O Sapato Amarelo Assassino do Cartão Postal · Capítulo 3 de 12
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O Sapato Amarelo

Lia não voltou para casa acompanhada. Voltou para o Centro de Memória com Mauro, Simone, dois sacos de prova e a sensação de que a cidade inteira tinha aprendido a olhar para ela de lado. O sapato infantil seguiu no carro da perícia. O cartão da Praça das Noivas foi lacrado em envelope próprio. A foto da menina de vestido amarelo ficou no celular de Lia, ampliada até perder definição, recusando-se a virar lembrança comum.

No caminho, Mauro perguntou três vezes o nome da noiva desaparecida. Lia respondeu as três vezes que não lembrava. Na quarta, ele parou de perguntar. Isso não a aliviou. O silêncio de investigador também fazia relatório.

O subsolo do Centro parecia mais frio quando chegaram. Jonas estava sentado diante do computador, cercado de jornais digitalizados, com cara de quem tinha envelhecido uma semana em duas horas.

"Achei", ele disse antes que Lia tirasse a bolsa. "A noiva. Ou acho que achei."

Mauro fechou a porta atrás deles. "Nome."

Jonas olhou para Lia, pedindo permissão sem saber. Ela assentiu.

"Beatriz Sampaio. Vinte e seis anos. Desapareceu em 14 de agosto de 1994, durante sessão de fotos na Praça das Noivas. Ia casar no mês seguinte com Antônio Bessa, filho de dono de construtora. O jornal tratou como fuga, depois como crise emocional, depois parou de tratar."

Lia encostou na mesa. O nome não acendeu lembrança completa. Acendeu partes: saia vermelha, sapato apertado, a mãe puxando sua mão, um homem dizendo que criança não devia ficar perto da fonte.

Simone puxou uma cadeira. "Tem foto dela?"

Jonas virou o monitor. O recorte mostrava uma mulher de cabelo escuro, sorriso de estúdio, vestido branco de prova, segurando um buquê ainda sem flores. Ao lado, uma foto menor da praça no dia do desaparecimento. Lia se inclinou. A imagem era ruim, de jornal escaneado, mas reconhecia o banco, a fonte, o coreto. No canto direito, quase invisível, havia a ponta de um vestido infantil amarelo.

"Eu estava lá", Lia disse.

Mauro anotou. "Com quem?"

"Minha mãe. Talvez minha tia. Não sei."

"Sua mãe está viva?"

"Está. E mente mal quando acha que está protegendo alguém."

Ele ergueu os olhos. "Vamos falar com ela."

"Depois. Primeiro eu quero o arquivo completo."

"Isso virou investigação policial."

"E continua sendo acervo municipal. Se você quer que eu lembre, pare de arrancar as coisas da ordem."

Mauro segurou a resposta. Simone aproveitou a pausa. "Jonas, tem mais material?"

"Tem uma pasta física no depósito B. Reportagens, requerimentos da família, fotos devolvidas pela gráfica. Nunca foi digitalizada porque entrou como caso policial encerrado sem desfecho."

"Quem pediu a pasta recentemente?", Lia perguntou.

Jonas abriu o sistema interno. A tela mostrou requisições de consulta. A última movimentação tinha sido feita três dias antes, usuário externo, autorização da Secretaria de Cultura. Nome: Celso Viana.

Lia leu o nome e sentiu uma irritação seca. "Celso não é externo."

"Quem é?", Mauro perguntou.

"Fotógrafo. Faz restauro de imagem para exposições da prefeitura. Vive pegando acervo para 'estudo de luz' e devolvendo envelope fora de ordem."

"Idade?"

"Uns sessenta. Vaidoso de parecer cinquenta."

"Ligação com a praça?"

"Todo fotógrafo antigo tem ligação com a Praça das Noivas. Era onde metade da cidade posava para provar que era feliz."

