. Herdeiros de chefes políticos, desdenharam as perspectivas da fácil participação no governo do paiz para derrocarem a monarchia. Foi a mocidade militar, que determinou a acção dos chefes Deodoro e Benjamin Constant. Sacrificando-se, os jovens abolicionistas, e republicanos acertaram em bem da pátria. O sentimento, que se afigurava loucura, era presciente, antecipava a evolução fatal, tornava benigna a transformação. O interesse, que mantinha a escravidão e a monarchia, era retrogrado e nefasto ao paiz. O espirito de mocidade, inspirado do puro sentimento, venceu o interesse e teve razão contra a razão. A acção da mocidade na ordem política foi precedida de uma transfiguração intellectual caracterizada na arregimentação positivista do Rio de Janeiro e na escola do Recife. O espirito joven libertou-se do que a tradição escolastica lhe offerecera na philosophia, na sciencia, no direito, e célere metamorphoseou-se no positivismo e no monismo. Ainda que mal preparados scientificamente, os jovens adoptaram estas duas formulas como disciplinas integras do pensamento. Os positivistas buscaram subordinar os phenomenos sociaes ao rigor mathematico e á solidariedade religiosa. Os monistas interpretaram o universo, a sociedade, pelo simile da evolução biológica. O que inspirava e unificava ambas as correntes era o mesmo impulso de revolta e de libertação. A revolução social foi a fatalidade desse novo espirito brasileiro. Quasi todos os abolicionistas e todos os republicanos eram emancipados intellectualmente. Transbordando nas duas libertações sociaes, aquelle sublime espirito de mocidade submergiu na inconsciencia nacional e desappareceu do Brasil. O que substituiu foi o instincto rude e cupido. A abolição e a republica dividiram a nação em duas épocas diversas e antagônicas. Os titans da destruição do antigo regimen sentiram-se logo em desequilíbrio com o resultado tumultuario da transformação social. Todos os instinctos mais primitivos, todas as aspirações mais grosseiras desencadearamse sobre a terra brasileira. Ao passo que se foram ^apagando e evaporando as tradições, surgiu o "homem novo" E' o rebento da mestiçagem, a flor da plebe. Com animo de depredar, dominar, gosar, invade a sociedade, de que os seus incertos antepassados eram excluídos. E' vingativo como filho de escravo, que se liberta, rancoroso como um pária, que rumina longamente a sua desforra. E' bestial e ladrão. A sua audácia o leva a dominar pelo terror. A sua astucia o torna bonzo da velhacaria. Ascende ás alturas, mas o traço fundamental não se lhe extingue no successo. Ostenta sempre o mesmo complexo de malvadez, de ganância, de audácia. Vem í ESMRITO MODERNO geralmente de uma raça de salteadores sanguinários e a nação é para elle o campo da rapina. Infiltra-se por toda a parte, onde ha o que comer e o que roubar. Sonha eternamente com a bombança. Si é a política que dá o regabofe, apodera-se delia, si é a imprensa, torna-se jornalista ameaçador, temido de todos, si é o dinheiro, esforça-se por adquiril-o e com elle tudo corrompe. Escrúpulos? Onde buscal-os? Na raça? Mas esta é equivoca. E' a dos mestiços, dos ciganos, e frutificou na torpe promiscuidade. Na educação? Só é efficiente quando tradicional, secular. O "homem novo" é livre, mas a liberdade que despende, não é a independência do espirito, a soberania do pensamento, não é a affirmação da consciência juridica. A sua liberdade é a dos instinctos, a da perversão, a do "avança" aos bens materiaes. Não pensa, não tem idéas, foge de tudo o que lhe elevaria a ânsia de desforra, do próprio anarchismo, do bolchevismo, que ainda são expressões de idealismo. Todo o toque de ideal lhe repugna. Tem pansa e órgãos inferiores. E' o tenebroso demônio da concupiscencia, do ódio e da rapacidade. Se alguns se servem de idéas é para melhor illudir e satisfazer astutamente os appetites da fome e da luxuria. No fundo da rhetorica, que, vaidosos, espadanejam, vibra forte, dominador o instincto voraz e irreprimível. Esses falsos intellectuaes não sobem ás espheras da poesia ou da suprema religiosidade. O espirito lhes é infernal. Agitam-se nos circulos inferiores da política, da imprensa e da rabulice. Esta petulante legião de "homens novos" desarraigados, que tudo devasta, absorve a macula, é a praga, o flagello, a vergonha da sociedade brasileira. Deante da sua invasão, a alma desinteressada da mocidade idealista se eclypsa. Privado desta força vital o Brasil envelhece, soffre de uma crise de decrepitude precoce. Tudo definha na preguiçosa languidez tropical. As energias solares não exaltam os homens e não lhes dão o impulso criador. Exgotam-lhes o animo, entorpecem-n'os, crestam-n'os. Os estrangeiros apoderam-se do paiz e o brasileiro assiste