O Vermelho da Externa 4
Samuel Prado não apontava arma. Isso tornava a cena pior, não melhor. O rádio preso ao cinto, a camisa preta sem logotipo e a distância exata entre ele e a saída da doca diziam que ele não precisava levantar a voz para controlar o espaço. Helena manteve a mão dentro do console da van, sobre o envelope vermelho, e sentiu a borda plástica do pen drive contra a ponta dos dedos. Se tirasse rápido, ele avançaria. Se deixasse, talvez nunca mais visse. A doca cheirava a cabo molhado, diesel antigo e café derramado em copo de isopor.
"Você disse isso para Marina também?", ela repetiu, agora virando o rosto apenas o bastante para enxergá-lo pelo canto do olho.
Samuel não respondeu de imediato. Olhou para a guarita, para a porta técnica, para a câmera externa acima da vaga. A câmera estava apontada para a entrada principal da doca, não para o interior da van. Talvez por hábito. Talvez por acordo. "Marina não entendeu quando era hora de parar", disse. "Você também tem esse problema."
Helena puxou o envelope do console e fechou os dedos em volta dele. Samuel deu um passo. Ela ergueu o celular com a outra mão, tela voltada para ele. "Estou transmitindo para Rui." Era mentira. O aparelho nem tinha sinal confiável ali, e Rui talvez estivesse cercado no camarim. Samuel não tinha como saber. O passo dele parou no meio. Em televisão, a possibilidade de gravação sempre pesava mais que a verdade da gravação.
"Você acha que Rui vai te salvar?", Samuel perguntou.
"Não. Acho que ele vai salvar a si mesmo entregando você primeiro."
A frase bateu em algum lugar. Samuel apertou a mandíbula. Helena aproveitou o segundo e saiu de dentro da van pelo lado oposto, mantendo a porta aberta entre os dois. Correu para a área dos cabos, onde tripés e cases formavam um corredor estreito. Samuel veio atrás sem pressa de quem conhece o terreno. Ela não venceria no corpo. Precisava vencer no barulho.
Puxou um tripé do suporte e deixou cair. O metal bateu no chão da doca com estrondo suficiente para acionar dois técnicos que fumavam perto da escada. Um deles xingou. O outro levantou a cabeça. Helena gritou antes que Samuel alcançasse: "A van quatro está com material do César!"
O nome funcionou de novo. Sempre funcionava. César morto era senha, ameaça e audiência. Os técnicos olharam para a van. Samuel levantou as mãos, fingindo irritação de segurança chamado para conter ex-funcionária em surto. "Ela invadiu o prédio", disse. "Chamem a Lígia."
"Chama a polícia também", Helena falou. "E pede para virem antes do jurídico."
Os técnicos hesitaram. Um deles, mais velho, reconheceu Helena. Chamava-se Nando, câmera de rua, homem de poucas palavras e ombro destruído por anos carregando equipamento. "Diniz?", perguntou. Samuel olhou para ele com raiva. Helena jogou o envelope para Nando. Ele pegou por reflexo, assustado com o próprio gesto. "Se eu sair daqui sem isso, entrega para qualquer delegado que odeie televisão", ela disse.
Samuel avançou para Nando. Helena não pensou. Pegou um cabo grosso no chão e puxou com força, derrubando uma caixa de iluminação entre os dois. Lâmpadas estouraram dentro do case. A doca virou ruído, vidro e palavrão. Nando enfiou o envelope dentro do colete de câmera. O outro técnico correu para a escada. Samuel segurou Helena pelo braço, não com violência aberta, com pressão profissional, polegar no ponto que fazia o pulso ceder. Ela girou o corpo, bateu o ombro na porta da van e gritou o nome de Marina.
"Marina Sales está viva?"
Samuel apertou mais. "Cala a boca."
"Onde ela está?"
"Você não sabe o que ela fez."
Foi a primeira frase útil. Helena parou de lutar por um instante. "Então ela fez alguma coisa."
Samuel percebeu tarde. Soltou o braço como se a frase tivesse queimado. Nando já estava na escada, subindo com o envelope vermelho. A doca recebia passos de mais gente. Rui apareceu na porta de serviço, seguido por Patrick e por uma assistente de maquiagem que segurava um celular filmando. O rosto de Rui trazia um corte pequeno na sobrancelha. Tinha conseguido sair do camarim, ou fora empurrado de lá. Não importava. Viu Samuel, viu Helena, viu Nando na escada e entendeu a cena o bastante.
