O Trem das 18h10 Assassino do Cartão Postal · Capítulo 5 de 12
Obra Menu

O Trem das 18h10

A Estação Central estava fechada para reforma havia oito meses, tempo suficiente para a cidade esquecer que um dia atravessara seus corredores com pressa. O prédio antigo ficava entre tapumes azuis, placas de obra e um portão lateral preso por corrente nova. Às 17h48, a fachada parecia abandonada apenas de longe. De perto, Lia viu marcas recentes de pneu, uma bituca ainda inteira perto da guia e poeira arrastada sob o portão.

Mauro estacionou antes da esquina. "Ninguém entra até a equipe cercar."

Lia já estava soltando o cinto. "A foto foi tirada lá dentro hoje."

"E talvez justamente para fazer você correr."

"Você repetiu essa ideia no mirante e na praça. Mesmo assim os cartões continuaram chegando."

Simone abriu a maleta de perícia no banco de trás. "Eu vou com ela."

Mauro virou para a perita. "Você também decidiu me desobedecer?"

"Não. Decidi estar perto quando ela fizer."

Lia não sorriu. A urgência estava dura demais no rosto de todo mundo. O relógio digital do painel marcava 17h51. Nove minutos até o horário escrito no verso da foto. Nove minutos, talvez, até Marisa Prado virar mais uma legenda.

Entraram pelo portão lateral depois que Mauro cortou a corrente com um alicate do carro da perícia. A estação cheirava a madeira úmida, tinta removida e urina antiga. O saguão principal estava coberto por andaimes, lonas e cartazes desbotados que anunciavam a restauração do patrimônio ferroviário. Lia viu o balcão de bilhetes fechado, a escadaria para as plataformas e, acima, o relógio grande parado às 05h10.

"Cinco e dez", Simone disse.

"No postal era cinco e dez", Lia respondeu. "Na legenda, dezoito e dez."

"Hora espelhada?"

"Ou alguém gosta de número fácil."

Mauro fez sinal para dois policiais seguirem pela lateral. Lia subiu a escada central. Cada degrau levantava poeira. A plataforma antiga ficava sob cobertura de ferro, aberta para trilhos desativados. No banco da foto, perto da coluna do relógio, Marisa Prado estava sentada.

Ao vivo, parecia menor. Cabelo grisalho preso, vestido vermelho escuro, mãos no colo. Não estava amarrada. Não gritava. Olhava para a linha vazia como se esperasse um trem verdadeiro.

Mauro ergueu a arma. "Marisa Prado? Polícia. Afaste as mãos devagar."

A mulher não se assustou. "Ele disse que você viria com a menina."

Lia ficou alguns passos atrás. "Que menino?"

Marisa virou o rosto. Os olhos eram claros, vermelhos nas bordas. "A menina da fonte. Você cresceu."

"O que aconteceu com Beatriz?"

Mauro fez um gesto curto para Lia parar. Ela não parou.

Marisa apertou as mãos. "Beatriz não desapareceu da praça. Ela fugiu da praça. A diferença parecia importante na hora."

"Com você."

"Comigo."

"Por quê?"

Marisa olhou para o relógio parado. "Antônio Bessa não ia deixar ela cancelar o casamento. O pai dele tinha pago fotógrafo, vestido, apartamento, notícia social, metade da família. Beatriz descobriu uma coisa sobre a construtora. Gente enterrada em terreno de obra, documento falso, propina. Queria denunciar antes do casamento. Eu devia levar ela até a estação, entregar para uma jornalista."

"E entregou?"

A pergunta saiu mais fria do que Lia esperava. Marisa recebeu sem defesa.

"Não."

Simone se aproximou pelo lado, fotografando o banco, o chão, as mãos da mulher. Mauro mantinha a arma baixa, mas pronta.

"Quem era a jornalista?", ele perguntou.

"Helena Gouveia. Trabalhava no Diário Popular. Morreu dois meses depois em acidente de carro."

"E Beatriz?"

