Fora do Ar O crime do Canal 4 · Capítulo 2 de 12
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Fora do Ar

Helena não respondeu à mensagem. Tirou uma captura da tela, copiou o número para o bloco de notas e desligou o celular antes que a pessoa do outro lado pudesse transformar silêncio em conversa. A frase ficou acesa dentro dela mesmo com o aparelho apagado. Não procure Marina em casa. Procure onde ela ficou fora do ar. Em televisão, fora do ar nunca era apenas ausência. Era corte, queda de sinal, decisão técnica, desculpa pronta para algo que o público não deveria ver.

Ela abriu a gaveta da cozinha e encontrou o crachá antigo do Canal 4 dentro de um envelope de conta de luz. A foto ainda mostrava seu cabelo mais curto, o sorriso administrativo que todos aprendiam a usar nos primeiros meses e a tarja vermelha de produtora. O chip de acesso provavelmente fora cancelado no dia do afastamento. Mesmo assim, o plástico podia convencer um segurança cansado às seis da manhã, principalmente se a pessoa carregasse café e cara de quem esquecera alguma coisa na ilha de edição.

Antes de sair, Helena copiou o vídeo bruto em mais dois lugares. Um pendrive ficou dentro da lata de fermento. O outro foi para o bolso interno da jaqueta. O HD externo ela colocou no fundo do cesto de roupa suja, embrulhado em uma camiseta de campanha da emissora que ainda não tivera coragem de jogar fora. Depois escreveu em uma folha: se eu sumir, Canal 4, César, Marina, Santa Casa. O bilhete pareceu ridículo e necessário. Dobrou em quatro e prendeu com ímã na parte de trás da geladeira, onde ninguém olharia antes de fingir faxina.

O prédio do Canal 4 ficava em uma avenida larga perto de oficinas, lojas de material elétrico e um estacionamento de vans escolares. De dia, a fachada azul tinha pretensão de emissora grande. Àquela hora, parecia um galpão com letreiro caro. Helena desceu do carro de aplicativo a duas quadras, comprou dois cafés em copo térmico e caminhou pela calçada oposta, observando as câmeras externas, a guarita e a entrada de funcionários. O portão de carga abria a cada poucos minutos para carros de reportagem, motoboys e fornecedores que não olhavam para o rosto de ninguém.

Ela escolheu a entrada lateral, a mesma usada por produtores de madrugada e técnicos de manutenção. O segurança da guarita era novo. Ou jovem demais para lembrar dela. Usava fone em uma orelha, olhava para o celular e tinha um crachá torto com o nome Patrick. Helena ergueu os cafés antes do crachá, como se o objeto importante fosse o que queimava a mão. "Ilha três", disse, sem cumprimentar. "Rui pediu para subir antes da reunião." Patrick olhou para o crachá, depois para os copos. O leitor apitou vermelho. Helena soltou um suspiro curto, de funcionária irritada, não de invasora. "De novo isso?"

Patrick hesitou. A hesitação tinha cheiro de turno longo. Ele digitou algo no computador, perguntou seu nome. Helena respondeu Helena Diniz antes de lembrar que o nome talvez ainda estivesse marcado no sistema como bloqueado. Patrick franziu a testa. Na tela, algo apareceu. "Seu acesso está suspenso." Ela apoiou um dos cafés no balcão. "Eu sei. Por isso Rui pediu entrada manual. Estão recuperando bruto do César para o jurídico." Usar o nome de César foi risco e senha. O segurança ficou sério, como as pessoas ficavam ao ouvir um morto famoso dentro de frase de trabalho. Chamou alguém pelo rádio.

A voz que respondeu veio chiada. "Quem está aí?" Helena reconheceu o timbre antes do nome. Rui Lemos. O operador de áudio do vídeo bruto. Patrick disse Helena Diniz, ilha três, acesso suspenso. Houve uma pausa. Helena prendeu o ar. Rui poderia negar. Poderia perguntar o que ela fazia ali. Poderia chamar Lígia. Em vez disso, respondeu: "Libera. Estou esperando."

O portão destravou.

Rui não estava esperando na ilha três. Estava no corredor dos estúdios, mais magro do que no velório de César, barba crescida, camisa xadrez por baixo de um colete técnico. Pegou um dos cafés da mão de Helena sem agradecer e caminhou antes que ela dissesse qualquer coisa. "Você demorou", falou. A frase irritou pela intimidade. Helena seguiu, mantendo um metro de distância. O corredor ainda tinha os mesmos cartazes motivacionais sobre credibilidade, equipe e compromisso com a verdade. Alguém rabiscara um bigode no apresentador substituto de César.

