A Sala Sem Câmera O crime do Canal 4 · Capítulo 8 de 12
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A Sala Sem Câmera

Lígia Paes entrou no arquivo técnico como se ainda estivesse entrando no estúdio principal: queixo firme, passo medido, a certeza de que todos ali sabiam onde ficava o centro da sala. Valdir Cordeiro veio atrás, maior do que parecia no vídeo do camarim, com a mão direita apoiada dentro do paletó. Os dois seguranças fecharam a porta. O monitor continuava ligado. Na tela, Rui de dez anos antes segurava a pasta azul no corredor da ala C.

Helena não desligou o aparelho.

"Eu pedi para não mexerem nessa fita", Lígia repetiu.

"Para quem?", Helena perguntou. "Rui, Samuel, César ou Marina?"

Lígia sorriu com pena ensaiada. "Você sempre teve esse defeito. Acha que uma pergunta bem colocada substitui proteção jurídica."

"E você sempre teve o defeito de falar como se o microfone estivesse aberto."

Valdir se aproximou do aparelho. Rui entrou na frente. O gesto saiu antes da decisão. Helena viu o medo dele, e também viu que era medo por ela, pela fita ou por si mesmo. Ainda não dava para separar.

"Sai da frente, Rui", Valdir disse.

"Essa gravação tem meu nome."

"Então você deveria querer que ela desaparecesse."

"Eu quero ver inteira."

Lígia olhou para ele com tristeza funcional, dessas que chefes usam quando demitem alguém fingindo perda pessoal. "Você nunca soube escolher lado."

"Escolhi errado quando assinei aquela ficha."

"Você escolheu sobreviver. Não dramatiza."

Helena tirou o celular do bolso sem abaixar a mão. O aparelho estava gravando desde a entrada de Lígia. A bateria marcava vinte e três por cento. Péssimo para salvar o país, suficiente para estragar uma tarde.

"Seus seguranças vão tomar o celular?", ela perguntou.

"Só depois que eu explicar para você como isso termina", Lígia respondeu.

"Adoro reunião com pauta."

Lígia caminhou até a mesa e encostou dois dedos na fita. "Marina Sales era talentosa e imprudente. César Avelar era talentoso e caro. Rui era um técnico assustado. Eu era diretora de jornalismo em uma emissora que devia salário, imposto, favor e silêncio. A Santa Casa tinha gente que precisava de cobertura. Políticos tinham gente que precisava sumir por uma noite. Polícia tinha gente que precisava aparecer depois com outra versão. Todo mundo ganhava alguma coisa. Até que Marina resolveu transformar sistema em denúncia."

"Sistema", Helena repetiu.

"Você preferia quadrilha? Dá mais manchete. Menos sentença."

Rui olhava para a tela. O Rui gravado conversava com alguém fora de quadro. A imagem tremia pouco, câmera fixa em canto alto. Marina aparecia depois, puxada pelo braço por Samuel. A Marina do vídeo parecia cansada, porém não derrotada. Ela olhava para a lente como se soubesse exatamente onde estava.

"Ela sabia da câmera", Helena disse.

Lígia perdeu um milímetro do sorriso.

"Ela sabia", Helena insistiu. "Por isso olhou para cima. Marina queria ser gravada."

Valdir puxou o cabo do aparelho da tomada.

A tela morreu.

Rui virou para ele. Valdir o empurrou contra o armário. Helena avançou um passo, e um dos seguranças segurou seu braço. Ela não lutou. Lutaria na hora errada se fizesse isso agora.

"Marina escondeu o índice", Helena disse.

"Marina escondeu muita coisa", Lígia respondeu. "Inclusive a própria arrogância."

"Onde ela está?"

"Você ainda acha que a pergunta principal é essa."

"É a única que importa."

"Para uma amiga, talvez. Para uma jornalista, a pergunta principal seria quem comprou o material de César."

Helena sentiu a frase tocar um lugar frio. Comprou. Não recebeu, não guardou, não editou. Comprou. A fita era índice de venda, tabela de vozes, chantagem convertida em dinheiro. Se Lígia falava disso agora, era porque queria trocar Marina por algo maior ou assustar Helena para longe dela.

"Você quer me dar um comprador", Helena disse.

"Eu quero que você entenda o tipo de gente que vai respirar no seu pescoço se sair daqui achando que descobriu um escândalo de televisão."

"Político?"

"Político passa. Dono de prontuário fica."

O celular de Helena vibrou na mão. Ela não olhou. O segurança apertou seu braço.

"Entrega", ele disse.

"Senha errada apaga."

"Blefe", Valdir falou.

"Todo mundo hoje aprendeu essa palavra."

