O Espirito Acadêmico Espírito Moderno · Capítulo 4 de 12
Obra Menu

O Espirito Acadêmico

O ESPIRITO ACADÊMICO

(*) Resposta ao sr. Mario de Alencar, relator da commissão da Academia Brasileira nomeado para dar parecer sobre o seguinte projecto apresentado a Academia em 3 de julho de 1924 para reforma dos seus trabalhos: 1) O diccionario, que a Academia pretende fazer, será o "Diccionario da Lingua Portugueza" Nelle serão incorporados todos os vocábulos e phrases da linguagem corrente brasileira, impropriamente chamados brasileirismos. Os "portuguezismos" ou expressões da linguaguem usada exclusivamente (em Portugal, sem uso corrente no, Brasil, não serão introduzidos nesse diccionario brasileiro da lingua portugueza. 2) A Academia não aceitará para os seus concursos : a) poesias parnasianas; arcades ou clássicas;

b) poesias, romances, novellas, contos ou qualquer trabalho de ficção, de assumpto mythologico, que não seja do "folk-lore" brasileiro, tratado com espirito moderno; c) obras de historias estrangeira, antiga ou moderna. As obras históricas brasileiras devem ser 'tratadas com espirito critico moderno, que sabe situar o passado e libertar-se do passadismo. 3) A Academia promoverá conferências publicas, feitas pelos acadêmicos, exclusivamente de assumptos actuaes philosophicos, estheticos, literários ou sociaes, que tenham relação com a cultura brasileira. 4) Todos os trabalhos publicados pela Academia, as conferências dos acadêmicos e as obras premiadas pela

Academia serão em linguagem corrente, usual, expurgada de todo o archaismo ou de expressões do denominado classicismo verbal portuguez. 5) A Academia fará cada semestre um estudo critico moderno do movimento literário brasileiro, tendo em attenção principalmente as novas correntes philosophicas, literárias e artísticas. 6) A Academia fará imprimir as obras dos jovens cscriptores, que não encontrem editores e trouxerem á literatura brasileira originalidade e modernidade. 7) A Academia solicitará dos escriptores modernos, premiados ou não por ella, trabalhos originaes para a sua revista."

O illustre relator do parecer, o sr. Mario de Alencar, comprehendeu que era opportuno acceitar o debate esthetico, que foi proposto publicamente á Academia Brasileira por um dos seus membros, e sem temor, com elegante cortezia e muita dignidade, se tornou o mais competente, o mais arguto e por isso o mais temível defensor do espirito acadêmico. Apresentando uma solução neutra, uma opinião média, estribando-se no preconceito do gosto e na categoria metaphysica da belleza em si, o sr. Mario de Alencar entendeu que a Academia não pôde ter uma attitude literária extremada, que se firme em critério individual. As Academias são o somnolento refugio do scepticismo. Para o espirito acadêmico tudo é permittido, desde que se busque a "belleza em si" "tudo é legitimo em arte com a condição de ter "belleza" e "sinceridade" "tudo em belleza" é eterno, está fora da noção do tempo, não ha passado, nem presente, a própria alma archaica vive na actualidade uma resurreição; as suas fôrmas, as suas imagens, os seus archaismos são legítimos" Contra este espirito acadêmico, que leva ao diletantismo esthetico e á inacção social, reage o espirito moderno. A questão essencial, que foi proposta ao exame da própria Academia Brasileira, é a de indagarmos se é preferível que ella continue a ser uma simples sociedade de passatempos literários, mais ou menos estéreis, a transformar-se em órgão activo da vida nacional, dynamo da espiritualidade brasileira. O projecto de reforma dos seus trabalhos e da sua orientação em seguida á conferência sobre o "Espirito Moderno" aspirou dar um golpe definitivo ao eclectismo acadêmico, e extremando a acção da Academia, tornal-a um organismo útil á literatura braleira, um factor social incorporado ao sentimento nacional, seu representativo, seu guia. Para cumprir-se tão urgente funcção, fôrâ preciso a Academia nacionalizar-se e modernizar-se. Seria impertinencia imaginar-se que o projecto pretendeu dar lição de patriotismo á Academia. Não se cogitou de preoccupação tão restricta. O nacionalismo que se exige da Academia, é a intelligencia do enthusiasmo brasileiro, é a conformação