"Foi você que mandou o bruto?", ela perguntou.

Rui entrou em uma sala pequena de áudio, fechou a porta e ligou um ventilador barulhento. "Se eu tivesse mandado, não teria deixado rastrear para o servidor antigo." Helena colocou o café sobre a mesa. "Então quem mandou?" Ele abriu uma gaveta e tirou um cartão de memória dentro de um saco de crachá. "Alguém que achou que eu ainda sabia guardar coisa."

O cartão tinha uma etiqueta branca: M.S. - cam 3 - pré-bloco. Marina Sales. Câmera três. Pré-bloco. Helena não tocou. Rui viu e empurrou o saco na direção dela. "Você continua com mania de perícia." Ela respondeu que mania tinha salvado mais provas que reunião de pauta. Rui quase sorriu. Parou antes. O rosto dele trazia noites mal dormidas e uma culpa sem frase pronta.

"Marina ficou fora do ar aqui?", Helena perguntou.

Rui olhou para a parede, onde espuma acústica cobria metade das marcas antigas. "Depende do que você chama de aqui." Abriu no computador um mapa interno da emissora, desses usados por brigada de incêndio. Estúdio A, switcher, ilha um, ilha dois, maquiagem, camarim, técnica, depósito de fitas. Ao lado da sala de arquivo havia um retângulo sem nome. Rui apontou. "Sala de contingência. Todo mundo chama de aquário morto. Era onde ficava equipamento de transmissão analógica. Sem câmera nova, sem janela, sem ponto de rede oficial. Quando alguém precisava conversar sem entrar em ata, ia para lá."

Helena lembrava da sala. Porta cinza, maçaneta dura, cheiro de poeira quente. Uma vez, no começo da carreira, vira um vereador sair dali com Lígia e um envelope pardo debaixo do braço. Na época, achou que fosse negociação de entrevista. Depois aprendeu que entrevista também podia ser embalagem.

Rui abriu a gravação do cartão. A imagem era da câmera três, fora do ar, posicionada de lado para a bancada. Marina aparecia perto da saída lateral, segurando a bolsa pequena. Samuel, o segurança, bloqueava a passagem. César estava sentado, ponto eletrônico na mão, e Lígia falava com alguém pelo celular. A câmera tremia porque nenhum operador a segurava; devia estar sobre tripé, esquecida no enquadramento errado. O áudio vinha da sala, sujo, cheio de vazamento.

"Leva ela para contingência", Lígia dizia.

Marina deu um passo para trás. "Eu não vou assinar nada."

"Você já assinou a entrada", Samuel respondeu.

A frase fez Helena anotar. Entrada em quê? Rui pausou antes que ela pedisse. "Essa parte não saiu no bruto que você recebeu, saiu?" Ela negou. Rui apertou os lábios. "Então alguém te mandou uma versão escolhida. Boa, mas escolhida."

No vídeo, Marina virou para César. "Você prometeu que ia falar antes do terceiro bloco." César respondeu sem olhar para ela: "Eu vou." Lígia riu uma vez, sem humor. "Você vai morrer de audiência antes de derrubar isso." A frase poderia ser metáfora de televisão se César não tivesse caído quinze minutos depois. Helena sentiu um frio lento subir pelos braços.

Rui avançou alguns segundos. Marina era levada pelo corredor, Samuel à esquerda, uma assistente de produção à direita. A assistente se chamava Tainá, se Helena lembrava bem, uma mulher silenciosa que cuidava de release, água de entrevistado e pedidos impossíveis. A câmera três perdia a imagem quando eles saíam do estúdio, mas o áudio continuava aberto por vazamento de intercom. Passos. Porta. Metal. Marina dizendo: "Se ele cair, isso sai comigo." Samuel respondendo: "Se ele cair, você nem estava aqui."

Helena anotou a frase inteira. Rui olhava para o próprio café, sem beber.

"Onde está Marina agora?", ela perguntou.

"Não em casa", ele disse. "Você já sabe."

"Rui."

Ele tirou os óculos, limpou com a barra da camisa e colocou de volta sem melhorar nada. "Depois da morte de César, Lígia disse que Marina teve crise, pediu afastamento e viajou para a irmã em Sorocaba. A irmã apareceu no velório, chorou, repetiu isso para todo mundo. Só que Marina não tinha irmã em Sorocaba. Tinha uma prima em Registro e um pai em Campinas que não falava com ela havia anos." Rui abriu outra pasta no computador. "Três dias depois, o RH registrou licença médica retroativa. CID de estresse agudo. Médico conveniado da emissora."