"Nando, ilha velha", Rui gritou. "Não usa computador da rede."
Nando desapareceu no corredor.
Samuel levou a mão ao rádio. Helena agarrou o aparelho e arrancou do cinto dele. O rádio caiu e chiou no chão. A voz de Lígia saiu pela caixa pequena: "Samuel, status."
Todos ouviram. A assistente de maquiagem aproximou o celular. Patrick olhou para o rádio como se ele tivesse denunciado a guarita inteira. Samuel pisou no aparelho e quebrou a antena. O chiado morreu. Rui começou a rir, uma risada curta e nervosa, que não tinha humor nenhum. "Status", repetiu. "Ela sempre fala como se a gente fosse móvel."
Helena pegou o próprio celular, que vibrava outra vez. Nova mensagem: "Não abra o vermelho aí. Tem chamada dentro." Ela mostrou para Rui. Ele perdeu o riso. "Chamada?"
"Áudio? Vídeo?"
"Pode ser arquivo de retorno. Pode ser gravação de ponto." Rui olhou para o corredor por onde Nando fugira. "Se abrir em máquina ligada à rede, eles sabem."
Samuel tentou passar por eles. Patrick, talvez por medo de ser o próximo nome na história, entrou na frente. "A doutora Lígia mandou acompanhar até a saída, não bater em ninguém", disse, baixo. Samuel olhou para o segurança jovem como se decorasse seu rosto para uso futuro. Helena usou a pausa para subir a escada. Rui veio atrás. Patrick ficou na doca, tentando parecer menos corajoso do que tinha sido.
A ilha velha ficava no terceiro andar, ao lado de uma sala de fitas que a emissora mantinha por preguiça de descartar. Nando já estava lá, respirando pesado, com o envelope vermelho sobre a mesa. Rui trancou a porta. Helena colocou o cartão do camarim, a escaleta rasgada e o receituário da Santa Casa ao lado do envelope. Nando olhou para o conjunto e disse apenas: "Isso vai dar demissão."
"Vai dar cadeia antes", Helena respondeu.
"Cadeia costuma demorar mais que demissão."
Rui conectou um notebook antigo, sem acesso à rede, usado para capturar material de câmera velha. O aparelho demorou a ligar, reclamando em ruídos internos. Helena fotografou o envelope antes de Nando abrir. Dentro havia um pen drive vermelho, uma etiqueta de patrimônio do Canal 4 dobrada ao meio e uma folha de estacionamento da Santa Casa do Leste. A folha trazia data de 17 de maio, entrada às 14h22, saída em aberto, veículo: externa 4, condutor: Samuel Prado. No campo observação, alguém escrevera: coleta M.S./ala C.
Marina Sales. Ala C. Externa 4.
Rui conectou o pen drive. A pasta principal se chamava RETORNO_CESAR. Havia quatro arquivos de áudio, dois vídeos curtos e um documento de texto com senha. O primeiro áudio começou com chiado e a voz de César, sem impostação de apresentador: "Marina, se você receber isso, sai pela externa quatro. Não confia no jurídico. Entrega para Helena Diniz se eu não conseguir colocar no ar." Helena sentiu o próprio nome atravessar a sala. Nando a olhou de lado. Rui manteve os olhos na tela.
O áudio continuou. César dizia que Amaro Vidal, técnico de necrotério da Santa Casa, procurara a emissora com fotos de três corpos registrados como indigentes e removidos sem família, todos ligados à ala C. Um deles era funcionário do hospital. Outro era acompanhante de paciente. O terceiro não tinha nome na ficha, apenas pulseira de visitante. Marina confirmara a ala, encontrara Paula Nunes, enfermagem, e gravara uma conversa em que o jurídico da Santa Casa oferecia "correção de narrativa" em troca de silêncio. César planejava abrir o terceiro bloco com parte da denúncia e chamar Helena depois, porque ela conhecia a pauta retirada.
"Ele ia te trazer de volta pelo ar", Rui disse.
Helena não respondeu. A ideia era absurda, vaidosa, típica de César. Também era corajosa do jeito mais perigoso: coragem ao vivo, sem plano de saída para quem ficava no prédio.
