A Praça das Noivas Assassino do Cartão Postal · Capítulo 2 de 12
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A Praça das Noivas

Mauro Bittencourt viu a mensagem no celular de Lia e mudou de cor antes de mudar de tom. Isso a convenceu de que a polícia sabia menos do que fingia. Ele pediu o aparelho. Ela não entregou.

"Preciso preservar", disse.

"Eu também."

"Dona Lia, a senhora está recebendo comunicação direta de alguém ligado a um homicídio."

"E você quer tirar da minha mão o único canal que ele abriu. Péssima estratégia."

A perita, que se chamava Simone, levantou os olhos da bandeja com o cartão. "Print primeiro. Discussão depois."

Lia gostou dela imediatamente, com a cautela que reservava a pessoas sensatas em instituições barulhentas. Tirou capturas da mensagem, da imagem do cartão e do número sem identificação. Mauro observou, impaciente. Jonas permanecia no canto, segurando uma prancheta como se o objeto pudesse defender o subsolo.

A imagem da Praça das Noivas ocupava a tela do celular. O postal era de uma fase antiga da praça, antes da reforma que tirara a fonte e instalara academia ao ar livre. Lia reconhecia o banco branco, as pedras portuguesas, o coreto pequeno ao fundo. Reconhecia, principalmente, a menina de vestido amarelo quase fora do enquadramento.

"Essa criança é você?", Mauro perguntou.

"Parece."

"Parece?"

"Eu tinha oito anos. Crianças em postal antigo não vêm com legenda nominal."

"Você esteve nessa praça?"

"Metade da cidade esteve. Era ponto de foto de casamento, excursão escolar, vendedor de algodão-doce. Por isso chamava Praça das Noivas."

"Perguntei sobre você."

Lia ampliou a imagem até a menina virar manchas de impressão. "Eu não lembro desse dia."

Era verdade e não era. Havia uma lembrança vaga de sapato apertando, sol na nuca, a mãe irritada porque alguém tinha derramado caldo de cana no vestido. Havia também um buraco depois disso, um intervalo que a família chamava de confusão, palavra confortável para adulto que não quer conversar com criança.

Mauro pediu uma viatura para a Praça das Noivas. Lia pegou a bolsa.

"Você fica", ele disse.

"Não fico."

"Isso não é passeio técnico."

"Então use meu conhecimento antes que outro cartão vire corpo."

Simone encaixou o cartão do mirante no estojo de prova. "Leva ela. Se o postal é antigo, alguém está usando referência visual. A gente chega no local e não sabe o que está fora do lugar. Ela sabe."

Mauro aceitou com o rosto fechado. Foram em dois carros. Lia sentou no banco de trás, ao lado de Simone. Mauro dirigia. No caminho, a cidade apareceu pela janela como sequência de postais estragados: fachadas reformadas pela metade, placas novas cobrindo azulejos, praças cercadas por grades, vendedores onde antes havia jardins, jardins onde antes havia estacionamento. Lugar nenhum permanecia igual. Só fotografia mentia o bastante para sugerir permanência.

"Você trabalha há quanto tempo no Centro de Memória?", Simone perguntou.

"Onze anos."

"E antes?"

"Museu particular. Acervo de família rica que gostava de esconder inventário dentro de álbum."

Mauro olhou pelo retrovisor. "Você fala como se arquivo fosse cena de crime."

"Às vezes é. Só demora mais para acharem o corpo."

Ele não respondeu. A frase tinha saído mais dura do que Lia pretendia. Talvez porque o mirante ainda estivesse dentro dela. Talvez porque a foto da menina de vestido amarelo continuasse aberta no celular, fazendo a infância parecer prova sem cadeia de custódia.

A Praça das Noivas estava cercada por fita zebrada quando chegaram. Havia curiosos no outro lado, dois guardas municipais, uma equipe de TV local e um vendedor de pipoca que se recusava a perder movimento. A fonte do postal não existia mais. No lugar, um canteiro seco abrigava três palmeiras pequenas. O coreto continuava ali, pintado de azul claro, mais feio ao vivo que na foto.

"Sem corpo até agora", um policial informou Mauro. "Mas achamos isso no banco."

Era outro cartão-postal, preso sob uma pedra no banco branco mais próximo do coreto. Simone fotografou antes de tocar. Lia ficou atrás da fita, mas enxergou a frente: a própria Praça das Noivas, tomada do mesmo ângulo da imagem recebida. No verso, a frase aparecia em caneta preta.

Toda foto corta alguém.

Mauro leu em voz baixa. "O que significa?"

Lia olhou para a praça. O postal antigo mostrava a fonte inteira, o coreto, duas noivas posando perto de um canteiro, crianças na borda direita. A praça real tinha perdido a fonte, ganhado lixeira, rampa, placa de proibido alimentar aves. A menina de vestido amarelo ficava quase no limite do quadro. Se o fotógrafo tivesse virado um pouco menos, ela não existiria na imagem.

"Mostra a foto original", Lia disse.

Mauro fez sinal para ela passar. Lia entrou na área isolada. O chão de pedra portuguesa estava irregular. Perto do banco, havia marcas recentes de terra e uma mancha marrom pequena que Simone já tinha visto e marcado. Não era corpo. Não ainda.

Lia abriu a imagem recebida e comparou com a praça. "O fotógrafo estava ali", disse, apontando para a calçada em frente à antiga fonte. "Mais baixo do que um adulto comum. Talvez câmera na mão de criança ou alguém sentado."

"E daí?", Mauro perguntou.

"Daí que a menina sou eu, mas não sou o assunto. Estou cortada. O assunto está fora do quadro."

Simone se aproximou. "Quem?"

Lia virou para o lado direito da praça, onde hoje havia uma banca de revista fechada. No postal antigo, aquele pedaço ficava ausente. Cortado pela borda.

A memória veio sem pedir licença: uma mulher de saia vermelha ajoelhada perto dela, amarrando seu sapato; a mãe discutindo com alguém; um homem segurando uma câmera; uma noiva chorando perto da fonte, não de emoção, de raiva. Depois o gosto doce de caldo de cana. Depois nada.

"Tinha alguém aqui", Lia disse. "Alguém que a foto cortou."

Mauro virou para os policiais. "Vistoria na banca, lixeiras, coreto."

O celular de Lia vibrou.

Ela e Mauro olharam ao mesmo tempo. Nova mensagem. Não era imagem. Só texto.

Agora você lembra o sapato. A terceira legenda lembra o sangue.

Simone praguejou baixo. Mauro tomou o celular da mão de Lia antes que ela pudesse reagir. Dessa vez ela deixou. A frase tinha acertado uma lembrança que ninguém ali deveria conhecer.

Do coreto veio um chamado. Um guarda municipal levantou uma sacola plástica transparente. Dentro havia um sapato infantil amarelo, velho, duro de sujeira seca.

Não era prova de crime recente. Era passado embalado para parecer que acabara de acontecer.

Lia sentiu as pernas falharem e segurou o braço de Simone. Mauro voltou para perto dela.

"Você conhece esse sapato?"

Ela tentou responder como arquivista, com cautela, data provável, estado de conservação, possibilidade de semelhança. A boca entregou outra coisa.

"Minha mãe disse que eu perdi o par na praça."

"Quando?"

Lia olhou para o coreto azul, para o cartão no banco, para a borda direita da fotografia onde alguém tinha sido retirado do mundo.

"No dia em que uma noiva desapareceu."

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