O arquivo mostrava uma ficha simples, escaneada torta. Marina Sales, afastamento por trinta dias, responsável técnico Dr. Raul Espínola. Helena conhecia o nome. Era o médico ocupacional que assinara seu próprio exame de retorno ao trabalho quando ela ainda tentava negociar a permanência no canal. Na ocasião, perguntou durante dez minutos se ela tinha pensamentos persecutórios em relação à chefia.

"E a sala de contingência?", Helena perguntou.

Rui não respondeu de imediato. Levantou, abriu a porta e olhou o corredor. Depois fez sinal para que ela o acompanhasse. Passaram pela maquiagem, onde uma jovem dormia sentada com pincel na mão, pela entrada do estúdio B e pela porta do switcher. Lá dentro, uma equipe preparava o jornal da manhã. No monitor central, o apresentador substituto de César ensaiava um comentário sobre trânsito. A vida da emissora seguia com a crueldade prática de qualquer lugar que aprende a trocar rosto sem trocar vinheta.

A sala de contingência ficava atrás do arquivo de fitas, como no mapa. A porta cinza tinha uma placa nova: manutenção elétrica. Rui tirou do bolso uma chave pequena. "Guardei porque ninguém lembra o que analógico trancava." A porta abriu com esforço. O ar lá dentro era quente, parado, carregado de pó antigo e plástico envelhecido. Havia racks vazios, cabos enrolados, caixas de fita Betacam, um monitor de tubo coberto por lona e duas cadeiras de reunião. Na parede oposta, alguém tinha arrancado uma espuma de isolamento, deixando cola escura em formato de retângulo.

Helena acendeu a lanterna do celular. No chão, perto do rodapé, havia marcas de fita adesiva formando um quadrado. Uma cadeira fora posicionada ali por tempo suficiente para riscar o piso. Na lateral de um rack, alguém escrevera com caneta preta quase apagada: M.S. 17/05, 20h10. Embaixo, outra letra acrescentara: voltou sem ponto.

"Voltou para onde?", Helena perguntou.

Rui apontou para o teto. Acima deles, passava a antiga linha interna de retorno, um cabo que ligava sala de contingência ao switcher para testes de transmissão. "Fora do ar não queria dizer fora do prédio", disse. "Queria dizer fora da grade. Sem registro de presença, sem câmera no corredor certo, sem microfone oficial. Eles podiam manter alguém aqui e continuar dizendo que ela tinha ido embora."

Helena fotografou as marcas, o rack, a escrita, a porta, a chave na mão de Rui. Depois viu algo preso entre duas caixas de fita: um pedaço de papel dobrado, endurecido pela poeira. Usou a ponta de uma caneta para puxar. Era parte de uma escaleta impressa do jornal da noite, rasgada no meio. No terceiro bloco, onde a reportagem de merenda aparecia na versão pública, havia outro título apagado com marcador preto. Contra a luz da lanterna, dava para ler por baixo: Santa Casa - óbito sem corpo - César/Marina.

Rui soltou um palavrão baixo.

A porta da sala bateu no corredor antes que Helena dobrasse o papel. Vozes se aproximavam. Uma delas era de Lígia Paes. A outra, masculina, tinha calma de jurídico. Rui apagou a lanterna com um gesto rápido e puxou Helena para trás de um rack vazio. Pela fresta da porta mal fechada, Helena viu os sapatos de Lígia pararem no arquivo de fitas.

"Patrick disse que liberou Helena Diniz", falou o homem.

Lígia respondeu sem alterar o tom: "Então Rui mentiu para a guarita."

"Chamamos a polícia?"

"Não. Polícia faz registro. Quero ela fora com o que trouxe e sem saber que a gente sabe."

Helena sentiu o pendrive no bolso interno da jaqueta como se ele tivesse esquentado. Rui, ao lado, respirava pelo nariz, muito devagar. Lígia continuou:

"E ache Marina antes dela."

Os passos se afastaram. Helena esperou mais dez segundos, vinte, trinta. Quando saiu de trás do rack, Rui estava pálido. "Ache Marina antes dela", repetiu. "Então Marina está viva."

Helena guardou o papel rasgado dentro do saco do cartão de memória. "Ou está viva o bastante para assustar Lígia."

O celular dela vibrou no bolso, embora estivesse desligado desde a cozinha. Ela tirou o aparelho com cuidado. A tela acendeu sozinha, mostrando uma nova mensagem do mesmo número desconhecido:

"Você está na sala errada. O fora do ar dela começou no camarim de César."

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