5/ á vontade de ser brasileiro em tudo, é o impulso perenne e infatigavel a todas as affirmações do espirito brasileiro. A condição essencial do "ser brasileiro" é ser moderno. Se somos uma nação nova, se ainda estamos a caldear as raças formadoras do paiz e a conquistar os nossos desertos, se somos arrebatados para o futuro pela miragem da esperança, como voltar os nossos olhos para trás, rebuscando inspiração nas incertas tradições de confusos ou desdenhados antepassados? Literatura, quando a vida se nos abre feraz e voraz, quando de cada gotta do nosso sangue jorra o impeto da creação, que vence a matéria e é uma força natural, e não tem memória livresca. O modernismo é a funcção do nacionalismo. Seria um disparate uma terra joven e tropical, uma nação adolescente cobrir-se das cans portuguezas, baralhar caducas allegorias gregas, brincar com insipidos tropos latinos. São estes os jogos que propõe o espirito acadêmico á intelligencia brasileira. A illustre commissão da sceptica Academia responderá que nacionalidade e modernidade são jugos a que ninguém se exime. E' paradoxal o subterfúgio acadêmico. Quantas tradições a falsa cultura não impõe ao nosso sangue brasileiro, á alma nacional, que nos inspiraria outras creações se a deixássemos livre ou a orientássemos dentro do seu próprio quadro sentimental? Quantos nefastos desvios da actualidade não soffremos pelo pérfido veneno do passado? Em apoio do absolutismo da sua these, o parecer evoca o caso de três grandes escriptores, que se conservaram sempre eminentemente brasileiros, apesar da cultura européa, de que foram insignes portadores neste paiz. O testemunho da obra desses escriptores destróe a demonstração que tenta inutilmente o parecer. O que nella attestamos é o esforço de cada um delles em deformar a nacionalidade do seu temperamento, vencel-a, expulsal-a. Machado de Assis fez-se artificialmente saxonio ou clássico hellenico, quando não simples portuguez. Ruy Barbosa deformou a sua naturalidade brasileira, provinciana, na armadura quinhentista, tomou modelo aos inglezes e americanos. Joaquim Nabuco, de inspiração romana, ingleza, foi escriptor francez. "Eu lia muito pouco o portuguez, confessa elle, na minha mocidade. o resultado foi que me senti solicitado, coagido pela espontaneidade própria do pensamento, a escrever em francez. Com effeito, não revelo nenhum segredo, dizendo que a minha phrase é uma traducção livre e que nada seria mais fácil do que vertel-a para o francez, da qual ella procede." Em todos elles o caracter nacional soffreu a deformação dos antigos ou dos estrangeiros. Não foram escriptores modernos, nem integralmente brasileiros. Seriam ainda mais nossos se fossem fieis á pureza nativa, que lhes brotou o engenho, e não deformados pela falsa cultura, que tornou mortas as partes artificiaes das suas obras. Todo o esforço do espirito acadêmico é desnacionalizar e envelhecer o escriptor, tornal-o um neutro elegante, um producto convencional da literatura. Por isso o espirito acadêmico proclamará, como o parecer, jue todos os grandes escriptores de todas as literaturas se inspiraram dos themas do passado, da mythologia clássica, das lendas, da historia nacional ou estrangeira. Se a literatura brasileira tivesse constantemente homens universaes da genialidade de Shakespeare, Milton, Goethe, Schiller, Racine, Shelley, Byron, Baudelaire, Mallarmé, tudo lhes seria permittido, e o passado seria a eternidade. Mas os nossos Shakespeares, quando se embrenham no passado e se servem das lendas clássicas ou peregrinas, praticam a falsificação fria e ensossa. E' exactamente para evitar esses exercícios de pura rhetorica, de virtuosismo e diletantismo, que a Academia, na sua funcção nacionalista, é convidada a afastar dos seus concursos as obras de assumpto estranho á alma brasileira. Não quer dizer que esta restricção prive a nossa literatura de obras históricas ou lendárias de fundo estrangeiro. A

