O Gravador Ligado O crime do Canal 4 · Capítulo 9 de 12
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O Gravador Ligado

A luz vermelha do gravador piscava no centro da sala como aviso de incêndio íntimo. Helena ficou parada na entrada, o ouvido ainda zunindo do tiro no arquivo técnico, a fita Betacam presa contra o corpo e o cheiro de espuma velha entrando pela garganta. Rui fechou a porta atrás deles e encostou as costas nela. Do outro lado, passos desciam a escada de metal.

"Quem colocou isso aqui?", ele perguntou.

Helena não respondeu. A sala era pequena, revestida por placas acústicas cinzentas já descolando nos cantos. Havia duas cadeiras, uma mesa estreita aparafusada ao chão, um interruptor quebrado e marcas circulares no teto, lugares onde câmeras tinham existido ou onde alguém queria que parecesse que tinham sido removidas. Nada de janela. Nada de saída aparente.

Ela se aproximou do gravador sem tocar. O visor mostrava vinte e sete minutos de gravação.

"Está gravando desde antes da gente chegar", Rui disse.

"Ou alguém começou quando ouviu a gente no corredor."

"Nando?"

"Nando está longe demais."

Helena olhou ao redor, procurando fio, transmissor, qualquer sinal improvisado. Sob a mesa, uma tomada antiga tinha um adaptador novo. Ao lado dele, preso com fita isolante preta, havia um pequeno modem de internet móvel. A sala sem câmera não estava sem olhos. Só trocara imagem por som e sinal.

Do lado de fora, Valdir bateu na porta.

"Abre, Rui."

Rui segurou a maçaneta com a mão esquerda. "A fechadura não aguenta."

"Então a gente usa o tempo que ela der."

Helena tirou o celular, fotografou o gravador, o modem, as marcas no teto, a mesa, a porta. A bateria caiu para dezoito por cento. Ela abriu o aplicativo de gravação e aproximou o aparelho do gravador digital. Não precisava copiar tudo. Precisava de algo que provasse que aquela sala existia e estava ativa.

O gravador emitia som baixo pelo alto-falante. Vozes abafadas. Helena aumentou o volume.

Primeiro veio silêncio, depois uma respiração irregular, depois a voz de Lígia.

"Você não pode continuar escondida, Marina."

Rui virou devagar.

A voz de Marina respondeu, rouca, mais velha do que no vídeo da fita mãe. "Eu fiquei escondida porque você precisava que eu continuasse viva."

Helena sentiu o ar da sala enrijecer. A gravação era recente. Não era arquivo de dez anos. Marina estivera ali. Talvez naquela manhã. Talvez minutos antes.

Valdir bateu de novo. A porta tremeu.

"Abre agora."

Helena colocou o celular mais perto do alto-falante.

Na gravação, Lígia falou: "Você não tem mais índice. César morreu, Rui não lembra metade, Samuel não vai se sacrificar por você. Acabou."

Marina riu uma vez, sem alegria. "Rui lembra o bastante. Só precisa parar de ter medo da irmã descobrir."

Rui fechou os olhos. Helena não olhou para ele. Não agora.

"Onde ela está?", Rui sussurrou.

"Aqui esteve."

"Helena..."

"Quieto."

A gravação continuou. Havia ruído de cadeira, talvez Marina se mexendo. "Você ainda usa a sala porque confia na vergonha dos outros. Gente entra aqui achando que não vai deixar registro. Aí descobre que registro sempre foi o negócio de vocês."

Lígia respondeu mais baixo. "Você quer dinheiro?"

"Quero transmissão."

"Ninguém vai colocar você no ar."

"Já coloquei."

O som parou por dois segundos. Depois veio uma pancada, um objeto caindo, Valdir falando longe: "Ela está com dispositivo."

Rui soltou um palavrão. Helena pegou o gravador. O aparelho estava quente, pequeno o bastante para caber no bolso do blazer. Quando o levantou, viu um envelope pardo preso embaixo da mesa, colado com fita dupla face. Puxou. Dentro havia uma chave magnética sem identificação e uma folha dobrada em quatro.

Na folha, escrito em caneta azul:

SE VOCÊ CHEGOU AQUI, HELENA, NÃO CONFIE NO PRIMEIRO ÁUDIO. CONFIE NA PORTA QUE NÃO APARECE NA PLANTA.

Rui leu por cima do ombro dela. "Porta?"

A fechadura estalou com a terceira pancada de Valdir. Rui empurrou o corpo contra a porta. A madeira rangeu.

Helena passou a mão pelas paredes de espuma. A primeira parede era sólida. A segunda também. Na terceira, perto do rodapé, uma placa cedeu meio centímetro. Ela arrancou a espuma com as unhas, revelando uma chapa metálica fina e um leitor antigo de cartão escondido atrás de uma tampa plástica.

"Chave", Rui disse.

Ela encostou o cartão do envelope. O leitor apitou. Um pedaço da parede destravou para dentro, abrindo passagem estreita e escura.