indifferente á conquista tenaz e cobiçosa. Apenas entreteem-se nos jogos medíocres da politicagem, na illusão de governar o que na realidade tem outros donos. Numa dolorosa mistura de decrepitude e infantilidade a intelligencia é débil. Não tem expressão própria, compraz-se na imitação. As idéas recebidas e gastas perduram nesse terreno molle, o passado prolongase indefinidamente. Borbulha uma geração de grammaticos, de poetas mórbidos, enxames de escrevinhadores, germinados na vasa pútrida da intelligencia estagnada. A mocidade, mofina e parasitaria, apega-se ao organismo decrépito da nação... Mas veiu a grande guerra. Foi a incommensuravel ferida humana e a dor universal despertou por toda a parte a consciência dos povos. O Brasil recebeu a onda de resurreição e começou a rejuvenescer pelo sentimento nacional despertado. Teve a prodigiosa revelação de que é uma nação joven, que o espirito de mocidade viera de novo possuidor e fecundar. Desde então se lhe apodera uma ânsia de vida ideal. Se aquelle "homem novo" audaz e cynico, desarraigado e cupido, torpe e venal, ainda persiste nas posições conquistadas durante este longo período de torpor, a elle se oppõe o joven moderno, desassombrado e puro. Este vivificador traz o olhar agudo, que penetra e dissolve todas as mystificações. Nada resiste á sua força de destruição e ao seu empenho de reconstrucção. Elle é hoje o personagem mais interessante e mais tenT tador do drama brasileiro. Onde nos conduzirá esse espirito de mocidade? E' a magia da incógnita, que fascina a nossa ardente curiosidade. E' próprio da juventude a imitação; começa-se quasi sempre seguindo alguém, repetindo alguma cousa. Mas quando os jovens saem das fileiras processionaes e buscam criar uma nova ordem, que maravilha! Imaginemos que no Brasil haja desses jovens iniciadores, e sem muito indagar o que elles querem, contemplemos o que elles fazem.

Não será aventuroso affirmar que a acção desses jovens será a de modernizar, nacionalizar e universalizar o Brasil. São trabalhos formidáveis a que se arriscam. Para executal-os, possuem a gymnastica intellectual que os torna ágeis, decididos, claros e enérgicos. Pertencem a uma geração sportiva, de cuja rudeza athptica livraram o espirito, que plana e ataca. São livres de movimentos, a visão nitida dissipa as miragens, que embaciaram a intelligencia paradoxal dos velhos brasileiros. Ao romantismo, que allucina e. enlouquece, oppõem o senso profundo da realidade e a acção dynamica do objectivismo, inseparável da matéria e expressão da dominante energia espiritual. O accesso febril de literatura, que viciou o ambiente brasileiro, será absorvido pelo excesso de vida do organismo nacional. Não ha mais logar para a arte de fadiga, aquella arte de sanatório que já repugnava ao saudável Goethe. A arte é uma actividade sadia do espirito humano na sua dominação da matéria. E' uma libertação. E ahi está o senso occulto do modernismo, porque o resto, o comprehensivel, a actualidade da arte, a sua manumissão do passado, são conseqüências previstas da própria gymnastica intellectual do artista moderno. O estádio, onde luta, evolve, corre o joven intellectual brasileiro é o seu paiz e o Universo. E' preciso conhecel-os, interpretal-os sabiamente como o athleta conhece a arena. Por isso a mocidade que surge é poderosamente analysta. Analysar a Terra, examinar todas as possibilidades do paiz, sondar os seus abysmos physicos e moraes, é a lição sportiva que retempera a armadura do joven moderno. Por esse supremo methodo, o conhecimento não se limita á analyse das forças actuaes e perennes, estende-se ao passadf para saber as origens, e situar os factos nas sua.s épocas com limpidez e decisão, sem recorrer ao engodo da perspectiva convencional. A acção do joven moderno será eminentemente social. A esthetica, que o inspira, lhe patenteará pela analyse o que é o Brasil e quaes os trabalhos extremos a que se deve consagrar. Na incorporação ao paiz é que está a política dos jovens esthetas. Como as antigas mocidades elles serão actores nos acontecimentos nacionaes. Comprehenderão que o factò capital da sociabilidade de uma nação é o equilíbrio das classes, fundadas em interesse orgânicos. Sem esse equilíbrio haverá despotismo e escravidão. O direito é uma idéa de relação entre os indivíduos, como o espaço é a relação entre os corpos. O direito publico é a fôrma do equilíbrio das classes, como o direito privado é o equilíbrio das famílias e o direito internacional o dos Estados. No Brasil só ha uma classe organizada, a classe militar. Só ella tem as condições de vibratilidade, expansão, consciência collectiva que a tornam um verdadeiro organismo. E' preciso que as outras classes se organizem para que se