O Camarim de César O crime do Canal 4 · Capítulo 3 de 12
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O Camarim de César

Helena olhou para o celular como se o aparelho tivesse escolhido um lado. A tela permanecia acesa com a mensagem impossível, embora ela tivesse desligado o aparelho antes de entrar no prédio. Rui viu a frase e recuou meio passo. Não era medo de tecnologia. Era o reconhecimento de que alguém dentro do Canal 4 sabia onde os dois estavam. A sala de contingência pareceu encolher em volta deles, cheia de cabos mortos, poeira e uma porta que já não servia como proteção.

"Isso não entrou por rede", Rui disse. Pegou o celular dela com dois dedos, sem desbloquear, e virou o aparelho para ver a lateral. "Tem chip físico?"

"Claro que tem."

"Então pode receber comando de operadora, mensagem agendada, coisa velha. Mas acender desligado..." Ele parou. O silêncio dele era pior que explicação. Helena tomou o celular de volta e enfiou no bolso interno da jaqueta. "Depois a gente decide se o aparelho é assombrado ou grampeado. Agora é camarim."

Rui abriu a porta apenas uma fresta. O corredor do arquivo estava vazio. Lígia e o homem do jurídico tinham se afastado, mas a emissora inteira parecia ter mudado de pressão. De algum lugar vinha o som do jornal da manhã, vinheta alegre demais para seis e pouco, trânsito lento, frente fria, uma reportagem sobre adoção de cães. Helena seguiu Rui pelo caminho oposto ao switcher. Não podia sair com ele pela porta principal. Não podia ficar. O prédio que ela conhecia por atalhos, cheiro e rotina passara a funcionar como cenário de crime ainda ocupado pelos atores.

O camarim de César ficava no segundo andar, perto do estúdio de entrevistas, em um corredor que a emissora chamava de área artística mesmo depois de cortar quase todos os programas de auditório. Na época em que Helena trabalhava ali, o espaço era tratado como território sagrado. César tinha banheiro próprio, frigobar, sofá de couro escuro e uma porta que fechava por dentro com trava reforçada. Técnicos brincavam que nem o diretor comercial entrava sem bater. Depois da morte, a sala virou memorial improvisado por três semanas, com flores, fotos, velas elétricas e cartas de telespectadores. Em seguida, Lígia mandou recolher tudo. Oficialmente, por respeito à família. Na prática, porque memória ocupava espaço caro.

Rui parou antes da escada. "Se Lígia mandou procurar você, o camarim deve estar monitorado."

"Ele sempre foi."

"Não desse jeito."

Helena olhou para ele. Rui apontou para o teto do corredor. Uma câmera nova, pequena, preta, instalada junto ao sensor de fumaça. Antes havia só a câmera larga da esquina, fácil de contornar. Agora o ângulo pegava quem subia, quem descia e quem parava diante do corredor artístico. "Depois do César", Rui disse. "Segurança patrimonial. Foi o que falaram."

Helena tirou do bolso um lenço de papel, derramou metade do café frio que ainda carregava sobre a manga da jaqueta e passou pela câmera com a cabeça baixa, esfregando a manga como se tivesse acabado de se sujar. Rui veio atrás reclamando alto, improvisando irritação de técnico. "Eu falei para não trazer copo para cima." O teatro era pobre. Talvez bastasse. Em televisão, muita coisa passava por verdade quando tinha tom de rotina.

No corredor artístico, as portas tinham nomes provisórios colados em etiquetas novas. O camarim de César agora era "Sala de Figurino 2". A placa antiga fora retirada, mas a cola ainda desenhava um retângulo mais claro na madeira. Rui tentou a maçaneta. Trancada. Tirou a chave pequena da sala de contingência e testou sem esperança. Não serviu. Helena se ajoelhou diante da fechadura. Era eletrônica, instalada sobre o miolo antigo, com leitor de cartão e teclado numérico. Alguém se preocupara mais em fechar aquela porta depois da morte do que em preservar qualquer memorial.

"Quem tem acesso?", ela perguntou.

"Lígia, patrimônio, limpeza noturna, talvez jurídico."

"E César?"

Rui demorou a entender. Helena apontou para o teclado. "Senha antiga dele."

