A Foto Que Caiu Assassino do Cartão Postal · Capítulo 7 de 12
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A Foto Que Caiu

Celso Viana tremia menos depois de beber água, o que não o tornava mais confiável. Sentado na cadeira de clientes do próprio estúdio, com as mãos livres e marcas vermelhas nos pulsos, parecia um homem ofendido por ter sido colocado dentro de uma cena sem escolher lente, luz ou fundo.

Mauro ficou em pé diante dele. Simone fotografava o banheiro, os fios, o cartão preso ao peito. Lia permaneceu perto da mesa de luz, olhando a ampliação da Praça das Noivas com a parte direita finalmente devolvida. Bessa pai segurava a pasta contra o peito como quem guardava escritura, não segredo. Antônio, o noivo, olhava para ele. Beatriz olhava para Lia criança.

"Quem te amarrou?", Mauro perguntou.

"Não vi."

"Conveniente."

Celso ergueu o rosto inchado. "Eu estava revelando material. Apagaram a luz no corredor. Quando acordei, estava no banheiro."

"E o mapa? As gavetas? Os cartões separados por roteiro?"

"Não fui eu."

Mauro apontou para as paredes. "Tudo isso estava no seu estúdio."

"Eu guardo imagem. Outras pessoas fazem coisas com elas."

Lia virou. "Você também fez. Em 1994."

Celso olhou para ela por mais tempo. "Você era a menina do sapato."

"E você era o fotógrafo que preferiu a foto à mulher viva."

A frase acertou. Não derrubou. Celso já devia ter ouvido variações piores dentro da própria cabeça, se ainda tinha alguma decência em funcionamento.

"Beatriz pegou meu negativo", ele disse. "O rolo da obra da Bessa. Eu não sabia o que tinha até ampliar. Uma vala aberta, dois homens, uma mão. Fotografei porque Bessa pai pagava para registrar andamento de obra. Ele gostava de antes e depois. Terreno vazio, fundação, prédio subindo. Só que naquela manhã o antes tinha gente."

Mauro anotou. "Você entregou o rolo para Bessa?"

"Entreguei cópia. Guardei negativo. Marisa viu, mostrou para Beatriz, Beatriz roubou o rolo errado achando que era o único."

"Rolo errado?", Lia perguntou.

"Ela levou uma tira de prova, não o negativo principal. Saiu correndo da praça com aquilo escondido. Na estação, eu tentei pegar de volta. Juro que só isso."

"E deixou ela entrar no segundo carro."

"Eu era fotógrafo de casamento, não herói."

Mauro chegou mais perto. "Cuidado com a autopiedade, Celso. Ela envelhece mal."

Celso riu uma vez, seco, e parou por dor. "Antônio Bessa levou Beatriz. O pai dele estava no outro carro. Marisa fugiu. Eunice puxou você. Eu fiquei com a mala e com medo. Depois venderam a história de noiva em crise. Eu aceitei porque tinha quarenta negativos de gente poderosa fazendo coisa pior que posar."

"Onde está o negativo principal?", Lia perguntou.

Ele olhou para a mesa de luz. "Não comigo."

"Com quem?"

"Com alguém que começou a mandar cartões."

Mauro perdeu a paciência. "Nome."

"Eu não sei. Recebi o primeiro há um mês. Mirante das Paineiras. No verso, mandava separar tudo que tivesse Beatriz. Achei que era chantagem comum. Depois veio o cartão da praça, pedindo a pasta. Depois a estação. Hoje acordei amarrado."

Lia abriu a gaveta do Viaduto. Havia cartões antigos, fotos de obra, duas imagens de políticos na inauguração de iluminação pública e um envelope vazio. No fundo, um pedaço de papel de embrulho com marca de cola recente.

"Falta coisa aqui."

Celso fechou os olhos. "O Viaduto."

"O que tinha no envelope?"

"Uma ampliação de 1994. Beatriz na estação. Antônio puxando o braço dela. Bessa pai abrindo a porta do carro. E você ao fundo."

"Eu?"

"Você apareceu na estação depois. Chorando, segurando um sapato. Eunice te procurava. Ninguém lembra porque preferiram esquecer."

Lia sentiu o estúdio sair um pouco do lugar. A memória não veio como filme. Veio como um cheiro de ferro quente, trilho, óleo, chuva antiga. Ela tinha corrido? Saído da praça atrás de Beatriz? Perdido a mãe? O sapato amarelo na mão, não no pé. A plataforma. A mala branca batendo contra a perna de Marisa. Um pedaço de fotografia caindo perto do banco.

"Eu peguei", ela disse.

Mauro virou. "Pegou o quê?"

"A foto. Ou parte dela. Beatriz deixou cair alguma coisa. Eu peguei."

"Onde está?"

A pergunta entrou em um lugar cheio de móveis antigos. Lia viu o apartamento da infância, a caixa de brinquedos, uma lata de lápis de cor, a mãe jogando coisas fora depois da mudança. Viu também um livro de histórias com capa arrancada, onde guardava papéis pequenos porque achava que livros protegiam melhor que gavetas.

"Talvez no meu apartamento", disse. "Se minha mãe não jogou fora."

O telefone fixo do estúdio tocou.

Todos olharam para o aparelho antigo sobre a mesa de recepção. Mauro fez sinal para Simone rastrear com o celular, gesto quase inútil. Atendeu no viva-voz.

A voz masculina veio baixa, distorcida por algum filtro simples.

"Celso sempre fala demais quando perde o enquadramento."

Mauro apontou para Simone gravar. Lia sentiu o corpo inteiro ficar atento.

"Quem é?", Mauro perguntou.

"A legenda sabe."

Lia deu um passo. "Você quer a foto."

"Quero que a cidade veja o que ela cortou."

"Matando pessoas que também foram cortadas?"

"Pessoas? O homem do mirante carregava dinheiro da Bessa em 1994. Marisa entregou a noiva. Celso guardou prova e vendeu silêncio. Seu próximo cartão é para quem transformou morte em paisagem."

"Bessa pai morreu", Mauro disse.

A voz riu baixo. "Fotografia ensina uma coisa, investigador. Morto também aparece quando a luz bate no lugar certo."

A ligação caiu.

No mesmo instante, o celular de Lia recebeu uma imagem. O Viaduto do Chá, noite, carros borrados, prédios acesos. No centro, em cima da grade, uma faixa branca amarrada. O texto vinha no verso digitalizado:

Traga a foto que caiu. Às 21h, a quarta legenda cai de cima.

Lia olhou o horário. 19h12.

Mauro pegou o celular dela. "Seu apartamento. Agora."

"E Celso?"

"Vai para delegacia. Se for vítima, preserva. Se for cúmplice, segura."

Celso soltou uma risada amarga. "Cúmplice é só vítima que assinou recibo."

Mauro se inclinou. "Guarda essa para o advogado."

Lia saiu do estúdio antes dos outros. Na escada, as fotografias de casamento na parede pareciam acompanhar a descida. Casais sorrindo diante de fontes, igrejas, praças, viadutos. Gente posando para guardar um dia inteiro em uma imagem só. Lia pensou em Beatriz, que tentou fugir da própria imagem de noiva e virou ausência repetida por trinta anos.

No carro, Mauro ligou a sirene. Lia fechou os olhos e procurou o livro da infância na memória.

Capa azul rasgada. Uma princesa sem rosto porque ela desenhara por cima. Dentro, talvez, uma foto dobrada.

E, pela primeira vez, Lia teve medo de lembrar certo.

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