O primeiro vídeo mostrava a garagem da Santa Casa, câmera de celular escondida dentro de uma bolsa. Marina filmava o carro de externas 4 entrando pela cancela. Samuel aparecia ao volante. Ao lado dele, César, sem gravata, segurava a pasta azul. No banco de trás, Marina narrava baixo: "Ala C, acesso de serviço, coleta de documentos com Amaro Vidal. Se isso sumir, foi antes do jornal." A imagem tremia quando a van passava por uma porta lateral. Um homem de jaleco esperava. Não era médico; usava sapato social e crachá virado. Rui pausou no rosto. Nando aproximou a tela. Helena leu a identificação parcial: V. Cordeiro.
Valdir Cordeiro estivera na Santa Casa antes de estar no camarim.
O segundo vídeo era mais curto. Mostrava um corredor hospitalar com paredes verdes e iluminação ruim. Uma placa dizia Ala C - Observação Prolongada. Marina filmava de longe enquanto César conversava com uma mulher de uniforme branco. Paula Nunes, provavelmente. A mulher entregava a ele um envelope. Ao fundo, uma porta abria por poucos segundos. Dentro havia leitos separados por cortinas e uma maca coberta por lençol cinza. Marina aproximava o zoom. A imagem ficava granulada, mas dava para ver uma pulseira de visitante presa ao pulso de um corpo imóvel. No áudio, Paula dizia: "Esse não era paciente. Entrou procurando o Amaro."
Helena pausou. A palavra visitante parecia pequena demais para uma morte. "Quem era?"
Rui abriu o documento de texto. Pedia senha. Nando tentou CESAR, CANAL4, MARINA. Nada. Helena olhou para a folha de estacionamento. Coleta M.S./ala C. Digitou ALAC. Erro. Digitou AMAROVIDAL. Erro. Pensou no jeito de César, nas senhas vaidosas, nos números escondidos em pauta. Terceiro bloco. Pauta dezessete. Digitou BLOCO3. A pasta abriu.
O documento tinha poucas linhas:
Visitante sem nome na ficha = Tiago Nunes, irmão de Paula. Entrou na Santa Casa em 12/05 para falar com Amaro. Saiu como indigente em 15/05. Paula gravou. Marina confirmou. Lígia sabe desde 16/05. Valdir ofereceu acordo. Se eu cair, procurar Paula antes que sumam com ela.
Tiago Nunes. Irmão de Paula. Não era o morto do terreno, era outro. A rede crescia por baixo da pauta como mofo atrás de parede pintada.
O celular de Helena recebeu nova mensagem: "Paula não está mais na Santa Casa. Rui sabe quem cobriu a escala dela."
Helena levantou os olhos para Rui. Ele leu e ficou imóvel.
"Quem cobriu a escala dela?"
Rui esfregou o rosto com as duas mãos. "Minha irmã."
Nando se afastou um passo, como se a sala tivesse mudado de profundidade. Helena esperou. Rui abriu uma pasta no notebook sem olhar para ela. "Carolina Lemos. Técnica de enfermagem. Trabalhou na Santa Casa até junho. Pediu demissão depois da morte do César. Eu achei que fosse medo de reportagem. Ela disse que não queria aparecer em vídeo nenhum."
"Ela viu Marina?"
"Ela me ligou naquela noite." A voz dele baixou. "Disse que tinha uma repórter chorando na ala C e um apresentador ameaçando botar hospital abaixo. Eu mandei ela sair do plantão e ficar quieta. Achei que estava protegendo minha irmã."
Helena quase teve pena. Guardou. Pena cedo demais atrapalhava. "Onde Carolina está?"
"Em casa. Ou estava."
A porta da ilha velha recebeu três batidas. Rui fechou o notebook. Nando pegou o pen drive vermelho. Helena guardou a folha de estacionamento. As batidas vieram de novo. Uma voz feminina falou do lado de fora:
"Rui, sou eu."
Ele empalideceu de um jeito que Samuel não conseguira provocar. "Carolina?"
Helena foi até a porta e olhou pela fresta inferior. Sapatos de enfermagem, calça jeans, uma bolsa grande no chão. Atrás dela, ninguém. Rui abriu. Carolina Lemos entrou rápido, trancou a porta e olhou primeiro para o irmão, depois para Helena, depois para a mesa cheia de provas. Tinha olheiras fundas e cabelo preso com pressa. Não cumprimentou.
"Marina está viva", disse. "E Lígia sabe onde."