Rui soltou uma risada sem alegria. "Ele era vaidoso, não burro."

"Vaidoso é um tipo de burro previsível."

Ela digitou 1705. A luz ficou vermelha. Digitou 1948, ano de fundação do canal, senha usada em metade dos equipamentos velhos. Vermelho. Rui olhava o corredor. Helena pensou em César no bruto, pasta azul debaixo do braço, ponto eletrônico arrancado, a frase sobre o morto que virava campanha. Digitou 4317: Canal 4, bloco 3, pauta 17, combinação que ele usava para marcar os arquivos favoritos na ilha antiga, segundo uma fofoca de edição que ela nunca precisara testar. A luz ficou verde.

Rui fechou os olhos por um segundo. "Vaidoso."

O camarim cheirava a fechado, produto de limpeza e couro guardado. O sofá continuava lá, coberto por capas de figurino. O espelho com lâmpadas redondas tinha três queimadas. O frigobar fora retirado, deixando no chão uma marca retangular mais clara. Na parede, onde antes ficavam fotos com políticos e artistas, havia apenas furos e duas fitas adesivas ressecadas. Helena entrou sem acender a luz principal. Usou a lanterna do celular apontada para baixo. Rui fechou a porta atrás deles sem bater.

O lugar havia sido limpo, mas não desmontado por inteiro. Limpeza de emissora raramente procurava sentido; procurava superfície. Helena examinou o lixo vazio, as gavetas da penteadeira, a parte de trás do espelho, o rodapé junto ao sofá. Nada. Rui abriu o armário de figurino. Cabides vazios, uma caixa de gravatas, três paletós que não pertenciam a César. Helena olhou para o teto. Havia uma placa de forro ligeiramente desalinhada acima do espelho. Apontou. Rui subiu na cadeira, empurrou a placa e recebeu uma chuva de poeira nos olhos.

"Tem coisa", ele disse.

Não era a pasta azul. Era uma caixa de ponto eletrônico, dessas usadas para guardar retorno auricular, bateria, cabos finos e cápsulas sobressalentes. César tinha mania de guardar seus próprios pontos porque desconfiava de suor alheio. A caixa estava fechada com fita crepe. Helena colocou sobre a penteadeira e fotografou antes de abrir. Dentro havia três auriculares, duas pilhas, uma chave comum, um cartão de memória e um envelope branco dobrado com o nome Marina escrito em letra de forma.

Rui apontou para o cartão. "Isso é de câmera de camarim."

"César tinha câmera no camarim?"

"César tinha medo de furto, chantagem, assessoria e mulher casada. Então sim."

Helena não comentou. Abriu primeiro o envelope. Dentro havia uma folha de receituário da Santa Casa do Leste, sem assinatura médica, com nomes escritos à mão: Amaro Vidal, técnico de necrotério; Paula Nunes, enfermagem; Dr. Estevão Ramalho, plantão externo; V. Cordeiro, jurídico; M.S., contato seguro. Ao lado de M.S., César escrevera: não deixar voltar sozinha para externa. Embaixo, outra frase: se eu cair, ela sabe a ala.

Marina Sales. Ela sabia a ala da Santa Casa.

Helena guardou o receituário no saco junto da escaleta rasgada. Rui conectou o cartão de memória a um adaptador minúsculo que trazia no chaveiro. O computador do camarim não existia mais, então usou o próprio celular com cabo. A tela demorou a reconhecer os arquivos. Havia seis vídeos curtos, todos da noite de 17 de maio. A câmera ficava escondida em algum ponto alto do camarim, talvez atrás do espelho. A imagem pegava o sofá, a porta e parte da penteadeira.

No primeiro vídeo, César entrava sozinho às 18:22, antes do bruto do estúdio. Jogava a pasta azul no sofá e abria o envelope branco. Parecia irritado, não assustado. Pegava uma folha, lia, dobrava, colocava no bolso interno do paletó. Depois falava para a câmera escondida, olhando direto para o espelho: "Se isso sumir, Marina viu a ala C. Helena Diniz sabe por onde começar, se parar de odiar minha cara por cinco minutos." Rui olhou de lado para Helena. Ela não desviou. César continuou: "Lígia fechou com Valdir Cordeiro. Santa Casa terceiriza morte e compra silêncio com publicidade. O corpo do Arapuã é do Amaro. Não era indigente."

