Dostoievsky, Pantheismo e Gênio Espírito Moderno · Capítulo 9 de 12
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Dostoievsky, Pantheismo e Gênio

DOSTOIEVSKY

O dualismo de Dostoievsky vae ao extremismo manicheu. Os dous eternos princípios do Bem e do Mal perpetuamente distinctos, independentes um do outro, egualmente absolutos. Para esse dualismo a omnipotencia do Diabo é ao mesmo tempo bene< fica e funesta. Se ella é a origem do mal, do. peccado, o peccado é necessário á redempção, porque faz a alma passar pelo soffrimento, indispensável á salvação. Para Dostoievsky e seus epígonos christãos evangelistas a esthetica é uma funcção diabólica. "Não ha arte sem collaboração do demônio" exclama André Gide. William Blacke havia dito que Milton quando "pintara" Deus e os Anjos era constrangido, ao passo que "pintara" o Diabo e o inferno na liberdade "porque elle era um verdadeiro poeta, e do partido do Diabo sem o saber" Atormentado pela idéa do mal, pela necessidade do soffrimento, Dostoievsky viveu preoccupado pelo sentimento da justiça. O dualismo leva a Arte ao moralismo, ao julgamento dos actos, a pesar a vida segundo o critério do Bem e do Mal. A philosophia da Unidade leva o artista ao esthetismo, a considerar a vida indifferente ao bem ou ao mal. Suppor a Arte uma expressão da concupiscencia, uma volúpia, um fruto prohibido, é introduzir o elemento moral na funcção por excellencia do espirito humano, na esthetica, inteiramente alheia ao senso ethico. A investidura do Diabo em creador da Arte é uma puerilidade medieval indigna de attenção em nossa época. Os Cânticos de S. Francisco de Assis são pura obra de arte, cuja poesia pantheista annuncia o Renascimento. Que se entende por "santo"? E' sempre o conceito restricto, a porta estreita. Mas a arte é soberana, inseparável do homem que ella liberta e torna um deus creador. O dualismo determinou em Dostoievsky o interesse profundo e exaltado pela natureza humana. Se o mundo é campo da lucta dos dous princípios do Bem e do Mal, se todo o esforço do homem é livrar-se do mal pela redempção da alma, nada mais primordial do que estudar o homem e a sua capacidade de vencer o mal. Dostoievsky engrandeceu-se nesta analyse. Sondou os abysmos da alma humana e os revela e os expõe com uma audácia cruel e trágica. Pelo gênio da observação é da expressão do insondavel e do inexplicável tornou-se um prodigioso e pathetico artista. No seu processo de claro escuro ha mais escuridão do que claridade e nisto está o mysterio da sua arte. Seria o processo de Rembrandt, em que as figuras impressionam mais pelo que escondem nas sombras do que pelo que ostentam em plena luz. Dostoievsky não descobre os seus personagens. Deixa que lhes adivinhemos as monstruosidades e neste aspecto enigmático está o segredo indefinivel do criador. Por nossa vez também compomos esses personagens; alguma cousa de nós mesmos os anima, dá-lhes um pouco da nossa essência e por isso vivem em nós. Realiza-se a communhão esthetica entre o observador e a figura criada pelo artista, e esse goso ineffavel é a realidade transcendente da obra de arte. Não ha duvida que a analyse e a revelação dos abysmos da alma humana dão á arte de Dostoievsky a eternidade. Mas não é toda a Arte. Para Dostoievsky os homens estão isolados no Universo, vivendo entre si e apenas em espiritual correspondência com Deus ou com o Diabo. Não realizam a unidade cósmica. Vivem na perpetua dor.

PANTHEISMO SEM A NATUREZA

A opposição entre o nosso eu e a natureza subsiste como insubstituível dualismo. Mesmo no conceito pantheista imaginar-se que existe a Natureza eqüivale a idéa de um Todo, que não somos nós ou a que somos estranhos. Imaginar-se a unidade desse todo universal a que somos incorporados, é ter-se uma idéa que se oppõe ao nosso eu irreductivel, que só pelo pensamento é absorvido na idéa do Todo. Ainda mais, a formula corrente de que o espirito deve vencer a matéria, ou que a arte e a philosophia subjugam a matéria universal e fundem o nosso eu no Todo infinito, tudo implica no conceito do dualismo enraizado no espirito humano e que inspira esse falso pantheismo philosophico, que no sentido clássico quer dizer a substancia universal e os seus modos. A noção da natureza é opposta á idéa do todo, a idéa unitária, e por isso o pantheismo transcendente é o "pantheismo sem a natureza" Combater a natureza, contrarial-a, é reconhecel-a não somente como realidade mas como entidade. O pantheismo sem a natureza elimina esta, absorve-a no próprio eu pensante e não a imagina, não a suppõe, o que lhe seria dar existência e criar subtilmente o dualismo. O ser é um todo absoluto sem matéria e sem espirito. A idéa transcendente da existência extingue as apparencias, em que se fracciona o Todo. Idealmente não podemos pensar a natureza sem nos pensarmos nós mesmos. Somos a natureza, como ella é o nosso ser. O pantheismo sem a natureza realiza a unidade, que não é uma continuidade, não é um principio nem um fim. E' o ser único, indivisível, eterno. Pensar não é separar?

