A Mulher de Vestido Vermelho Assassino do Cartão Postal · Capítulo 4 de 12
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A Mulher de Vestido Vermelho

Eunice Amaral morava em um apartamento pequeno no bairro Santa Cecília, terceiro andar, janelas cheias de plantas resistentes e cortinas que ela lavava toda sexta-feira desde que Lia era criança. A regularidade da mãe sempre irritara Lia. Agora, diante da porta, com Mauro atrás e Simone no corredor, aquela regularidade parecia preparação para esconder coisas em lugares limpos.

Eunice abriu antes da segunda batida. Usava vestido azul, cabelo preso, chinelos de borracha. Olhou para Lia, depois para Mauro, e soube. A expressão dela não foi surpresa. Foi cansaço chegando cedo.

"Entraram na praça", disse.

Lia sentiu a frase bater. "Você sabia que ia acontecer?"

"Eu sabia que um dia alguém ia achar ruim eu ter ficado quieta."

Mauro mostrou a identificação. Eunice deixou todos entrarem sem pedir mandado, café ou explicação. A sala tinha fotos de família nas paredes, muitas de Lia pequena, nenhuma da excursão à Praça das Noivas. Lia reparou nisso pela primeira vez. Ausência também era curadoria.

Simone ficou perto da porta. Mauro ligou o gravador. Lia permaneceu de pé, bolsa no ombro, como se sentar no sofá da infância pudesse diminuir sua raiva.

"Mãe, quem era a mulher de vestido vermelho?"

Eunice foi até a estante, tirou um álbum velho da prateleira inferior e colocou sobre a mesa. Não abriu ainda. "Você lembrou dela."

"Lembrei de uma mala branca. De Beatriz amarrando meu sapato. De você me puxando."

"Eu puxei porque você estava olhando demais."

"Para quê?"

Eunice passou a mão sobre a capa do álbum. "Para uma briga que não era de criança."

Mauro falou com cuidado. "Dona Eunice, Beatriz Sampaio desapareceu naquele dia. Hoje há um homicídio e pelo menos três cartões ligados ao caso. Se a senhora viu alguma coisa..."

"Eu vi Beatriz entrar em um carro azul."

A frase saiu sem tremor. Lia odiou os anos que a mãe tivera para ensaiar.

"Com quem?", Mauro perguntou.

"Com Marisa Prado. A maquiadora. Vestido vermelho, mala branca, cigarro sem acender. Ela disse que Beatriz precisava retocar o rosto em outro lugar porque Antônio estava fazendo cena. Beatriz não queria ir. Depois foi."

"Por quê?"

Eunice abriu o álbum. Dentro, entre fotos de aniversário e escola, havia um envelope pardo. Tirou uma fotografia. Praça das Noivas, 1994. Beatriz aparecia perto da fonte, com Lia ao lado, e ao fundo Marisa Prado segurava a mala branca. Ao lado dela, meio cortado, estava Celso Viana com a câmera.

"Porque Marisa mostrou uma foto", Eunice disse. "Não vi qual. Beatriz viu e mudou. Ficou branca. Entrou no carro."

Lia pegou a foto com as mãos nuas e só depois lembrou de prova. Simone se aproximou, mas não a repreendeu. Fotografou em cima da mesa.

"Por que você não contou?", Lia perguntou.

Eunice olhou para ela. "Contei."

"Para quem?"

"Para um policial dois dias depois. Ele anotou, me pediu para não repetir até chamarem oficialmente. Ninguém chamou. Depois Antônio Bessa foi à escola com dois homens e disse que pais assustados tiravam emprego de professora. Eu tinha você, sua avó doente e contrato temporário. Fiquei com medo."

"E continuou com medo por trinta anos?"

"Continuei com filha viva."

A resposta abriu um espaço ruim entre as duas. Mauro não interferiu. Talvez por respeito, talvez porque sabia que algumas perguntas só ficam verdadeiras quando machucam dentro da família.

Lia colocou a foto na mesa. "O assassino sabe que eu estava lá. Sabe do sapato. Sabe que você viu."

Eunice assentiu. "Recebi um cartão ontem."

Mauro se mexeu. "A senhora recebeu e não comunicou?"

"Eu ia queimar. Depois guardei. Covardia também envelhece, investigador, aprende truques."

Ela foi até a cozinha e voltou com uma lata de biscoito. Dentro, embrulhado em guardanapo, havia um cartão-postal da Estação Ferroviária Central. O mesmo relógio, a mesma plataforma, a mala branca no canto. No verso, a frase:

Quem entrega a noiva não espera o trem.

Mauro pediu para Simone lacrar. Lia leu a frase sem tocar.

"O terceiro cartão não é para a morta", ela disse. "É para quem deixou a noiva entrar no carro."

Eunice fechou os olhos. "Marisa."

"Você sabe onde ela está?"

"Ninguém sabia. Ela sumiu da cidade depois do caso."

Mauro abriu o celular e pediu busca por Marisa Prado. Simone fotografava o postal quando a campainha tocou.

Todos ficaram imóveis.

A campainha tocou de novo. Duas vezes curtas. Eunice levou a mão ao peito. Mauro fez sinal para silêncio e foi até a porta, olhando pelo olho mágico. Seu rosto endureceu.

"Quem é?", Simone sussurrou.

"Entrega."

"Não pedi nada", Eunice disse.

Do lado de fora, uma voz masculina chamou: "Centro de Memória. Material urgente para Lia Amaral."

Mauro sacou a arma antes de abrir. O corredor estava vazio. No chão, encostado à porta, havia um envelope rígido de fotografia. Simone recolheu com luvas. Mauro verificou a escada. Nada.

Dentro do envelope havia uma ampliação recente da Estação Central. Não postal antigo: foto digital impressa, tirada naquela tarde. No banco da plataforma fechada, uma mulher idosa estava sentada com as mãos no colo, olhando para a câmera. Cabelo grisalho, rosto marcado, vestido vermelho escuro.

Eunice soltou uma palavra que parecia arrebentar por dentro.

"Marisa."

No verso da foto, a mesma letra preta:

Ela esperou trinta anos. Hoje, o trem chega às 18h10.

Lia olhou para o relógio da parede da mãe. Eram 17h22.

Mauro pegou o rádio. "Viatura para a Estação Central agora."

Lia já estava na porta.

"Você não vai", Eunice disse.

Lia virou para a mãe. "Foi isso que você disse para si mesma em 1994?"

Eunice levou o golpe em silêncio. Lia se arrependeu no mesmo segundo, só não tinha tempo para cuidar do arrependimento.

Mauro abriu caminho. "Desta vez você vem comigo. E fica atrás de mim."

"Você sempre pede coisas impossíveis?"

"Só quando estou tentando manter alguém vivo."

Desceram as escadas correndo. No segundo andar, Lia recebeu uma mensagem no celular.

Não leve sua mãe. Ela já teve a legenda dela.

Lia parou por meio segundo. Mauro viu.

"O quê?"

Ela guardou o telefone. "Ele está vendo o prédio."

No corredor do térreo, a porta de vidro da entrada refletiu a rua vazia. Por um instante, Lia enxergou atrás de si a menina de vestido amarelo, a mãe jovem puxando seu braço, a mulher de vermelho levando uma mala branca. Depois o reflexo virou apenas vidro.

A Estação Central ficava a vinte minutos dali, se o trânsito aceitasse a urgência. O relógio da foto marcava 18h10. Pela primeira vez, Lia não pensou em chegar antes do assassino.

Pensou em chegar antes da legenda.

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