Estacionamento B2
O elevador de carga desceu devagar demais. Cada andar parecia consultar alguém antes de passar. Helena segurava o celular antigo em uma mão e o gravador na outra. A fita Betacam estava presa entre o braço e o corpo, quente pelo contato. Rui apertava o botão de fechar porta mesmo depois que as portas já tinham fechado.
"Ela está viva", ele disse.
Não era pergunta. Também não era alívio. Era uma frase tentando organizar culpa.
"Você ouviu."
"Eu devia ter procurado."
"Devia."
Ele assentiu, aceitando o golpe sem defesa. O elevador parou no B2 com um tranco. Antes de a porta abrir, a voz de Marina saiu do celular antigo, baixa, apressada.
"Quando abrir, vai ter um carro prata à esquerda. Não entrem. É de Valdir. Sigam pela faixa amarela até a vaga de carga. Se Rui tentar explicar agora, manda calar."
Helena olhou para Rui.
"Eu ouvi", ele disse.
A porta abriu para o estacionamento subterrâneo. Luz fria, colunas numeradas, cheiro de gasolina e concreto molhado. O carro prata estava exatamente onde Marina dissera, faróis apagados, vidro escuro. Helena puxou Rui pela manga e seguiu a faixa amarela pintada no chão. No teto, câmeras acompanhavam o corredor entre vagas, algumas viradas para pontos inúteis, outras novas demais para aquele lugar.
"Tem câmera", Rui sussurrou.
"Marina também sabe."
"Ou Lígia."
"As duas sabem coisas demais."
Um alarme começou a tocar em algum andar acima. Não era sirene de incêndio, era aviso interno, repetição curta e irritante. Portas batiam à distância. A emissora inteira acordava para um problema que não cabia em comunicado.
Na vaga de carga, havia uma van branca sem logotipo, motor ligado. A porta lateral abriu antes que Helena chegasse. Nando apareceu primeiro, segurando uma câmera pequena. Carolina estava ao volante. Lúcia tremia no banco da frente, com um casaco por cima do jaleco. No fundo da van, sentada sobre uma caixa de equipamento, estava Marina Sales.
Helena a reconheceu por partes. O olhar direto, a boca fina, a postura de quem se manteve acordada mais tempo do que devia. O cabelo estava curto, grisalho nas têmporas, preso de qualquer jeito. Havia uma faixa limpa no antebraço e marcas antigas no pescoço, discretas demais para serem acidente. Dez anos tinham passado por ela sem pedir licença.
"Entra", Marina disse.
Rui parou.
Marina olhou para ele. Não houve abraço, acusação alta, cena preparada. Só um reconhecimento duro, quase cansado.
"Você demorou", ela disse.
Rui abriu a boca.
"Não agora", Helena falou.
Ele entrou.
Carolina arrancou com a van antes que a porta lateral fechasse. Helena caiu sentada ao lado de Marina. Nando fechou a porta e bateu duas vezes na lataria. A van subiu a rampa de serviço. Pelo retrovisor, Helena viu Valdir aparecer no estacionamento, arma escondida junto à perna, Lígia logo atrás. A diretora não corria. Falava ao telefone.
"Ela vai entrar no ar", Marina disse.
"Lígia?"
"Vai dizer que houve invasão, roubo de material, ataque ao sistema. Vai transformar vocês em criminosos antes que o primeiro arquivo chegue em alguém com coragem."
Nando levantou o celular. "Eu mandei o link para três contatos."
"Contatos somem", Marina respondeu. "Link cai. Coragem tem expediente."
Carolina virou à direita na saída do B2, quase raspando a lateral em uma coluna. "Para onde?"
"Antena velha", Marina disse.
Rui levantou a cabeça. "A torre analógica?"
"Ainda tem transmissor auxiliar."
"Desativado."
"Dormindo."
Helena entendeu antes de querer entender. "Você quer transmitir."
"Eu disse para Lígia que queria transmissão."
"Você está em condições de aparecer?"
Marina olhou para o próprio braço, para a faixa, para as mãos que tremiam apesar do esforço. "Não."
"Então?"
"Você aparece."
A van saiu para a rua por trás da emissora. O domingo da cidade parecia alheio e hostil: ônibus parando, vendedor de água no semáforo, um casal discutindo perto de uma banca, motos cortando pelo corredor estreito entre carros. Carolina dirigia sem pedir caminho, seguindo as instruções curtas de Marina. Rui ficava no fundo, olhando para as mãos. Lúcia chorava de novo, dessa vez sem esconder.
Helena colocou o gravador no colo de Marina. "Isso é seu?"
"É prova de sobrevivência."
"E a fita?"
"A fita é prova de começo."
"Você tinha tudo isso e esperou dez anos?"
Marina encarou Helena. "Eu não tinha corpo inteiro para brigar dez anos. Tive esconderijo, febre, remédio, gente comprada e gente com medo. Tive duas chances de fugir e uma de não morrer. Usei as três mal."
Rui falou do fundo. "Marina..."
"Você assinou a retirada da fita."
"Eu não sabia."
"Sabia que era errado."
