A Ala C
Carolina Lemos trancou a porta da ilha velha com a chave que trazia no bolso, como se ainda estivesse em plantão e não em uma emissora onde acabara de entrar sem autorização. Rui tentou abraçá-la. Ela levantou a mão antes que ele chegasse perto. "Depois", disse. A palavra tinha cansaço demais para ser indiferença. Helena guardou o pen drive vermelho dentro do bolso interno, ao lado do cartão de memória do camarim. A sala parecia pequena para tanta prova e para três pessoas que, de formas diferentes, tinham chegado tarde.
"Onde Marina está?", Helena perguntou.
Carolina olhou para a mesa, viu o receituário da Santa Casa, a folha de estacionamento e os arquivos abertos no notebook antigo. "Antes preciso saber o que vocês já têm."
"Não", Helena respondeu. "Você entrou dizendo que ela está viva. Começa daí."
Rui fez menção de interferir. Carolina olhou para ele com uma raiva antiga, de irmã que não queria ser protegida por alguém que nunca soube o tamanho do perigo. "Ela saiu da Santa Casa pelo corredor da lavanderia", disse. "Não pela porta de paciente, não pela emergência. Lavanderia. Samuel levou a van do Canal 4 até a doca de serviço, César estava junto na ida, Marina na volta. Só que na volta ela não foi para a emissora."
Helena escreveu enquanto escutava. "Para onde?"
"Para uma casa de repouso conveniada que não aparece como casa de repouso. Vila São Dimas. No papel, é centro de recuperação funcional. Na prática, guarda gente que precisa ficar indisponível por alguns dias."
Rui fechou os olhos. "Carolina..."
"Você me mandou ficar quieta", ela disse, sem olhar para ele. "Eu fiquei. Olha o que virou."
O corredor do lado de fora recebeu passos rápidos. Nando apareceu na pequena janela da porta e fez sinal para abrirem. Trazia uma mochila de câmera e o rosto vermelho de pressa. "Lígia chamou reunião de crise no switcher", disse. "Valdir chegou. Samuel está dizendo que Helena roubou material da van. Patrick sumiu da guarita." Olhou para Carolina. "E tem dois caras no estacionamento perguntando por uma técnica de enfermagem."
Carolina empalideceu. Helena pegou o saco com as provas. "Saída?"
Nando apontou para a janela basculante da ilha, que dava para um telhado baixo sobre o depósito de cenário. "Não é bonita."
"Nada aqui é."
Rui abriu a janela. O calor da manhã entrou junto com cheiro de telha, pó e gordura da lanchonete vizinha. Nando passou primeiro a mochila, depois ajudou Carolina. Helena foi por último. O telhado ficava um metro abaixo, inclinado para uma calha cheia de folhas. Ela escorregou, bateu o joelho, segurou o saco de provas contra o peito e conteve um xingamento. Rui saiu atrás, fechando a janela sem travar. Do lado de dentro, a ilha velha voltou a parecer vazia.
Eles atravessaram o telhado abaixados até uma escada de manutenção que descia para o pátio dos cenários. Ali havia painéis de madeira pintados como sala de estar, balcão de cozinha, parede de delegacia e consultório médico. Helena passou por uma porta falsa com a palavra polícia escrita em adesivo torto e pensou que o Canal 4 sempre fora competente em fabricar instituições de um lado só. No portão dos fundos, Nando abriu um cadeado com uma chave que disse ter "por motivos de câmera externa". Ninguém pediu explicação.
Na rua, Carolina levou os três até um carro pequeno estacionado sob uma árvore. Não era dela. "É da minha vizinha", disse. "Ela acha que estou no mercado." Rui entrou no banco da frente, Helena e Nando atrás. Carolina dirigiu sem ligar o rádio, olhando pelo retrovisor a cada esquina. Durante os primeiros minutos, ninguém falou. O prédio da emissora sumiu atrás de oficinas e lojas abrindo as portas. Só então Helena perguntou por Paula Nunes.
"Paula era enfermeira da ala C", Carolina disse. "Irmã do Tiago. Ela achou que o irmão tinha sido preso por confusão no hospital. Depois recebeu uma ligação dizendo que ele morreu como indigente. Não fazia sentido. Tiago tinha documento, casa, irmã, nome. Ela procurou Amaro, o técnico do necrotério. Amaro mostrou uma foto, disse que a ala C estava recebendo gente sem entrada normal e soltando papel de óbito com outro caminho."
"E Marina?"
"Marina chegou com César. Gravou a conversa, tirou foto de pulseira, pegou uma cópia de escala. Eu cobri Paula naquele dia porque ela estava em pânico. Achei que fosse briga interna de hospital. Quando vi a van do Canal 4 na doca, reconheci César pela voz. Depois reconheci Marina pelo jornal."
Rui olhava pela janela, quieto demais. "Por que você nunca me falou o nome dela?"
"Porque você trabalhava lá", Carolina respondeu. "E porque, quando te contei que tinha gente sendo tirada da ala C, você disse que hospital grande sempre parece crime para quem está cansado."
O golpe acertou Rui sem barulho. Helena não teve pena de novo. Talvez mais tarde.
Carolina seguiu pela Radial até um bairro de casas baixas, farmácias populares e pequenas clínicas com nomes tranquilos demais. Vila São Dimas ficava em uma rua sem saída, atrás de um muro creme, com portão automático e placa de "Centro de Recuperação Funcional Santa Emília". Nada dizia casa de repouso. Nada dizia Canal 4, Santa Casa ou Marina. Na calçada, duas senhoras conversavam com sacolas de feira. Um homem lavava um carro. A normalidade do lugar irritou Helena. Crimes bons de esconder escolhiam ruas onde ninguém queria parecer curioso.
