A Mala Branca
O manequim ficou atravessado nos trilhos como uma noiva quebrada depois da festa. O impacto tinha rachado o rosto de plástico e dobrado um dos braços em direção ao crachá preso no pescoço. Celso Viana, fotografia social e restauro, validade 1994. A foto do crachá mostrava um homem de bigode fino, cabelo cheio e olhos que pareciam já saber onde a câmera estava.
Mauro isolou a plataforma inteira. Marisa Prado foi retirada do banco por Simone e uma policial, tremendo sem resistir. Lia ficou atrás da faixa amarela porque, dessa vez, a ordem fazia sentido. O alto-falante chiava de vez em quando, como se a estação tentasse lembrar outras frases guardadas nos fios.
"Ele colocou o crachá para a gente achar", Lia disse.
Mauro olhou para o manequim. "Ou para culpar Celso."
"Ou para avisar que Celso não é mais útil."
"Você fala isso como se conhecesse o método."
"Método é uma palavra bonita para repetição. Ele repete enquadramento, horário, frase curta, objeto antigo, pessoa que viu e calou. O crachá é objeto antigo. Celso é pessoa que viu."
Mauro não respondeu. Chamou a equipe do depósito de bagagens. A mala branca continuava sobre uma mesa metálica improvisada, cercada por cones, luz portátil e Simone com luvas novas. O telefone dentro dela havia parado de tocar. Ninguém gostava de silêncio de coisa fechada.
"Posso?", Lia perguntou.
"Não toca", Mauro disse.
"Eu sei trabalhar perto de objeto sem virar turista."
Simone abriu a mala com ferramenta fina. Não havia explosivo. Havia papel, roupa velha, um véu dobrado, uma carteira sem documentos e um gravador portátil com fita cassete. A etiqueta da fita dizia apenas: Plataforma dois.
Marisa soltou um som baixo quando viu o véu. "Era dela."
"De Beatriz?", Simone perguntou.
Marisa assentiu. "Ela tirou antes de entrar no carro. Disse que não queria fugir vestida de promessa."
Lia anotou a frase no próprio caderno. Não por lirismo. Porque gente em fuga escolhe palavras que grudam nos detalhes certos.
Mauro pegou o gravador com luvas. "Tem como ouvir aqui?"
Simone verificou a fita. "Melhor no laboratório."
O alto-falante da estação estalou de novo. Desta vez, não veio voz. Veio música antiga, abafada, marcha nupcial deformada por equipamento ruim. Marisa cobriu os ouvidos. Lia olhou para a cabine de controle no alto da plataforma. Um dos policiais surgiu na janela e fez sinal negativo: vazia.
"Então está remoto", Mauro disse.
"Ou programado", Lia respondeu.
O celular de Mauro tocou. Ele atendeu, ouviu pouco e fechou a cara. "Celso Viana não está em casa. O estúdio dele está aberto. Luz acesa, porta destrancada, ninguém dentro."
"Onde?"
"Rua Aurora."
Lia conhecia. Uma travessa estreita, cheia de lojas antigas de fotografia, moldura, assistência técnica e bares que sobreviviam mudando de dono sem mudar a sujeira do balcão. Celso mantinha um estúdio no segundo andar de um prédio velho, com vitrine de retratos restaurados e câmeras de fole expostas como relíquias.
Marisa agarrou o braço de Lia antes que ela se afastasse. "Não vai lá."
"Por quê?"
"Celso guardava cópia de tudo. Não só foto. Conversa, carta, recibo. Ele dizia que ninguém roubava a verdade dele de novo."
"De novo?"
Marisa olhou para a mala. "Beatriz levou um rolo de filme quando fugiu da praça. Disse que era garantia. Celso ficou desesperado. Não por ela. Pelo filme."
"Que filme?"
"Obra da Bessa Construções. Terreno onde achavam que tinha só entulho. Beatriz viu foto de uma mão saindo da terra. Foi isso que Marisa mostrou para ela? Não. Eu mostrei."
Lia ficou imóvel. "Você mostrou a foto?"
Marisa engoliu. "Eu trabalhava maquiando noivas e revelando filme para Celso quando precisava de dinheiro. Vi a imagem no laboratório. Beatriz era noiva de Bessa. Achei que ela devia saber. Depois ela quis denunciar. Depois todo mundo começou a morrer por partes."
Mauro se aproximou. "Por que não disse isso antes?"
"Porque antes eu ainda fingia que minha culpa era pequena."
A frase não salvava ninguém. Pelo menos servia para medir o estrago.
Foram para o estúdio de Celso com a fita cassete lacrada, o cartão do Viaduto e o crachá do manequim. Lia queria ligar para Eunice, mas Mauro pediu que uma viatura ficasse com ela. Pediu, no caso, com aquela voz de ordem vestida de cuidado. Lia aceitou porque o assassino já tinha citado sua mãe uma vez e porque orgulho não trancava porta.
O estúdio ficava acima de uma ótica fechada. A escada estreita tinha paredes cobertas por fotografias de casamentos antigos, retratos de primeira comunhão, políticos cortando fita, casais diante de fontes que talvez nem existissem mais. Na porta, a placa dourada dizia Celso Viana - Restauração Fotográfica e Memória Visual. Memória visual, Lia pensou, era nome perfeito para chantagem educada.
A porta estava destrancada. Mauro entrou primeiro. O ar lá dentro era quente, químico, misturado a papel fotográfico, poeira e café velho. Havia ampliadores antigos, computadores novos, caixas de negativos, gavetas numeradas, molduras encostadas na parede e um varal de provas pendurado no fundo.
No centro da sala, sobre uma mesa de luz, havia uma fotografia ampliada da Praça das Noivas.
A mesma cena de 1994. Beatriz amarrando o sapato de Lia. Marisa ao fundo com a mala. Celso com a câmera. Antônio Bessa fora de foco. Só que, nesta ampliação, a borda direita aparecia inteira. A parte cortada do postal mostrava outro homem, de terno claro, segurando uma pasta contra o peito.
Mauro chegou perto. "Quem é?"
Lia leu a anotação a lápis na margem da prova.
Bessa pai.
O homem que financiara a construtora. O homem que, oficialmente, morrera em 2008.
Simone fotografou a mesa. Lia olhou ao redor e viu que todas as gavetas estavam fechadas, menos uma. A etiqueta dizia Paineiras / Praça / Estação / Viaduto. Dentro, cartões-postais separados por local e envelopes pequenos com datas recentes. Não era acervo. Era roteiro.
"Mauro", ela chamou.
Na parede atrás da cortina preta do estúdio, havia mapas da cidade marcados com alfinetes vermelhos. Mirante das Paineiras. Praça das Noivas. Estação Central. Viaduto do Chá. E mais três lugares: Cine República, Largo do Arouche, Galeria Sete de Abril.
"Ele planejou mais", Mauro disse.
Lia tocou o ar perto do mapa sem encostar. "Ou alguém planejou usando a sala dele."
Um ruído veio do banheiro do estúdio.
Mauro levantou a arma. Simone recuou. Lia ficou perto da mesa de luz. O investigador abriu a porta com o pé.
Celso Viana estava sentado no chão, encostado na pia, mãos amarradas com fio de ampliador. Vivo. O rosto inchado, a boca coberta por fita. No peito, preso com alfinete, havia um cartão-postal do Viaduto do Chá.
Mauro arrancou a fita da boca dele.
Celso respirou como quem volta debaixo d'água. Depois olhou para Lia, não para Mauro.
"Ele quer a foto que Beatriz levou", disse. "E acha que você lembra onde ela caiu."