O Livro Sem Rosto
O apartamento de Lia ficava no décimo andar de um prédio sem charme, com garagem apertada e vizinhos que sabiam demais sobre barulho de salto, pouco sobre desaparecimento antigo. Mauro subiu com ela e Simone. Dois policiais ficaram na portaria. Outro foi para a escada de incêndio. Lia achou exagero até lembrar que o assassino tinha mandado um envelope até a porta da mãe dela sem aparecer na câmera do corredor.
A chave tremeu pouco na fechadura. Ela odiou perceber. Dentro, o apartamento estava do jeito em que saíra de manhã: xícara na pia, manta no sofá, uma pilha de contas sobre a mesa e três caixas de material antigo ao lado da estante. Nada parecia violado. Isso não tranquilizou. Pessoas que entendem imagem sabem mudar pouco.
"Onde ficavam suas coisas de infância?", Mauro perguntou.
"Mudaram muito. Algumas aqui, algumas na casa da minha mãe, algumas perdidas em caixas que eu finjo que vou organizar."
"O livro?"
Lia olhou para a estante. A lembrança da capa azul rasgada tinha vindo forte no carro. Uma princesa sem rosto porque ela desenhara por cima. Não era livro bom, nem raro, nem querido por história. Era esconderijo de criança. Criança escolhe esconderijo por sensação, não por segurança.
Ela se ajoelhou diante da parte baixa da estante, onde guardava livros que não relia e não doava. Simone calçou luvas e começou a fotografar tudo antes que Lia tocasse. Mauro ficou perto da janela, olhando a rua, telefone no ouvido. Faltavam cinquenta e dois minutos para as 21h.
Lia encontrou primeiro um álbum de escola, depois cadernos de caligrafia, depois uma caixa de lápis de cor secos. O livro azul estava atrás de uma edição velha de fábulas, fino, torto, com a lombada quase solta. Na capa, uma princesa tinha o rosto coberto por riscos de caneta hidrocor marrom.
"Esse", Lia disse.
Simone fotografou. Lia abriu devagar. Havia figurinhas antigas, um ingresso de circo, uma flor prensada que virou pó ao toque da página, e entre duas ilustrações de floresta, uma fotografia dobrada em quatro.
Ela não pegou. Chamou Simone com um movimento curto.
A perita abriu a foto com pinça. O papel estava marcado pelo tempo e pelas dobras, mas a imagem continuava legível. Plataforma da Estação Central, 1994. Beatriz Sampaio sendo puxada pelo braço por Antônio Bessa. Bessa pai ao lado do carro azul, pasta contra o peito. Celso Viana no fundo. Marisa com a mala branca. E, perto do banco, Lia criança segurando um sapato amarelo e olhando para uma coisa fora da foto.
No canto inferior direito, meio cortado, havia um homem jovem com uniforme de ferroviário. Ele segurava um cartão-postal em branco.
Mauro se aproximou. "Quem é?"
Lia sentiu a resposta antes de saber. "Não sei."
Simone ampliou com o celular. O homem tinha rosto estreito, cabelo escuro, uma cicatriz pequena perto da boca. Não aparecera em nenhuma lista que tinham visto. Não era Bessa, Celso, Antônio, Marisa. Era alguém de serviço, alguém que a investigação de 1994 talvez não tenha considerado porque carregava vassoura, apito, bilhete, uniforme. Gente invisível por função.
"Ele está olhando para mim", Lia disse.
Na foto, o homem de uniforme olhava para a menina, não para Beatriz. Tinha um cartão na mão como quem oferecia ou recolhia.
Mauro fotografou a imagem e mandou para a equipe. "Ferroviário, 1994, Estação Central. Vamos levantar funcionários."
O celular de Lia vibrou em cima do sofá.
Mauro levantou a mão para ninguém tocar. Simone começou a gravar. A mensagem entrou sem número.
Você guardou errado. Crianças sempre guardam errado.
Lia olhou para a foto. "Ele sabe que achei."
Outra mensagem chegou.
Viaduto do Chá. Vinte e uma horas. Traga a parte que falta.
"Parte que falta?", Simone perguntou.
Lia virou a foto. No verso, em letra infantil, havia uma frase que ela mesma escrevera torta, anos antes: moço do trem pegou a outra.
A outra.
"Tinha mais uma foto", Lia disse.
"Onde?"
Ela fechou os olhos. A lembrança vinha em pedaços: duas fotos caindo; uma maior, dobrada; outra pequena, como contato de negativo; a mão do homem de uniforme abaixando para pegar; ele sorrindo para ela e dizendo que ia guardar para a noiva. Lia segurando a foto errada. O sapato na outra mão. A mãe chamando.
"O ferroviário pegou."
Mauro olhou para o relógio. "Temos quarenta e oito minutos."
"Ele quer a foto que o ferroviário pegou."
"Ou quer que acreditemos nisso."
Lia levantou. "Ele é o ferroviário."
"Em 1994 ele seria jovem. Hoje teria..."
"Cinquenta e poucos. Idade suficiente para matar quem envelheceu guardando segredo."
Mauro recebeu uma chamada. Atendeu, ouviu com o rosto mudando aos poucos. "Encontraram ficha de funcionário da estação. Evandro Lacerda, auxiliar de plataforma, demitido em 1995. Irmão mais novo de Helena Gouveia, a jornalista que Marisa citou."
A sala ficou sem ar por um segundo.
"A jornalista morreu no acidente", Simone disse.
Mauro assentiu. "Evandro alegou sabotagem na época. Foi internado duas vezes depois. Sumiu dos registros em 2002."
Lia olhou para a foto. O homem de uniforme segurava o cartão-postal como se já soubesse o que faria com imagens quando ninguém escutasse sua voz.
"Ele não está vingando Beatriz", ela disse. "Está vingando a irmã."
"Matando cúmplices."
"E me usando para legendar."
Mauro guardou a foto em envelope provisório. "A gente vai ao viaduto com equipe. Você não negocia sozinha."
"Ele não quer negociar. Quer encenar."
"Então a gente estraga a cena."
Lia olhou para o livro azul aberto no chão. A princesa sem rosto parecia observá-la através dos riscos. Por trinta anos, a prova tinha ficado ali, entre história infantil e poeira doméstica, enquanto adultos transformavam uma mulher desaparecida em boato e um homem comum em assassino paciente.
Na saída, Lia parou diante do espelho do corredor. Por um instante, viu a menina de vestido amarelo atrás dela, segurando um sapato e uma foto dobrada. Não havia nada ali. Só seu próprio rosto adulto, pálido, cansado, cercado por policiais.
O celular vibrou mais uma vez.
Não venha de polícia. Polícia sempre chegou depois da foto.
Mauro leu por cima do ombro. "Ele vai se decepcionar."
"Não", Lia disse. "Ele vai adaptar o enquadramento."
Às 20h37, saíram para o Viaduto do Chá com a foto no envelope, o livro azul em uma sacola de prova e a certeza desconfortável de que Evandro Lacerda conhecia todos os ângulos por onde eles tentariam chegar.