realize o equilíbrio nacional e se pratique de verdade o direito publico. Tal é o grande trabalho político a que é chamada a intelligencia brasileira. E' uma obra de construcção que se serve de elementos materiaes, interesses econômicos, riquezas, cooperação de bens, socialização da terra para equilibrar as classes e visa como synthese a cultura espiritual da nação. Certamente não ha cultura collectiva no Brasil. As populações jazem afundadas na ignorância selvagem, de que o animismo fetchista é a expressão viva, a feição pitoresca que o diletantismo literário explora e não quer ver substituída pela civilização. Dessa matriz do primitivismo pôde sahir ingenuamente muita belleza e muita emoção. Mas será a resultante natural e espontânea da gente singella. Aquelles que receberam o fluido da cultura, e cujos olhos se desvendaram, não podem voltar á innocencia perdida. Em vez deste artificio, deste recurso desperado ou fallacioso ao dilúvio da ignorância para que appellam os povos fatigados, o que nos compete fazer é extremar a cultura, manejal-a como alavanca que revolva e prepare o terreno para a construcção que desafie a natureza, liberte-se delia, seja obra pura do espirito livre, creação humana independente, sem a imitação das formas innumeraveis, que para a obra de imitação nos offerece insidiosamente a natureza. A máxima cultura não só vence a matéria universal e cria verdadeiramente o homem, como o liberta da deformação sentimental, da inversão dcs valores que a péssima e deficiente cultura espalha. Toda a praga literária é extirpada. O romantismo, que fôrma a literatura dos possessos, dos melancólicos, é dominado pelo espirito moderno objectivo e dynamico. Se este realismo nos leva ao classicismo, seremos clássicos, no sentido de simples, directos, íntimos das cousas, indifferentes á literatura e ás suas pompas. E esse classicismo profundo, porque é o pensamento e a linguagem de uma "classe" e ' essa classe é a dos espíritos cultos, separa-nos de todo aquelle classicismo verbal, de palavras mortas, de phrases antiquadas exclusivamente literário e artificial, que a nossa imprecisão technica considera modelar por ser o estylo e a lingua dos velhos escriptores. O joven moderno possue a technica, que lhe dá a segurança, oriunda do conhecimento. O seu processo mental, rápido e desassombrado, sabe classificar e eliminar para melhor agir. Sobretudo é criador de personagens, de idéas, de imagens, de expressões que são disciplinadas á sensibilidade do nosso tempo. Se alguns ainda não disassociaram a matéria e as sensações e prolongam a confusão, pouco a pouco se vae realizando esse trabalho intimo de discriminação. Não tardará muito que os homens modernos deixem de repetir o grego, o gothico, a renascença pelo ferro e pelo cimento. A estes materiaes modernos devem corresponder criações independentes e actuaes, que satisfaçam logicamente ás sensações de mobilidade e firmeza que elles suggerem. Assim será nas outras artes, na poesia e no romance, uma naturalidade suprema, que é o segredo da harmonia transcendente dos elementos da construcção espiritual. Essa esthetica é a expressão de toda a energia moderna. Se o Universo só pôde ser entendido estheticamenfe, na impossibilidade de uma explicação rigorosamente scientifica, afastadas as hypotheses religiosas, o conceito esthetico alarga-se e vale pela philosophia que elle absorve integralmente, porque para o espirito humano tudo é forma, tudo é imagem, tudo é arte. A psychanalyse enganarse-ia se, numa pretenção philosophica, reduzisse o conceito da vida humana ao paradoxal pansexuaIismo. Ha muita cousa no homem e na vida humana extranha á subconsciente fúria sexual. Nada ha, porém, extranho á intelligencia e esta é soberanamente esthetica. O "pan-esthetismo" é o reducto do espirito humano e delle não ha força philosophica, religiosa ou scientifica que o desaloje. O espirito tudo transmuda em funcção esthetica, seja a religião pela criação das formas, pelo movimento ascensional do homem á divindade, seja a sciencia na analyse, na synthese, na transformação da matéria, seja a arte pela naturalidade realizadora dos valores essenciaes e pela fusão do ser humano no Universo, seja a política no equilíbrio das classes, na geometria da construcção nacional, na trajectoria do destino do paiz, seja a simples vida que é a busca da harmonia entre os seres e destes com o Universo, de que são fragmentos, em tudo a esthetica como a sublime luz, que é dada aos ephemeros para perceber nas miragens da consciência o inexorável e infindo mysterio do Inconsciente. A Esthetica é uma philosophia de mocidade, porque só a mocidade sabe e pôde vencer o Terror e transformar tudo em alegria.

Espirito M o der n

1/1
Menu

Fazer anotação