"Isso não estava no prédio original", Rui disse.

"Depois você reclama com o arquiteto."

A porta principal cedeu mais um pouco. Valdir enfiou o ombro. Um dos seguranças xingou do lado de fora. Helena empurrou Rui para a passagem e entrou atrás, segurando a fita, o celular e o gravador. A parede secreta fechou devagar demais. Pela fresta, ela viu Lígia aparecer no corredor. A diretora olhou direto para a abertura, não para a porta principal.

Lígia sabia.

A passagem cheirava a poeira seca e cabo aquecido. Era um corredor técnico entre paredes, estreito, com conduítes baixos e lâmpadas de emergência a cada cinco metros. Helena caminhou curvada. Rui vinha logo atrás, respirando pesado.

"Ela te deixou chegar aqui", Rui disse.

"Marina?"

"Ou Lígia."

"Marina deixou a chave. Lígia sabia da porta. São problemas diferentes."

O corredor terminava em uma escada de ferro que subia para uma sala de equipamentos. Helena empurrou a tampa e saiu atrás de um rack de servidores antigos, em uma sala gelada, tomada por luzes verdes e cabos coloridos. Do lado de fora, por uma janela interna, via-se a redação do Canal 4. Repórteres digitavam, editores gritavam horários, uma estagiária atravessava carregando copos de café. Ninguém sabia que, a poucos metros, um homem armado caçava uma fita.

Rui trancou a tampa por dentro. "Essa sala tem rede."

"Ótimo."

"Também tem log. Se eu conectar alguma coisa, eles veem."

"Eles já sabem."

Helena colocou o gravador sobre a bancada e olhou para os computadores. Um terminal de manutenção estava ligado, sem senha, aberto em uma tela de transferência de arquivos. Na lista, uma pasta chamava `SALA_SC_RECENTES`. Dentro dela havia áudios numerados por data. A gravação mais nova tinha horário de quinze minutos antes.

Ela conectou o celular por cabo ao terminal. A bateria passou a carregar devagar. Rui ficou ao lado, dividido entre ajudar e fugir.

"Você consegue copiar?", ela perguntou.

"Consigo."

"Então copia."

"Para onde?"

"Para qualquer lugar que não dependa da emissora."

Rui abriu uma janela de envio, digitou comandos rápidos, apagou, digitou de novo. Suava. Não era culpa simples. Era pânico de alguém que voltou ao lugar exato onde errou e encontrou a porta ainda aberta.

"Rui."

"Estou fazendo."

Na tela, os arquivos começaram a subir para um endereço temporário. Helena mandou mensagem para Nando com o link assim que apareceu. A resposta veio quase instantânea.

RECEBI. TEM SIRENE AÍ?

Antes que ela respondesse, a redação do outro lado da janela mudou de ritmo. Monitores trocaram de imagem ao mesmo tempo. A programação ao vivo caiu para uma tela azul com o logotipo do Canal 4. Um produtor levantou da cadeira, gritando para alguém na técnica. No alto-falante da sala de servidores, uma voz feminina entrou no retorno interno.

Não era Lígia.

Era Marina.

"Boa tarde. Meu nome é Marina Sales. Se você está ouvindo isso dentro do Canal 4, é porque alguém tentou apagar a sala sem câmera antes da hora."

Helena parou de respirar por um segundo. Rui tirou as mãos do teclado.

A voz continuou, calma, fraca em alguns pontos, viva em todos eles.

"A mulher que vocês conhecem como diretora de jornalismo comprou silêncio com material de paciente sedado. César Avelar morreu porque tentou vender o mesmo arquivo duas vezes. Eu estou viva porque aprendi a deixar portas abrirem sozinhas quando me procuram."

Na redação, pessoas corriam. Alguém apontou para a sala de servidores. Valdir aparecia no vidro do corredor externo, arma baixa, rosto vermelho.

Rui voltou ao teclado. "Ela invadiu o sistema de chamada interna."

"Não", Helena disse. "Ela preparou."

A transmissão interna seguiu: "Helena Diniz, se você chegou até a sala de servidores, não saia pelo corredor. O elevador de carga vai abrir no estacionamento em quarenta segundos. Leve o Rui. Ele é culpado do começo, não do fim."

Rui olhou para Helena como se a frase tivesse batido mais forte que o tiro.

Valdir chutou a porta da sala de servidores.

Helena arrancou o cabo do celular, pegou o gravador e puxou Rui pelo braço. Entre os racks havia uma porta de serviço com placa de manutenção elétrica. Ela abriu para um corredor curto. No fim, o elevador de carga já estava chegando. A porta metálica abriu com ruído pesado.

Dentro, sobre o chão do elevador, havia um celular antigo tocando.

Helena atendeu.

"Marina?"

A voz do outro lado respirou com dificuldade.

"Desce", Marina disse. "E não deixa Lígia chegar ao estacionamento antes de você."

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