O vídeo terminou.

Helena sentiu o nome Valdir Cordeiro encaixar. V. Cordeiro, jurídico. O homem de voz calma no corredor talvez fosse ele. Valdir era advogado da emissora e, antes disso, assessor de contratos da Santa Casa. Ela lembrava de ter visto o nome em uma procuração anexada ao processo trabalhista, sem dar importância. Em televisão, o mesmo advogado passava por várias salas como cabo escondido: ninguém olhava até tropeçar.

O segundo vídeo mostrava Marina entrando no camarim às 18:34. César fechava a porta. A repórter estava nervosa, segurando um pen drive vermelho. "Tem mais gente na ala C", dizia. "Não é só Amaro. Eles transferem sem registro, César. O hospital põe como evasão, a emissora põe como fonte instável, a polícia não abre porque não tem família." César pedia calma. Marina respondia que calma era o que Lígia vendia para anunciante. Entregava o pen drive. Ele colocava dentro da caixa de ponto, junto dos auriculares.

"Cadê o pen drive?", Helena perguntou.

Rui revirou a caixa. Nada vermelho.

Alguém encontrara parte do esconderijo antes deles. Ou César retirara o pen drive antes de ir ao estúdio. Helena avançou para o terceiro vídeo.

Às 18:51, Lígia entrava sem bater. César estava sozinho. A conversa começava no meio, como se a câmera demorasse a ativar por movimento. Lígia dizia: "Você não vai transformar o canal em delegacia." César respondia que delegacia tinha falhado. Lígia dizia que Marina era fonte contaminada, que Helena Diniz já tentara a mesma pauta e acabara afastada, que o canal não queimaria contrato por paranoia de produtora ressentida e repórter querendo prêmio. César levantava a pasta azul. "Você viu as fotos." Lígia ficava parada. "Eu vi o que precisava ver."

O quarto vídeo era o pior por ser curto. Samuel Prado entrava com Marina às 19:12, durante o jornal. Ela estava sem bolsa, sem crachá e com o cabelo solto de um lado, como se alguém tivesse puxado o elástico. César não estava no camarim. Lígia vinha logo atrás com Valdir Cordeiro, o jurídico. Valdir fechava a porta e colocava uma pasta preta sobre a penteadeira. "Você vai assinar uma preservação de fonte", dizia. Marina respondia que não assinaria termo sem ler. Valdir sorria. "Então leia rápido. Quando César abrir a boca, você vira cúmplice ou testemunha. Testemunha dura menos."

Helena pausou. A frase não precisava de interpretação. Rui afastou o celular, como se a tela tivesse cheiro.

No vídeo, Marina pegava o papel. A câmera não mostrava o texto, apenas o rosto dela mudando. Lígia dizia que a Santa Casa tinha prontuário de uma internação antiga do pai de Marina, dívidas, medicação, histórico psiquiátrico. Marina olhava para Samuel. Samuel evitava seus olhos. Valdir empurrava a caneta. A repórter assinava apenas a primeira página, depois parava. "César vai falar", dizia. Lígia respondia: "César vai cair."

A fala veio antes da queda.

Helena sentiu a sala inteira perder temperatura. Rui voltou o vídeo três segundos. Lígia repetiu, limpa, sem grito, sem metáfora: "César vai cair." Depois pegou o termo e saiu, deixando Samuel com Marina. A repórter ficava de pé, olhando para a porta, até a imagem apagar.

O quinto vídeo começava às 19:39, minutos depois da queda. Samuel entrava sozinho, pegava a caixa de ponto no forro, retirava o pen drive vermelho e a pasta azul de dentro do armário inferior do sofá. Não via o cartão de memória escondido sob os auriculares. Ou via e deixava. A diferença importava. Atrás dele, pelo corredor, vozes gritavam médico, ambulância, intervalo, ninguém posta nada. Samuel colocava o pen drive no bolso e saía.

"Samuel ainda trabalha aqui?", Helena perguntou.

Rui assentiu. "Patrimônio. Turno da tarde."