Academia é que não as deve estimular, para obedecer á tactica da tentativa da sua renovação, que se ajusta ao pensamento capital de nacionalizar e modernizar o espirito brasileiro. No empenho de vivificar o nacionalismo literário, o projecto suggeriu que fossem admittidos aos concursos da Academia os trabalhos inspirados no folk-lore brasileiro. Seria incitar os jovens escriptores a descer ás fontes da magia nacional, e das lendas raciaes criar com espirito moderno obras infinitas. Seria dar vida perenrie ao que de mais remoto jaz em nossa memória collectiva. O parecer recusou-se a comprehender que nesta restricção o pensamento do projecto era proporcionar á Academia uma funcção de nacionalismo moderno. Defendeu o ponto de vista eclectico, insistiu para que igualmente sejam acceitos trabalhos provindos da mythologia grega e concluiu, categoricamente, que supprimir symbolos como o de Prometheu, Apollo, Minerva, Venus e semelhantes seria fechar o próprio pensamento. Quantas raças existem que não conhecem a mythologia grega? Quantos escriptores chinezes, japonezes, hebreus, hindus, árabes, orientaes em geral, philosophos, moralistas, poetas, romancistas, são inteiramente estranhos ao Olympo e suas figuras? Quantos no próprio occidente tiveram pensamento aberto ao universo, o espirito alado, e ignoraram ou pelos menos não deram attenção a esses deuses gregos? Não é provável encontrar-se uma só reminiscencia de mythologia clássica nos poemas sublimes desses creadores da poesia moderna, Walt Whitman, Lautréamont; talvez por acaso uma vaga allusão de Rimbaud ás Erynnias. Foram poetas e não literaflõs. Os mythos gregos estão mortos, não ha sensibilidade moderna que os resuscite. Os nossos só agora estão nascendo para a esplendida vida universal. Os gregos fixaram os seus mythos pela crystallização, em que entrou o próprio espirito criador delles. Ao que receberam deram fôrma e vida, e os mythos, as allegorias, incorporaram-se á alma hellenica. Com a morte do paganismo foram-se-Ihes a força e a vida, tornaram-se puras ficções literárias. Libertemo-nos do fardo de as repetir. Creemos as nossas imagens de accôrdo com a vida contemporânea, como os hindus, os egypcios, os gregos e todos os antigos crearam os seus deuses e os seus mythos, que foram idéas-forças. A nossa cultura transformará em cousa viva as lendas da nossa natureza, que são a expressão mais intima do nosso meio physico. A metaphora vem da vida. E' preciso coincidir, dizem os modernistas, com o tempo, com o presente. A metaphora é a imagem crystalizada da crença, do totemismo, como será a imagem dos factos physicos, das entidades naturaes que movem o nosso espirito e alimentam as nossas idéas. A metaphora clássica é o lugar commum. A metaphora moderna é a surpresa esthetica da realidade. Para repellir a offensiva do espirito moderno, a metaphysica acadêmica inspirou ao subtil defensor da Academia uma these estranha. "Haverá ao puro aspecto da belleza em si e ás* formas da belleza, pergunta o parecer, lugar para a distincção do passado e do presente?" E conclue affirmando: "O que é certo é que só o passado dá a matéria da poesia" A belleza em si? E' inútil accentuar a inanidade dessa vaga metaphysica. As "cousas em si" não resistem ao critério relativista, que domina todo o conhecimento. Não é preciso invocar o apoio do moderno Einstein, basta recordar que o passadista Protagoras inscreveu a formula do relativismo philosophico, quando proclamou ser o homem a medida de todas as cousas. Na idéa de belleza não está a essência da arte. Na "Esthetica da Vida" escreveu-se: "A associação da idéa de belleza á idéa de arte é perturbadora para a verdadeira explicação do sentimento esthetico. Nenhum preconceito tem sido mais vivo do que este que faz do bello o fim da arte e a razão de ser. A essência da arte, que está naquelles sentimentos vagos da unidade com o Universo, não se pôde restringir ao conceito abstracto do bello. A arte não reside somente naquella sensação indeterminada do que convencionalmente se chama belleza. Que é a belleza? Nada mais indefinivel e incerto. A belleza em si, a belleza transcendente, é uma idéa abstracta, cujo subjectivismo é infinitamente variável. O bello é um perpetuo equivoco entre os homens" Neste conceito da relatividade encontra-se a justificativa da opportunidade do espirito moderno. Se a essência da arte reside na emoção do Universo, no espirito humano, que é transmittida pelos sentidos, produzindo-se em fôrmas, sons, cores, tactos, sabores, palavras, essas expressões são susceptíveis de variação, conforme a evolução da sensibilidade. O contrario seria suppôr a absurda parada da vida, da intelligencia e do sentimento. O passado é o que foi; deslocal-o para o presente é deformação, é decadência. Queremos creação, coincidência. A verdadeira tradição do espirito é progredir, não estagnar, não retroagir. A .bizarra conclusão do parecer de que "só o Passado dá a matéria da poesia" é o supremo paradoxo acadêmico. Não haverá poesia no movimento, na esperança, na illusão, no perpetuo fieri do Universo? Onde mais intima poesia do que a nossa actualidade exaltada, porque é a vida que estamos vivendo, tecida com os nossos desejos, nossos enganos, nossos êxtases e nossas misérias? Que manancial de poesia mais allucinante do que o do amor, que nos arrebata, nos faz soffrer e esperar, nos domina e nos mata? A Academia, envolta em sua formula passadista, responde a estas interrogações anciosas que para ella só o Passado dá a matéria da poesia... Ao seu culto da Morte nós oppomos a poesia da vida, da energia, do momento, da esperança, do futuro.