"Ela está aí?", Nando perguntou.
"Estava", Carolina disse. "Até ontem."
Helena virou para ela. "Ontem?"
"Eu recebi mensagem de uma auxiliar. Marina foi transferida depois que alguém perguntou por Amaro no arquivo da Santa Casa. A auxiliar mandou isso." Carolina entregou o celular. A mensagem vinha de contato salvo como Lúcia plantão: M.S. saiu com equipe externa 22h40. Destino no papel: avaliação auditiva. Destino real: a mulher da TV mandou recolher antes do bruto cair.
Helena leu "mulher da TV" três vezes. "Lígia."
"Ou alguém usando o nome dela", Rui disse.
"Lígia", Helena repetiu.
Nando apontou para o portão. "Se Marina saiu, por que viemos?"
Carolina desligou o motor. "Porque Lúcia guardou uma coisa no armário de medicação. E porque, se ela tentar sair para entregar, desaparece junto."
Helena olhou para o muro. "Você tem entrada?"
"Tenho jaleco."
O plano era pobre: Carolina entraria como técnica chamada para cobrir plantão, Nando ficaria na rua com a câmera escondida na mochila, Rui tentaria acessar, de um telefone público da padaria, o servidor antigo de escalas da Santa Casa usando a senha que Carolina ainda lembrava, e Helena entraria pela lateral depois que Lúcia abrisse a porta de serviço. Planos pobres tinham uma vantagem: pareciam rotina quando davam certo nos primeiros três minutos.
Carolina vestiu o jaleco no banco do carro e prendeu o cabelo. A transformação foi triste de ver. Ela deixou de parecer fugitiva e voltou a parecer funcionária explorada, invisível o bastante para atravessar portão sem pergunta. Tocou a campainha, falou um nome no interfone e entrou. Helena esperou com a mão no bolso, sentindo o formato do pen drive vermelho. Cinco minutos depois, o celular recebeu mensagem de Carolina: lateral. Agora.
A porta de serviço ficava junto aos fundos, depois de um corredor estreito entre o muro e a lavanderia. Helena entrou abaixada, com Nando atrás. O cheiro era de água sanitária, sopa requentada e fralda limpa. Lúcia, a auxiliar, esperava perto de um carrinho de lençóis. Tinha olhos assustados e uniforme lilás. "Eu não quero aparecer", disse antes de qualquer cumprimento.
"Ninguém quer", Helena respondeu. "Onde está o armário?"
Lúcia levou os dois por um corredor de piso frio. Quartos com portas abertas mostravam camas arrumadas, televisões baixas, idosos dormindo ou olhando para lugar nenhum. Um homem no fim do corredor chamava por uma filha em intervalos regulares. Helena sentiu o lugar inteiro tentando transformar urgência em culpa. Lúcia abriu uma saleta com chave e apontou para um armário metálico. "Ela deixou no compartimento de gaze."
"Ela quem?"
"Marina."
O nome dito ali, sem código, fez o ar mudar. Lúcia abriu a caixa de gaze. Dentro havia uma fita de pulso hospitalar, um cartão de visita do Canal 4 dobrado e uma folha de agenda arrancada. Na pulseira, escrito à mão: M.S. - áudio preservado - não assinar alta. O cartão era de César Avelar, com telefone antigo. No verso, Marina escrevera: Helena Diniz deve procurar a pauta que morreu antes dele. A folha de agenda tinha data do dia seguinte à morte de César e uma anotação: Lígia veio 09h15, Valdir 09h30, Samuel 10h. Falaram em auditivo. Querem que eu diga que ouvi mal o ponto.
Rui entrou na saleta sem fôlego, segurando o próprio celular. "Consegui a escala antiga", disse. "Carolina cobriu Paula, Paula cobriu ala C, e no dia da morte do César tem uma transferência para Santa Emília com iniciais M.S."
"Marina Sales."
"Não. No sistema está Marisa Soares."
Lúcia fez sinal para falarem baixo. "Foi assim que ela ficou aqui. Marisa Soares. Sem documento original. Diziam que era proteção de fonte."
Helena fotografou a pulseira, o cartão e a agenda. "Onde ela está agora?"
Lúcia abriu outra gaveta e tirou uma etiqueta de transporte, ainda com cola recente. "Avaliação auditiva, Clínica Ouvir Bem, unidade Santana. Mas a van não foi para Santana. Eu vi o motorista mudar a placa de destino no aplicativo do convênio." Apontou para a etiqueta. "O código de rota é outro. C-17."
Carolina ficou imóvel. Rui percebeu. "O que é C-17?"
"Ala C tinha sala dezessete", ela disse. "Não era leito. Era onde ficavam pessoas sem entrada."
Antes que Helena respondesse, vozes vieram do corredor. Lúcia fechou o armário. Nando escondeu a câmera dentro da mochila. A porta da saleta abriu sem batida. Um homem de camisa social, crachá da administração e expressão treinada para sorrir sem alegria entrou acompanhado por Samuel Prado.
Samuel olhou primeiro para Helena, depois para Rui, depois para a caixa de gaze fechada.
"Vocês escolheram um lugar ruim para fingir visita", disse.
Helena segurou a pulseira dentro da manga. "E você escolheu muitos lugares ruins para aparecer."