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A HARMONIA DE UM LOUCO

O que surprehende nesse bardo louco é a secreta psychologica, que se adivinha na harmonia da sua expressão intellectual. O seu typo israelita, a barba crespa, a pelle pallida, os negros olhos faiscantes, suggeriram-lhe a miragem de também ser rei dos judeus. Era o ponto central da sua allucinação. Partindo dahi tudo o mais se equilibrava. Era um antigo e despresava a vida moderna. O classicismo da sua arte inspirava-se nas raizes do espirito oriental mediterrâneo. Acabou esquecendo-se de que era brasileiro, cearense, vindo do ardente cháos tropical, para ser um sereno ante-passado de si-mesmo e remontar ao mais perfeito equilibrio do pensamento clássico, que em seu tempo disciplinou o Universo. Que mysterio mais pungente e mais, profundo do que o da loucura, que obedece a uma harmonia interior, que não vacilla no julgamento esthetico, que é certeira no verso, ágil na cultura e fabrica placidamente a belleza? Foi o mysterio do bardo louco. Foi também o mysterio de Torquato Tasso.

OS ENYGMAS DO GÊNIO

O signo do gênio conserva-se na raiz da própria palavra, que a philologia revela do segredo das raças antigas.A raiz sanscrita gaen ou gan não deformada na migração secular marca o signal da criação. O gênio é a intelligencia criadora, que inventa, inicia uma nova ordem de cousas, é o principio gerador. A intelligencia é uma funcção do cérebro, determinada pela evolução das cellulas cerebraes. Ha uma relação entre o desenvolvimento craneano e a intelligencia. A evolução anatômica prepara a evolução physiologica. Pela hereditariedade a intelligencia transmitte-se perpetua-se, adapta-se ás condições do meio. O gênio, como a intelligencia, não é privilegio do homem. Por maiores que sejam o mecanismo e a rotina dos actos animaes, ha entre estes positivamente gênios inventores de novos hábitos ou modificadores dos instinctos. A hereditariedade da intelligencia é inherente á vida animal. Não ha hereditariedade do gênio. Este é um caso phenomenal de mutação physiologica. A intelligencia continua na espécie, constante e regular. O gênio apparece subitamente como um sortilegio da intelligencia. A causa que determina essa mutação da intelligencia em gênio, isto é a transformação da faculdade de comprehender, applicar, desenvolver o que foi adquirido pela espécie em poder de criar e inventar, que é a característica do gênio, como explicar? Só uma hypothese parece admissível, a da acção catalyca nas cellulas cerebraes, agentes catalysadores causam a mutação. A theoria chimica da catalyse repousa sobre o principio de que o catalysador é um corpo, que modifica a velocidade de uma reacção chimica sem apparecer elle mesmo nos produetos resultantes dessa reacção (Berselius, W. Ostwald). E' um problema de cinetica chimica. Por extensão applicamos o mesmo principio para explicar a reacção, que nas cellulas cerebraes transforma a intelligencia em gênio. Quaes são, porem, os agentes catalysadores, que pela acção de presença no cérebro operam nestes a faculdade de criar e inventar, é ainda o enygma da sciencia. A hypothese é proposta para a orientação da physiologia, que aprofundará os problemas levando a analyse ao conhecimento exacto da catalyse, que dentro das forças naturaes produz os milagres do gênio. A acção catalyca poderá ser mais ou menos lenta e assim o gênio mais ou menos precoce. A precocidade do gênio manifesta-se geralmente em ordens de culturas, pelas quaes passou a humanidade nas primeiras phases da sua evolução. Desse facto se poderia concluir pela possível applicação á evolução mental do homem da lei fundamental da biogenia. A evolução do indivíduo é uma recapitulação abreviada da evolução da espécie. A evolução intellectual do homem reproduziria as phases successivas da evolução mental da espécie humana. A mais antiga expressão da cultura é a cultura artística. O homem, animal essencialmente artista, exprimiu a sua mais remota emoção intellectual pintando, esculpindo, dansando, cantando, construindo. A esta " phase da cultura artística succedeu a da cultura mathematica. O homem disciplinou o Universo na geometria e no numero. Quando pela mutação intellectual apparece um gênio, na infância ou na juventude do homem, elle é artista ou mathematico. Não se vê jamais um gênio biólogo ou sociólogo infante ou adolescente, porque a biologia ou a sociologia como culturas se tornaram familiares ao espirito humano em épocas recentes. Ainda não passaram do consciente ao inconsciente collectivo para serem recapituladas em maravilhosas manifestações infantis. Certamente em período longínquo da evolução intellectual surgirão gênios juvenis, bio8 ESPIRITO MODERNO logos ou sociólogos, quando a biologi^ e a sociologia pela longa paciência passarem ao inconsciente da espécie. A grande maioria dos gênios, que se manifestam precocemente não se limitam a recapitular ou reproduzir as acquisições da cultura. Por serem gênios são progressivos criadores de uma nova ordem, mesmo naquillo que pareça ter a humanidade attingido o máximo da expressão. Se ha uma constância intellectual, se a evolução physiologica é completa e fixa desde que o homem na evolução da espécie ficou anatomicamente formado, se a energia intellectual correspondente á massa cerebral é sempre a mesma, seja qual fôr o gráo de cultura da humanidade, esta hypothese não exclue a hypothese da mutação pela catalyse para explicar o apparecimento do gênio. A mutação combina-se perfeitamente com a constância intellectual. Dentro desta verifica-se a transformação da intelligencia constante em gênio phenomeno. Os enygmas do gênio serão resolvidos pela sciencia que para explical-os não recorre ao mysticismo da nevrose e ao da inspiração divina ou diabólica. O gênio é um facto natural e sadio de mutação da intelligencia por uma acção catalyca ainda incógnita.

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