"Hoje?"

"Hoje."

O sexto vídeo não tinha imagem de pessoas. Era a câmera ligada para o camarim vazio, 20:10. Do lado de fora, Marina gritava uma vez. A porta não abria. A voz dela vinha abafada, talvez do corredor, talvez de uma sala próxima. "Eu não vou para médico nenhum." Outra voz respondia, masculina, calma: "Vai sim, como fonte protegida." Depois o áudio cortava. Na tela vazia, o sofá permanecia imóvel, a penteadeira refletia lâmpadas queimadas e a caixa de ponto, já sem o pen drive, parecia objeto sem importância.

Helena salvou cópia dos vídeos no próprio pendrive. Rui pegou o cartão original e guardou no saco de crachá. "Você precisa sair daqui agora."

"Com você."

"Eu tenho que ficar. Se eu sumir junto, Lígia fecha o prédio."

"Ela já sabe que você mentiu."

"Saber é uma coisa. Provar para RH é outra." Rui respirou fundo. "Eu seguro até você sair."

Helena quase discutiu. A porta do camarim vibrou com uma batida leve. Os dois ficaram parados. Outra batida, mais forte.

"Rui?", chamou uma voz do lado de fora. Patrick, da guarita. "A doutora Lígia pediu para acompanhar a Helena até a saída."

Helena olhou para a janela. O camarim ficava no segundo andar, sem sacada, vidro travado por dentro com parafuso. Rui apontou para o banheiro. Havia uma saída técnica? Ela correu até lá. O banheiro tinha pia, vaso, espelho pequeno e uma grelha de ventilação larga perto do teto. Atrás da grelha, um duto baixo seguia para a casa de máquinas do ar-condicionado. Não era saída de pessoa adulta. Era saída de pessoa desesperada.

Patrick bateu de novo. "Rui?"

Rui falou alto, irritado: "Ela derrubou café no cabo do retorno, estou limpando."

"Lígia mandou agora."

Helena subiu na pia, soltou dois parafusos da grelha com a chave comum encontrada na caixa de ponto e empurrou o metal para dentro. O duto cheirava a poeira úmida e pomada de cabelo antiga. Enfiou primeiro o saco com cartão e papel, depois o corpo. O espaço raspou seus ombros. Rui segurou a perna dela por um segundo e entregou o celular esquecido sobre a penteadeira. A tela acendeu na mão dele com nova mensagem:

"Samuel guardou o vermelho no carro de externas 4."

Rui leu, ficou pálido e enfiou o aparelho no bolso da jaqueta dela. "Agora vai."

Helena se arrastou pelo duto enquanto a porta do camarim abria atrás dela. Ouviu Patrick pedir desculpa, Rui xingar, Lígia perguntar onde ela estava. A voz de Lígia não parecia surpresa. Parecia contagem regressiva.

O duto terminou sobre a casa de máquinas, uma sala estreita com compressor, ruído alto e escada de manutenção descendo para o estacionamento técnico. Helena caiu de joelhos no piso metálico e ficou alguns segundos sem ar. O saco de provas continuava preso contra o peito. O celular vibrava no bolso, insistente. Ela não olhou. Desceu a escada segurando o corrimão oleoso e saiu atrás dos carros de reportagem.

O carro de externas 4 estava estacionado perto da doca, com a traseira aberta e cabos enrolados no chão. Na lateral, o adesivo do Canal 4 descascava na borda do número. Helena se aproximou pelo lado oposto à guarita. Dentro da van havia tripés, capas de chuva, microfones de mão, coletes e uma caixa de ferramentas. O porta-luvas estava trancado. O console central, não. Ela abriu e encontrou recibos de combustível, balas velhas, uma chave de portão e um envelope vermelho do tamanho exato de um pen drive.

Antes que pudesse pegar, uma voz falou atrás dela:

"Se eu fosse você, deixava isso onde está."

Samuel Prado estava na entrada da doca, sem uniforme de segurança, usando camisa preta e rádio preso ao cinto. Não parecia apressado. Isso era o pior. Helena manteve a mão dentro da van, sobre o envelope, e respondeu sem virar:

"Você disse isso para Marina também?"

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