Lígia fez sinal para o segurança soltar. "Olha a mensagem."

Helena estranhou a permissão. Mesmo assim, olhou. Era Nando.

COPIEI O PEN DRIVE. TEM ÁUDIO DO RUI COM CÉSAR. TEM MARINA FALANDO "SALA SEM CÂMERA". O QUE É ISSO?

Helena levantou os olhos devagar. "Sala sem câmera."

Rui fechou os olhos.

Lígia ficou imóvel.

A resposta estava ali, atravessando os rostos. Havia um lugar no prédio ou no hospital onde gente falava sem saber que, naquele caso específico, alguém tinha ligado gravação clandestina. Sala sem câmera era promessa falsa. O nome explicava por que Marina olhara para a lente: ela sabia que a ausência oficial de imagem era parte da mentira.

"Onde fica?", Helena perguntou a Rui.

Ele abriu os olhos. "No Canal 4."

Lígia virou o rosto para Valdir. Tarde demais. Rui continuou.

"Subsolo dois. Antiga sala de pós-produção de comercial. Depois virou sala de reunião sem registro, para convidado que não podia aparecer na portaria."

"Rui", Lígia disse, agora sem teatro.

"Eu levei César lá uma vez. Ele disse que era entrevista protegida. Marina descobriu e gravou por fora."

Helena sentiu o rumo mudar dentro da sala. Até então, eles disputavam a fita. Agora disputavam um lugar físico, talvez ainda intacto, talvez cheio de marcas que a direção não conseguira apagar porque o prédio inteiro trabalhava em volta dele.

"Valdir", Lígia disse.

Valdir puxou a arma.

O gesto foi rápido, sem ameaça verbal. Rui ergueu as mãos. O segurança que segurava Helena recuou. O outro olhou para a porta, inseguro. Gente acostumada a intimidar nem sempre queria participar de tiro.

"Ninguém sai", Valdir falou.

Helena viu o celular ainda gravando, viu o cabo solto no chão, viu a capa plástica do Betacam, viu uma caixa de fitas sem etiqueta perto do pé da mesa. O arquivo era cheio de objetos duros e inúteis. Um deles podia servir.

Lígia falou baixo. "Guarda isso."

"Acabou conversa", Valdir respondeu.

A frase era para Lígia também. Pela primeira vez, Helena entendeu que a diretora talvez comandasse a narrativa, porém Valdir comandava o dano. César tinha morrido no estúdio porque alguém confundira controle editorial com controle de execução. Agora a diferença aparecia apontada para o peito de Rui.

O celular vibrou de novo. Helena não precisava olhar para saber que era Nando. A cópia estava fora dali. Isso mudava tudo, se ela conseguisse ganhar minutos.

"Se atirar, o áudio sai", Helena disse.

"Áudio sai para quem?", Valdir perguntou.

"Para a pessoa que acabou de copiar o pen drive."

Valdir olhou para Lígia. Ela não sabia. O rosto dela confirmou.

Rui usou o segundo de distração para chutar o cabo solto no chão. Não foi heroico. Foi baixo, quase desajeitado. Valdir pisou no cabo, perdeu base, e o tiro bateu no armário de metal. O som fechou o ouvido de Helena. Ela agarrou a caixa de fitas e jogou contra a lâmpada. O vidro estourou. O arquivo mergulhou em luz quebrada e sombra pesada.

"Corre!", Rui gritou.

Helena pegou a fita mãe da mesa, não por coragem, por reflexo treinado de nunca largar material bruto. Rui puxou a porta da sala de vidro. Um segurança tentou segurá-lo. Helena bateu a fita contra o pulso do homem e saiu atrás.

No corredor do arquivo, as estantes pareciam todas iguais. Valdir gritava ordens atrás deles. Lígia chamava pelo nome de Rui, uma vez só, com raiva de quem perdeu ferramenta cara. Helena seguiu pelo caminho que lembrava, depois por outro que não lembrava. A emergência acima disparou alarme atrasado.

"Subsolo dois!", ela gritou.

"Agora?"

"Agora."

Rui virou à esquerda, abriu uma porta de manutenção e desceu mais um lance de escada. O tiro seguinte acertou a parede acima deles. Helena escorregou no último degrau, segurou a fita contra o peito e bateu o ombro no corrimão. Continuou.

A porta do subsolo dois tinha uma placa arrancada. Atrás dela, um corredor estreito terminava em uma sala sem janelas, revestida por espuma acústica velha. Não havia câmera no teto. Só marcas circulares onde uma tinha sido removida.

No centro da sala, sobre uma cadeira, havia um gravador digital ligado.

A luz vermelha piscava.

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