Foram ao depósito B. A sala ficava atrás de uma porta pesada, no corredor onde a umidade vencia qualquer plano de conservação. Lia abriu as estantes deslizantes com a chave que carregava no pescoço. A pasta Beatriz Sampaio estava no lugar, mas a etiqueta tinha sido recolada torta. Ela odiou antes de abrir.

Dentro, a primeira coisa faltando era a primeira coisa que deveria estar ali: o inventário de conteúdo.

"Alguém mexeu", disse.

Mauro se aproximou. "O que sumiu?"

"Ainda não sei."

Ela espalhou os documentos sobre a mesa do depósito, chamando Jonas para fotografar cada etapa. Havia boletim de ocorrência, recortes de jornal, duas cartas da mãe de Beatriz pedindo reabertura, fotos de bastidor da sessão, recibo da gráfica e uma lista de pessoas presentes. Lia leu os nomes em voz alta.

Beatriz Sampaio. Antônio Bessa. Celso Viana, fotógrafo. Marisa Prado, maquiadora. Eunice Amaral, acompanhante de criança em excursão.

Lia parou.

Mauro percebeu. "Amaral."

"Minha mãe."

O depósito ficou quieto de um jeito que parecia poeira assentando. Jonas olhou para Lia com pena, e ela quis mandá-lo parar de ter rosto.

"Sua mãe estava lá como acompanhante?", Mauro perguntou.

"Ela era professora auxiliar na época. Levava crianças para passeio cultural. Eu devia estar na turma."

"Por que nunca contou?"

"Porque eu tinha oito anos e a versão familiar era que a excursão foi interrompida por confusão de casamento. Não por desaparecimento."

Simone apontou para uma foto. "Essa é você?"

Na imagem, Lia criança estava sentada na borda da fonte com o vestido amarelo manchado. Ao lado dela, Beatriz Sampaio agachava para amarrar seu sapato. A noiva não usava véu. Parecia cansada. Atrás, Celso Viana segurava a câmera. No fundo, Antônio Bessa olhava para fora do quadro, irritado.

Lia pegou a foto com luvas, mas a lembrança veio sem proteção. Beatriz dizendo não pisa na água, pequena. A mão dela no laço do sapato. Um cheiro de laquê e caldo de cana. Depois a voz da mãe: Lia, vem agora.

"Ela me ajudou", Lia disse.

Mauro baixou o tom. "Você viu Beatriz depois disso?"

"Não sei."

"Tenta."

"Não é interruptor."

O celular dela vibrou em cima da mesa. Ninguém tocou. Mauro fez sinal para Simone filmar. A mensagem abriu sozinha na tela já desbloqueada.

O terceiro cartão não é para a morta. É para quem deixou a noiva entrar no carro.

Abaixo, veio a imagem de outro postal: Estação Ferroviária Central, plataforma antiga, relógio grande marcando cinco e dez. No canto inferior da foto, uma mala branca aparecia ao lado de um banco.

Jonas sussurrou: "A estação está fechada para reforma."

Mauro olhou para a lista de presentes. "Quem deixou a noiva entrar no carro?"

Lia já lia as últimas linhas do depoimento de 1994. Uma testemunha infantil relatou ter visto Beatriz sair da praça em veículo azul, acompanhada por mulher de vestido vermelho. O relato foi descartado por inconsistência de idade.

Mulher de vestido vermelho.

Lia sentiu a lembrança bater mais clara: a mulher ajoelhada perto dela não era Beatriz. Beatriz amarrava o sapato. A mulher de vermelho estava atrás, segurando uma mala branca.

"Minha mãe não contou sobre o carro", Lia disse.

Mauro pegou o celular. "Vamos à estação."

"Não", Lia respondeu.

Ele virou para ela.

"Antes, vamos falar com Eunice Amaral."

"Sua mãe pode estar em risco."

"Minha mãe pode ser a próxima legenda. E talvez saiba por quê."

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