Ele abaixou o rosto. "Sabia."
"Então começa daí quando resolver pedir desculpa."
Helena gostou dela naquele instante de um jeito prático, sem ternura. Marina não desperdiçava energia decorando dor. Dizia onde cortava e seguia.
Nando mostrou a tela do celular. "Lígia entrou ao vivo."
Todos olharam. A imagem tremia porque a internet falhava dentro da van em movimento, mas a voz de Lígia vinha clara. Ela estava no estúdio principal, atrás da bancada do jornal, maquiagem perfeita, expressão grave.
"O Canal 4 informa que foi alvo, nesta tarde, de uma invasão criminosa envolvendo ex-funcionários e pessoas ainda não identificadas. Arquivos foram manipulados, sistemas internos foram atacados e uma falsa transmissão de áudio tentou atingir a reputação desta emissora..."
Marina riu, tossiu, levou a mão ao peito. Carolina quase freou.
"Continua", Marina disse.
Lígia seguia: "A polícia já foi acionada. Reforçamos nosso compromisso com a verdade, com a apuração responsável e com as famílias que confiam no nosso trabalho."
"Famílias", Lúcia repetiu, com nojo pequeno.
Helena pegou o celular de Nando e viu os comentários subindo. Parte acreditava. Parte perguntava que áudio era aquele. Parte fazia piada. A mentira, ao vivo, não precisava convencer todo mundo. Precisava ocupar o espaço antes da prova.
"Quanto tempo até a antena?", Helena perguntou.
"Doze minutos", Carolina respondeu.
"Valdir?"
Nando olhou pela janela traseira. "Tem uma moto seguindo."
Marina fechou os olhos. "Só uma?"
"Por enquanto."
Rui se aproximou da porta traseira. "É da segurança da emissora."
"Como sabe?"
"Capacete sem marca, jaqueta preta, distância de escolta."
Helena olhou para ele. "Você treinou isso também?"
"Eu vi Samuel fazer."
A moto se aproximou no semáforo seguinte. O piloto levantou o celular e filmou a placa da van. Carolina acelerou assim que o sinal abriu. A moto veio junto. Nando prendeu a câmera no suporte da janela e começou a gravar.
"O que está fazendo?", Lúcia perguntou.
"Aprendendo com eles. Se vão nos transformar em criminosos, quero imagem boa."
Marina apontou para uma avenida lateral. "Entra ali. Depois esquerda no galpão."
"Não é o caminho da torre", Rui disse.
"É o caminho para perder a moto."
Carolina entrou. A van sacolejou por uma rua de paralelepípedo, passou por oficinas fechadas e um depósito de material de construção. A moto entrou atrás, perdeu velocidade em um buraco, recuperou. No fim da rua, havia um portão metálico meio aberto. Marina mandou entrar. Carolina obedeceu. A van atravessou um pátio estreito e saiu por outro portão, em uma rua paralela. A moto ficou presa do lado de fora quando Nando puxou uma corrente pendurada e o portão bateu.
"Isso foi sorte?", Helena perguntou.
"Foi ensaio", Marina respondeu.
Rui olhou para ela. "Você preparou fuga da emissora inteira."
"Preparei muitas. A maioria falhou antes de eu usar."
A torre analógica ficava atrás de um prédio baixo, em terreno cercado por mato alto e placas antigas do Canal 4. O lugar parecia abandonado, mas o cadeado do portão era novo. Marina entregou outra chave a Carolina. Ninguém perguntou de onde vinha.
Entraram com a van até perto da casa de transmissão. O céu começava a escurecer, e a estrutura metálica da torre cortava a luz como uma coisa de outro tempo. Helena desceu segurando a fita e o gravador. Marina tentou levantar sozinha e quase caiu. Rui segurou seu braço. Ela deixou por dois segundos, depois soltou.
"Lá dentro tem uma mesa de corte auxiliar", Marina disse. "Nando liga câmera. Rui liga transmissor. Helena lê."
"Lê o quê?"
Marina tirou de dentro do casaco um envelope plástico, dobrado e gasto. "O índice."
Helena pegou. Havia nomes, datas, minutagens, siglas de hospital, iniciais de políticos, advogados, apresentadores, policiais. No meio da primeira página, uma linha marcada em vermelho:
CÉSAR AVELAR - MORTE AO VIVO - RESPONSÁVEL POR CORTE: L. PAES / EXECUÇÃO EXTERNA: V. CORDEIRO / TESTEMUNHA PRESERVADA: M. SALES.
Carolina entrou na casa de transmissão e acendeu as luzes. Nando montou a câmera com mãos rápidas. Rui mexeu no painel antigo, ligando chaves que reclamavam com estalos secos.
O celular de Helena tocou. Número desconhecido.
Ela atendeu sem falar.
Lígia veio na linha, a voz baixa, sem bancada, sem estúdio, sem plateia invisível.
"Se Marina aparecer, ela morre antes do primeiro intervalo."
Helena olhou para a câmera de Nando, já acesa, e para Marina, sentada em uma cadeira de plástico, respirando curto.
"Então assiste", Helena disse, e desligou.