O projecto foi rejeitado. O seu autor dirigiu a Academia a seguinte carta de adeus:

Rio de Janeiro, 18 de outubro de 1924. Exmo Snr. Presidente da Academia Brasileira, Desde que na sua ultima sessão a Academia rejeitou o projecto que apresentei no intuito de modernizar a sua actividade, dou por extincta a minha funcção acadêmica. Poderia afastar-me sem explicações, como outros já fizeram por motivos pessoaes, num gesto de desdém por essa instituição. A attitude, porém, que tomo, é de ordem geral e deve ser explicada. Convidado para membro fundador da Academia, escrevi a Lúcio de Mendonça recusando a minha participação por julgar a creação desse instituto prejudicial á nossa joven literatura, cuja vibração e desordem fecunda seriam juguladas pelo espirito acadêmico. Machado de Assis e Joaquim Nabuco insistiram de tal fôrma pela minha collaboração, que, num sorriso sceptico, me resignei á Academia, louvando a incoherencia, que me fazia companheiro de tão grandes espíritos, infrangiveis espelhos de educação e belleza moral para os acadêmicos. Longos annos deixei-me ficar nesse suave convivio, um pouco desinteressado dos trabalhos da Academia. Ultimamente resolvi intervir no movimento literário brasileiro. A Academia é uma contradicção do espirito moderno, que agita e transforma todo o Brasil. Perante a opinião publica, que a deve policiar, entendi estimular a Academia a orientar-se por esse espirito novo. Em seguida ás palavras que lhe dirigi apresentei o projecto de%eforma dos seus trabalhos com o propósito de nacionalizar-lhe e modernizar-lhe a acção. O projecto foi rejeitado. A Academia quer persistir na sua posição ecclectica e antiquada, nefasta á literatura brasileira. Recusa-se a tornar-se um organismo útil e activo, um factor do moderno sentimento nacional, seu representativo, seu guia. A Academia Brasileira morreu para mim, como também não existe para o pensamento e para a vida actual do Brasil. Se fui incoherente ahi entrando e permanecendo, separo-me da Academia pela coherencia. Queira, Sr. presidente, receber as expressões da alta consideração do seu admirador e amigo."

1/1
Menu

Fazer anotação