Marisa olhou para Lia. "Entrou no carro azul comigo. Na estação, outro carro esperava. Celso estava lá. Disse que a rota tinha mudado. Disse que a jornalista mandara recado. Eu acreditei porque queria que acabasse. Beatriz entrou no segundo carro. Nunca mais vi."

Lia pensou em Celso Viana, fotógrafo de restauração, movimentando a pasta três dias antes, devolvendo etiqueta torta. "Celso tirou as fotos."

"Celso tirava tudo. Casamento, batizado, inauguração, placa de obra, gente recebendo dinheiro, gente entrando em carro. Ele dizia que cidade só existia depois que alguém enquadrava."

O celular de Mauro apitou. Ele atendeu pelo rádio, ouviu e xingou baixo. "Equipe encontrou uma mala branca no depósito de bagagens."

Marisa fechou os olhos. "Ele guardou."

"O quê?", Lia perguntou.

"A mala de Beatriz. Eu entreguei para Celso quando ela mudou de carro. Achei que era para proteger documento."

"Você não procurou depois?"

"Procurei. Uma semana. Depois Antônio Bessa apareceu no salão onde eu trabalhava. Levou uma foto da minha filha saindo da escola. Disse que algumas mulheres só desapareciam porque outras faziam pergunta demais. Eu fui embora da cidade no dia seguinte."

Mauro abaixou a arma. "Por que voltou?"

Marisa tirou do bolso um cartão-postal. Simone avançou, mas a mulher apenas colocou sobre o banco. Frente: Estação Central, plataforma antiga. Verso: letra preta.

Se não voltar, a menina paga a passagem.

Lia sentiu a frase subir pelas costas. "Eu?"

"Acho que sim. Acho que não." Marisa olhou para o relógio. "Ele fala por imagem. A gente entende errado até estar tarde."

17h59.

Do depósito de bagagens veio um chamado. Um policial apareceu na entrada da plataforma, segurando a mala branca por uma alça, sem abrir. Simone gritou para ele parar de mexer. O policial obedeceu assustado.

Mauro falou no rádio. "Ninguém abre. Isola."

Tarde demais. A mala começou a tocar.

Não alto. Um toque antigo de telefone, abafado por couro e tempo. Todos ficaram imóveis. O som vinha de dentro da mala como se alguém ligasse de 1994.

Marisa começou a chorar. "Ele disse que o trem chegava às dezoito e dez."

Lia olhou para o relógio parado às 05h10, depois para o celular de Mauro marcando 18h00. "Não é explosivo."

Mauro encarou. "Você não sabe."

"Ele quer legenda. Quer que a gente abra na hora certa, do jeito certo, com a pessoa certa olhando."

"E isso te tranquiliza?"

"Não. Só muda o tipo de medo."

O toque parou. Na plataforma, o silêncio ficou grosso. Do alto-falante antigo da estação, morto havia anos, saiu um chiado. Simone levantou a cabeça.

Uma voz masculina entrou pelo sistema de som, rouca, próxima demais.

"Atenção para o embarque. Passageira Beatriz Sampaio, plataforma dois."

Mauro girou, procurando a cabine de controle. Os policiais correram. Lia ficou olhando para Marisa. A mulher no vestido vermelho balançava a cabeça, repetindo não, não, não.

A voz continuou:

"A testemunha Lia Amaral deve permanecer atrás da faixa amarela. Crianças que atravessam a linha viram paisagem."

Lia olhou para o chão. A faixa amarela da plataforma estava descascada, mas ainda visível. Atrás dela, onde Lia estava parada, havia um cartão-postal novo preso entre duas tábuas do piso.

Simone viu primeiro e se abaixou com a câmera. Mauro gritou para Lia sair dali.

Na frente do cartão, uma imagem do Viaduto do Chá nos anos 1980. No verso, a frase:

A quarta legenda cai de cima.

Então, no telhado da plataforma, alguma coisa rangeu.

Um manequim vestido de noiva caiu do alto e bateu nos trilhos com som de corpo.

Por três segundos, ninguém se mexeu.

Depois Lia viu o detalhe que importava: preso ao pescoço do manequim havia um crachá antigo de fotógrafo.

Celso Viana.

1/1
Menu

Fazer anotação